2.3. C HALLENGES OF SUSTAINABILITY AND OPTIMAL USE OF HEALTH INFORMATION
2.3.1. Lack of user participation in systems design
Na concepção de Dominique Wolton (2006), o termo globalização pode ser definido a partir de três dimensões: a política, a econômica e a cultural; esta última se refere à problemática da diversidade cultural e de comunicação existente na atualidade. Para o autor, é necessário encontrar um meio de convivência social em função das diferenças que fazem parte desta terceira globalização:
A coabitação cultural é o meio de administrar pacificamente a terceira globalização, isto é, o surgimento do triângulo infernal (identidade-cultura- comunicação) nas relações internacionais. Não há cultura global nem
mestiçagem ou cosmopolitismo generalizado, há a necessidade de respeitar a diversidade cultural, organizando a coabitação das culturas sobre uma base democrática (WOLTON, 2006, p.233).
Esta terceira globalização traz à tona a necessidade de se dar atenção aos conceitos da diferença e da tolerância, por extensão. Neste novo contexto, o respeito às diferentes identidades é condição fundamental para o convívio cultural, étnico e social no novo espaço público. Segundo Wolton (2006, p. 128), “não existe aldeia global, mas uma tectônica de placas culturais.” Trata-se de um espaço público regido pela tensão, que preserva a heterogeneidade, é laico, democrático e dá espaço aos diferentes valores artísticos, culturais, espirituais e religiosos.
As diferenças, neste universo globalizado, são acentuadas, visíveis e de difícil convivência, o que faz emergir uma sensação de desordem e ameaça. Além disso, há a presença de um efeito “bumerangue da comunicação”, pois a voz do emissor é retroalimentada pela voz do destinatário, ganhando novos contornos. Wolton (2006) afirma que esta relação pode trazer, ao mesmo tempo, paz entre as diferentes nações, como também, guerra. Assim, na terceira globalização, a comunicação torna-se um desafio para a garantia da coabitação entre as diferenças.
O mundo está mais visível, uma vez que o instrumental técnico da comunicação permite a configuração de um espaço público com características transnacionais, sem os limites de espaço e tempo. Entretanto, isto não o torna mais compreensível, pelo contrário, em função de toda complexidade cultural existente, a ação comunicativa passa a ter um duplo desafio: o de, ao mesmo tempo, aceitar o outro, mas também defender sua própria identidade.
Em uma relação comunicativa, na qual o receptor tem uma identidade e luta por preservá-la, a palavra-chave é a negociação entre os participantes deste processo. Ao invés da abordagem técnica e aparelhada da comunicação, própria do paradigma funcional da comunicação, o que se privilegia, neste novo padrão, é a interatividade entre emissor e receptor, com base em uma vertente humanizada, politizada, onde o receptor não é mais o objeto passivo da comunicação ou sua “massa de manobra”.
A comunicação é um processo muito complexo de negociação entre as ideologias e as representações do receptor, que lhe permitem filtrar o que vem do exterior. Sim, o receptor é sempre ativo, esteja ele lendo, escutando, assistindo ou usando o computador. Sim, o receptor é o grande enigma da comunicação, um enigma cujo interesse é crescente com a globalização da informação e da comunicação. (WOLTON, 2006, p. 33).
Para o autor, a heterogeneidade e a inteligência dos receptores serão os catalisadores da reflexão crítica sobre o paradigma da “sociedade da informação”. Assim, o desafio da coabitação cultural é a resposta ao mito tecnocrático da sociedade da informação e a terceira globalização é a marca deste desafio. Em ensaio que reproduz uma entrevista dada à Revista Famecos (2005), Wolton resume sua ideia a respeito da necessidade de “salvar a comunicação”:
É preciso salvar a dimensão democrática da comunicação em relação à dimensão econômica e publicitária. E que salvar a comunicação é lembrar que essa palavra, apesar do comércio, tem uma dimensão mais forte, humanista, democrática. É isso que é preciso salvar. Quer dizer, também, não se engane. O essencial da comunicação é o respeito ao outro, ao diálogo entre as culturas, construção da tolerância. E é sobre isso que a comunicação é certamente responsável (WOLTON, 2005, p. 12).
