2. CONCEPTUAL AND THEORETICAL FRAMEWORK Introduction Introduction
2.1. The Concept of CSR/Social Responsibility
2.1.4. Labor Market, Business Environment and Regulatory Framework
Pedro Demenech
Doutorando em História Social da Cultura (PUC-Rio) Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro Rua Marquês de São Vicente, 225, Gávea
22453-900 - Rio de Janeiro - RJ Brasil
Resumo
Este artigo analisa a trajetória intelectual de Ángel Rama (1926-1983), crítico uruguaio, nos anos setenta. Quando lança La generación crítica 1939-1969, em 1972, projetava escrever um segundo tomo, pois o livro tem o subtítulo “I. Panoramas”. Entretanto, jamais trabalhou nele novamente e isso é sintomático neste trabalho. No único livro dedicado à cultura de seu país, o Uruguai, Rama analisa os problemas no tom de nostalgia, notando que uma cultura de felicidade individual e confiança no Estado se desintegra. Surpreendido pelo golpe de Estado de 1973, Rama não pôde retornar à terra natal. Exilado, aprimora seu trabalho de crítico literário que já na década sessenta era reconhecido em Marcha e projetos coletivos de integração cultural, como na Casa de las Américas do governo cubano. Com a quebra de continuidade com seu passado, trabalha na criação da Biblioteca Ayacucho, em 1974, quando projeta uma história aberta ao futuro.
Palavras-chave
Crítica; América Latina; Cultura.
Abstract
This paper analyzes the intellectual trajectory of Ángel Rama (1926-1983), an Uruguayan critic from the 1970’s. When he issued La generación crítica 1939-1969, in 1972, he intended to write a second volume, since the book’s subtitle is “I. Panoramas”. However, he never worked on it again, and this is symptomatic in this work. In his only book dedicated to his country’s culture, Rama analyzes nostagically the problems, noting that an individual-happiness culture with confidence in the State vanishes. Surprised by the1973 coup, Rama could not return to his homeland. In the exile, he improves himself in his work as a literary critic, which already in the 1960’s was recognized in Marcha, along with cultural-integration collective projects like the one in the Casa de las Américas, from the Cuban government. With the discontinuity of his past, he worked in the foundation of the Ayacucho Library, in 1974, when he planned a history opened to the future.
Keywords
Criticism; Latin America; Culture.
Recebido em: 30/8/2015 Aprovado em: 18/2/2016
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* Este artigo conta com apoio financeiro da CAPES. Agradeço aos tradutores Wladirmir Cazé e Marcelo Rouanet por revisarem as traduções no artigo e, também, ao meu orientador Ricardo Benzaquen de Araújo (PUC-Rio), a professora Maria Elisa Noronha de Sá (PUC-Rio) e Gustavo Naves Franco (UNIRIO) que leram e comentaram a primeira versão deste texto, parte da pesquisa que realizo no doutorado.
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Aspiração e nostalgia
No ano de 1972, Rama lança La generación crítica 1939-1969, uma reunião de notas, ensaios e artigos escritos durante os 20 anos anteriores, como pode se constatar pelo levantamento bibliográfico feito por Blixen e Barroz-Lémez (1986, p. 208-09). O projeto de Rama seria escrever um segundo livro sobre o assunto, pois o livro tem como subtítulo “I. Panoramas”. Na nota introdutória, escrita em 1971, ele justifica: “Se o volume está numerado é porque aspiro em recolher, num segundo tomo, diversos ensaios, publicados e inéditos, sobre as obras e escritores do período que aqui se revisa panoramicamente e no próximo de forma monográfica” (RAMA 1972, p. 10).1 Entretanto, jamais voltou a trabalhar nessa questão e acredito que
isso é sintomático para este artigo.
