A alternância segundo o modelo integrativo ou interativo apresenta uma aventura pela educação e formação sistêmica, pela sua complexidade organizacional e a valorização da experiência, condições fundamentais para que haja uma formação plena na interface prática-teoria-prática. Nesta perspectiva Jean-Claude Gimonet nos apresenta, através da experiência das “Maisons Familiales Rurales” da França, um texto “Alternância na formação: Método pedagógico ou novo sistema educativo”, onde ele compreende a alternância integrativa com sete componentes ou invariáveis em ação, quais sejam:
“1.No centro do debate: a pessoa em formação, ou seja, o alternante. Que ele seja adolescente, jovem adulto, ou adulto. 2.O projeto educativo subentende as ações de formação, dá-lhes sentido tanto do ponto de vista de cada alternante quanto da instituição. Trata-se aí, em outros termos, do sub- sistema de pilotagem. 3. O lugar da experiência sócio-profissional no mesmo tempo como fonte de saber, ponto de partida e de chegada do processo de aprendizagem e funil educativo. 4. A rede de parceiros co- formadores nos diferentes espaços-tempos da formação, porque a alternância leva à partilha do poder educativo. 5. O dispositivo pedagógico enquanto sub-sistemas de gestão e de operacionalidade da formação. 6. Um contexto educativo criando as condições psico-afetivas, garantindo a qualidade de vida, um clima facilitador das aprendizagens e da educação. 7. Os formadores e outros atores educativos responsáveis da animação do conjunto e que supõe um estatuto e papéis específicos” (Gimonet, 1998, pp.1-2). Não vem ao caso agora detalhar cada um dos componentes que dão o corpo potente da alternância integrativa, enquanto sistema educativo e não um simples método pedagógico. Vamos através de Pineau, apresentar brevemente o trabalho de André Geay que escreveu uma obra: “L’ écolle de l’ alternace” (1998) e propõe uma “alternância estudo/trabalho de acordo com um sistema interface de 4 dimensões: institucional, didática, pedagógica e pessoal, com uma engenharia específica para cada pessoa.”
Sistema Trabalho Sistema Escola Sistema interface em 4 dimensões - Institucional - Didática - Pedagógica - Pessoal - Lógica de produção e utilização dos
saberes.
- Relação com a finalidade ao saber (projeto profissional).
-Estratégia de aprendizagem “ primeiro a experiência depois a compreensão ”. - Aprendizagens experienciais.
- Lógica de ensino e aquisição de saberes.
- Relação ao saber em si (projeto de estudo longo).
-Estratégias de aprendizagem « primeiro a compreensão, depois a experiência ”. - Aprendizagens formais.
(Fonte:Geay A., 1998, p.35, citado por Gaston Pineau, 2002, apostila de uma palestra na UFES)
A “dimensão institucional da alternância” supõe o desenvolvimento de uma parceria da escola com a família, empresas numa co-responsabilidade da formação com equivalência de valor. Cada aluno deve desenvolver o seu projeto de vida, baseando-se em estudos e estágios ou trabalho concreto. Há uma exigência de um componente a mais na formação que são os mestres de estágio que supõe uma parceria contratual com cada empresa que acompanha e se torna co-formadora. Então, o projeto da escola intenta acoplar e acompanhar projetos individuais que devem emergir, pois os alternantes são atores num meio sócio profissional concreto e, portanto, também devem ser atores na escola. O projeto educativo de um coletivo acolhe os projetos singulares e propõe desenvolver e integrar uma pedagogia da pessoa e da cooperação
A “dimensão didática” propõe um outro jeito de ensinar e aprender partindo de um método indutivo que vai do concreto ao abstrato. Um procedimento de formação inverso à dialética escolar clássica. Ela parte da experiência, da profissão com combinação interdisciplinar. Ela só pode assim ser aplicada por uma engenharia de equipe pedagógica com intervenções alternadas e co-animadas numa rede de parceiros que interagem numa relação de complementaridade.
