O ser humano se defronta ao longo da vida com situações diversas que exigem definições e posicionamentos que vão orientando seu viver. Nesse caminho, para apurar determinados sentidos, a memória vai apagando outros registros secundários. Assim, aprender também demanda esquecer. A história reconstruída navega em rota marcada por faróis posicionados em portos seguros da memória. Para chegar até lá em retrospectiva se guia pela luz ao longe, navegando no escuro. O mapeamento dos faróis dos diferentes narradores são pérolas que vão enfeitar a nova realidade construída.
A utilização de diferentes fontes principalmente de relatos pessoais de participantes e ex-participantes do projeto cumpriu a função de reconstituir a experiência e, ao mesmo tempo, de avaliar e buscar novas perspectivas vez que o projeto continua sendo desenvolvido.
O registro e a valorização da voz dos participantes foi uma forma de reconhecimento do seu trabalho, da sua participação e, principalmente do saber que o orienta em sua prática educativa cotidiana.
Considerando que a densidade dos dados e a fecundidade dos resultados dessa pesquisa dependeram do acesso conquistado previamente e reafirmado no momento da coleta e da análise dos dados; posso afirmar que essa pesquisa foi (em alguns aspectos) compartilhada com o grupo pesquisado, e que a produção do conhecimento, aqui verificada, foi uma ação politicamente orientada. No decorrer do trabalho houve uma tentativa de triangulação de dados e de fontes buscando uma multirreferencialidade qualitativa. Os etnométodos ou dispositivos usados foram:
2.1 Relatos individuais livres (subjetivos) – Esses recursos foram solicitados aos Professores e ex-alunos mais ativos do grupo para orientar, complementar, justapor ou contrapor o meu relato e permitir um filtro um pouco mais “objetivante”. Com esse mosaico de informações e impressões pude estabelecer pontos de convergência importantes que foram considerados em novas coletas e na análise final. Isso proporcionou a visualização das significações mais importantes do projeto. Alguns professores não conseguiram realizar essa tarefa, outros foram mais objetivos. Já os alunos realizaram-na prontamente, com muita disposição e criatividade, alguns até de forma poética.
Ao elaborar o meu relato da experiência me senti como em uma sessão de psicanálise. As lembranças fizeram emergir situações de intensidades e de ausências
que explicam coisas que ficaram incompreendidas. Essa nova realidade abre novas possibilidades, direções que no momento anterior não foram consideradas.
2.3 Observação / Observação participante – recurso inserido num processo de interação e de atribuição de sentidos. Nesse trabalho visou compreender as estratégias desenvolvidas em 2008 de continuidade das atividades de EA e a gestão da EA na escola. Esse dispositivo foi super importante visto que os eixos orientadores determinados pela proposta da escola neste ano foram: a EA e a Gestão democrática. Pude acompanhar o planejamento e o desenvolvimento das oficinas e/ou atividades de EA da escola. A partir da observação fui reorientando o método e buscando os instrumentos necessários à sua complementação. Cada situação de interação foi definindo, pela sua própria exigência, se a observação seria individual ou participante. Alguns registros do diário de bordo foram utilizados na compreensão e na complementação da análise. A observação participante se deu em algumas reuniões pedagógicas, no dia-a-dia, durante o movimento político da comunidade escolar pela manutenção dos laboratórios, e no curso de formação dos novos agentes do grupo OV. Pude acompanhar as atividades em desenvolvimento na escola, colhendo dados em meio a conversas informais, individuais ou em pequenos grupos. A observação desses alunos pesquisados no contexto da escola também foi muito significativa.
2.3 Entrevistas – O objetivo das entrevistas foi captar os sentidos construídos pelos sujeitos: as impressões, a memória e avaliação da experiência. Significados objetivos e subjetivos para a compreensão da experiência no contexto pedagógico. Por ela pude perceber as diferentes concepções dos atores, no momento e retrospectivamente. As categorias de análise foram aparecendo à medida que se organizava o material, principalmente os relatos subjetivos dos atores principais. Como a tarefa de registrar se antepôs à análise, não foi objetivo dessa pesquisa, captar opiniões externas para estabelecer contraposições. Todos os entrevistados são ou foram participantes ativos.
Utilizei instrumentos abertos, flexíveis e, algumas vezes fechados para obter informações específicas. Também e, principalmente, me utilizei da captação de diálogos nos processos de interação. No início, devido a minha implicação, tive a preocupação de elaborar esquema semi-estruturado, porém, com o tempo pude verificar que eu poderia em casos específicos conduzir entrevistas abertas com foco no tema pesquisado. O fato de conhecer os professores e suas maneiras de ser facilitou à escolha do instrumento mais apropriado.
Alguns relatos foram tão densos que dispensaram a fase de entrevistas. Alguns acréscimos ainda puderam ser feitos via internet pelos autores.
No grupo de alunos que realizaram o curso de formação do OV, a coleta se deu, tanto pelas conversas cotidianas e avaliativas ao longo das atividades previstas no curso, quanto por meio de entrevistas individuais e em pequenos grupos.
2.4 Análises de documentos – Em termos de cultura escolar é o documento que legitima a própria existência da instituição, mesmo reconhecendo que o currículo real transcende os documentos. Foram analisados documentos que podiam fornecer dados de análise significativa para a questão: os documentos orientadores de EA para o ensino formal de nível médio; normas e orientações pedagógicas e administrativas que influenciaram a realização da experiência; o PPP da escola, projetos e planejamentos de oficinas e de atividades interdisciplinares; além de dissertações de mestrado realizadas sobre o projeto e a escola. Houve também a necessidade de analisar documentos recentes sobre os temas polêmicos envolvidos no movimento político: circulares, relatório de sindicância, atas.
2.5 Fotos/Vídeo – Consegui fotografar e filmar os principais acontecimentos da escola no período. O material foi gravado em DVD para tratamento posterior.