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Era dia cinco de dezembro de 2009 e o grupo estava em seu último dia de aula. Na parte da manhã houve apresentação dos trabalhos (projetos), na disciplina de metodologia. João foi um dos alunos que chamou a atenção na sua apresentação. Sua pesquisa parece bastante adiantada e apresenta com desenvoltura os referenciais teóricos elencados. O aluno explicou que o projeto seria também apresentado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS com o objetivo de ingressar no curso de Mestrado em Educação dessa Instituição.

Uma das coordenadoras da escola relatou como esse aluno ingressou no curso. Ele trabalha em projetos sociais, então depende de editais e de conseguir verba tanto através da iniciativa privada quanto do governo. Soube, através de uma indicação, da proposta do curso de Educação Popular. Buscando mais informações, João teve o primeiro contato com Dora que apresentou os objetivos e a metodologia do curso. Interessado, porém reticente, ele informou à Diretora que não tinha, naquele momento, condições financeiras para ingressar. Dora reconheceu potencial no futuro aluno e convidou-o a integrar a turma mesmo não tendo como, naquele momento, fazer os pagamentos. Durante oito meses, João não teve condições de pagar as mensalidades. Em várias situações ele chegou a falar com as Diretoras sobre desistir do curso, pois se sentia constrangido com a situação. No entanto a direção da escola incentivava-o a permanecer. Após esse período o aluno conseguiu regularizar sua situação financeira junto à instituição.

Percebe-se que João é um líder para a turma. Tem aproximadamente 50 anos, cabelos brancos e fala calma. Ao observá-lo poder-se-ia supor tratar-se de um homem do interior, sem recursos, sem acesso à educação, uma pessoa simples, que poderia estar cultivando uma horta sem jamais ter se sentado em um banco escolar. No entanto, apesar de ter uma horta – orgânica – possui significativo conhecimento teórico, como se pôde constatar depois.

Numa conversa João relatou que até os sete anos de idade morava no interior do Rio Grande do Sul, em uma comunidade de imigrantes italianos. A família só falava italiano. Ao entrar na escola a professora, já no primeiro dia, proibiu-os de falar essa língua. E, então, ele e os irmãos se viram isolados por não conseguirem se comunicar. Por dois anos passaram por essa situação de exclusão do grupo. O seu comentário: “se isso acontecesse em uma escola de Educação Popular o fato de sabermos italiano seria uma riqueza que certamente o professor, de alguma forma, tentaria passar também para os demais.”

Novamente constata-se que a Educação Popular aparece para eles como uma importante referência do que consideram moralmente correto. Os alunos que demonstram rejeição à educação celebrada como “formal” são os mesmos que assumem avidamente os conceitos pregados pela educação não formal.15

Outras pessoas apresentaram suas propostas de trabalho e, especialmente uma das alunas parecia bastante preocupada. Ela comentou com a professora que era uma “analfabeta digital” e que não tinha acesso ao computador, o que dificultava muito a realização do

15 Educação Popular, de acordo com Freire (2005), é também conceituada como educação não formal ou problematizadora.

projeto. Surpresa com a informação, investiguei depois, junto aos outros integrantes do grupo, e soube que a referida aluna trabalha como auxiliar de serviços gerais em uma creche. Imediatamente a informação despertou interesse em entender como uma pessoa graduada em Educação, em vias de finalização de um curso de pós-graduação, continua a trabalhar tão distante da sua área de formação. Havia, no entanto, ainda muitas outras questões a serem resolvidas.

Algumas situações me pareceram como que um blooper.16 Em uma dessas ocasiões a coordenadora do curso salientou a importância de que eles construíssem um bom projeto, pois certamente esse abriria portas no futuro. Inclusive deixou aberta a possibilidade de que os alunos com mais destaque e um reconhecimento positivo sobre o projeto pudessem vir a dar aulas no curso para uma próxima turma. E, então, uma das alunas (a que se diz “analfabeta digital”) falou: “é, mas tem que ser por mérito e não por „puxassaquismo‟ com a Merli. Não vai agora querer ir fazer faxina na casa da professora pra ganhar o cargo...”.

Foi um comentário estranho até para o restante do grupo que não demonstrou aprovação nessa fala. Ela sugere, com seu comentário, que relações baseadas na amizade ou no servilismo podem sobrepor-se à capacidade e ao preparo. Percebe-se que a aluna está cobrando meritocracia. Ao mesmo tempo em que a sua espontaneidade pode demonstrar inabilidade nas relações, o fato de reivindicar reconhecimento por mérito demonstra certa carência de que suas conquistas pessoais sejam socialmente reconhecidas.

À tarde, no mesmo dia, foram distribuídos os presentes do “amigo secreto”. Eu também havia participado da brincadeira e tinha um presente a ser entregue.

Nessa ocasião entendi a dimensão da participação e o alcance da minha presença no grupo. Por um período considerei que pudesse ser “aquela pessoa que está pesquisando a pós”, como eles costumavam me descrever. No entanto, quando foi me entregar o presente, a aluna (minha amiga secreta) começou a sua fala dizendo:

A minha amiga secreta é uma pessoa bem especial. Ela entrou atrasada no grupo. Ficou quietinha olhando e fazendo algumas perguntas de vez em quando. Mas hoje eu vejo que ela foi um presente pra nós. Hoje ela já é parte do nosso grupo.

Novamente o grupo surpreendeu-me. Nesse momento entendi que obtive aprovação e que minha investigação seria apoiada.

4 CONTANDO A HISTÓRIA DA VIDA

Na segunda fase da pesquisa, realizou-se entrevistas com informantes selecionados do Curso de Pós-Graduação em Educação Popular.

Com foco não mais no grupo, mas no entendimento do indivíduo analisado, se buscou esclarecer pontos que ainda permaneciam sem respostas, assim como identificar, como se veio a constatar durante as entrevistas, outras questões que não haviam aparecido anteriormente.

A partir desse capítulo devem ser apresentados os contatos estabelecidos com os informantes, oportunizando que os dados dialoguem com as questões teóricas referenciadas nessa pesquisa.