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A redução da morbilidade e mortalidade por cancro passa pelo desenvolvimento de programas de prevenção, voltados para os problemas oncológicos existentes e previsíveis, exigindo uma intervenção integrada e esquemas organizados de prevenção, bem como a difusão de informação sobre estratégias de detecção precoce. É quase impossível, hoje em dia, ignorar-se o cancro e as formas de o rastrear, tal é a profusão de informação veiculada quer através do meio científico e dos serviços de saúde, quer através de meios de comunicação de massa ou mesmo de forma informal na vivência quotidiana, através do contacto com familiares, amigos ou vizinhos que se debateram com esta doença. Porque motivo, então, as opções individuais nem sempre são coerentes com a informação de que se dispõe ? Embora conscientes de que os hábitos e estilos de vida nem sempre são o resultado de opções inteiramente livres, conscientes e autónomas, mas antes influenciados pelos nossos valores, crenças e atitudes e pelos diferentes contextos de vida em que nos situamos, foi esta a questão que fez despoletar a nossa inquietação. Foi neste contexto que a teoria das representações sociais se nos afigurou como um contributo valioso, na medida em que nos poderia auxiliar na compreensão da forma como é consumida, transformada e utilizada pelo homem comum esta informação. Na opinião de Moscovici e Hewstone (1990) as pessoas retêm-lhe o conteúdo, mas modificando-lhe a forma e as regras ao jeito do senso comum, com tudo o que isto pressupõe de pensamento e linguagem própria. Em consequência, o senso comum está cheio de imagens, de palavras, de raciocínios que ajudam os indivíduos a orientar-se no seu universo material e social permitindo a justificação dos seus comportamentos.

Através desta reflexão surgiu-nos a seguinte questão:

Como profissionais de saúde consideramos importante esta compreensão, já que, enquanto enfermeiros, somos intervenientes na difusão dessa informação e, quiçá, influenciamos a construção das representações sobre o cancro. Como referem Tavares e Teixeira (1998) a transmissão de informações não é suficiente para uma acção efectiva, já que existem aproximações e confrontos entre o saber popular e o saber científico, cuja génese reside num sentido do mundo que o saber científico não consegue obter. Por outro lado, diz Meleis (cit. Kérouac, 1994) que intervir significa 'agir com', funcionando como um conselheiro especializado que ajuda na escolha de comportamentos de saúde mais adaptados, mas criando possibilidades de desenvolver o potencial dos indivíduos. Uma das estratégias mais adequadas para desenvolver esse potencial será a educação para a saúde. A nossa reflexão sobre esta temática centrou-se na constatação de que, no domínio da educação em saúde, as práticas têm-se baseado menos nas necessidades reais dos utentes do que na capacidade dos profissionais de saúde em atendê-las; tradicionalmente têm predominado modelos educativos não participativos, suportados por um conjunto de actividades estereotipadas. Repensar estas práticas implica conhecer e compreender a vivência da própria população alvo, dentro de uma visão educativa que a perceba enquanto sujeito activo no processo de aprendizagem, capaz de modificar voluntariamente os seus comportamentos. García-Fernández e Peralbo-Uzquiano (1999) afirmam que é importante conhecer o nível de desenvolvimento cognitivo da população quando se trata de levar a cabo programas preventivos ou de educação em saúde, com a finalidade de não os sobrecarregar.

Conhecer as representações sociais do cancro na população poderá, eventualmente, contribuir para amadurecer e desenvolver as nossas práticas educativas, viabilizando um melhor atendimento à população, o que constitui a nossa finalidade. Tendo em conta que o conceito de representação social enfatiza a dependência da acção face à actividade cognitiva, e que a eficácia dos programas preventivos está dependente das crenças, de valores e atitudes, dos comportamentos e emoções prevalecentes no grupo comunitário, conhecer estes últimos aspectos colocar-nos-á, à partida, em melhor posição para reconhecer as efectivas necessidades educativas e para contribuirmos no delinear de prioridades de intervenção, visando alternativas que 'tornem mais fáceis as decisões mais saudáveis'.

