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The 2 Basic Types of Capitalist Organization Models

5. RESULTS AND DISCUSSION

5.4 L IMITATIONS OF THE A NALYSIS

Para obter uma verdade qualquer sobre mim, é necessário que eu passe pelo outro.O outro é indispensável à minha existência, tal como, aliás, ao conhecimento que eu tenho de mim.

Sartre, L’Existentialisme est un

Humanisme

O individuo não cria sozinho os significados dados aos fenômenos biológicos que vivem. Eles estão inscritos em uma cultura na qual interagem, compartilhando com os demais suas experiências de vida, significando tudo o que os envolve, numap perene criação e recriação do seu mundo.

“Desse ponto de vista, a experiência subjetiva da vida sexual é compreendida, literalmente, como sendo um produto dos símbolos e significados intersubjetivos associados com a

sexualidade em meios sociais e culturais diferentes.”

(PARKER, 2000).

Aqui se reitera novamente a incoerência de se entender a sexualidade humana como algo natural, eminentemente biológico, estritamente relacionado aos instintos ou a pulsões, desvinculado dos aspectos que interagem no ambiente socia;l, por exemplo, a cultura particular do seu povo, sua situação financeira dentro dessa sociedade, os preceitos religiosos que o influenciam e suas crenças. Não se pode negar que existem redes de influências com as quais esses indivíduos interagem e que assumem uma importância vital no seu cotidiano, culminando por produzir todo um arsenal de significações simbólicas que regem suas vidas. Uma visão redutora do sujeito, porém, tem levado a Ciência Médica a funcionar apartada das reflexões que deveriam levar a se considerar a multidimensionalidade dos sujeitos e os contextos em que vivem como determinantes importantes que vão ser constituidoras do modo como a dimensão biológica é vivida. Gagnon e Simon (1973) referem-se ao assunto nestes termos:

(...) “nesse sentido, é menos importante entender o

comportamento individual do que entender o contexto das interações que são, necessariamente, sociais e que envolvem negociações complexas entre indivíduos.

Os significados coletivos, por sua vez, são passiveis de modificações por parte dos sujeitos, pois também são um produto deles e estão sujeitos a mudanças na sua estrutura, visto não se tratar de algo absoluto, rígido.

O sentido, pois, relacionado à sexualidade e às praticas sexuais são culturalmente variados, embora possa ser corrente o fato de que as práticas sexuais são algo dado pela “natureza”. É dentro de uma concepção de “natural” que se inscreve muito do que é preconceito, discriminação e marginalização. Nessa construção social das práticas sexuais, por exemplo, no caso da AIDS, há forte concepção que tende a considerar somente como normais ou legítimas as práticas genitais heterossexuais. Para Parker (1991), as outras práticas comumente adquirem uma conotação negativa, entre elas o sexo anal, o sexo oral e as relações homossexuais.

O aspecto da discriminação resulta por invadir o universo erótico das pessoas, podendo tornar-se mais excitante pelo seu caráter social de proibição. Portanto, a compreensão de que esses valores estão presentes na sociedade orientam para um enfrentamento mais coerente da epidemia.

Aceitar a experiência subjetiva da vida sexual humana pode resultar, portanto, para muitos, em um grande problema a ser abordado no caso da AIDS. O modelo histórico patriarcal, no Brasil, por exemplo, exacerbou o arbitrário das situações educacionais a que sempre se estive submetido. A consideração desses aspectos resultaria em propostas mais condizentes com as necessidades de ultrapassagens na realidade cultural.

B) A construção social das práticas sexuais possui conteúdos que acompanham o dinamismo das culturas.

O dinamismo das mudanças sociais mostra a interferência e a inter-relação de variadas dimensões do ser humano. Na medida em que vão surgindo transformações sociais, pois, os sujeitos vão dando forma nova, mutante a esses significados sobre a

vida e a sexualidade. As questões econômicas, religiosas, culturais, entre outras, vão interferindo substancialmente na forma de agir das pessoas, na sua relação com o outro e com o mundo.

