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T RANSNASJONALISME ELLER INTERNASJONALISME ?

4 FAKTA OG KRISETID

4.3 T RANSNASJONALISME ELLER INTERNASJONALISME ?

A mulher trama, imagina, engendra sonhos e deuses. Em certos dias, é vidente; tem a asa infinita do desejo e do sonho. Para melhor contar os tempos, observa o céu.

Jules Michelet – A feiticeira

―– Diacho – exclamou Tia Rigby – traga uma brasa para o meu cachimbo. (...) Fique por perto, Diacho, para o caso de eu precisar de você‖ (HAWTHORNE, 1964: 100). Assim começa o conto ―Cabeça de Pena: Uma Lenda Moral‖, escrito em 1846, também por Hawthorne. Nele, a personagem que dá nome ao conto é um espantalho, que ganha vida através dos poderes de uma poderosa bruxa: Tia Rigby. Rigby é mais um exemplo que reforça nosso argumento de que a antiga representação ambivalente – em que estavam presentes tanto o positivo quanto o negativo – foi

substituída por uma representação unicamente negativa. Representação essa que desvaloriza, despreza e desfigura o feminino e o coloca como força antagônica ao universo masculino, sempre positivo.

Tia Rigby não é dependente como Faith, nem é comparada aos anjos do céu. O epíteto carinhoso que a qualifica – tia – é ressignificado: de uma conotação positiva, ele passa a ser negativo, denotando os poderes ocultos que ela possui. Rigby também não possui a beleza da jovem esposa de Goodman Brown; ao contrário da ambígua Faith, não sobram dúvidas de que ela é verdadeiramente uma bruxa:

Ora, a Tia Rigby (como toda gente ouvia dizer) era uma das mais astutas e poderosas bruxas da Nova Inglaterra, capaz, com muito pouca canseira, de fazer um espantalho feio bastante para assustar o próprio ministro. Mas, nessa ocasião, como acordasse de uma maneira desusadamente agradável, e fôra, além disso, amansada pelo tabaco do cachimbo, resolveu criar qualquer coisa de belo, elegante e esplendoroso, de preferência a algo horrível e medonho. (HAWTHORNE, 1964: 100-1)

Mais uma vez, vemos a representação negativa da mulher construída por uma voz autoral masculina: quando ela possui poderes, os utiliza para o mal e mesmo quando faz algo de belo, seus motivos são ímpios. Aliás, a feiticeira não é capaz de fazer algo verdadeiramente belo, pois a beleza de sua criação é simplesmente uma ilusão. Assim é Cabeça-de-Pena: sua bela aparência esconde os materiais dos quais foi realmente feito:

Talvez seja bom enumerar os principais artigos que entraram na composição da ilustre figura. O artigo mais importante de todos, provavelmente, conquanto pouco ostensivo, era um certo cabo de vassoura no qual a Tia Rigby galopara muitas vezes no ar à meia-noite, e que agora serviu ao espantalho como coluna vertebral, ou, segundo a frase não erudita, como espinha dorsal. Um de seus braços era uma vara de malhar cereais, usada pelo bom homem Rigby antes que sua esposa o aborrecesse a ponto de expulsá-lo deste mundo de misérias; o outro, se não me engano, compunha-se de um pau de chouriço mais a perna quebrada de uma cadeira, frouxamente atados no cotovelo. Quanto às pernas, a direita era um cabo de enxada, e a esquerda, um pau irreconhecível, tirado a esmo do montão de lenha. Os pulmões, o estômago e coisas congêneres não eram melhores do que um saco de farinha entrochado de palha. Dessa forma descrevemos o esqueleto e a inteireza corpórea do

espantalho, com exceção da cabeça: e esta foi admiravelmente fornecida por uma abóbora um tanto murcha e enrugada, na qual a Tia Rigby abriu a faca dois furos para os olhos e uma fenda para a boca, deixando passar por nariz, bem no meio da cara, um caroço azulado. Era em verdade um rosto deveras respeitável. (HAWTHORNE, 1964: 101)

