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O projeto “Criança Fazendo Arte” surgiu de uma reflexão sobre a aprendizagem do aluno e a prática pedagógica do professor, com o desejo de uma proposta que zelasse pelo movimento do corpo no espaço escolar e, que provocasse a exploração dos sentidos deste corpo e da sensibilidade das crianças. Foi delineado a partir de algumas lacunas encontradas na relação do professor que se encontrava, não raro, alheio às necessidades dos alunos e distante em sua relação com os mesmos, deixando de efetivar em sua prática pedagógica uma “solicitude” emancipatória – o cuidar autêntico de maneira envolvente e significante para que o outro assuma seus próprios caminhos, cresça e amadureça – referida pela teoria da Aprendizagem Totalizante de Masini (1999), resultante do entrelaçamento que essa autora fez da Teoria da Aprendizagem Significativa de David Ausubel com a Análise Existencial embasada em Heidegger.

A Teoria da Aprendizagem significativa de David Ausubel, diz respeito às condições que facilitam o uso da capacidade de entender e elaborar informações e novas situações a partir do que o aluno já sabe. Para Masini (2003), vários pontos da Teoria de Ausubel oferecem perspectivas para o assessoramento a professores e atendimento ao aluno, tais como: voltar-se para a elaboração de informações, descrevendo as condições para ocorrência da aprendizagem significativa e deduzindo diretrizes para situações de sala de aula; objetivar a aquisição de informações em diferentes áreas do conhecimento; conceber que cada área apresenta uma rede conceitual que forma sua estrutura, mas que só poderá ser adquirida com clareza pelos alunos, se apoiada (ou ancorada) naquilo que ele já sabe.

A análise existencial – Daseinsanalyse – embasada em Heidegger – que diz respeito ao “aproximar-se”, à forma de estar ou não atento ao que o aprendiz manifesta, propiciando - lhe condições de expressar–se, ou ao contrário, de repetir informações ou padrões a serem cumpridos. Explica Masini (2003), ao reiterar Spanoudis (1981) ao dizer que a forma de relacionar – se ocorre de maneira envolvente e significativa – Heidegger chama de “solicitude”, indica as características básicas de ter consideração e de ter paciência para com o outro.

Consideração e paciência entendidos como a maneira como se vive com os outros mediante as experiências e expectativas de algo que possa vir a acontecer, do que foi vivenciado e experienciado. O ter paciência sempre pressupõe uma expectativa. Segundo Masini (2003), há duas maneiras extremas de solicitude ou de cuidado com o outro, onde existem, obviamente, também inúmeras variações. Uma delas é o cuidar do outro pondo-o no colo, mimando-o, fazendo tudo pelo outro, dominando-o, ou manipulando-o, ainda que de forma sutil. A outra maneira de cuidado, seria proporcionar que o outro assuma seus próprios caminhos, cresça, amadureça e encontre-se consigo mesmo. Esta é uma solicitude que proporciona emancipação.

Partindo do pressuposto de que para a ocorrência de aprendizagem significativa, o educador deve levar em consideração a totalidade da vida do educando nas suas mais diversas situações, interagindo com seu aluno, conversando, ouvindo o que ele diz com atenção e respeito, compreendê-lo em suas próprias particularidades de pensar, sentir e agir, para identificar suas representações, conceitos e ideias, considerou-se que o conceito de Aprendizagem Totalizante abrangeria os fundamentos necessários para a formação continuada dos educadores da creche Betel.

A teoria da Aprendizagem Totalizante de Masini (1999) constituiu os fundamentos para o processo de formação da equipe, assinalando aos educadores, cuidados especiais no que se refere a conhecimentos e atitudes sobre o ato de aprender e sobre o relacionamento com o ser que aprende, para que este desenvolva suas próprias possibilidades e supere dificuldades. Nesse processo, evidenciou a necessidade de que a reflexão do educador acompanhasse sempre sua prática, ao lado das informações teóricas específicas das áreas do conhecimento, concepção essa que reúne Aprendizagem Significativa e o “Aproximar-se”. Enquanto que a Aprendizagem Significativa é entendida como aquela em que a criança adquire habilidades e informações compreendendo o que realiza e não repetindo mecanicamente, o “Aproximar-se”, se refere à relação do professor e do aluno, na maneira de estar aberto para o que o outro revela.

Segundo Masini (2003), aproximar-se na Aprendizagem Totalizante é estar aberto para o que o aprendiz revela de sua experiência vivida, dos objetos incorporados na sua vida, das brincadeiras com amigos, da sua linguagem e hábitos familiares. Envolve condições existenciais e não apenas o aspecto intelectual. Neste sentido é do "aproximar-se" das relações motivacionais da sua vida, que depende a possibilidade de alcançar os seus significados e propiciar-lhe uma aprendizagem significativa. Assim, refere-se Masini (1999, p. 92, grifos do

autor) a respeito de Aprendizagem Totalizante:

1) experiência na qual participa a pessoa total (corpo, disposição afetiva, mente) frente a uma nova situação na qual ocorrerá seu ato de aprender ( sentir, pensar, agir); 2) experiência da qual participa o aprendiz e o professor (ou aconselhador, ou pesquisador), numa relação de solicitude emancipatória (de consideração e paciência), de maneira envolvente e significante, isto é, na qual o professor está atento para que sua atitude propicie ao aluno condições para assumir seus próprios caminhos, crescer, amadurecer.

Esse aproximar-se é essencial para o desenvolvimento das propostas do Projeto Criança Fazendo Arte, visto que o professor tem entendimento de que não deve ser o dono do discurso, e sim fazer parte do percurso; este fazer parte transforma uma ação mecânica em aprendizagem com significado, pois viabiliza o despertar da sensibilidade e de experiências perceptivas na educação infantil que contribuem para uma aprendizagem significativa, visto que, tem como base a experiência vivida. Masini (2008, p.75) esclarece isso ao afirmar:

Para compreender o aprendiz e sua maneira de relacionar-se no mundo que o cerca, há sempre que se considerar suas estruturas perceptual e cognitiva, que exprimem ao mesmo tempo generalidade e especificidade (o conteúdo, a forma e a dialética entre ambas). O ponto de partida é, pois, saber de sua experiência perceptiva.

As propostas desenvolvidas referentes à formação da equipe tiveram atenção a essas concepções apontadas por Masini (2008), que requerem dos educadores cuidados no que se refere a conhecimentos e atitudes sobre o processo de aprendizagem e ato de aprender e sobre o relacionamento com o ser que aprende. Conforme salienta Masini (1999), a prática profissional e as pesquisas realizadas sobre aprendizagem evidenciaram a necessidade de uma formação cuidadosa dos profissionais da educação, no que se refere aos conhecimentos adquiridos e atitudes em sua prática; sobre o processo de aprendizagem de seu aluno e ao ato de aprender; sobre o relacionamento, que deve ocorrer de maneira mais próxima e aberta, utilizando recursos a partir da experiência dos alunos, propiciando-lhes condições apropriadas à sua aprendizagem e, para que este desenvolva suas próprias possibilidades e supere dificuldades.

A proposta de aprendizagem do Projeto “Criança Fazendo Arte” fundamentou-se nessa perspectiva que a equipe escolar abraçou, motivada pela interação de saberes proporcionada pelas reuniões de formação sobre a percepção e aprendizagem e, pelo jardim florido e fértil à pesquisa: as crianças em suas singularidades e sensibilidades – continuação da caminhada pela educação que preza o corpo como fonte de sentidos de significação da relação do sujeito no mundo – sujeito na sua totalidade.

CAPÍTULO II – PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS.

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