2. LITERATURE REVIEW
2.3 L ABOUR MARKET POLICIES
A expressão “mito fundador” carrega em si o peso de ser uma construção ideológica que serve aos interesses e objetivos do grupo social que a fomentou. O mito, historicamente, trás a figura de personagens reais, representados de forma exagerada pela imaginação popular.
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Ao serem utilizados para justificar a origem, o começo de determinado povo, Estado e até mesmo de um cidade ou comunidade, eles passam a carregar em si, justificativas que são significadas e resignificadas com o passar do tempo, transformando-se em mitos fundadores.
Para a filósofa Marilena Chauí (2007, p.9), o mito fundador possui uma força que transcende o tempo. Segundo ela, esse mito:
[...] impõe um vínculo interno com o passado como origem, isto é, com um passado que não cessa nunca, que se conserva perenemente presente e, por isso mesmo, não permite o trabalho da diferença temporal e da compreensão do presente enquanto tal. [...] é aquele que não cessa de encontrar novos meios para exprimir-se, novas linguagens, novos valores e ideias, de tal modo que, quanto mais parece ser outra coisa, tanto mais é a repetição de si mesmo.
No caso da cidade de Londrina, sua história tem alguns ingredientes que a tornam não única, mas, de certa forma com especificidades que a diferenciam do padrão comum de desenvolvimento da maioria das cidades brasileiras. Como já apresentado a origem da reocupação do território, onde ela foi fundada, deveu-se a um empreendimento colonizador de capital britânico. O rápido desenvolvimento, por meio do sucesso da economia cafeeira, e consequente e espantoso crescimento populacional a transformaram, em apenas 20 anos, na década de 1950, no segundo mais importante polo econômico do Paraná. A multiplicidade étnica e de grupos regionais, na formação de sua população, tornaram a cidade e demais núcleos urbanos, de seu entorno, em um festival de sotaques e de culturas.
Esse processo de aceleração do tempo, representado pela história de Londrina, forjou alguns símbolos que impactaram nas narrativas sobre a cidade. Em comum elas elegeram a CTNP e o pioneirismo como mitos fundadores, mitos esses que passaram a justificar, na história local, suas celebrações e seus silêncios, seus heróis e seus esquecidos.
A construção da imagem da CTNP, como mito fundador, é explicada por ela justificar, a partir de seu plano racional de colonização, da fundação das cidades, da implementação e prolongamento da ferrovia e da sua participação no poder político local, como sendo a grande responsável pelas bases que propiciaram o desenvolvimento da cafeicultura e da cidade. Sempre é bom lembrar que a CTNP construiu um ideário de enaltecimento de seu empreendimento, em um primeiro momento, pelo trabalho de propaganda executado, desde a década de 1930, pelas páginas do jornal Paraná Norte e por publicações da própria Companhia, espécies de leituras e histórias de si. Já, em um segundo momento, por via
indireta, por meio das crônicas e publicações celebrativas, da cidade, que reforçaram o legado da CTNP e de seus personagens e da colonização inglesa para a história de Londrina.
Por sua vez, a figura do pioneiro, a que se consolida como mito fundador, está vinculada, primeiramente, à epopeia dos primeiros habitantes da cidade. Esta tradição de vencer a adversidade é apreendida e utilizada como herança pelos cafeicultores, das décadas de 1940 e 1950, muitos deles que somente chegaram à cidade depois da década de 1930. No plano das representações se construiu uma identidade transformando os cafeicultores e empresários da moderna Londrina em herdeiros históricos dos primeiros pioneiros.
Na década de 1950, o eldorado cafeeiro do norte do Paraná, proporcionou uma resignificação e uma abertura para a interpretação do ser pioneiro. Conforme aponta Arias Neto:
Nos períodos em questão – os anos do Eldorado – a representação do pioneiro portava um conjunto de significados distintos: ao mesmo tempo em que era identificado ao pioneiro norte-americano, era revestido da aura épico-mítica do bandeirante paulista, o que tornou possível a incorporação, em seu conteúdo, tanto da ideia do desbravador, como a do fazendeiro de café, representado também como um bandeirante moderno. Essas associações foram facilitadas e mesmo estimuladas pelo amplo significado do termo pioneiro, que é originário do francês – pionner – e quer dizer: militar, separador, explorador de sertões. (ARIAS NETO, p. 66)
A ideia do pioneirismo passou, dessa forma, a ser apropriada e (re)significada pelas elites londrinenses, no decorrer dos anos. A imagem que se perpetuou nas publicações comemorativas e de história, consideradas e referenciadas como sendo a história oficial da cidade, é a do pioneiro que “deu certo”. Aquele que enfrentou as adversidades dos primeiros anos de colonização e que triunfou, social e economicamente. É claro que este número de pioneiros bem sucedidos aumentou na década de 1930.
