A caracterização de qualquer curso passa, necessariamente, pela descrição de sua clientela. Conhecer, mesmo superficialmente, os agentes envolvidos nesse curso é um primeiro passo para compreender seu processos internos, dificuldades e possibilidades. O Curso Normal Superior modalidade telepresencial, oferecido pela Fundação Universidade do Tocantins (Unitins) em parceria com a Educont formou, em dezembro de 2003 e julho de 2004 as duas
turmas de alunos, com 3223 e 4842 alunos, respectivamente, segundo informações da Secretaria Acadêmica do Curso. Resultaram de 334 grupos de alunos distribuídos em 164 telessalas, localizadas em 124 municípios no estado do Tocantins.
Para composição da amostra de telealunos¹ pesquisados, buscou-se sua representatividade geográfica. Dessa forma, foram selecionadas seis telessalas em municípios da região centro-norte do estado, duas telessalas na capital, duas telessalas de dois municípios da região sudeste e uma telessala na região sul. A pesquisa abrangeu, pois, 11 telessalas, perfazendo um total de 365 alunos.
Mesmo abrangendo a todos os egressos do ensino médio, a predominância de professores em exercício é significativa no curso. No entanto, o mesmo não ocorre com alunos do sexo masculino. Os dados parecem demonstrar que os alunos do sexo masculino que buscam o curso o fazem por falta de oportunidade ou para adquirir diploma de nível superior e, com isso, conquistar ascenção a cargos públicos, pois muitos já atuam no setor. Importante destacar que, dos telealunos masculinos, 35,7% são funcionários de outros órgãos, como Polícia Civil, Polícia Militar ou técnicos de vários setores do governo, tanto estadual, como municipal.
O magistério nas séries iniciais do ensino fundamental é uma área bastante femininizada, os dados coletados comprovaram este fato ao revelar que dos discentes que constituíram a amostra, 18,7%% são de sexo masculino, enquanto que 81,3% são do sexo oposto.
1. Para efeito deste trabalho, os alunos participantes do curso serão chamados de telealunos. Os professores que transmitem as aulas via satélite serão chamados de teleprofessores. Essa nomenclatura foi criada para evitar a confusão entre os participantes da pesquisa, uma vez que os alunos, em sua grande maioria (telealunos), são professores em exercício. Além disso, o prefixo tele, em sentido etimológico, é um elemento de composição cujo sentido principal é de longe, ao longe.
Dos discentes do gênero masculino, 71,4% afirmaram que ingressaram no curso por falta de melhor opção. Apenas 21,4% indicaram a opção pelo curso como forma de continuar no magistério. Outros 21,4% desse mesmo grupo fizeram a opção para obter um diploma de nível superior. Como se vê, entre os telealunos do sexo masculino não houve nenhuma constatação de que optaram pelo curso para ingresso no magistério. A soma dos percentuais acima excede cem por cento pois os respondentes dos questionários marcaram mais de uma alternativa na questão correspondente a esta análise.
No caso feminino, a situação se mostra diferente. Mais de 53% das telealunas respondentes dos questionários optaram pelo curso para ingresso ou mesmo para continuarem no magistério. Apenas 14,6% estão no curso por falta de melhor opção. O mesmo percentual corresponde à mera obtenção de diploma de curso superior.
A média de idade entre os telealunos do gênero feminino é pouco superior à dos telealunos do sexo masculino, sendo 37,5 e 33,6, respectivamente. O gráfico 02, mostra a freqüência das idades dos alunos sem especificar o gênero.
G ráfico 0 2 - Id ad e s d o s te lealu n o s (% ) 5 ,3 1 3 ,3 2 6 ,7 2 2 ,7 9 ,4 1 3 ,3 5 ,3 4 0 5 1 0 1 5 2 0 2 5 3 0 2 0 -2 5 2 5 -3 0 3 0 -3 5 3 5 -4 0 4 0 -4 5 4 5 -5 0 5 0 -5 5 5 5 -6 0
Idades dos telealunos
freqüênci
a
em
%
Segundo informações prestadas pelos telealunos, 69,3% são professores em exercício e 61,3% desse percentual atuam há mais de cinco anos no magistério.
