As conceituações ou definições de termos, consideradas muitas vezes como ‘basicamente algo’ pelos dicionários e vocábulos que se cria, salientam o que entendemos destas questões que sempre voltam, como algo que se quer afirmar. Neste trabalho, quando se busca afirmar o termo ‘afro-brasileiro’, relacionado ao povo, se quer referir aos que descendem de povos africanos que fizeram e fazem suas histórias no ‘território brasileiro’, sendo deste modo, denominados como povo brasileiro de origem/descendência africana. Ainda, entende-se por afro-brasileiro o povo de origem cultural africana. É uma tentativa de abreviar o nome de afrodescendente brasileiro e um modo importante de ressaltar o coletivo como sentido para o individual, um ‘nome’ que pode se referir tanto ao povo e também a algum indivíduo. Nesse sentido, essa tentativa de afirmar a identidade não foge da responsabilidade em valorizar a coletividade.
Os povos africanos trazidos para o Brasil como ‘moeda’ e ‘força de trabalho’, tiveram entendimentos medidos e interferidos nos seus contextos, mas resistiram sem querer abandonar suas raízes culturais, e as suas manifestações de origens africanas128. Muitas foram as tentativas históricas de negação e de opressão social, jurídica, política, educacional e religiosa que permeia esta discussão. Por isso, surgiram e surgem ainda a necessidade de se trabalhar constantemente sobre temáticas que envolvem todas essas dimensões em diferentes perspectivas.
O fato de neste estudo querermos afirmar também que o povo afro-brasileiro tem uma ‘raiz cultural descendente e ascendente’ e que a ‘alma’ dessa cultura é a religiosidade, que também afirma a identidade, é uma constatação primordial. Em primeiro lugar, ‘descendente e
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O interesse no desenvolvimento, neste tópico, sobre a temática afrodescendente partiu de um curso organizado pelo Projeto de Cidadania e Cultura Religiosa Afrodescendente, que tem por objetivo o resgate da história, identidade e cidadania da população negra no Brasil e Rio Grande do Sul, do Programa Gestando o Diálogo Inter-Religioso e o Ecumenismo – GDIREC, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS, onde publicaram um caderno que leva este tema: “A temática afrodescendente: aspectos da história da África e dos afrodescendentes no Rio Grande do Sul” [por: Jorge Euzébio Assumpção, Adevanir Aparecida Pinheiro (Org.) e José Ivo Follmann (Org.)] – In: Cadernos IHU, ano 5, n. 22, 2007.
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Em particular, as manifestações religiosas que sempre estiveram presentes em qualquer contexto destas populações. Isso o dizemos e afirmamos mesmo tendo em conta o que já foi observado quanto às proibições para qualquer tipo de manifestação religiosa, espiritual. Percebem-se claramente nisto, uma ‘resistência’ fortíssima e historicamente trazida com cada povo africano, juntamente com a ‘fidelidade’ aos ancestrais, orixás e guias. Um pouco disso tudo é razão desta pesquisa e o que procuramos demonstrar no decorrer da mesma.
ascendente’, remete à origem, traz presente todo sentido de uma realidade ancestral, escorada por uma raiz de gerações, já constituída na história da humanidade129. Depois, teologicamente, remetendo à concepção criacionista originária, procuramos significar que o povo afro-brasileiro se constitui como todos os demais povos, em igual dignidade perante o Criador, que ‘cria do nada’ – criatio ex nihilo – e que por amor, historicamente, faz se desenvolver a partir do mesmo ato criador, e deseja, nesta interpretação de fé, manter nesta genealogia criacional, juntamente com todo cosmos criado. É semelhante o entendimento que se atribui em várias religiões e que em particular numa compreensão de origem africana simboliza Olorum (compreendido também como o Inacessível)130. Mas, para que esteja bem explicitado, nesta noção em que trazemos a maneira Yorubá de nomear, também em outras denominações religiosas dão o mesmo caráter de importância à Divindade como Criador, que se chama de diversos nomes, mesmo entendendo não serem reduzidos a uma só compreensão, como no caso dos Hebreus que chamam ao Criador de Elohim, ou na tradição judaica outra compreensão a partir de Iahweh, entre alguns indígenas têm-se uma noção a partir de Tupã, os Gregos de Theos, os Macuas de Muluku, os Portugueses de Deus, os Espanhóis e Latino- americanos de língua espanhola e castelhana de Dios, os Ingleses e Norte-americanos de God. Ele, porém, permanece sendo o Ser Supremo. Isto que fez com que também o Papa Paulo VI desse como certo a maneira de interpretar e o jeito de se falar sobre o mesmo ‘Deus único’, como causa primeira e última, e que se constitui no elemento comum de se traduzir a noção das várias tradições monoteístas em consonância com a tradição africana131. Cabe, porém, nestes contextos, perguntarmos pelas definições bíblicas herdadas se ao criar-nos, quis Deus dividir-nos em “raças”, crenças e ideologias. Melhor acreditar que não, do ponto de vista teológico, e que se verifica pela história das grandes divisões entre os próprios seres humanos como criaturas perante o Criador132.
Percorrem-se muitos estudos sobre as dimensões do ‘ser afro’, que não exclui
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Donde vêm a compreensão arqueológica da origem e da evolução do gênero humano pela hipótese de radiação (Out of Africa), onde se propõe que os humanos modernos evoluíram a partir de uma população de Homo sapiens arcaicos entre 200 a 100 mil anos atrás. Este grupo migrou da África e substituiu todas as populações humanas no mundo. Portanto a espécie atual descende desse grupo que apareceu na África (ver em: http:// www.assis.unesp.br/egalhard/humanev , datada em 13 de Fevereiro de 2009).
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Mais a frente aprofunda-se esta manifestação de Deus, na religiosidade afro-brasileira e nas expressões africanas de fé.
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Cf. PAULO VI, Carta Apostólica Africae Terrarum, n. 8.
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As guerras, os conflitos e a própria atitude colonizadora de alguns sobre outros comprovam estas divisões humanas ou os ímpetos de rebeldia das criaturas humanas desumanizadas.
necessariamente, o fato de se valorizar o ‘ser-humano’ levando em conta a especificidade que há entre os demais seres humanos. Segue na compreensão de valorizar uma dimensão tão fundamental quanto o entendimento sobre as identidades culturais, por exemplo. No final deste assunto, observamos que não precisamos procurar muito para notar que a temática afrodescendente além de despertar os próprios interessados nesta história que se fazem cada vez mais presentes nesta discussão. Aliás, qual seria o motivo de interesse, perturbação ou conciliação com a temática afrodescendente? Onde se fundamenta a questão? O que mais notamos por onde se faz o caminho do estudo é que prevalece, na grande maioria, os/as “solidários/as” pela causa como opção engajada, postura e organização nos movimentos em torno dessa relação133. Também, percebemos a abertura que se dá para um pouco mais adiante aprofundar o estudo e tentar entender o que significa uma construção de identidade, ou uma afirmação da mesma. Moram aí algumas das intenções de se voltar sempre a discussão desta temática, ou o fato de se perseguir por estes assuntos, ou seja, exatamente no ponto em que a ideologia entra no jogo dos interesses, ou na pauta da discussão sobre a questão das discriminações (étnicas, raciais, políticas, sociais, econômicas, dentre outras). A teologia, em todas essas abordagens, se insere na reflexão para debater e aprofundar.