Como já relatado, comerciantes, cafeicultores, proprietários de empresas de ônibus, serrarias, dentre outros, também passaram a ser reconhecidos como pioneiros. Para seus descendentes o fato de serem filhos ou netos de pioneiros passou a ser utilizado como status social. Nas campanhas políticas para a prefeitura, mais que nascer em Londrina o fato de carregar um sobrenome de pioneiro transformou-se em importante aliado na idealização da imagem pessoal e avalizador da conduta do postulante ao cargo público, como que, pelo fato de carregar a ascendência pioneira no sangue, o colocasse em vantagem frente aos adversários, nascidos ou de ascendência de fora da cidade.
Esta prática de cultuar o chamado pioneirismo não é uma especificidade apenas de Londrina. Em muitas cidades, Estados e em outros países como Canadá e Estados Unidos é recorrente a existência do culto aos desbravadores, colonizadores ou fundadores.
Isto tem deixado marcas, seja em publicações relativas às suas respectivas histórias ou mesmo na formalização e constituição de seus lugares de memória. O fato é que, em Londrina, a questão do pioneiro, enquanto referencial de identidade histórica sempre foi muito forte. Ela ultrapassou o mero registro de participação na formação da cidade para se tornar onipresente na práxis do discurso da história local.
A questão do território, do local, é um dado importante para a construção da identidade de uma comunidade. O processo de ocupação e sua história tornam o espaço local em importante referencial da memória coletiva. A atuação da CTNP e dos pioneiros transformando este espaço que décadas depois se tornaria conhecido em todo o país, graças à produção cafeeira, acabou por vincular a memória local a uma amplitude nacional. Os monumentos e principalmente o Museu Histórico da cidade se encarregaram de dar uma dimensão maior ao seu significado, enaltecendo e celebrando as memórias de determinadas pessoas e grupos.
No início da década de 1970, José Maria de Andrade Andrade, então professor da Universidade Estadual de Londrina, desenvolveu uma pesquisa intitulada Ethos do Pioneiro. Sua preocupação estava em diagnosticar, do ponto de vista dos valores culturais da sociedade londrinense, o significado do pioneiro. A pesquisa também buscou analisar o discurso publicitário da Companhia de Terras que, ao fazer a apologia da história da colonização evidenciava o papel dos pioneiros nesse processo. Em artigo, publicado em uma revista acadêmica, o autor explicou que a motivação para o estudo do pioneiro, em Londrina, surgiu das referências que seus alunos lhes apresentavam sobre o tema. Citou dois exemplos:
A partir de 1974 começamos a dar atenção às referências e definições do que
seja pioneiro, como esta fornecida por uma aluna, filha de pioneiro: “A
classe alta é constituída dos que aqui chegaram e, corajosamente, desbravaram a terra, cultivaram-na e se estabeleceram, ficando num nível
superior aos que provieram”. Ainda como definição de pioneiro afirmava outra aluna: “A sua maior parte é constituída dos fazendeiros que acompanharam o desenvolvimento da cidade e sua colonização”.
(ANDRADE, 1978, p. 33)
Nas definições das alunas ficam claras as referências que se cristalizaram no imaginário da comunidade, com relação aos pioneiros. Primeiro o fato de que os pioneiros são
aqueles pertencentes aos segmentos sociais de maior projeção econômica e social, portanto os que venceram as adversidades, por meio do trabalho e, enriqueceram. E segundo a referência, ainda forte, da cafeicultura, como sendo o setor da economia local onde estariam alocados a maioria dos pioneiros que venceram, ou seja, os cafeicultores.
