As discussões realizadas neste trabalho tiveram como objetivo principal encontrar relações entre a moradia precária e as áreas de atividade profissional dos indivíduos. Todo processo de pesquisa envolve o desconhecido e nem sempre os métodos de análise e apreensão da realidade conseguem estabelecer uma relação causal do que se propõe estudar. No caso desta dissertação, o esforço das pesquisas, dos referenciais teóricos e dos modelos de análise não foi suficiente para levar a uma conclusão segura de que a moradia precária determina as áreas de atuação profissional das pessoas. Embora a hipótese inicial tenha sido refutada, vários fatores ligados às condições de vida dessa população permitiram ampliar a discussão sobre o assunto e encontrar outros caminhos para reflexão sobre essa realidade.
A riqueza de informações projetadas pelas duas pesquisas apresentadas no trabalho permitiu, por outro lado, encontrar várias repercussões da moradia coletiva na vida das pessoas. Os fatores relacionais mostraram-se como os mais determinantes nas observações realizadas. Um perfil bastante detalhado sobre as áreas de atividade econômica e fatores que favorecem a reprodução da pobreza, ou outras questões que determinam a fixação das pessoas na região, foram objetivos alcançados ao longo desta jornada.
Outro aspecto relevante observado nas pesquisas foi a importância dos fatores trabalho e renda para essa população. O vínculo empregatício formal, a renda maior, a satisfação com a vida profissional, por exemplo, mostraram-se variáveis determinantes na visão das pessoas sobre sua realidade local.
É importante ressaltar a relação das pessoas com a sua moradia. Um aspecto que não ficou tão claro na pesquisa quantitativa aparece nas entrevistas qualitativas como uma queixa generalizada. A relação pessoal com esse espaço é dicotômica. Mesmo que considerem ruim, não generalizam essa impressão para o meio que vivem, revelando um grande apego pela região. Nesse ponto, outros fatores interferem nesse cálculo de abrir mão de um espaço decente por morar no Centro. O fator localização é, talvez, o mais citado e que tem mais força na relação dessas pessoas com a região. Mas esse posicionamento privilegiado é alimentado pelas ofertas de trabalho, serviços e muitos benefícios que se encontram na região, como comércio, mercado, shoppings, entre outros.
Para compreender essa realidade, deve-se perceber que nela há interferências múltiplas, que não repercutem sozinhas nos indivíduos vulneráveis nesse complexo
emaranhado de situações. As mulheres, por exemplo, aparecem como elemento sensível nessa relação. Mais ligadas às atividades domésticas e ao cuidado com os filhos, são elas que mais dependem das relações sociais para conseguir trabalhar.
Todas as mães que foram entrevistadas, com exceção de uma que a filha já trabalha e ajuda nas receitas familiares, dependem de toda uma articulação de serviços coletivos e favores pessoais para conseguir permanecer no emprego. São elas que se ausentam do trabalho para cuidar da saúde das crianças, que necessitam da ajuda dos vizinhos para cuidar dos filhos quando não estão na escola ou, quando há necessidade, buscam nas relações sociais as pessoas de confiança para levar os filhos à escola. Enfim, são elas que mais dependem dos ativos locais para dar conta de suas atividades cotidianas. No universo de sete mulheres entrevistadas na pesquisa qualitativa, apenas três viviam com um companheiro e, ainda assim, nenhuma delas tinha essa relação formalizada no papel. Todas as outras eram mães que cuidam de suas famílias sozinhas e são obrigadas a se sujeitar a qualquer trabalho, pois os compromissos com as contas da casa não podem ser adiados.
As próprias crianças também são muito atingidas nessa relação. Nas entrevistas qualitativas, coincidentemente, todas as pessoas tinham filhos. A questão de se criar o filho em cortiço foi apontada por todos como muito difícil. As casas que abrigam os cortiços têm uma estrutura de divisão do espaço muito ruim e isolamento acústico quase imperceptível, além das próprias dimensões bastante reduzidas. Os problemas mais mencionados foram as reclamações dos vizinhos por conta do barulho que as crianças fazem, a falta de espaço para brincarem e a rejeição nos cortiços a famílias com filhos. São fatores que se reproduzem entre os moradores de cortiço, e podem ser considerados como parte significativa dos problemas para essas pessoas.
Ao trazer a pesquisa sobre a vocação econômica da região, foi possível enriquecer a visão sobre as alternativas de acesso à economia formal na região, uma vez que o vínculo de trabalho gera mais segurança, tranquilidade para o sustento das famílias e até mesmo a possibilidade de realização do sonho da casa própria, uma expectativa generalizada entre os moradores de cortiços. Esse perfil das empresas na região pode ser também um instrumento de intervenção nessa comunidade, com o incentivo à contração de mão de obra local, para qualificá-la e promover a melhoria de renda e condições de vida da população.
Algumas reflexões, por outro lado, são origem de angústia, pois percebem que a melhoria das condições de vida na região, ao invés de resolver os problemas dos cortiços,
tende a dissolvê-los sem cuidar do aspecto humano envolvido. Os processos de melhoria local e as intervenções para melhorar a infraestrutura do bairro acabam servindo como elementos de exclusão velados, pois, com a valorização econômica do espaço, a pressão imobiliária atinge diretamente os moradores de cortiço. Já os serviços públicos e programas sociais voltados a essa população também têm o seu reverso da moeda, surgem na pesquisa como fatores de identificação com a região, de segurança com a saúde, educação e auxílios diversos. E é talvez essa oferta expressiva de serviços para a população vulnerável que torna a região valorizada e fortalece a demanda por moradias coletivas.
Como foi apresentado no trabalho, os donos de moradia coletiva começam a fazer novas exigências para o inquilinato, não permitindo famílias com crianças, pessoas com o nome vinculado a algum serviço de proteção ao crédito, e isso gera ainda mais tensão entre aqueles que vivem em cortiços, especialmente nas situações que envolvem filhos pequenos. A solução para o problema é delicada e exige um olhar crítico sobre todo esse processo para garantir que as pessoas tenham o direito à cidade, ao local onde há tantos anos estabeleceram relações sociais e criaram uma identidade cultural muito particular com o bairro.
Fixar os moradores de cortiço na região significa dizer que os mesmos estarão ainda mais ligados ao local e às suas formas de organizar o espaço. Nesse caso, os moradores de cortiço já saem perdendo, pois a possibilidade de conseguirem uma moradia na região é quase inexistente para o potencial econômico que possuem. Por isso, políticas articuladas de habitação deveriam ser pensadas como solução para esse impasse, buscando alternativas para acomodá-los em moradias populares por meio de incentivo governamental, seja para a construção das mesmas, seja para a compra de imóveis vazios, ou qualquer outra solução inclusiva que permita a moradia digna no Centro.
Foi por meio de toda essa reflexão que o trabalho encontrou seu caminho, sem conseguir determinar relações causais entre a moradia precária e as áreas que exercem suas atividades profissionais. Por outro lado, as análises levantaram uma questão interessante: não seriam os aspectos relacionais desses indivíduos o que determinaria sua relação com o meio e que seriam também responsáveis, ou elementos importantes, na reprodução da pobreza? Marques (2010) traz essa ideia com o conceito de homofilia, definido como a tendência a uma inclinação dos indivíduos construírem vínculos sociais com pessoas de “características