Assim, no único livro dedicado sistematicamente ao estudo da cultura de seu país, o Uruguai, analisa os problemas no tom de nostalgia, lançando perguntas:
A pergunta que nos dirige o estrangeiro não é demasiadamente distinta da que vem formulando o homem comum uruguaio, embora este, obviamente, com maior desconcerto e emoção: Que aconteceu conosco? Por que nós chegamos a isto? Como foi que se perdeu aquele Uruguai? Como se acabou assim, tão de golpe, com bem-estar, o civilismo, a democracia? (RAMA 1972, p. 11).2
Todas essas perguntas são sinônimos para somente uma questão: o que ocorre com a cultura uruguaia? A percepção de um Uruguai sustentado pela felicidade individual e a confiança no Estado estava se desintegrando. Isso coloca em cheque a reforma social modernizadora conhecida como battlismo, iniciada pelo presidente José Battle y Ordoñez logo na primeira década do século XX, que produzia, ou ao menos, respaldava uma série de valores sociais que davam aos uruguaios a sensação de serem diferentes de seus vizinhos latino- -americanos, com cidadãos exemplarmente educados e instituições sociais e políticas democráticas – conhecido naquele momento por “Suíça das Américas”. Assim, a cultura cunhada no battlismo dava sinais de desgaste desde a década de 1950. Juan Fló3 escreveu que essa situação gerava observadores
hipercríticos sem que se tornassem agentes ativos na transformação social. Como consequência, esse criticismo, essencial à vida intelectual, teria produzido uma paralisia diante das circunstâncias instauradas. A visão de futuro para Fló seria a seguinte: “Se fosse possível fazer previsões, poderíamos dizer que nosso destino é salvar nós mesmos como exceção ou indivíduos. Nenhum de nós, já
1 No original: “Si el volumen está numerado es porque aspiro a recoger, en un segundo tomo, diversos ensayos, éditos e inéditos, sobre las obras y escritores del período que aquí se revisa panorámicamente y en el próximo en forma monográfica”. As traduções são minhas.
2 No original: “La pregunta que nos dirige el extranjero no es demasiado distinta de la que se ha venido formulando el hombre común uruguayo, aunque éste, obviamente, com mayor desconcierto y emoción: ¿Qué nos ha pasado? ¿Por qué hemos llegado a esto? ¿Cómo fue que se nos perdió aquel Uruguay? ¿Cómo se conluyó así, tan de golpe, el bienestar, el civilismo, la democracia?”.
3 Trata-se do ensaio Problemas de la juventud en nuestro país, de 1952, feito para um concurso organizado por
Marcha. Fló, com 21 anos, percebeu um problema do qual a intelectualidade uruguaia se ocuparia nas duas décadas seguintes, até o golpe de Estado de 1973. Anos mais tarde, Fló tornou-se professor de estética na
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que existimos somente como potência, tem a capacidade de justificar a vida cinzenta em que vivemos” (FLÓ apud GREGORY 2009, p. 7).
Fló, nessa análise, não oferece soluções nem grandes esquemas: ataca o individualismo como possível causa da paralisia. Porém, 20 anos após a publicação do ensaio, a sociedade uruguaia via seu estilo de vida ruir com a chegada da década de 1970, quando o presidente eleito, Juan María Bordaberry (1972-1976), tornou-se ditador.
Um historiador fez a seguinte observação no livro La conciencia histórica
uruguaya: “Uruguai, um país sem problemas, de repente tornou-se um país
problemático” (TORRES WILSON apud GREGORY 2009, p. 1). O espanto de Torres Wilson e os questionamentos de Fló nos levam até algo desejado com grande intensidade e que não se realiza. Esse fenômeno, que parece acontecer repentinamente, parece ser inexplicável: diagnosticam as causas, porém parecem estarrecidos com os acontecimentos. A narrativa sobre o Uruguai não mais existia ou já estava agonizando.
Deste modo, constatando também o problema, Rama formula o seguinte pensamento:
Quando o questionador da vez se afasta, podemos refletir um instante: nesse uruguaio, a pergunta pelas causas antecede, como absurdo e obsessivo ritornelo, a inquisição acerca do futuro, embora seja esta, obviamente, a interrogação que urge. Nessa inversão de prioridades tocamos o coração do desconcerto: a nostalgia de um paraíso idealizado, já perdido; a teimosia com que se saí a perguntar por algo que já não existe; o matiz desvalido ou rancoroso com que se pedem contas ao passado. Porque, agora, agora mesmo, se compreende o engano que se viveu e há todo um passado oficial que se revela como fraude (RAMA 1972, p. 11).4
A composição e diluição da cultura uruguaia estudada por Rama trazem a questão da desagregação da unidade nacional uruguaia. Aquele país do
battlismo se desgasta e as falhas econômicas e sociais expõem os problemas de
um sistema de valores no qual a sociedade fora alçada. Para Rama, o problema residia na incapacidade dos intelectuais uruguaios se articularem por mudanças sociais, enfrentando a ordem estabelecida. Entretanto, o próprio Rama, após Lá
Generación Crítica e o golpe, vai deslocando suas questões para a formação de
outra unidade, já que o Uruguai não poderia mais ser a síntese daqueles valores que ele defendia publicamente.
