A pesca artesanal, para as marisqueiras com quem conversamos, é um modo de
vida em que elas conjugam concepções de equilíbrio ambiental, maneiras de se
relacionar com a natureza de forma não predatória, preservando e procurando manter
estoques de peixes e mariscos para não sobre-explorarem a “coroa” e os pesqueiros. Implica também na articulação de redes de contato entre as marisqueiras e sua
freguesia na cidade e, também, com as próprias marisqueiras, tecendo laços de
solidariedade e cooperação entre vizinhas e familiares. Portanto, a pesca artesanal é
importante na constituição de modos de vida das marisqueiras em Ilhéus, garantindo-
lhes a sobrevivência de suas famílias.
As atividades da pesca artesanal lhes proporcionam uma autonomia e sensação
de liberdade para o trabalho na maré, rios e lagoas, possibilitando-lhes uma alternância
de ritmos de trabalho que conciliam as tarefas domésticas, na lida diária com os filhos, a
casa, e as atividades da mariscagem – coleta, “cata” do marisco e venda dos produtos nas feiras, ruas e outros estabelecimentos em Ilhéus.
A pesca artesanal pressupõe um baixo desenvolvimento tecnológico e uma
cooperação para a realização da atividade. Em suas narrativas, marisqueiras afirmam as
dificuldades e o esforço físico realizado por mulheres que catam o marisco nas “lagoas de dentro”, bem como a rudeza do trabalho.
Levantando-se antes da maré, Helena sai pelo quintal de sua casa, adentra o
mangue para embarcar numa canoa. Ela nos fala de sua experiência em ir à maré, com a
força e resolução de quem necessita do trabalho para a sobrevivência e manutenção de
sua família. Assim, sua narrativa é significativa dessa experiência de vida de mulheres
marisqueiras, mães solteiras e mulheres que assumiram funções de provedoras das
famílias, e tiveram na mariscagem uma garantia de trabalho e, mais do que isso, uma
profissão:
“porque para mim é uma profissão, né, porque todo marisco eu pesco.”74
Esta perspectiva da mariscagem ter se tornado uma profissão dá sentido à
experiência dessas mulheres que falam com orgulho como conseguiram lidar com as
dificuldades e preconceitos, superando-os e construindo espaços na pesca artesanal em
Ilhéus. Assim, Lúcia traz em sua narrativa a importância e a auto-afirmação enquanto
marisqueira, como um valor e um respeito conquistado:
“(...)sou independente, trabalho para mim mesma, e vivo do meu próprio suor. (...) e inclusive os meus documentos é tudo como marisqueira (...) e se me perguntam, qual é a minha profissão, eu falo, “sou marisqueira”, para mim, ser marisqueira é como se eu fosse formada (...)”75
Ao afirmar-se como marisqueira, valorizando os seus saberes e a sua experiência,
Lúcia se põe diante dos outros numa dimensão que busca colocar-se em pé de igualdade,
ou pelo menos este é o seu desejo. Quando fala dos saberes e conhecimentos necessários
à arte da pesca, compara sua experiência como um saber escolar, talvez afirmando-se
74 Entrevista com Maria Helena Castro dos Santos, realizada por Fabiana de Santana Andrade.
17/04/2006. Entrevista citada.
diante do pesquisador, um professor universitário, e ao seu público mais amplo, com
conhecimentos e saberes tão importantes quanto um diploma obtido na educação
formal.
Além disso, ao indicar que apresenta-se como marisqueira em outros espaços na
cidade, Lúcia enfrenta preconceitos e possíveis desqualificações por conta de ser uma
trabalhadora da pesca, uma marisqueira. Porém, ela faz questão de ressaltar a condição
de marisqueira, pois nos traz uma dimensão da formalidade dessa condição, posto que
seus documentos atestam esta condição. Assim, Lúcia sabe que a sociedade de classes
valoriza a cultura letrada e, dessa forma, indica ao mesmo tempo o caráter oficial, pois a
sua condição de marisqueira está nos documentos, registros formais, e a profissão de
marisqueira tem para ela um valor que lhe dá o reconhecimento formal, assemelhando-
se a um certificado, um diploma da escolarização que lhe foi negada.