Percebemos que, além da descrição do espantalho, o narrador enumera algumas características de Rigby. Neste trecho temos a certeza de que ela comparecia aos Sabás, e que seu mau gênio levou o seu ―bom marido‖ à morte – mais uma vez temos presente a polarização homem-bom x mulher-má. Rigby fez com que Cabeça-de- Pena se parecesse com uma pessoa distinta para enganar Polly Gookin, filha de Mestre Gookin, presbítero da igreja. O interessante é que Rigby e Gookin são velhos conhecidos, mas esse fato não impede que a bruxa lhe prepare uma armadilha. Sua ―natureza diabólica‖ (HAWTHORNE, 1964: 106) é tamanha que não poupa nem seus amigos, nem sua própria criação. Rigby instiga Cabeça-de-Pena a obedecer às suas ordens, insultando-o e ameaçando-o. ―– Fume, desgraçado – gritou, indignada, – Fume, fume, seu coisa de palha e vazio! seu trapo, ou trapos! seu saco de farinha! seu cabeça de abóbora! seu coisa à-toa! Onde achar um nome bastante vil para lhe pôr? Fume, estou dizendo; e aspire junto com o fumo a sua vida fantástica! Do contrário lhe arranco o cachimbo da boca e atiro-o para aquele lugar donde lhe vem a brasa!‖ (HAWTHORNE, 1964: 106)

Após deixar a casa de Rigby, Cabeça-de-Pena dirige-se à cidade mais próxima, onde causa grande rebuliço. Os dois únicos habitantes da cidade que não ficaram impressionados com a nobre aparência de Cabeça-de-Pena e que mostraram ―possuir suficiente perspicácia para perceber a ilusória personalidade do estrangeiro‖ (HAWTHORNE, 1964: 115) foram um cachorro vira-lata e uma criança. Enquanto a ingênua Polly – estereótipo da mulher perfeita, ou seja, ingênua e frágil – fica tão deslumbrada pela altiva figura do espantalho, que nem percebe os olhares receosos de seu pai, obviamente mais esperto, como se espera de uma personagem masculina nos contos de Hawthorne.

Mas o plano de conquistar a jovem Polly não dá certo, pois ao mirar-se em um ―dos espelhos mais verdadeiros do mundo, incapaz de uma lisonja‖ (HAWTHORNE, 1964: 118), diante do qual também estava Cabeça-de-Pena, Polly Gookin vê a verdadeira aparência do espantalho e desmaia. Cabeça-de-Pena também olha para o espelho e vê ―não a fulgente imitação da sua aparência externa, mas o retrato do sórdido remendo de sua real composição, despida de qualquer feitiço‖ (HAWTHORNE, 1964: 118). Lembremos que o espelho32 (do latim speculum) simboliza a verdade, a sinceridade e a pureza; além de ser um símbolo da sabedoria e do conhecimento. De acordo com essa simbologia, podemos ―ver‖ através dele o verdadeiro conteúdo dos corações das pessoas e suas consciências. Ao ver seu verdadeiro reflexo no espelho, Cabeça-de-Pena, desesperado, volta para a casa da velha Rigby, atira o cachimbo contra o fogão, quebrando o feitiço e voltando a ser apenas uma ―confusão de palha e vestes esfarrapadas, com alguns paus apontando e uma abóbora murcha no meio.‖ (HAWTHORNE, 1964: 119-20)

A moral do conto – assim como do conto ―Young Goodman Brown‖, é de que somos facilmente enganados pela aparência, sobretudo a das mulheres; este ensinamento tipicamente puritano é apresentado pela Tia Rigby, que mostra sua sabedoria ao declarar que existem ―pelo mundo milhares e milhares de peralvilhos e charlatães que se compõem da mesma mixórdia de detritos e rebotalhos esquecidos e imprestáveis que entraram em sua composição. No entanto, esses têm bom nome, e nunca chegam a ver o que realmente são‖ (HAWTHORNE, 1964: 120). Por sua sabedoria – mais usada para realizar o mal – e poder de transmutar elementos, mesmo