Segundo Blixen e Barros-Lémez (1986, p. 48), a partir desse momento a carreira e os projetos de Rama vão se desenvolvendo no exterior à medida que amplia e sistematiza seus horizontes e conhecimentos sobre a América.
4 No original: “Cuando el preguntante de turno se aleja, podemos reflexionar un instante: en ese uruguayo, la pregunta por las causas antecede, como absurdo y obsesivo ritornelo, a la inquisición acerca del futuro, aunque sea esta, obviamente, la interrogación que urge. En ese trastrueque de prioridades tocamos el corazón del desconcierto: la nostalgia de un idealizado paraíso, ya perdido; el empecinamiento con que se sale a preguntar por algo que ya no existe; el matiz desvalido o rencoroso con que se le piden cuentas al pasado. Porque ahora, recién ahora, se comprende el engaño en que se ha vivido y hay todo un pasado oficial que se revela como un fraude”.
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Uma vez na Venezuela, surpreendido pelo golpe de Estado no Uruguai, Rama trabalha como professor da Escola de Letras da Universidade Central da Venezuela5 e toma conhecimento de que não pode retornar à sua terra natal.
A partir da chegada dos militares ao poder, aquele Uruguai, fruto do battlismo, foi desmantelado pelo próprio Estado – que governou a partir do estado de exceção, suspendendo a ordem democrática. Esse evento põe um ponto final na cultura em que Rama se formou.
Rama abandonou o que deveria ter sido o segundo tomo de La Generación
Crítica, porém, em seus estudos sobre o Uruguai encontramos as chaves que
lhe auxiliam no estudo da cultura na América Latina. Nesse sentido existe uma passagem do nacional ao continental na obra crítica de Rama. E, embora as dificuldades, Rama vive, nesse período, um momento intenso de produção intelectual e se coloca na condição de intelectual latino-americano. Segundo Peyrou (2007, p. 27), o exílio se transforma num acicate que impulsiona seu vigor intelectual.
Com o futuro desmantelado, faz sentido que a nostalgia se manifeste, afinal, um passado sólido se desmontou. E a forma com que Rama o analisa nos revela outra face sua atuação: a trágica. Assim, o juízo de Rama está próximo da reflexão de Rosset (1989), em Lógica do Pior, que considera o enfrentamento da realidade como a impossibilidade de reverter a ordem estabelecida. Entretanto, esse é o paradoxo dessa lógica: reconhecer o impossível é a possibilidade de pensar o impensado e estabelecer um discurso à margem do oficial. Rama, então, se volta para a revisão dos valores sociais em que foi criado e estabelece uma busca por um equilíbrio social que permanece instável.
Essa face trágica de Rama contrasta com aquele passado idealizado, que se lança cegamente em direção ao futuro. Quando Rama e sua vida são brutalmente transplantados, ele se obriga a criar elementos que lhe auxiliam numa direção oposta ao paraíso perdido de La Generación Crítica. O transplante de uma terra a outra, acredito, contribuiu ainda mais para a articulação que Rama faz entre sua história pessoal com a da América Latina.
Insatisfeito com o presente, Rama enfrenta e experimenta uma ruptura tanto material como simbólica com o passado uruguaio, encerrado pela consciência de não poder voltar para casa. Nesse período começa a escrever um diário que o acompanha durante seu desterro. Desvinculado de sua terra natal, abre o diário, em primeiro de setembro de 1974, da seguinte forma:
Nesta idade, normalmente, se redigem as memórias. Na falta delas, me decido por uma anotação de diário, nem público nem íntimo. Com os perigos do solilóquio (esse enrarecimento da vida do ser deslocado de seus eixos naturais) mas também com os benefícios da subjetividade, particularmente num ser humano que sempre procurou substituí-la pelas coordenadas intelectuais ou comunitárias (trabalho, movimentos políticos).