A violência urbana é um dos problemas enfrentados por essas mulheres, que se
mostram valentes, fortes, corajosas, na condução de suas vidas. Pelos esteiros, dentro do
mangue, vão seguindo e construindo suas vidas, sobrevivendo e conquistando espaços
na cidade, respeito entre os pescadores mais velhos, lutando pelos seus direitos. Por isso,
procuram seguir acompanhadas de uma colega que também vai mariscar.
“É perigoso, ainda mais nessa maré agora (...). (...) uma vez que encontrei com quatro, todos armados, e eu passei no meio deles sozinha e não tenho medo (...).“... porque a gente tem que ter coragem para tudo nessa vida, porque não vou ter sempre uma irmã minha para ir pro mangue comigo ... então eu tenho que encarar é só.”76
Dona Tertulina também nos traz esta problemática, avaliando algumas mudanças
na pescaria, desde quando começou a trabalhar na “Coroa”:
“(...) a pescaria era bem melhor , porque hoje faz até medo você entrar dentro do mangue , você encontra aí vagabundo com dois ou três revólveres na mão, tá entendendo? Faz medo mesmo. É Deus que eles passa por a gente e não diz nada, às vezes ousa que ousa e diz: - Ó tia se você ver a polícia aí atrás perguntar de lá ele, num vai me entregar não, não vai me
76 Entrevista com Maria Helena Castro dos Santos (32 anos), realizada por Fabiana de Santana Andrade, na
dedurar não, se perguntar se viu fulano de tal pode dizer que não é... É muito difícil...é muito difícil a pescaria, muito difícil mesmo.”77
Para pescar, as marisqueiras saem de suas casas, no Teotônio Vilela, no Alto do
Mambape, e precisam percorrer grandes distâncias a pé, no meio do mangue. Seguem
pelos esteiros, sulcos de água formados pelas marés entre o mangue. Depois de
arrastarem os barcos ou canoas pelo mangue, chegam até o Rio do Engenho, e precisam
atravessá-lo para deslocarem-se até o local onde praticam a mariscagem, conhecido
como “Coroa”. Ao embarcar na canoa, a dificuldade ainda é maior, pois é preciso muito treino e experiência para manter o equilíbrio e ainda remar.
Na “coroa”, como é chamado o local onde os sedimentos estancam e formam um banco de areia e pedras, os “frutos do mar” s~o recolhidos com os materiais mais diversos e incompreensíveis ao mero comprador. As marisqueiras utilizam-se do jirau,
armadilha feita de feixe de cipó, onde o caranguejo ou o aratú entram e não conseguem
mais sair, servindo ainda de isca para a moréia, peixe apreciado pelo seu valor comercial
na cidade. Além desse tipo de armadilha, as marisqueiras utilizam-se de utensílios pouco
associados { pesca, como enxada ou faca, para cortar a ostra da “coroa”, e também da enxada para retirá-la quando está mais grudada no banco de sedimentos. O fruto do
trabalho é vendido nas bancas das feiras da cidade de Ilhéus.
Nesse sentido, o trabalho das marisqueiras é extremamente insalubre, pois além
de obter vários ferimentos resultantes do contato acidental com as pontas de mariscos
presos à rocha, a longa e constante permanência junto à água salobra produz
reumatismos.
Dona Júlia traz uma narrativa significativa deste esforço físico e das dificuldades
que as marisqueiras têm ao realizar o seu trabalho na maré:
“(...) ali precisa natureza para a pessoa resistir e é nessa posição que a pessoa se acaba.”78 A posição incômoda, quase sempre curvando-se para retirar o marisco, faz com
que a maioria das marisqueiras apresentem problemas de coluna, o que invariavelmente
provoca afastamentos temporários da coleta. Dona Júlia traz o elemento natureza como
um elemento em que as mulheres precisam dominar o próprio corpo, que está sendo
dominado pela natureza do ambiente em que trabalham, na maré. Às pressões que o
corpo sofre, provocado pela maré e o mangue, é preciso ter a mesma natureza, a
tenacidade e a força do próprio corpo, que resulta num esforço físico contínuo e
desgastante.
Obviamente, são problemas de saúde do trabalho que comprometem o
orçamento familiar, quase sempre obtido exclusivamente da pesca. Algumas pescadoras
e pescadores acreditam que a divulgação de suas atividades poderá facilitar-lhes a
obtenção do benefício da aposentadoria do INSS.
