2. Three composers
2.2 Bent Sørensen
2.2.2 The Lady of Shalott
Localizado a 218 km do município de São Paulo (GUIA QUATRO RODAS, 2000, p. 127), Cunha localiza-se em um esporão dos terrenos elevados do Alto Paraíba:
Nas cabeceiras do córrego das Pedras, na bacia do Alto Paraitinga, ocupando nível intermediário entre o das planícies e o da Serra de Parari, Cunha se implantou em um dos vários esporões perpendiculares à linha principal de relevo que aí existem. [...] Cunha ocupa o esporão mais amplo e de vertentes mais suaves do conjunto, que, da planície até seu encontro com a serra, apresenta desnível de pouco mais de 100m. Esse esporão forma ombros mais alargados, um modesto, onde fica a praça da Igreja de São Benedito, outro mais amplo, correspondendo à praça da Matriz. A cidade se alinha pelo seu topo, com casas chegando à beira da vertente oriental, tendo seus habitantes que usar escadas para chegar a seus quintais; a vertente ocidental é ocupada por duas ruas paralelas à principal, em níveis diferentes, e várias transversais, todas elas ladeiras íngremes (MÜLLER, 1969, p. 249-251).
A origem de Cunha está ligada ao surgimento das vias transversais de circulação que iriam proporcionar o início da urbanização fora do caminho geral do vale médio do Paraíba, possibilitando a ligação do interior com o litoral.
Das três últimas [cidades surgidas no caminho para o litoral: Cunha, São Luís do Paraitinga e Paraibuna], Cunha tem posição especial, pois, além de ter precedido de bastante as demais, ficava sobre a rota mais importante, a de Guaratinguetá para Parati, por onde se fazia a ligação com o Rio de Janeiro, por via marítima. Ao longo desse caminho, havia três pequenos povoados: Campo Alegre, Facão e Boa Vista, mas, quando as autoridades eclesiásticas resolveram crirar paróquia na zona, Facão, que datava de 1723, foi o preferido. Assim se fazendo, reconhecia-se sua situação favorável, a meio caminho entre as duas cidades, Guaratinguetá e Parati, a cavaleiro da escarpa da Serra do Mar. Entre 1736 e 174960, foi criada a freguesia de N. Sra. da Conceição do Facão, que, em 1785, passaria a vila, como N. Sra. da Conceição de Cunha.61
60 A data é imprecisa, conforme assinala SILVEIRA (1939 apud MÜLLER, 1969, p.22).
61 A origem do nome Facão deu margem a controvérsias. Alguns, como RIBEIRO (1899-1901) e
FORJAZ (1931), aceitam a versão de o nome ter derivado de uma família Falcon, que aí se teria instalado por volta de 1730; outros, como SILVEIRA (1939), crêem que o nome viria do sítio do
Cunha, a exemplo de outros aglomerados, apresentou ao mesmo tempo, uma vida urbana relativamente restrita e algum desenvolvimento no século XVIII, quase sempre crescendo em direção às vias de saída, chegando, em conseqüência, a tomar aspecto nitidamente alongado, acompanhando o eixo da estrada Parati- Guaratinguetá (MÜLLER, 1969, p. 45). E é no período áureo da cafeicultura, no século seguinte, que Cunha torna-se cidade, em 1858 (p. 35).
Quanto à urbanização e à evolução urbana de Cunha no século XX, dois fatos merecem destaque: Cunha só terá a estrada para Parati melhorada em 1954-55 e, das três cidades existentes no traçado de vias para o litoral, Cunha foi a que mais cresceu e mais se expandiu (MÜLLER, 1969, p. 108).
Mas isso só mais recentemente, da segunda metade da década de 1950 para cá. Ainda em 1945, dizia-se que “na cidade alta não há mais que uma dúzia de prédios construídos nos últimos dez anos” (WILLENS, 1947), mas, no ano de 1959, registravam-se 180 novas casa no perímetro urbano. As autoridades locais explicam o fenômeno pela fundação do Ginásio, em 1956, que teria atraído para a cidade famílias da área rural que tinham filhos em idade de estudar e que, com essa oportunidade, não mais precisariam enviá-los para Guaratinguetá ou outra cidade da região; no entanto, é curiosa a coincidência com a melhoria da estrada para Parati (1954-55), que veio restabelecer a posição de Cunha como núcleo intermediário entre o litoral e o vale médio na era da circulação motorizada. Apesar de afirmarem os habitantes da cidade que o trânsito de ônibus entre Guaratinguetá e Parati apenas “beneficia alguns bares”, acreditamos que a maior facilidade de comunicação fez com que famílias de Parati aí se instalassem [...], e outras, da área rural, já não preferissem a cidade maior, que poderia ser rapidamente atingida, para ficar mais próximas de suas propriedades. Isso, com ou sem influência da presença do Ginásio. Este fato não parece tão relevante, uma vez que São Luís do Paraitinga,
núcleo, em um contraforte ou “facão” da serra. Contra a primeira hipótese, argumenta RODRIGUES (1957) que o nome Facão já aparecia como designativo do povoado entre 1723 e 1725, anteriormente, portanto, à vinda da família Falcon; SILVEIRA (1939) acrescenta que o nome Facão não é encontrado nos primeiros recenseamentos de Cunha (1765-66), onde constam os descendentes de todos os povoadores. Quanto ao nome Cunha, teria sido escolhido em homenagem ao capitão-general Francisco da Cunha Menezes, quem concedeu o povoado a ascensão à vila (MÜLLER, 1969, p.22).
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que também possui estabelecimento de ensino secundário, não teve seu espaço urbano tão aumentado quanto Cunha (MÜLLER, 1969, p. 108).
De acordo com a classificação proposta por Müller (1969, p. 133-153), Cunha é um dos centros urbanos do Vale da Paraíba, que tem função industrial pouco significativa ou apenas incipiente, apresentando um único estabelecimento – a usina de pasteurização de leite – que lhes dá caráter mono-industrial absoluto, mas, evidentemente, sem que tenham grande significado econômico.
Apresentando-se com decisiva preoeminência na paisagem, a autora classifica Cunha, do ponto-de-vista da paisagem urbana, como uma das muitas pequenas cidades do Vale do Paraíba e comenta que
em alguns centros urbanos [como ocorre em Cunha], por mais modesto e por menos diferenciado que seja, a presença de um ‘core’ contribui para certa diversificação, estabelecendo algum contraste entre área de serviços e área estritamente residencial (MÜLLER, 1969, p. 291).
Assim, também, como em outras cidades quase estagnadas desde os tempos do café, Cunha guarda vestígios deste período de desenvolvimento do passado e possui aspecto pacato, tendo suas ruas relativamente movimentadas apenas quando estão numa via de circulação de certa importância, nos dias de mercado ou de festa (MÜLLER, 1969, p. 291). A partir desta introdução histórico-geográfica dos municípios de Guaratinguetá e Cunha, apresenta-se, no capítulo seguinte, sua caracterização turística, bem como a análise de tal configuração à luz do instrumento ora proposto.