[…]
5 No levantamento de Blixen e Barros-Lémez (1986, p. 48), constata-se que Rama dava, nesse período, três cursos: Estrutura da poesia latino-americana, Introdução à simbologia e A novela breve de Juan Carlos Onetti.
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Tudo tem a ver com essas feridas secretas, ou essas obssessões e temores que me acompanham desde sempre, vivos e irresolutos, e que pedem uma consideração (RAMA 2008, p. 43-44 passim).6
Acredito que o diário escrito por Rama ajude a mapear as principais questões de seu pensamento crítico, pois segundo Rosa (2009, p. 39) esse texto serve como ferramenta para pensar e acompanhar tanto o desenrolar de questões pessoais de Rama como fatos que marcam a história da América Latina. Nesse sentido parece que Rama opta pela produção de um futuro. Quando viu que aquele tempo e espaço uruguaios se fecharem no horizonte, restou-lhe abrir outros que não seriam encerrados por questões políticas. A política é cada vez mais deslocada para o âmbito da cultura, pois lhe possibilita incorporar o inesperado a sua própria narrativa pessoal.
Poderíamos contar, também, com a análise de Pachet sobre diários íntimos, ao abordá-los como uma narrativa que se passa fora do tempo histórico regular (PACHET 1990, p. 9), pois não são produzidos por regras sociais que regulam a atuação de quem o escreve. Porém, essa característica pode ser temporária, já que um diário publicado passa a integrar e interagir com a obra de quem o produziu. Assim, diante das dificuldades que cercam o indivíduo, o diário pode ser um “instrumento de aperfeiçoamento moral”, lugar de trabalho da alma (PACHET 1990, p. 13).7 A origem dessa prática é religiosa,
embora, com fenômeno de secularização moderna passe a se proliferar entre os sujeitos que procuram se singularizar perante a massificação que atinge a sociedade, principalmente, após a Revolução Industrial. Porém, diferente de quem se confessa, o escritor de diários não segue estritamente práticas e ritos regulados por valores religiosos. O diário é, então, como um barômetro que registra acontecimentos, escolhas, percalços, entre outros fatos, que são incorporados ou não pela alma. Deste modo, o diário é capaz de medir a consciência e criar uma unidade que pode vir a ser incorporada na história.
O diário íntimo seria uma metonímia do seu escritor. A construção de um diário é, geralmente, atrelada às experiências do sujeito, mesmo que não haja um compromisso efetivo com a verdade. Funciona como um depósito de
souvenires, que garante autenticidade às experiências de quem o escreve, pois
sua narrativa passa a estar vinculada com a do escritor que, a partir dela, procura urdir a reflexão interna com os eventos exteriores do seu cotidiano.8
O escrutínio das feridas secretas reabertas por Rama deve ser entendido como um lançar-se ao futuro. Diferente da concepção que vislumbra o presente enquanto prolongação do passado, quando uma memória se atualiza, o sentido é outro: a lembrança do diário está mais próxima da aspiração de se aventurar,
6 No original: “A esta edad, normalmente, se redactan las memorias. A falta de ellas, me decido por una anotación de diario, ni público ni íntimo. Con los peligros del soliloquio (ese enrarecimiento del vivir al ser desgonzado de sus naturales quicios) pero también con los beneficios de la subjetividad, particularmente en un ser humano que siempre ha procurado reemplazarla por las coordenadas intelectuales o las comunitarias (trabajo, movimientos políticos). […] Todo tiene que ver con esas heridas secretas, o esas obsesiones y temores que me acompañan de siempre, vivas e irresolutas, y que llaman a una consideración”.
7 O termo “alma” designa o movimento que o indivíduo sente acontecer dentro de si, um aflorar da subjetividade na medida em que ele está se conectando ao mundo.
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afinal, o passado não aparece mais como província segura.
Manter as feridas secretas abertas à consideração, deixar elas vivas e irresolutas. Ora, essa preferência soa estranha quando se procura a solução viável aos impasses. Não parece ser esse o caminho escolhido por Rama, afinal, seus questionamentos nem íntimos, nem públicos apontam para direção oposta à resolução. Resistir ao conflito, incorporar suas experiências e lições e organizá- -las numa narrativa são alguns dos trabalhos realizados por Rama.