A força dessa representação, sobre o pioneiro, ficou tão enraizada e enfatizada, na história local, que acabou sendo oficialmente transformada em memória pública quando, em 1983, a Câmara Municipal de Londrina, por conta da proximidade do ano de 1984, ano do jubileu de ouro da emancipação política do município, aprovou a criação do “Dia do Pioneiro”.64
Em 1983 a comemoração ocorreu no dia 10 de dezembro, aniversário de Londrina já que a lei não definia o dia de comemoração da homenagem. Em 1984 uma nova lei formalizou a data de 21 de agosto, dia da chegada da primeira caravana da CTNP ao chamado marco zero de Londrina, como sendo o dia de comemoração oficial de celebração à memória dos pioneiros.
Anexo à lei, uma relação com os nomes dos pioneiros que haviam chegado à cidade até o ano de 1932. No cabeçalho da relação de nomes vinha a seguinte justificativa;
Nesta página, damos os nomes dos primeiros moradores de Londrina, autênticos pioneiros, que realmente desbravaram a mata virgem e enfrentaram todos os obstáculos possíveis para se fixarem nesta terra. Na relação constam os pioneiros que aqui chegaram até o ano de 1932. Fizemos um esforço muito grande para não omitir nomes, porém, pedimos excusas se porventura alguém deixou de ser citado neste trabalho. Os dados foram colhidos na Cia. Melhoramentos Norte do Paraná, com familiares dos próprios pioneiros e todas as fontes possíveis ao nosso alcance.65
Este cabeçalho é muito interessante. Primeiro por reforçar o mito de desbravadores, dos pioneiros, que enfrentaram o sertão inóspito e, em segundo, por mostrar que os arquivos da CMNP serviram como fonte, para o levantamento dos nomes a serem celebrados como pioneiros. Ao todo 169 nomes foram contemplados. Se considerarmos que Londrina, no ano de 1930 tinha uma população de 1.346 habitantes, podemos afirmar que grande parte daqueles que chegaram à cidade até o ano de 1932, não figuraram na lista de homenageados. E como já explicitado toda escolha pressupõe também uma exclusão. Ao se privilegiar e dar voz a determinadas memórias, silenciaram-se outras, que, em tese, igualmente tiveram importância para o processo histórico de formação da cidade.
64 Lei nº 3.573, de 25/04/1983, de autoria do vereador Oswaldo Caldarelli. Posteriormente, no ano de 1984, a Lei
nº 3.712/84 deu nova redação à Lei anterior, estabelecendo a data de 21 de agosto como o dia oficial da homenagem aos pioneiros da cidade.
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A efetivação da data, de celebração da memória dos pioneiros, no dia da chegada da primeira caravana, reforçou ainda mais o ideário do mito de origem de Londrina. O espaço do
marco zero, local de mata nativa, ainda preservada, e próxima ao centro da cidade, foi
transformado em lugar de memória, no ano do Jubileu de Ouro, em 1984, com a instalação de um monumento em homenagem àqueles que participaram da referida caravana, reconhecida como fundadora da cidade. As palavras, eternizadas, no monumento procuravam deixar claro que o nascimento da cidade começava ali:
Toda cidade tem seu berço ou deveria ter / Este é o berço de Londrina / Londrina nasceu aqui no dia 21 de agosto de 1929 / Da natureza altiva veio a água boa que aflora imensa; as árvores frondosas deram suas primeiras casas e a sombra amiga que conforta; os pássaros, na madrugada, entoam o canto da liberdade e do trabalho e, no poente agradecem a Deus o milagre da vida, renovado a cada dia. / Naquela data, em nome da Companhia de Terras Norte do Paraná, um punhado de homens aqui chegou e, com o coração cheio de energia e confiança no futuro, de joelhos, plantaram suas primeiras sementes. [...] 66
Gravado no monumento, os nomes de sete homens, chefiados por aquele que é reverenciado como o pioneiro de maior destaque da cidade, exatamente por ter chefiado esta primeira Caravana ao local de origem da cidade, George Craig Smith. Após a apresentação nominal dos sete técnicos da CTNP, com suas respectivas funções: engenheiro, topógrafo, empreiteiro, dentre outros, encontra-se a denominação “e outros”. Estes primeiros anônimos se juntariam a tantos outros milhares de personagens que passariam à margem dos principais registros da história local.