As marisqueiras utilizam-se quase sempre de instrumentos adquiridos no
próprio mangue, ou em “parcerias” com feirantes. Estes instrumentos apresentam um baixo ou às vezes nenhum custo para as marisqueiras. Dessa forma, utilizam-se de
variadas formas de armadilhas para realizarem a pesca na maré.
Estes apetrechos de pesca revelam o quanto as marisqueiras conseguem manter-
se fora dos circuitos da pesca industrial, ou mesmo a pesca comercial, realizada por
embarcações de 10 a 12 metros, com 4 a 5 pescadores, que se utilizam de entrepostos de
compra e venda de pescado, podendo ser subsidiados pelas colônias de pescadores
existentes em Ilhéus.
No caso das marisqueiras, elas podem realizar a pesca em moldes estritamente
artesanais, com os seus poucos recursos financeiros para a compra de redes de náilon na
confecção da redinha, ou mesmo utilizando-se de recursos do próprio mangue.
Há uma variedade de apetrechos de pesca utilizados pelas marisqueiras,
destacando-se as artes da pesca com a redinha, rede, tarrafa, monzoá, siripóia, tapisteiro,
linha e anzol, e outros para a extração do marisco na “Coroa”: enxada, faca, facão, colher de cozinha. Confesso que a primeira vez que ouvi, me pareceram instrumentos estranhos
para realizar uma “pescaria”, mas conforme os relatos, fui “entendendo” como as marisqueiras se utilizavam desses instrumentos para realizarem o seu trabalho.
Além desses apetrechos de pesca, há outras formas de obterem iscas para a pesca
do carangueijo, siri e dos guaiamuns, que também me pareceram interessantes. Para
pescarem o carangueijo e o siri, podem utilizar-se tanto de “ratoeiras” quanto de linha e anzol. No primeiro caso, Helena nos falou que fazia armadilhas com ratoeira quando
criança para pescar guaiamuns, no local onde moravam antes de mudarem-se para o
Teotônio Vilela.
No caso da pesca do siri, guaiamum e carangueijo com linha e anzol, utilizam-se
de uma isca encontrada no próprio mangue, chamada “almofada”. Trata-se de um pequeno crustáceo, que as marisqueiras espetam na ponta do anzol, e utilizam-no como
isca viva. Para realizar esta pesca, elas precisam adentrar no mangue, escolher um lugar
para realizar a pescaria e sentar. Para se protegerem dos mosquitos, passam óleo diesel
ou querosene nos braços, pernas e até no rosto. Estes produtos são tóxicos e
extremamente nocivos à saúde das marisqueiras.
Dona Júlia nos deu uma explicação sobre como se utilizam de alguns desses
apetrechos de pesca. Para pegar o camarão, utilizam-se da redinha. Para extrair o sururu
da areia, na “Coroa”, usam uma faca, para furar a lama. A ostra, retiram-na da pedra ou se está presa a um galho do mangue, com um facão, e um “cavador pra bater na pedra e
ela cair pra pessoa pegar ela, faca que amarra no facão”79; a enxada serve para cavar na
areia e extrair tanto o sururu, quanto o muapem. Na pesca com a redinha utilizam-se de
dois paus, obtidos no mangue, dispostos de forma a fazerem um cerco, amarrando-se as
pontas da redinha puxado por duas pessoas, para arrastarem os camarões no fundo do
mangue.
Numa ida a campo, em 2008, conversando com as marisqueiras do Alto do
Mambape, pude fotografar alguns desses apetrechos de pesca, inclusive a isca viva
“almofada”.
Foto 3 – isca “almofada” – setembro 2008
Esta isca viva é muito valorizada pelas mariqueiras. Conforme seus relatos, ela
pode tanto servir à pesca do guaiamum quanto de peixes, como o robalo, muito
apreciado e valorizado no comércio de pescado. Além desses apetrechos de pesca,
algumas marisqueiras e pescadores utilizam-se do monzoá, do tapisteiro e também da
siripóia.
O monzoá é também bastante utilizado pelas marisqueiras do Teotônio Vilela, e
tem utilidade na pesca de várias espécies de crustáceos e alguns peixes, como o robalo.
