3. Oil sands reclamation
3.6 Lack of certification: Roadblocks delaying reclamation
A competência linguística de um indivíduo faz que ele seja capaz de identificar e produzir diversas formas de interação social por meio da linguagem: um convite de casamento, um artigo de jornal, uma roda de amigos, um político em um programa eleitoral etc. Essas diferentes maneiras de enunciar, respeitando-se critérios e propriedades específicas para cada situação, é denominada gênero.
Para Bakhtin (1979[1953]), o gênero justifica sua existência no cotidiano da linguagem simplesmente porque, em cada âmbito das atividades humanas, enunciados únicos caracterizam as mais diversas situações de interação vividas pelas pessoas. Trata-se de situações particulares que exigirão, dos interlocutores envolvidos, determinados pré-requisitos contextuais e linguísticos para que a interação seja bem-sucedida. Em outras palavras, tendo em mente um determinado objetivo a ser atingido via discurso, o enunciador opta por um gênero que lhe seja adequado e que possa servir de suporte para que o enunciado seja recebido pelo enunciatário da maneira mais eficiente possível. Ainda segundo o filósofo russo:
Se não existissem os gêneros do discurso e se não os dominássemos, se tivéssemos de criá-los pela primeira vez no processo da fala, se tivéssemos de construir cada um de nossos enunciados, a comunicação verbal seria quase impossível. (op. cit: 302).
Encontramos em Swales (1990: 114) a definição de gênero como "uma classe de eventos comunicativos, cujos membros partilham objetivos comuns". Para ele, porém, além do reconhecimento do objetivo da interação por parte do enunciador e
do enunciatário, discursos em um mesmo gênero mostram um padrão de similaridade bastante importante e evidente, em especial quanto a estrutura, estilo, conteúdo e enunciatário presumido. É devido a essa característica, portanto, que uma notícia de jornal ou uma revista em quadrinhos, por exemplo, são reconhecidos como tal. Uma vez que as práticas sociais estão relacionadas intimamente ao uso da linguagem, o discurso refletirá as condições e finalidades de uma interação a partir de características próprias, definidas e reconhecíveis.
Em relação a esse reconhecimento instanciado do discurso, Bakhtin (1979[1953]) indica que o gênero é identificado a partir da observação de certas características únicas presentes em cada discurso: tema, estilo (o emprego léxico- sintático específico) e estrutura composicional, ou seja, a maneira esquemática arquetípica na qual o enunciado se apresenta.
Ainda sobre o processo de reconhecimento de gêneros, Maingueneau (2001: 59) afirma que a denominação de um gênero se baseia em "critérios heterogêneos", cuja função primária é a busca por compartimentar e catalogar os diferentes usos da língua, de maneira a organizar a compreensão, o entendimento e a interação entre os indivíduos. Além disso, esse estudioso também ressalta ser possível classificar um gênero segundo setores de atividade social (por exemplo, mídia: novela, entrevista, talk show); pelo lugar institucional (hospital: receitas, laudos, reuniões de serviço), quanto ao estatuto de parceiros (crianças entre si, adultos entre si, crianças com adultos) e pela natureza ideológica (religioso, capitalista, feminista).
Para Marcuschi (2002), os gêneros são responsáveis por contribuir na ordenação e estabilização das atividades de comunicação cotidianas, uma vez que
são fenômenos históricos que se vinculam ao cotidiano social e cultural dos indivíduos. Desta maneira, os gêneros oferecem aos participantes de uma dada interação a capacidade de predizer e interpretar ações humanas com as quais lidam. Assim, ao receber um cartão-postal, por exemplo, o enunciatário já sabe previamente o que esperar de uma interação deste tipo; ao folhear a edição de esportes, é capaz de prever certos tópicos discursivos que serão tratados ali. É
graças ao nosso entendimento sobre gêneros do discurso e sobre como utilizá-los –
mesmo que de maneira inconsciente e natural –, que nos poupamos o grande trabalho de interpretar cada enunciado como uma produção inédita.
Nossa competência genérica, então, permite-nos atentar somente aos detalhes mais relevantes de um discurso, deixando de lado informações irrelevantes relativas ao contexto, e que são suficientemente entendidas a partir do gênero em que determinado discurso se inscreve. Corroborando Maingueneau (2001: 61), os gêneros permitem que as pessoas "façam transgressões portadoras de um sentido" (ou seja, com um significado subentendido).
Os gêneros, como o dissemos, representam a ampla gama de formas por meio das quais a sociedade se comunica. Sociedades se caracterizam por mudanças contínuas a uma velocidade variável, logo, até mesmo por uma questão de sobrevivência, os gêneros acompanham essa mutação social, causada principalmente pelas inovações tecnológicas. Com o advento da informática de larga escala, internet e redes sociais informatizadas, novos gêneros surgiram, como o
Marcuschi (2002) afirma que a cultura eletrônica da segunda metade do século XX, notadamente aquela voltada à área de comunicação, propiciou uma autêntica explosão de novas maneiras de se comunicar, de gêneros novos. É interessante observar, porém, que esses gêneros dificilmente são inovações que surgem do nada. Há sempre uma espécie de ancoragem em gêneros mais antigos e estabilizados, que servirão de base para que os novos gêneros se desenvolvam, como é o caso do e-mail, gênero do discurso eletrônico equivalente à carta.
Para os propósitos desta pesquisa, nos debruçaremos de maneira mais detida sobre o gênero crônica, especificamente a do tipo opinativo, dado que nosso
corpus compõe-se de discursos dessa ordem. Se, por um lado, nossa análise não
objetiva contemplar uma elucidação profunda sobre as implicações ideológicas proporcionadas por um gênero específico, por outro lado, acreditamos ser de extrema importância entendermos a conformação típica ou esperada de uma crônica opinativa, dados o espaço relevante que esse tipo de gênero recebe da mídia jornalística e o potencial que ele apresenta para disseminar ideologias.