Esta proposta de Wolton está em consonância com o que foi defendido, até então, nesta tese, ou seja, que a comunicação pública, ao atuar como um dos elementos performáticos da democracia deliberativa, pode trazer ao espaço público a dimensão humanista e democrática a que se refere o autor. Os princípios da tolerância e da coabitação são coerentes com o mundo da vida habermasiano, que se sustenta na busca do entendimento e da solidariedade entre os que dele participam.
A função mediadora da comunicação pública está embasada na visão comunitária de solidariedade e cidadania, pois busca o entendimento consensual entre Estado e sociedade civil. Por esta perspectiva, a sociedade civil constrói, ontologicamente, seu espaço público, a partir de argumentações em torno de questões de interesse público no mundo da vida.
Apesar do mundo da vida ser, conforme Habermas (2003), espaço de
interlocução entre a sociedade civil e os demais interesses que se apresentam na esfera pública em busca do entendimento, é neste lugar também que outras forças atuam para desarticular o movimento e a organização da sociedade civil e para inviabilizar a legitimidade de tais processos e a opinião pública dele resultante. Sem dúvida, esta é a ação dialética que dá concretude ao mundo da vida. Muitos fatores podem concorrer para desqualificar os movimentos sociais, conforme exposto no capítulo 3: desde a presença de lideranças com interesses públicos questionáveis até a desigualdade na participação dos públicos de interesse na determinação das
agendas públicas de discussão.
Entretanto, é fundamental que se perceba um novo movimento na comunicação, não mais linear, impositivo e verticalizado, como se acreditava na visão funcionalista, mas que se estabelece de forma processual, dinâmica, histórica e num movimento circular. Assim, nem o receptor e nem o emissor são os mesmos a toda hora, pois eles se renovam na sua relação. Este processo só faz parte da sociedade democrática contemporânea em função do novo público que vem se delineando, um público exigente que percebe no coletivo sua força de argumentação. Nesse sentido, Henriques ressalta que:
Quando o homem reduz o outro a mero meio para se alcançar um fim, ele estabelece um contato, de certo modo, unidirecional, de caráter manipulador, uma tentativa de imposição. A manipulação deixa de existir quando no encontro estão presentes a reciprocidade e a totalidade de sujeitos, considerando o homem não como um meio, mas como um fim. A co-participação neste diálogo é que torna o homem capaz de transformar a realidade que o cerca, sem a invasão e a imposição unidirecional. Assim, a comunicação para mobilização deve ser dialógica, na medida em que defende uma causa de interesse mútuo, que deve ser compartilhada entre os sujeitos, comprometidos com um fim único, comum a todos (HENRIQUES, 2004, p. 26).
Esta é também a concepção de Peruzzo (2009) em relação à participação dos sujeitos envolvidos na comunicação em todo seu processo de criação e efetivação. Segundo a autora, a comunicação comunitária cumpre sua função transformadora ao inverter a lógica funcional do sistema comunicativo, ou seja, torna-se um meio de emancipação da cidadania quando, efetivamente, abre canais de comunicação de forma a democratizá-los. Nesse caso, o receptor insere-se no processo ativamente. Para Peruzzo:
Trata-se de não apenas consumir mensagens transmitidas mas também de participar do processo de articulação social. O cidadão passa de simples receptor a emissor e difusor de conteúdos, condição que altera profundamente a sua relação com os meios e com o entorno em que vive. (PERUZZO, 2009, p. 424).
Neste sentido, a problemática central desta pesquisa de tese é a discussão sobre o campo ético-político da comunicação pública e sua inserção na esfera ou espaço público como campo de mediação entre os interesses públicos e privados.
Oliveira (2009) defende que a “comunicação pública não se limita à comunicação de governo, pois, como se trata de uma comunicação intimamente
ligada à democracia, subtende a comunicação praticada no primeiro, segundo e terceiro setores, com vistas ao interesse público.” (OLIVEIRA, 2009, p. 470).
No caso específico desta tese, a perspectiva da comunicação pública analisada é a que se dá no âmbito do terceiro setor, que engloba os movimentos sociais da sociedade civil.
6. A COMUNICAÇÃO PÚBLICA COMO PRÁXIS NO PROCESSO DE MEDIAÇÃO E MOBILIZAÇÃO DA SOCIEDADE CIVIL NA ESFERA PÚBLICA
“Um engendrou o Dois; o Dois engendrou o Três; o Três engendrou todas as coisas.” (Lao-tse)
6.1 A COMUNICAÇÃO PÚBLICA NA ARTICULAÇÃO DO INTERESSE PÚBLICO