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Figura 5 Monumento "Marco Zero"67
Após ser inaugurado, o monumento do Marco Zero passou a ser visitado por escolares. Marlene Cainelli, docente do departamento de História, desenvolveu um projeto com crianças do ensino fundamental da rede municipal de ensino para visitar os lugares de memória da cidade. Com relação ao Marco Zero ela rememorou uma inusitada experiência relacionada à representação que algumas crianças faziam do monumento:
[...] Era um projeto de pesquisa e nós levamos as crianças lá no Marco Zero. Aí nós falamos primeiro sobre o Marco Zero que foi o primeiro lugar que chegou a caravana, primeiro lugar que aportou a caravana. (...) E o Marco Zero é aquela plaquinha, uma lápide, parece mais uma lápide de túmulo não é? Aí as crianças chegaram atentas, desceram todas, aí elas olhavam e
falavam: “Só isso?” Acho que elas estavam esperando aquela carruagem, a
caravana, o cenário montado em volta, aquela coisa. Outra professora levou lá
e uma criança começou a chorar na frente dizendo: “O Marco Zero foi enterrado aqui!” [risos] Havia várias crianças que achavam que o Marco Zero
era uma pessoa, que tinha vindo junto com a Caravana. De que o Marco Zero estava enterrado lá. De que morreu lá quando chegou. Elas criavam toda uma história. 68
O Museu Histórico de Londrina, que também fazia parte e ainda faz da rota de visitas de escolares, com o passar dos anos se notabilizou como sendo a instituição de memória onde, a narrativa mais tradicional da história da cidade, se tornou hegemônica transformando-se no principal promotor das festividades referentes ao dia do pioneiro. A maioria dessas
6767 Foto: Edson Holtz, acervo pessoal, 2012. 68
comemorações ocorreu e ainda ocorre nos jardins localizados nas dependências do Museu. Em alguns anos a solenidade chegou a ser transferida para o gramado do entorno da réplica da primeira igreja matriz, localizada no campus da UEL.69
Figura 6: Dia do Pioneiro no jardim do MHL 70 Figura 7: Dia do Pioneiro - homenagem aos imigrantes71
Figura 8: Dia do Pioneiro no campus da UEL72 Figura 9: Dia do Pioneiro - confraternização73
69 A réplica da primeira igreja matriz de Londrina é uma construção em escala menor da original. Foi construída
no campus da UEL em frente à Casa do Pioneiro. Esta casa de madeira, uma das últimas remanescentes no centro da cidade, foi doada pela família à UEL para ser a sede do Inventário e Proteção do Acervo Cultural de Londrina (IPAC). O IPAC teve origem em 1986, a partir da iniciativa da Coordenadoria do Patrimônio Cultural, órgão da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná que, juntamente da Prefeitura Municipal de Londrina e da Universidade, celebraram um protocolo de intenções. A partir daí um grupo multidisciplinar, envolvendo docentes e pesquisadores de várias áreas: História, Ciência Política, Arquitetura, Antropologia e Serviço Social iniciaram os trabalhos relacionados ao patrimônio cultural de Londrina e região. CERNEV, 1995, p. 1.
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Foto: Edson Holtz, acervo pessoal, 2012.
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Foto: Rui Cabral, acervo MHL, [200..]
72 Foto: Edson Holtz, acervo pessoal, 2012. Esta fotografia registra uma imagem que está em um convite. A
imagem original foi tirada por Toshio Igarashi em frente à réplica da primeira igreja matriz de Londrina, em 1999.
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Nestes eventos a celebração e culto ao pioneirismo são reiterados especialmente nas falas das autoridades presentes. Um considerável número de pessoas idosas, muitas delas filhos/as ou parentes de pioneiros, comparece todos os anos a estes eventos. A ASAM, que tem em seus quadros e, especialmente na diretoria, membros provenientes de famílias consideradas pioneiras, dá uma atenção toda especial a esta comemoração. É interessante observar o espaço, de destaque, que os organizadores, desta celebração aos pioneiros, conseguem obter, todos os anos, junto à mídia local.
As festividades do Jubileu se encerraram no ano de 1959, porém, sua repercussão, invadiu e contagiou a década de 1960. Nesta década um grupo de pessoas, ligada ao Rotary Club local, tentou criar um Museu para a cidade. Frustrada a primeira tentativa o Museu seria finalmente constituído a partir da comunidade acadêmica da Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de Londrina.74Além do Museu discutiu-se a necessidade de reverenciar, com monumentos, os principais nomes da história da cidade.