A relação entre o agenciamento dos gêneros e a produção da subjetividade ocupa um lugar central nas reflexões sobre discurso e sujeito, fundamentadas na Análise do Discurso.
Embora as teorizações sobre gênero, cristalizadas pela tradição aristotélica, acentuem o caráter universal e peremptório do cânone literário, privilegiando, assim, os textos produzidos no campo institucional da literatura, é a noção de gênero de discurso, formulada por Bakhtin, no século XX, que se aproxima da AD francesa e dos interesses deste estudo. A partir de Bakhtin, os gêneros passaram a ser tomados como produtos da história e identificados como “tipos relativamente estáveis de enunciados, produzidos nas diferentes esferas da atividade humana” (BAKHTIN, 1992, p. 279).
Na base da formulação bakhtiniana de gênero, situa-se uma concepção de enunciação como produto da interação social, sócio-historicamente determinada, com a qual alguns fundamentos teóricos da Análise do Discurso dialogam. Situando-se na perspectiva da AD, Gregolin (2005) estabelece uma aproximação entre o conceito bakhtiniano de gênero e as categorias de interdiscurso e formação discursiva, desenvolvidas pela Análise do Discurso. Seguindo Gregolin, é possível concluir que, embora as reflexões sobre gênero não constituam uma categoria teórica na AD francesa, seus desdobramentos inscrevem-no em uma interface
com os conceitos de formação discursiva e interdiscurso, constituídos, respectivamente, por Foucault e Pêcheux, na teoria do discurso da AD. No âmbito das relações entre gênero e formação discursiva – que, embora compartilhem o estatuto de categorias reguladoras da discursividade, funcionam em instâncias distintas –, a autora assinala que:
a Análise do Discurso pensa o gênero a partir da idéia de formação discursiva, como espaço discursivo, uma forma de articular os conteúdos enunciáveis em certo momento histórico e que aponta para uma identidade enunciativa. Isso significa dizer que os textos que circulam no meio social obedecem a certas condições de organização, são necessariamente formulados em consonância com rituais discursivos que determinam sua enunciação e, por isso, eles refletem as características históricas – valores, crenças, conflitos – da sociedade em que são produzidos e nas quais circulam. (GREGOLIN, 2005, p.24-25)
Implicada na relação das questões sobre gênero com o conceito de interdiscurso, a noção de contexto social é ressignificada, em Bakhtin, transcendendo a acepção de situação imediata de enunciação, que desconsidera a determinação do discurso pela história e por uma memória sócio-discursiva. A esse respeito, lê-se em Gregolin (2005, p. 26) que:
ao apontar para um contexto mais amplo do que a situação imediata do enunciado, Bakhtin acena com a participação do interdiscurso, ou seja, da história e da memória, nem sempre explícitas na situação, mas sem dúvida participantes da produção dos sentidos. Do mesmo modo, tanto para Bakhtin, quanto para os teóricos da Análise do Discurso, o gênero discursivo está sujeito às coerções estabelecidas entre as diferentes atividades humanas e os usos da linguagem nessas atividades, ou seja, as práticas discursivas são determinadas por fatores socioideológicos.
A partir da articulação das categorias de gênero, formação discursiva e interdiscurso, é possível alcançar uma outra relação, situada no imbricamento dos campos discursivos com a produção das subjetividades. Concebidos como “lugares sociais organizados, reconhecidos
como portadores de fala” (GREGOLIN, 2005, p. 27), esses campos (literário, científico, político etc), em que se produzem as práticas discursivas, também constituem o que deve ou não ser enunciado a partir de um dado espaço institucionalizado. Conseqüentemente, os campos discursivos legitimam determinadas subjetividades, que são autorizadas a enunciar do interior desses campos. Todavia, nesse movimento de inscrição em um campo discursivo – em que o sujeito se engendra num lugar, social e institucionalmente constituído –, ocorre o processo de interpelação desse sujeito pela tradição e pelo cânone. A esse respeito, as reflexões deste trabalho convergem para a proposição de Gregolin (2005, p. 23) de que o gênero possa ser pensado como um dispositivo que pertence tanto à ordem do discurso, “no sentido de que contribui para o controle dos sentidos”, quanto ao plano de uma intertextualidade, “já que possibilita a interpretação por meio do acionamento de um cânone, de uma memória discursiva”.
Ao longo deste estudo discursivo de um corpus literário, não se perdem de vista as implicações do campo institucional da literatura para a produção do discurso e do sujeito, que aqui se problematiza. Todavia, dada a inexistência de critérios universais para o estabelecimento da literariedade, bem como a natureza discursiva deste estudo, considera-se, neste trabalho, a noção de campo discursivo, formulada por Maingueneau (2005) como componente da “tríade” universo/campo/espaço discursivo, que especifica a terminologia mais geral de interdiscurso. Do escopo dessa noção – que remete ao “conjunto das formações discursivas que se encontram em concorrência, delimitando-se reciprocamente na dimensão do universo discursivo” (MAINGUENEAU, 2005, p. 35) –, interessam a este estudo, sobretudo, as observações de que:
esse recorte em “campos” não define zonas insulares; é apenas uma abstração necessária, que deve permitir abrir múltiplas redes de trocas. (...) Como era de se esperar, a delimitação de tais campos não tem nada de evidente, não basta percorrer
a história das idéias para vê-los oferecer-se por si mesmos à apreensão do analista. Nesse nível, é forçoso fazer escolhas, enunciar hipóteses (...) esses campos não coincidem com um recorte empírico organizado em termos de autores (...) Não é possível, pois, determinar a priori as modalidades das relações entre as diversas formações discursivas de um campo.(MAINGUENEAU, 2005, p. 36-37)
Em resumo, apesar da diversidade e da fragilidade dos critérios definidores da literariedade, esta análise da produção do sujeito em Vintém de Cobre tematiza, a partir de algumas seqüências discursivas do corpus, as relações entre a construção da subjetividade e o agenciamento (por vezes, entrecruzamento) de gêneros no interior do campo institucional da literatura, em que esta prática discursiva se constitui. Nesse movimento, opera o deslizamento do plano da obra para o plano do discurso e instiga a discussão sobre as polêmicas travadas no processo de caracterização do objeto literário, como as que se apresentam a seguir.