32 No Japão, o Kagami, ou espelho, simboliza a verdade e a pureza da alma. No mito nipônico de Amaterasu, o espelho faz com que a luz divina saia da caverna e seja espalhada sobre mundo. É dentro dessa perspectiva que, na tradição indo-budista, o rei dos mortos Yama usa, para o julgamento, um espelho do carma. Na tradição védica, ele é um símbolo da duração limitada e sempre mutável dos seres. Na Ásia, o espelho mágico é utilizado como instrumento para a adivinhação. Segundo uma lenda, Pitágoras teria, como as feiticeiras da Tessália, um espelho mágico que ele dirigia rumo à face da Lua, para ver o futuro. No Congo, os adivinhos interrogam os espíritos salpicando um pó no espelho: os desenhos formados por esse pó, emanação dos espíritos, lhes dão a resposta. Já Platão e Plotino comparam a alma a um espelho, tema que foi mais tarde desenvolvido por Gregório de Nissa e Santo Atanásio. Na lenda sufista do Pavão, o espelho indica o terror que os seres humanos têm de conhecerem a

que aparentemente, Tia Rigby vincula-se com as bruxas do tempo inquisitorial. Lembremos que segundo os autores do Malleus, a ilusão é um dos artifícios mais utilizados pelas bruxas.

Assim como ―Young Goodman Brown‖, o conto ―Cabeça-de-Pena: uma Lenda Moral‖ nos oferece a oportunidade de uma interpretação diferenciada. Sob o nosso ponto de vista, Tia Rigby pode ser considerada uma mulher sábia, que usa seus poderes para demonstrar a hipocrisia dos cidadãos da pequena cidade visitada por Cabeça-de-Pena. Percebemos que nesses dois contos de Hawthorne, a mulher/bruxa (Faith e Tia Rigby) é um mero elemento narrativo que proporciona aos personagens masculinos a realização da trama narrativa: o amadurecimento, o crescimento do homem, que descobre a ―verdadeira‖ natureza dos homens, e sobretudo, das mulheres. Mais uma vez temos a representação negativa da mulher: as duas mulheres, além de serem personagens periféricas, são demonizadas pelo narrador: Rigby é velha e feia, enquanto Faith é fraca moralmente.

Em ―Cabeça-de-Pena: Uma Lenda Moral‖, também percebemos a representação bipolar do feminino. De um lado temos a Tia Rigby, velha feiticeira, disposta a enganar pessoas de boa-fé, e que resolve criar algo de belo por ter acordado em um ―estado desusadamente agradável‖ (HAWTHORNE, 1964: 101. Sem grifo no original). Do outro lado temos Polly, jovem inocente ―de suaves curvas, de cabelos louros e olhos azuis, e um rosto lindo rosado que diria não muito perspicaz nem muito simplório.‖ (HAWTHORNE, 1964: 115) Ao imprimir essa diferença entre as duas personagens, Hawthorne contribui para a consolidação da imagem polarizada do feminino. Rigby, inteligente e poderosa, mas velha, maléfica e feia bruxa e Polly, jovem bela, mas frágil e ingênua, representam, respectivamente, os polos negativo e positivo em que o feminino foi dividido na cultura patriarcal, da qual o discurso literário é um poderoso elemento constitutivo.

Essa representação bipolar, como dissemos, foi muito forte durante a época da Inquisição, como atestam não só a Literatura, como também a iconografia e outros textos da época. Faith, a mulher bela, porém traiçoeira e fraca moralmente; Rigby, a

mulher-bruxa que provoca o mal e se rejubila com seus atos vis, e Polly, a jovem- virgem-inocente, perfeita para o casamento. São essas as imagens, herdadas de tempos remotos, que povoam o imaginário de homens e mulheres. O término da Inquisição não significou o término dessas representações: elas serão a base para obras literárias e iconográficas posteriores, garantindo a permanência e reatualização dessas imagens. Seu reflexo pode ser sentido ainda nos séculos posteriores, assombrando e influenciando a vida, a moral e os pensamentos de milhares de pessoas até a atualidade.

III. UMA NARRATIVA EM SETE GERAÇÕES