(...) um povoado sem trem nem cheiro de banana (...) mas com um rio. Um povoado ao qual só se chega por lancha. (MÁRQUEZ, 2007)
Imaginemos um pequeno povoado alocado em algum lugar da América do Sul. Onde? Não sabemos ao certo, pois não é especificado, mas suponhamos, por razões óbvias, que seja alguma cidade interiorana da costa atlântica colombiana. Márquez situa a sua intriga num espaço geográfico muito particular. O cenário da obra assemelha-se bastante ao fictício e legendário mundo de Macondo51 onde o autor tem localizado a maioria de suas obras. Sabemos que não é Macondo, a partir de algumas falas no romance, por exemplo: quando o Padre Ángel se recorda do “manso Antonio Isabel Santísimo Sacramento Del Altar Castañeda
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Literatura e os roteiros são feitos de palavras. É a linguagem verbal que os constitui, embora cada qual apresente maneiras particulares de veiculares seus conteúdos.
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O local ficou conhecido, sobretudo, a partir de Cien años de soledad (1967). O autor menciona a cidade fictícia pela primeira vez, em La hojarasca, seu primeiro romance, publicado em 1955.
52 y Montero”, (MÁRQUEZ, 2010, p.49) um padre de Macondo. E também quando o autor relata a história do único hotel do povoado e nos revela que “el propio coronel Aureliano Buendía, que iba convenir en Macondo los términos de la capitulación de la última guerra civil, durmió una noche en aquél balcón”. (MÁRQUEZ, 2010, p.57)
Os acontecimentos da história parecem ocorrer num intervalo de tempo, na verdade, uma trégua de um conturbado momento entre a guerrilha, um período conhecido em toda Colômbia como La violência. Sabemos que é dia de São Francisco de Assis, “Martes cuatro de octubre”. (MÁRQUEZ, 2010, p.05) Esse dado situa temporalmente a história, que vai até “Viernes, 21 de octubre (...) Santo Hilarión”. (MÁRQUEZ, 2010, p.206) O ano e o século mantêm-se indefinidos.
Circunscritas ao redor de uma praça central, as construções senhoriais denotam ter havido, ali, momentos de progresso. Todos vivem encerrados em suas vidinhas, não há clima para otimismo. O povoado se converteu num local muito pouco acolhedor devido às tensões em torno das lutas políticas. Neste contexto, Garcia Márquez dispõe, ao longo da narrativa, uma variedade de personagens (videntes, donos de circo, dentista, músicos, padres, soldados, donos de terras, os desvalidos), tipos que se circunscrevem e gravitam em torno dos três pólos de autoridade tradicionais, a Igreja, o Estado e o poder econômico. De um lado, o alcaide52, o violento e corrupto tenente (prefeito) que enriquece abusando do poder que detém para lograr os menos favorecidos socialmente; de outro, o padre Ángel, pároco que vive convicto que pode salvar seu “rebanho” enquanto procura instilar princípios morais num povoado tolhido pelo temor de ter suas “verdades” escancaradas; e os fazendeiros e comerciantes abastados, como os Asís e Montiel e Dom Sabas, que têm um nome a zelar.
A luta vem simbolizada pelos pasquins – bilhetes anônimos – que surpreendem os moradores ao ‘delatarem’ traições, injúrias, corrupções, filhos bastardos, entre outras coisas. A fim de revirar a imobilidade em que vive aquela gente, os papeluchos funcionam como um meio de sacudir a modorra que paira no local. Trata-se de denúncias sobre a vida privada dos cidadãos. Fofocas da vida alheia que não revelam senão aquilo que já era do conhecimento de todos.
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É interessante ressaltar que as personagens garcíamarquezianas não se encerram em suas histórias. Elas transitam, podendo aparecer em outras histórias do autor. A personagem alcaide, por exemplo, antes de La mala hora, aparece pela primeira vez no conto Um dia desses (do livro de contos ‘Os funerais da mamãe grande’). A diferença é que neste conto, o alcaide se humilha para pedir ao dentista que arranque seu dente ‘siso inferior’. No livro, ao invés de humilhar-se, invade a casa do dentista (seu inimigo de governo) com policiais armados, e obriga-o a arrancar o dente.
53 O fato é que, embora não seja revelado o autor, a função desses papéis na narrativa é mostrar ao leitor que, por debaixo da aparente imobilidade, vive um povoado em tensão, como que assentado sobre um lamaçal. O anonimato do(s) autor(es), a profusão dos papeluchos que tornam vulneráveis e violentos os cidadãos que têm algo a perder, gera medo e desconfiança na população.