Essas reflexões de Rama são próximas da elaboração que Stewart (1993) tece sobre a narrativa, vista como estrutura de desejo capaz de inventar seus objetos para se distanciar deles, logo que são inscritos num intervalo daquilo que se deseja e do que é desejado – o futuro frustrado pela indisposição do passado em deter-se no presente.
Na verdade, uma busca vã: a entrada no paraíso, já perdido; a teimosia cínica de sair perguntando por algo que já não existe; pedir rancorosamente que o passado preste contas. Nada disso, aliás, auxilia no trabalho de cicatrização das feridas, apenas as esconde sob a instabilidade do presente. Rama, então, tentando acertar-se com o passado, aproxima-se da nostalgia da perda e da aspiração do que pode ganhar. Para isso, Stewart (1993) dá o nome de doença
social da nostalgia e diz que não há cura, mas a localização de seu sintoma
pode inscrever a relação numa narrativa de possível origem para o objeto que se deseja (no caso de Rama, a América Latina).
A palavra longing, do inglês, é a pedra-de-toque dessa relação. Para Stewart, seus significados estão relacionados ao desejo ardente, às fantasias
extravagantes das mulheres durante a gravidez e ao pertencimento. Entretanto,
traduzida para o português, pode ser entendida simultaneamente como saudade – desejo de reavivar algo que já se passou – e aspiração, enquanto vontade de realização. A saudade dirige sua força ao passado, a aspiração para o futuro. Assim, quando o desejo ardente não se realiza, o futuro torna-se passado: um futuro passado que, segundo Stewart, é adiado na origem e no fim da narrativa que o engendra. A localização do que seria o desejo está subordinada a uma formação histórica.
É o absurdo e obsessivo ritornelo daquele desconcerto uruguaio de La
Generación crítica quando o futuro é interrogado por Rama que, também, está
presente em sua alma:
Viver na insegurança, de um dia para o outro, sem saber o que será do amanhã, como num incessante colapso. Não consigo acostumar-me. Toda a cultura uruguaia de meus anos se edificou contra essa situação, construindo um quadro vigoroso e planificado destinado a instaurar a segurança. Vi-o desfazer-se como uma rede mal tecida. Deixou-nos todos flutuando no vazio. A mim com a sensação constante de viagem por desfiladeiros pedregosos entre cataclismos, faíscas que explodem, terra que se racha, ar seco, perigos e emboscadas inevitáveis. Dessa condição é possível que proceda a resignação com que me vejo seguindo adiante, com calma ou inconsciência, com indulgência (RAMA 2008, p. 51-52).9
9 No original: “Vivir en la inseguridad, al día, sin saber que será de uno mañana, como en un incesante derrumbamiento. No consigo acostumbrarme. Toda la cultura uruguaya de mis años se edificó contra esa
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Recusar o presente pode parecer insanidade, mas não é essa a questão de Rama. Quando o destino vigoroso e planificado se rompe, o elo com o passado é desfeito. Assim, o desejo ardente, de que fala Stewart, vai sendo ressignificado: o conjunto de fios que sustenta a rede da narrativa uruguaia, agora à deriva, se desfaz. Entre as desventuras, uma escolha: enfrentar a circunstância e transcendê-la tanto material como simbolicamente à medida que outra narrativa é tecida. A reconstrução da história, nesse caso, repete-se como diferença. Recolocando seu desejo no mundo e se reposicionando, Rama vai, aos poucos, reformulando aquilo que lhe escapou.
Como no conto “O Aleph”, de Jorge Luis Borges, quando o narrador se depara com uma pequena esfera que o coloca no “lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do orbe, vistos de todos os ângulos” (BORGES 2000, p. 693), mas sem que o passado possa ser recuperado. Nesse aleph, o tempo está sujeito ao espaço, tornando-se história quando o presente se desfaz – como sucede com o diário de Rama.
Assim, quando as fantasias extravagantes estão próximas da aspiração, remetem a um lugar idealizado de origem, uma paisagem intocada pelo homem. Implicam uma separação entre a realidade biológica (o útero, a origem) e a
realidade cultural que dá sentido à narrativa, como a maternidade que inscreve
o ser humano no mundo. A existência de uma anterioridade permite a cultura se