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Estudos sistemáticos sobre hábitos, bem como outras propriedades físicas do diamante vem sendo realizados desde longa data por diversos pesquisadores. Harris et al. (1975, 1979) desenvolveram uma metodologia simplificada baseada na morfologia cristalina, visando caracterizar os diamantes produzidos em diversas minas sul-africanas, incluindo as formas simples, combinadas, geminadas e agregadas. Na classificação estatística de grandes populações de cristais, essa sistematização mostrou-se muito prática.
De tal maneira, Harris et al. (1975) examinaram lotes constituídos por 24.400, 29.900 e 10.000 diamantes, provenientes dos kimberlitos Premier, Finsch e Koffyfontein, respectivamente. Tais autores não consideraram a distribuição granulométrica, mas sim, um número fixo de 100 cristais para cada intervalo granulométrico. Examinaram também outros aspectos do diamante, como a forma e a cor dos cristais, considerados particulares e diagnósticos de cada um dos depósitos estudados. Foram analisados ainda diamantes dos
pipes Kimberley e Ebenhaezer, dos diques Zwartruggens, e do kimberlito Letseng-laterae,
este último no Lesotho (Harris et al. 1979).
McCallum et al. (1979), com base em metodologia similar à de Harris (1975, 1979), analisaram 78 diamantes recuperados de kimberlitos da Província Colorado-Wyoming (USA). Esses diamantes foram descritos em termos de tamanho, peso, morfologia, cor, fluorescência e inclusões. Embora a amostra populacional de diamantes avaliados fosse considerada insuficiente pelos próprios autores para um tratamento estatístico confiável, algumas tendências semi-quantitativas a partir de estudo destas pedras, foram determinadas
formas transicionais indicaram que a maioria, se não de todos os diamantes da província, aparentavam originalmente terem se formado como octaedros e foram posteriormente alterados para formas dodecaédricas.
Posteriormente, McCallum et al. (1991) avaliaram as propriedades físicas representativas dos diamantes daquela província. Cerca de 4.100 amostras foram descritas, significando cerca de 4 % do total de diamantes recuperados por volume de testes no distrito. Foram estabelecidas freqüências de formas primárias do cristal, forma do cristal, estado do cristal, cores, inclusões minerais, deformação, dissolução, e características de marcas. Estas propriedades estão relacionadas a um quadro genético seqüencial primário da fase de evolução a partir de um ambiente para um pós-ambiente (ambos manto e crustal) que são responsáveis pela deformação plástica, dissolução e corrosão, quebra do cristal, e finalmente uma fase tardia de corrosão.
Comparações entre os dados de características de diamantes de kimberlitos de vários locais revelam diferenças significativas que sugerem até mesmo que populações de diamantes de sistemas kimberlíticos espacialmente associados possam ter apresentando histórias evolutivas significantemente distintas. A maioria dos diamantes são cristalizados como octaedros, mas a grande parte passou, por dissolução, a formas de transição ou tetrahexaedroidais.
Chaves (1997) utilizou métodos baseados em estudos prévios efetuados em outras localidades do Brasil e do exterior (eg. Leite 1969, Harris et al. 1975, 1979, Svisero & Haralyi 1985, Chieregati 1989),visando caracterizar a geologia e a mineralogia dos diamantes da Serra do Espinhaço em Minas Gerais. Tais estudos abrangeram a classificação em campo das principais características físicas dos diamantes, através de fichas elaboradas para tal finalidade. Chaves (1997) realizou ainda estudos por métodos ópticos de espécimes selecionados, visando a determinação de estruturas de superfície dos diamantes e de inclusões minerais e analisou o comportamento de certas propriedades químicas do diamante, tais como luminescência, espectrografia de raios infravermelhos e elementos químicos anômalos determinados por irradiação com nêutrons.
Chaves & Svisero (2000) elaboraram uma nova proposta para classificação mineralógica de diamantes com base nos critérios utilizados por Chaves (1997). A descrição em campo de populações de diamantes brutos, considerando-se peso, morfologia, hábito, figuras de dissolução, cor, luminescência, capas e inclusões, objetivou um tratamento estatístico com a finalidade de criar fatores auxiliares em interpretações genéticas que diferenciem lotes de diferentes regiões.
base para elaboração de diversos outros métodos aplicáveis ao estudo de populações de diamantes, por diversos autores, bem como no presente trabalho. Contudo Harris et al. (1975) concluíram que os parâmetros utilizados não foram eficazes para atingir o objetivo proposto, de individualizar as diferentes populações nas diversas localidades africanas; entretanto, os mesmos consideram que foram importantes para uma investigação sobre a história do ambiente inicial e subseqüente desses diamantes.
Embora tais métodos não tenham se mostrado tão eficazes na África, parâmetros similares de análises, quando adotados para o estudo de populações de diamantes no Brasil têm alcançado resultados bastante satisfatórios. Podem ser citados trabalhos realizados sobre lotes de diamantes do estado de Minas Gerais por Chaves (1997), Benitez (2004) e Chaves et
al. (2005), entre outros.