Os conteúdos dados às interpretações do mundo vivido modificam-se. A utilização dos instrumentos de prevenção das AIDS , que são aspectos de práticas sexuais, logo funcionam como uma prática social que vai produzir modificações na vida sexual dos grupos onde se situam esses sujeitos.

O uso do preservativo masculino era utilizado há alguns anos como um instrumento de evitação de filhos, sendo amplamente sugerido à mulher como a alternativa ao planejamento familiar. Com o advento da AIDS, ele reapareceu em cena como um dos instrumentos mais importantes na prevenção da epidemia, sendo amplamente divulgado nos meios de comunicação de massa, passando a ser discutido nas escolas, universidades e nas mais diferentes esferas da sociedade. Usar a camisinha passou a ser fundamental na vida sexual das pessoas: homossexuais, heterossexuais, promíscuos ou não ,foi e continua sendo um tema polêmico de discussões entre a Igreja, os cientistas e ativistas sociais. A fixação e a necessidade imperiosa do uso do preservativo parece estar levando, todavia, a uma abordagem reducionista da problemática em foco.

No contexto onde se dão as relações sexuais, o preservativo aparece, pois, como

instrumento mediador que se relaciona com o poder na relação: ele passa a ser alvo de negociação na relação entre os parceiros sexuais. A mulher, que historicamente sempre

foi passiva nos jogos de sedução da relação sexual (embora isso venha mudando de um modo vertiginoso), passa a protagonizar o controle da natalidade e, agora, do preservativo, mesmo masculino, conforme se pôde constatar nesta pesquisa. Isso

certamente leva a modificações na conduta íntima entre os parceiros da relação heterossexual e, mesmo, na conduta explicitada nas relações sexuais.

Anteriormente, a mulher estava sujeita ao uso dos contraceptivos orais, ao uso do diafragma, à laqueadura tubária – ações que protagonizava, independentemente do parceiro masculino. Mesmo que o ato de evitar filhos por estes meios parecesse ser uma decisão do casal, a responsabilidade sempre recaía na mulher, Brasil. Com o aumento do uso do preservativo, sobretudo após as campanhas contra a AIDS, observa-se (como se atesta nessa pesquisa) um reaquecimento de algumas práticas sexuais reivindicadas em nossa comunidade, como o incentivo às chamadas preliminares das relações sexuais. Isso parece chamar a atenção para o aspecto da necessidade do homem de excitar-se “mesmo com a parada para colocar a camisinha” e , então, a necessidade de contar com a mulher para isso aparece de um modo mais marcado como também a necessidade, mesmo indireta, no caso, da parceira alcançar o prazer sexual.

O aspecto abordado, do prazer vivido pelas mulheres, segundo apontou esta pesquisa, desperta também desconfianças acerca da fidelidade conjugal. Já as alterações da sensibilidade genital no ato sexual, para alguns, decorrente do uso do preservativo, se revestem de um ritualismo capaz de interferir no desenrolar da relação. O preservativo então toma a cena como instrumento de intermediação na relação sexual, esfera onde se desenvolve uma série de interações, permeadas por significados em mudança, que se constroem no entrechoque das relações culturais, de gênero e de poder.

C) As práticas sexuais que são práticas sociais são vividas por sujeitos multidimensionais.

“As línguas não falam, só as pessoas”.

Paul Ricoeur.

Mauss (1974), em seu livro As Técnicas Corporais, defende a idéia de as manifestações corporais serem fenômenos sociais. Aponta, nos seus estudos, a ampla variedade de modos de sentir e viver os fenômenos ligados à sexualidade. Mostra que, por exemplo, a aparente escolha de um parto de cócoras ou um parto realizado em hospitais, feita pelos diferentes grupos humanos, decorre de intenso processo educativo e de significações construídas em longos períodos históricos.