Pode ser utilizado para a captura do caranguejo, do guaiamum, do aratu e de peixes
como a moréia e também do camar~o “pitú” e o camar~o de |gua doce. Pode ser
construído a partir de madeira do mangue, ou mesmo de bambu em feixes. A amarração
forma uma armadilha onde os peixes que entram não podem sair. No entanto, ela
precisa de ser jogada no mangue ou no rio, e não pode ser deixada sozinha, pois é
preciso verificar se algum peixe caiu na armadilha para retirá-lo.
Temos uma foto dessa armadilha, o monzoá, feito a partir de varas de bambu.
Esta foto foi tirada no primeiro encontro que tivemos com o grupo de marisqueiras do
Teotônio Vilela, na casa de Dona Júlia e sr. Gileno.
Foto 4 “monzo|” – novembro de 2005
A foto mostra o “monzoá” fabricado pelas marisqueiras do Teotônio Vilela. Este apetrecho de pesca é feito de bambu, encontrado no bairro onde moram. Pode ser feito
também de outras varas, mas ao que parece, a forma do bambu já é uma adaptação da
armadilha. É possível encontrar outros tipos de monzoá. Quando estive em Barra
Grande, em 2006, pude perceber outros tipos de monzoá, feitos como se fossem cestos,
de palha trançada, bem maiores do que o monzoá construído pelas marisqueiras. O
monzoá tem várias utilidades, e depende do tipo de peixe e da arte da pesca que se quer
Dona Tertulina também nos “ensinou” o funcionamento de outros apetrechos de pesca, como a redinha:
“Porque a rede a gente já compra o pano feito, sabe? Não é como a tarrafa, a tarrafa tem que ter a pessoa pra tá costurando, tem o náilon. Mas nós não temos a tarrafa, mas a redinha. Ali quando abrir um buraquinho da pedra ou na ostra a gente bota um cordãozinho e fecha pro camarão não passar por aquele buraco.”80
A fala de Dona Tertulina revela múltiplas experiências e técnicas na mariscagem
em Ilhéus. Ao trazer o tema da manutenção da redinha, podemos perceber o quanto as
marisqueiras articulam modos de trabalho que não impliquem em custos inacessíveis
aos meios de trabalho da cata dos mariscos. Aproveitando-se de material encontrado
nos mangues e nos quintais, como o bambu, utilizando-se de redes que não exijam mão-
de-obra para a sua manutenção, ferventando os carangueijos e siris no próprio quintal,
com lenha obtida na mata para fazer o “catado”, que é a extraç~o da carne em filé, as marisqueiras não precisam recorrer a empréstimos financeiros ou mesmo subsídios
para a compra de equipamento para a mariscagem. Dessa forma, as marisqueiras podem
manter-se nas atividades da pesca, mesmo que sua produção seja artesanal e em
pequenas quantidades.
Já o grupo de marisqueiras do Alto do Mambape se utiliza mais da pesca com
vara e anzol, com a isca viva “almofada”, ou mesmo de enxada e facão para a extração da ostra, sururu e muapem. Há uma variedade de apetrechos de pesca para tantas artes da
pesca que os pescadores se utilizem. No caso das marisqueiras mais novas, as conversas
que tivemos sugerem que as técnicas mais utilizadas seguem os tipos de pescados mais
apreciados nas barracas e feiras da cidade de Ilhéus, como o sururu, o muapem, a ostra,
o guaiamum e o robalo, muito presente nas lagoas e mangues de Ilhéus. Este padrão de
consumo das barracas e dos turistas de veraneio da cidade atrai a pesca das
marisqueiras, por apresentar uma rentabilidade mais segura para a venda dos seus
produtos. Entre os artigos mais apreciados, estão o catado ou filé do caranguejo e siri.
A pesca artesanal é praticada por muitos pescadores e marisqueiras em Ilhéus de
forma muito simples, aproveitando-se dos recursos obtidos quase sempre no próprio
mangue, ou então em colaboração com feirantes, que lhes fornecem vísceras de peixe ou
frango para servirem como iscas. Em outro sentido, os apetrechos da pesca artesanal
também são obtidos com poucos recursos.
José Leonardo deixou uma frase que é significativa deste aprendizado e dessa
prática entre os pescadores artesanais. Ao responder o que caracterizaria a pesca
artesanal, ele respondeu: “é artesanal porque a gente usa as mão para pescar o peixe.” Essa dimens~o do “usar as m~os para pescar o peixe” é resultado da experiência e das vivências desses pescadores e marisqueiras, que aprenderam as artes da pesca com
seus familiares ou vizinhos, indo a campo, observando, praticando, utilizando-se do
corpo como principal instrumento de trabalho, uma continuidade de seu corpo, em
contato com o ambiente que retiram o seu sustento.