Gráfico 03 - Ocupação profissional dos Telealunos
Magistério 69% Outra 20% Nenhuma 11%
Fonte: Pesquisa de Campo
A média de tempo desses que há mais de 5 anos exercem o magistério é de 12,7 anos. Portanto, pode-se afirmar com segurança que se trata de um curso cuja clientela é composta por professores em exercício e com uma larga experiência no cargo.
Os alunos do curso investigado não constituem, em maioria, recém- egressos do ensino médio. Ao contrário, como mostra o gráfico a seguir, apenas 6,6% da amostra concluíram o ensino médio há 4 anos.
Gráfico 04 - Tempo de conclusão do ensino médio 6,6 38,2 22,2 18 15 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 há 4 anos entre 5 e 9 anos entre 10 e 14 an os entre 15 e 19 an os entre 20 e 24 an os
tempo de conclusão do ensino médio
fr e qüê nc ia e m %
Fonte: Pesquisa de Campo
Do total de alunos que exercem o magistério, 3,9% o fazem em instituições de ensino privadas. Os demais, isto é, 96,1% são professores da rede pública. O discurso da obrigatoriedade na formação dos profissionais de educação, tanto pela qualificação e requalificação profissional, quanto pela atenção às pressões internas e externas por melhores índices na titulação dos docentes (Preti, 2001) funcionam como impulso para que os educadores busquem a formação superior.
A forma de ingresso no curso Normal Superior Telepresencial, da mesma forma que na maioria dos cursos de graduação, é o vestibular. Embora 53,3% dos entrevistados afirmaram terem prestado o vestibular uma única vez para este curso, 25,4% tiveram que tentar a mesma seleção mais de uma vez, indicando haver um grau considerável de concorrência. Além disso, 8% dos alunos participantes já prestaram vestibular para outros cursos. Ou seja, apenas pouco mais da metade dos ingressos no curso, como já mencionado anteriormente, prestaram o vestibular e foram imediatamente aprovados.
Quanto à formação básica dos telealunos, 92% concluíram o fundamental em escolas públicas. No caso da formação em nível médio, o índice é ainda maior, correspondendo a 94,7% da amostra.
Comparando os dados da formação média dos alunos participantes com os dados de matrículas em nível médio em escolas públicas e particulares no estado do Tocantins, percebe-se uma relação simétrica entre uma situação e outra. Segundo dados do MEC/INEP (2002), em 2001, do total de matrículas no ensino médio, 95,3% correspondiam à rede pública. Essa informação induz à constatação de que não houve diferenças estatisticamente significativas quanto à desigualdade de oportunidade entre alunos de escolas públicas e particulares com relação ao ingresso no curso.
Apesar do modelo telepresencial obedecer ao princípio da transposição das barreiras territoriais, comum aos cursos de EaD, pois “em vez de ser necessário construir edifícios e contratar professores para os novos alunos, bastam equipamentos em telepostos para ampliar o acesso ao conhecimento...” (Ramal, 2003, p. 43) muitos telealunos não residem na cidade onde o curso é oferecido, tendo que viajar entre 50km e 200km para receber as aulas. A maioria dos que residem em localidades diferentes daquela onde o curso é oferecido utilizam ônibus fretado (24%). Apenas 10,6% utilizam carro próprio como condução para chegar às telessalas. Outro meio utilizado por 4% dos telealunos respondentes dos questionários é o ônibus de linha. Com isso, fica claro que, apesar da distribuição espacial das telessalas, da tentativa de fazer com que o ensino chegue aos locais mais longínquos do estado do Tocantins, muitos alunos (38,7%) ainda necessitam se movimentar por distâncias consideráveis.