Refere Jodelet (1994) que o espaço de estudo das representações sociais é multidimensional, e, a multiplicidade de perspectivas e desenhos de investigação mais ou menos autónomas de acordo com a acentuação dada aos aspectos específicos dos fenómenos representativos. De qualquer modo, todo o estudo de representações passará por uma análise das características ligadas ao facto de elas serem uma forma de conhecimento. De acordo com Pereira (1997) para se dizer que estamos a estudar as representações sociais é necessário que os vários elementos que as caracterizam sejam operacionalizados. Há portanto que identificar a sua objectivação, através dos termos pelos quais ela é operacionalizada, e a sua ancoragem que permite identificar o suporte social da representação e que leva a identificar as relações que se estabelecem entre os seus termos. É ainda importante identificar a sua estrutura, o seu núcleo central, que nos reporta para o que está mais enraizado na representação, e o seu sistema periférico que facilita os processos comunicacionais no contexto da representação identificando deste modo a sua argumentação. Assim, neste estudo elaborámos formulações sobre o que procuramos conhecer. Partimos de uma questão central de investigação:

- Como é que as pessoas representam o cancro ?

Da desagregação desta questão central emergiram outras mais específicas: Que esquemas conceptuais constituem a representação do cancro ? Qual a 'rede de significações ' em torno desta representação ?

Que informação retêm os sujeitos acerca do cancro e de estratégias de prevenção ?

- Que fontes contribuem para essa informação ?

- Como se caracterizam as crenças de saúde em relação ao cancro e ás estratégias de prevenção ?

- Que atitude têm os sujeitos face às estratégias de prevenção ?

- Que estímulos facilitam ou dificultam a adesão a estratégias de prevenção ?

Estas questões constituem as premissas do nosso estudo cujos objectivos principais são:

- Conhecer como o indivíduo organiza o seu saber e imagem sobre o cancro.

- Descrever o quadro de referência no qual esta informação se ordena.

Face a estes objectivos englobamos o nosso estudo no grande grupo de estudos não experimentais e consideramo-lo do tipo descritivo, uma vez que procuramos obter um perfil geral de um fenómeno preocupando-nos em descobrir que relações existem entre os conceitos que o caracterizam. Acreditamos que este tipo de pesquisa nos vai proporcionar maior familiaridade com o problema, o que na opinião de Gil (1991) faz com que se aproxime das pesquisas de tipo exploratório, também justificável por Almeida e Freire (1997) e por Fortin (1999) uma vez que procuramos descobrir pontos de continuidade numa dada realidade (informação, crenças e atitudes) sem atingir o grau explicativo.

Como ficou anteriormente perceptível, não formulámos hipóteses mas antes questões de investigação, que especificam os aspectos que pretendemos estudar e sobre as quais se irão apoiar os resultados de investigação; daqui decorre que não seleccionamos variáveis para estabelecermos relações causais, uma vez que não é esse o nosso objectivo. Tivemos por base que o que ocorre nas representações sociais é a múltipla acção de inúmeras variáveis agindo e interagindo ao mesmo tempo, e que quando se tentam isolar algumas se reduz o estudo a uma parte do fenómeno. No entanto, considerámos algumas variáveis como o sexo, a idade, o estado civil, o nível de escolaridade e a profissão ou ocupação, que nos permitirão não só caracterizar a população como também contextualizar os dados que pretendemos obter. Nesta opção encontrámos apoio em Almeida e Freire (1997) e Fortin (1999) que aludem ao facto de se encontrarem estudos exploratórios-descritivos, sem hipóteses previamente definidas, nos quais o investigador enuncia questões gerais em lugar de tratar de relações entre as variáveis, consoante convém à abordagem que privilegiaram.

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