A descrição desses inúmeros apetrechos de pesca e formas de praticar a pesca
artesanal e a mariscagem nos mangues e rios de Ilhéus sugere que as marisqueiras
possuem um amplo conhecimento das artes da pesca artesanal. Este saber, provenientes
da experiência de vida e da sobrevivência na maré, revelam modos de vida das
marisqueiras, que vão aprendendo e se apropriando de territórios, ao mesmo tempo em
que vão imprimindo suas marcas nas atividades da pesca artesanal em Ilhéus.
A mariscagem tem se tornado uma alternativa de trabalho para muitas mulheres,
que encaram esta atividade como uma profissão, constituindo-se enquanto sujeitos,
construindo um campo de atividades e modos de vida femininos. Os homens podem,
eventualmente, praticar a mariscagem, mas em geral mantêm outras atividades e
pedreiros, carpinteiros, ou mesmo vigilantes. Foi o caso de um pescador com quem
conversamos, na Ponta da Tulha, que era ao mesmo tempo vigilante em uma construção,
e nos dias de folga praticava a pesca de calão.
As mulheres fizeram da mariscagem o seu meio de vida, a sua forma de
sobrevivência. Graças à possibilidade da alternância de ritmos de vida e trabalho que a
mariscagem proporciona, as marisqueiras puderam articular redes de comércio, pesca,
através de familiares, vizinhas, improvisando espaços e tecendo redes para as suas
atividades cotidianas. Dadas as condições de mulheres que são ao mesmo tempo mães,
filhas, viúvas, que conjugam o cuidado com as atividades domésticas e a mariscagem,
organizam ritmos de vida e trabalho na maré e nos rios.
A pesca de calão também é uma importante arte da pesca praticada por muitos
pescadores artesanais em Ilhéus. Ao defendê-la, Márcio Vargas81 e outros
representantes de colônias de pescadores na Bahia indicam tensões nos modos de viver
e trabalhar dos pescadores. Acuados pela especulação imobiliária e pela competitividade
da pesca em alto-mar, barcos equipados com aparelhos GPS e capacidade de
armazenamento durante vários dias em câmaras frigoríficas, os pescadores e as
marisqueiras percebem o avanço das novas formas de trabalho que pouco a pouco
poderão atingir suas atividades extrativistas. Assim, a defesa da pesca de calão, em
oposição à pesca industrial, reforça uma experiência que ainda é presente no cotidiano
dos pescadores e marisqueiras.
As narrativas dos entrevistados podem apontar diferentes referências, que os
narradores escolhem, no momento em que aceitam falar ao pesquisador. Assim, temos
v|rios “tempos” para a pescaria e tantos “lugares” de pesca. N~o tratarei destes lugares simplesmente como “pontos de pesca”, pois a relaç~o que os narradores mantêm com os
81 BARBOSA, Márcio Luiz Vargas. Entrevista realizada por Luiz Henrique dos Santos Blume em
lugares não é fixa, mas depende das marés, da quantidade de pessoas mariscando, de
suas preferências de tipos de mariscos ou peixes que pescam, se vão sozinhas ou em
grupos mariscar e, principalmente, daquilo que escolheram contar.
A quase totalidade dos pescadores “colonizados” em Ilhéus poderia ser incluída na modalidade de pesca artesanal. Conforme Diegues & Arruda (2001, p.162):
“Essa categoria de população não-tradicional está espalhada pelo litoral em rios e lagos, e tem seu modo de vida assentado principalmente na pesca, ainda que exerça outras atividades econômicas, como o extrativismo vegetal, o artesanato e a pequena agricultura. Embora sob alguns aspectos possa ser considerada uma categoria ocupacional, os pescadores, em particular aqueles chamados artesanais, têm modo de vida peculiar, sobretudo os que vivem de atividades pesqueiras marítimas.”
Tais pescadores e marisqueiras têm como particularidades um ritmo de vida
destoante do trabalhador industrial e um conhecimento próprio construído pela ligação
direta que mantêm com o ambiente dos mares, rios, lagoas e mangues. Além disso, as
organizações das atividades cotidianas não destoam da organização do trabalho. Assim,