Os estudos realizados por Kaminsky et al. (2001) abrangeram 1.055 diamantes, a maioria da região do rio Abaeté, e chegaram a interessantes conclusões. Os parâmetros estudados foram: morfologia do diamante, propriedades ópticas e mecânicas, luminescência ultravioleta, espectrometria infravermelha, isótopos de carbono e inclusões minerais. A população avaliada mostrou o predomínio de rombododecaedros arredondados, uma proporção relativamente elevada de cristais com pigmentação marrom, e também de cristais com marcas intensas de erosão mecânica. As inclusões minerais contidas são quase em sua totalidade ultramáficas (olivina, enstatita, piropo, Cr-espinélio e sulfetos). O predomínio de minerais de associação ultramáfica entre as inclusões nos diamantes daquela região indica que o magma kimberlítico originou-se em condições de aproximadamente 150-200 km de profundidade. Segundo Kaminski et al. (2001) as características similares de todos os diamantes do sistema do rio da Prata podem indicar uma procedência comum ou fontes distintas, mas relativamente próximas umas das outras.
Araújo (2002) realizou análises sobre 234 diamantes da Província de Juína (MT), nos quais foram investigados a morfologia externa (em microscópio óptico e eletrônico de varredura), feições de catodoluminescência, absorção de infravermelho, além de conteúdos em N e C. Tal província é reconhecida na literatura pela ocorrência de diamantes gerados na zona de transição e no manto inferior. Os métodos empregados por Araújo (2002) abrangeram técnicas especificamente laboratoriais, as quais provavelmente atenderiam aos objetivos do estudo proposto no contexto de aprofundar conhecimentos nos diamantes desta província.
Filemon (2005) ao considerar a importância na determinação da procedência dos diamantes, desenvolveu pesquisa visando caracterizar lotes representativos de diamantes também na província kimberlítica de Juína (MT), e nos distritos de Cacoal (RO), Espigão
infravermelha, fotoluminescência, ressonância paramagnética eletrônica e espectroscopia Raman, além de estudos da morfologia, texturas de superfícies, granulometria, feições internas e comportamento de impurezas (nitrogênio e hidrogênio) visando obter informações sobre a evolução do crescimento cristalino. Outro objetivo de Filemon (2005), seria o de avaliar o uso destas ferramentas na determinação da procedência dos cristais, como mais uma contribuição à emissão do Certificado Kimberley. Neste contexto, considera-se que as técnicas laboratoriais são procedimentos que exigem local e equipamentos adequados, profissionais capacitados, e além disso, despendem de um certo tempo. Esses fatores, certamente, não favorecem a agilidade necessária para obtenção de dados com tal finalidade.
Os estudos realizados porMartins (2006) abrangeram 496 diamantes da bacia do rio Macaúbas (Serra do Espinhaço). Foram analisados parâmetros, tais como peso, presença de capas e inclusões, morfologia externa, dissolução e figuras de superfície. Entretanto alguns termos utilizados por Martins (2006) sugerem uma interpretação errônea daquela que seria a real intenção do autor. Entre estes, podem ser citados: “qualidade gemológica”; tal classificação pode levar ao entendimento de que todas as pedras estudadas seriam gemas, o que conforme verificado, não é o caso. Outro item que pode causar equívocos é o da “aparência”, que insinua algo relacionado à beleza ou não da pedra, e não reflete a idéia de “brilhante” ou “fosco” para o qual é utilizado. É comum entre certos autores o uso do termo “estado do cristal” para determinar se a pedra está intacta ou quebrada (eg. McCallum et al. 1979). Entretanto, Martins (2006) se refere a tal característica como “estado cristalino”, expressão que comumente designa o estado da matéria (sólida, líquida ou gasosa). No entanto é mais um estudo que contribui para o reconhecimento de feições características dos diamantes brasileiros, e estas descrições aliadas às de outros autores podem auxiliar na obtenção de um melhor detalhamento das populações diamantíferas regionais.
No presente trabalho, procurou-se analisar parâmetros distintos de cada pedra, para que possam ser avaliados no próprio campo, sem utilização de métodos laboratoriais. O método proposto está atrelado ao objetivo da pesquisa, que implica em obter a assinatura mineralógica da população de cada uma das quatro províncias diamantíferas de Minas Gerais, aqui propostas, no sentido de auxiliar a se reconhecer a procedência desses lotes, vindo de encontro às exigências para a emissão do Certificado Kimberley.
Essa discussão foi também abordada na IV Reunião do Fórum Brasileiro do Processo de Kimberley (08 de agosto de 2008), em Belo Horizonte, referente a aplicação do método footprinting no âmbito do SCPK. Tal método consiste em análise da distribuição da frequência do tamanho dos cristais de diamantes e suas características de qualidade, visando à
Geological Survey – USGS, em Gana e em Togo. Esse procedimento vem sendo considerado
o mais adequado, utilizando-se apenas da análise das características ópticas dos cristais, contrapondo o método denominado fingerprinting que valoriza as análises dos diamantes por meio de suas características físicas e químicas visando à identificação de sua origem.