A “dimensão pedagógica” necessita de uma aproximação entre os saberes e a profissão, entre um professor e um mestre de aprendizado ou tutor. Daí uma engenharia da exploração da experiência e de acompanhamento com dupla tutoria, por um tutor mas também pelo professor. A “dimensão pessoal” refere-se à autonomização do alternante numa ótica de
produção de saberes e do aprendizado da gestão de seu tempo pela engenharia da pesquisa e da autoformação (Pineau, 2002).
Quadro 14 – Por uma engenharia de percursos de formação e profissionalização em
Alternância
Dimensões da alternância Engenharia da alternância
“Nível institucional” - parceria Escola-Família-Comunidade - Empresa
- co-responsabilidade equivalente - um projeto de formação da escola /projeto pessoal do alternante - competência
- contrato com parceiros co-formadores
“Nível didático” - prioridade da experiência sócio-profissional
- interdisciplinaridade -
uma estratégia de formação alternada
- uma equipe pedagógica co-responsável
- um trabalho em equipe
“Nível pedagógico” - pedagogia da partilha e da construção de saberes
- participação de co-formadores - - a experiência como lugar de formação um acompanhamento formativo em duplo tutorado
“Nível pessoal” - aprendizado pela produção de saber
- gestão do tempo com autonomia -
um trabalho de pesquisa em alternância
- um trabalho pessoal em autoformação
(Fonte: GEAY, A., 1998, p.57) [ grifos nosso]
Ao nosso ver, faz sentido uma apresentação, mesmo que esquemática, da concepção e da realização das diferentes dimensões da engenharia de percursos de formação e profissionalização em alternância, a partir do esquema de Geay (1998). É pertinente refletir sobre as inovações e a urgência de uma engenharia de competências para repensar as potencialidades da alternância como uma estratégia de formação numa perspectiva de autoformação e de reflexividade crítica e participativa entre os Monitores.
Conclusão ao capítulo
Um dispositivo pedagógico para a formação e profissionalização dos Monitores deve se colocar numa perspectiva de engenharia “percursos formativos” processuais, centrado numa pedagogia da personalização e da cooperação. A alternância integrativa como uma forma de formação em interface com a ação e a teorização, a autoformação, “os
procedimentos das histórias de vida, a importância da validação das experiências etc se inscreve nesse desenvolvimento da individualização e da ação coletiva.
A formação é apenas um dos elementos da construção da competência para ser Monitor. Outros elementos entram como contributos ao processo formativo como as situações de trabalho e as experiências extra-profissionais. A engenharia do contexto e dos percursos não se reserva unicamente aos espaços de formação, conforme já afirmamos, mas igualmente no âmbito das unidades de trabalho. Nasce assim uma idéia da comunidade educativa, da ação como lugar de formação, da experiência como lugar de formação etc. Ou seja, um conjunto de condições e possibilidades que permitem as pessoas agirem com competência, sem restringir-se ou depender exclusivamente de cursos nos espaços meramente formalizados.
Uma alternância realmente integrativa transcende a formação e os espaços formais consagrados como lugares de profissionalização. Trata-se de uma “engenharia do contexto” que fortalece a função “de apoio e de acompanhamento”. O indivíduo aprendiz situa-se novamente no centro do dispositivo pedagógico ou das situações criadas para facilitar aprendizagens que pode ser no local de trabalho ou em rede de intercâmbio. A formação pedagógica deve desenvolver-se numa alternância entre a formação formal e as situações de trabalho, através da qual cada Monitor constrói um percurso singular, mesmo situado num coletivo de formação.
Encerramos uma primeira parte deste trabalho contextualizando o terreno das práticas educativas por alternância, focando o Monitor e a formação, concluindo com um quadro teórico sobre formação e as alternâncias. A seguir, iniciamos uma segunda parte com o capítulo da problemática e metodologia, da análise e da reflexão sobre os percursos formativos dos Monitores.