Os panfletos imorais e os panfletos policiais/políticos (notícias sobre o governo que circulam pelas mãos de alguns moradores) se sobressaem na estrutura do romance. A busca pelos autores dos volantes e o castigo aos culpados é a mola mestra do romance. Tanto é que o alcaide, vendo-se impotente para suprimir os bilhetes, chega a tomar uma atitude extrema, ao pedir para Cassandra (a vidente) 'tirar as cartas' para ele. Em busca da resposta, a misteriosa vidente responde-lhe: “es todo el pueblo y no es nadie”. (MÁRQUEZ, 2010, p.152)
A investigação empreendida pelo alcaide acaba servindo como um pretexto para impor um estado de sítio53 no local, e, diante da oportunidade, passa a efetivar um plano de corrupção, visando enriquecer ainda mais rapidamente. Dentre os vários exemplos em que podemos perceber a imposição do alcaide sobre a população local, há uma passagem muito marcante que é o momento quando ele – que nunca costumava ir à barbearia – resolve entrar no estabelecimento e lá se depara com um letreiro pregado na parede que diz: “Prohibido hablar de política”. (MÁRQUEZ, 2010, p.118) Indignado com o cartaz, afirma “ – aquí el único que tiene el derecho a prohibir algo es el Gobierno. Estamos en una democracia.” (MÁRQUEZ, 2010, p.118)
A história vai sendo apresentada por um narrador em terceira pessoa, que descreve aquilo que vê, como uma espécie de câmera, ao nos apresentar de maneira objetiva (poucas intromissões) os acontecimentos, colocando-nos dentro da cena. O escritor faz uso de uma linguagem clara, concisa, destacando cada detalhe das ações e dos ambientes, e, de maneira sutil, critica fortemente as instituições existentes naquele local (muito provavelmente a
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É o instrumento através do qual o Chefe de Estado suspende temporariamente os direitos e as garantias dos cidadãos e os poderes legislativo e judiciário são submetidos ao executivo, tudo como medida de defesa da ordem pública. Para a decretação do estado de sítio o Chefe de Estado, após ouvir o Conselho da República e o Conselho de Defesa Nacional, submete o decreto ao Congresso Nacional a fim de efetivá-lo. O estado de sítio poderá ser decretado pelo prazo máximo de 30 (trinta) dias, salvo nos casos de guerra, que poderá acompanhar o período de duração da guerra. Poderá ainda ser decretado quando ocorrer casos extremos de grave ameaça à ordem constitucional democrática ou for caso de calamidade pública. Disponível em: http://www.direitonet.com.br/dicionario/exibir/153/Estado-de-sitio. Acesso em 10/02/2013.
54 Colômbia de 1958), discurso que se coloca de maneira implícita/subjacente e assim alcança um poder descritivo que vai do regional ao universal.
É pela via de diversos episódios que o narrador nos apresenta com detalhe as ações dos habitantes. E, para dar conta de um relato que engloba a vida de vários personagens, a história é-nos apresentada a partir de uma estrutura fragmentada, muito parecida com os takes cinematográficos. Os personagens são lacônicos, a trama é ambígua e os personagens são vistos quase sempre de fora, muito pouco sabemos de seu interior. É um romance feito também de silêncios. Nada nele é explicitado. Somente pistas a respeito dos acontecimentos e suas possíveis causas nos são fornecidas.
A impressão que temos é de que, à medida que seguimos com a leitura do romance, duas histórias concorrem na mesma narrativa: uma mais objetiva, em que tudo parece funcionar na mais absoluta ordem (o mecanismo do povoado funcionando com precisão, controle moral e político etc.), e outra, que segue na linha mais profunda, subjacente, na qual as situações apresentadas não são exatamente aquilo que aparentam ser. Causando assim um forte efeito de dualidade e ambiguidade na narrativa.
O romance apresenta-nos um enredo denso, com um total de 34 personagens. A história caracteriza-se principalmente pela unicidade da ação narrativa. O personagem de destaque é o coletivo (o povo): “não há herói individual; a coletividade é o protagonista, ou melhor, a violência, que aparece por detrás das mentiras em que vive mergulhada a cidade”. (JOZEF, 2005, p. 278) Embora saibamos que a coletividade está colocada em primeiro plano, não podemos deixar de pensar que há um personagem que tem um peso maior nesta narrativa. O vilarejo é dominado pela figura ameaçadora, violenta e sombria, do alcaide. Este personagem ganha destaque, pois é ele quem toma as decisões sobre o vilarejo. Ele faz sua própria lei, nem que para isso tenha que matar, ameaçar, chantagear.