Os estudos de gênero têm percorrido caminhos semelhantes, ao tentarem “desnaturalizar” o que antes parecia algo “da natureza do feminino”. Se gênero é uma construção social do sexo, será importante perceber como muito do que se disse da “natureza” do feminino pertence à ordem da cultura. Os estudos sobre gênero tentaram, pois, ver o quanto de opressão se ocultava no que se convencionava dizer ser da “natureza da mulher”.

Weeks (apud LOURO; 2001: 41) tece uma crítica ao fato de uma antiga tradição dos sexólogos tentar perpetuar a idéia da passividade feminina (vista como “natural”) e da dominância da sexualidade masculina, vista como naturalmente “ativa”. Nos termos de Weeks (op.cit.: 41):

“Os sexólogos freqüentemente perpetuaram uma tradição antiga, que via as mulheres como “o sexo”, como se seus corpos

estivessem tão saturados de sexualidade que nem havia necessidade de conceptuá-lo. Mas é difícil evitar a sensação de que, em seus escritos e talvez também, em nossa consciência social, o modelo dominante de sexualidade é o masculino. Os homens são os agentes sexuais ativos, as mulheres, por causa de seus corpos altamente sexualizadas ou apesar disso, eram vistas como meramente reativas.”

Além, pois, de se fazer a crítica das idéias de “naturalização” das construções sociais do sexo, também não se pode desvincular o sexo das outras dimensões culturais e sociais que estão interagindo com a biológica.

Também um outro tipo de discussão, a da psicossomática, enfoca a não separação do que é orgânico do que é mental. Diz-se comumente que uma pessoa tem algo no corpo ou na mente. Traz-se freqüentemente este assunto nestes termos: “fulano tem algo no físico; não é criação mental, não.”

Mesmo com avanços, a psicossomática parece ter ficado atrelada a um dualismo corpo-mente. Dejours (apud CASTELL; 1994:61), na tentativa de superar este dualismo, resulta por reduzir tudo a corpo, o psicossoma sendo uma espécie de funcionamento do corpo no nível da psique :

“Não há separação a fazer entre algumas doenças do corpo, que seriam mais psíquicas, e outras, também do corpo, que o seriam menos. As doenças somáticas são doenças do corpo que, na maioria das vezes, têm lesões orgânicas. Não é a doença que é psicossomática e sim a abordagem clínica e teórica. (...) Não

existem, portanto, nem doenças psicossomáticas nem doentes psicossomáticos ou, então, se fizermos questão dessa denominação diremos, o que dá na mesma, que todas as doenças são psicossomáticas assim como todos os doentes.”

Como se tem insistido, a sexualidade é vivida no seio de uma cultura que alberga aspectos mutidimensionais, originados de construções históricas que emergiram como fenômeno social e não somente como resultado de uma elaboração essencialmente naturalista. Por multidimensionalidade entende-se uma conceptualização do sujeito que comporte a ordem organísmica (biológica), a desejante e a cognitiva (desejo, inteligência e organismo). Ao se falar em ordem desejante (LINHARES; 1999), incluí- se nela a ética, a moral, a religiosa, a política, a afetividade, a econômica e a sociocultural.

Os fenômenos biológicos, pois, vividos e significados por sujeitos sociais, multidimensionais, são fenômenos que estão a exigir, no movimento da sua compreensibilidade, um olhar também multidimensional.

III METODOLOGIA

População:

O contingente desta pesquisa reúne, profissionais médicos e enfermeiros que trabalham na Unidade Básica de Saúde César Cals, no bairro Planalto Pici, em Fortaleza-CE, onde funcionam cinco equipes do PSF. Essas foram das primeiras a serem implantadas no Município de Fortaleza e seus profissionais apresentam maior estabilidade comparativamente aos profissionais de outras equipes. As populações com as quais essas equipes do PSF atuam apresentam um elevado índice migratório de

pessoas que vêm de todo o Estado à procura de melhores condições de vida e trabalho na Capital, Fortaleza.