Podemos analisar a qualidade de vida a partir da forma em que é percebida pela pessoa. Daí que caiba o levantamento das situações ou contextos nos quais ela se vê inserida, e tudo isto, segundo Keinert e Karruz (2002), deve estar em relação com os fatores psicossociais decorrentes da satisfação ou insatisfação das suas necessidades. Trata-se de uma temática que engloba não só a pessoa, mas sim a multiplicidade de instituições e agentes que podem se relacionar de forma interativa.
Segundo Mandlhate (1996), Moçambique é um país que herdou da época colonial uma psiquiatria asilar de instituições religiosas. Desde a independência de Moçambique em 1975, somente foi no ano de 1988, que se começou a pensar na criação de uma estrutura que organizasse, dinamizasse, coordenasse e supervisasse as ações de saúde mental, o qual culminou com o fato de, o Ministério da Saúde (2004) assinalar o ano de 1990 como a data da criação do Programa Nacional de Saúde Mental, trazendo á tona um contexto que evidencia um estado atual de coisas precário neste setor de serviços, com fortes conseqüências sociais.
Porém, com essa decisão, a melhoria da qualidade de vida se tornou em um dos objetivos operacionais na prevenção terciária, no âmbito da prestação de cuidados, dentro das estratégias do programa acima preconizado.
No contexto social de Moçambique é extensamente notória a difícil condição de vida da maioria das pessoas portadoras de deficiência mental em geral e, inclusive das pessoas portadoras da SD, chegando-se ao extremo de vê-los em situação de desamparo social e de pobreza. Esse desamparo não só é devido à falta de apoio institucional para o fornecimento de cuidados, mas também é motivado pelo não cumprimento do papel que se esperaria das instituições sociais. Em alguns casos, deve-se a própria questão da responsabilidade familiar, que não é reforçada com a facilitação de apoio em informação e outras ações adequadas de cuidados.
Em fenomenologia o existir humano é dado pela totalidade, constituída entre a pessoa e o mundo. Isto leva-nos a uma concepção de qualidade de vida, como
sendo a apreensão que a pessoa tem da experiência vivida, não em separado, mas em unidade com o mundo.
Forghieri (2004) focaliza seu estudo sobre a personalidade, a partir da questão da existência do ser humano. Com o devido rigor inspirado no método fenomenológico, descreve a personalidade desde suas características básicas, sustentada em dois planos: o filosófico e o psicológico. No plano filosófico destaca aspectos invariáveis da existência. No plano psicológico destaca como sendo características, algumas variações que se manifestam na existência concreta.
As características básicas do existir humano costumam manifestar-se de modo paradoxal na experiência cotidiana de vida. Esse fato pode ser colocado em relação à questão da satisfação das necessidades pessoais dentro de um contínuo, um aspecto tido em consideração quando se estuda a QV que, se defronta com as vicissitudes que configuram esse existir.
A mesma autora faz notar que, certos eventos tornam notória a existência de fracos recursos pessoais ou de restrições das condições externas de vida das pessoas. Mas, isto pode em si constituir um estímulo para que as pessoas busquem formas de atualização. Desde que reconheçam claramente as suas limitações, torna- se possível transcendê-las. Assim, a interface entre psicologia e fenomenologia é possibilitada pela consciência, determinada pelas características individuais ligadas à personalidade, a qual pode ser entendida como sendo:
“... o conjunto de características do existir humano, consideradas e descritas de acordo com o modo como são percebidas e compreendidas, pela pessoa, no decorrer da vivência cotidiana imediata e tendo como fundamento os seus aspectos fenomenológicos primordiais” (FORGHIERI, 2004, p. 26).
A percepção que a pessoa tem, sobre as mudanças do seu estado anterior comparadas ao seu estado atual, pode facilitar a tomada de consciência sobre as suas limitações. Torna-se importante compreender até que ponto essa pessoa edita a sua situação atual, da qual, repetimos, se atualiza continuamente pela tomada de consciência, tal como ocorre com as progenitoras desse estudo, referente à como elas processam as suas experiências desde o momento do diagnóstico.
Portanto, uma abordagem qualitativa da QV em situações tendentes à cronicidade pode se alicerçar em um enfoque fenomenológico “que busca dar sentido ao dado de pesquisa diante das condições ambientais e históricas em que foi produzido” (COSTA NETO e ARAÚJO 2008, p. 205-206).
Assumimos deste modo que, as ações concorrentes para a melhoria da qualidade de vida da pessoa e sua família frente à doença crônica, passam por uma permanente atribuição de sentido, a fim de compreenderem os significados que essa doença lhes acarreta. Esse processo de percepção pode jogar um papel importante, na medida em que, possibilita o seu fortalecimento psicológico perante a doença.
No capítulo I, que trata sobre a fenomenologia, emerge a questão da linguagem. Merleau-Ponty em sua obra com o título “Sobre a fenomenologia da linguagem” apresenta uma compreensão construída em base na análise de que, o fenômeno da linguagem, como corpo do pensamento, se apresenta como sendo um modo original de visar certos objetos.
Para este autor, a linguagem se constitui na “operação sem a qual os pensamentos permaneceriam fenômenos privados, e graças à qual adquirem valor intersubjetivo e, finalmente, existência ideal” (MERLEAU-PONTY, 1975, p. 320), para uma constatação promotora do papel do psicólogo, em atitude fenomenológica de compreensão de si, baseado em sua unidade atual com o objeto de pesquisa e possibilitando contextualizações.
“A língua reencontra sua unidade do ponto de vista fenomenológico, isto é, para o sujeito falante que usa sua língua como meio de comunicação com uma comunidade viva” (MERLEAU-PONTY, 1975, p. 320).
Nesse papel, em que o psicólogo usando da linguagem como instrumento principal diante do seu objeto de estudo, se abre a possibilidade de subjetivação do que se lhe apresenta objetivamente pelas experiências vividas. Portanto, nesse processo não só se desvela o pesquisado, mas também se pode revelar o papel do psicólogo em atitude fenomenológica, tendente a buscar uma compreensão sobre o objeto pesquisado e compreender-se a si mesmo, em um processo que vise uma construção simultânea de significados.
CAPÍTULO V OBJETIVOS