Também neste caso os dados que se apresentam foram recolhidos com base no processo do utente e a partir de algumas anotações a que a estagiária realizou no seu Diário
de Bordo, sendo colectada informação a partir da observação de consultas e também de uma consulta ou Intervenção Psicológica realizada pela estagiária, na sequência da qual procedeu ao registo dos temas mais significativos da consulta no Diário Clínico do processo do utente.
Contudo, alguns dados não estão disponíveis no referido processo e outros serão necessariamente omitidos por razões éticas e deontológicas inerentes á confidencialidade e ao sigilo profissional, por exemplo: nome, morada do utente, n.º do bilhete de identidade, etc.
De seguida apresentam-se os tópicos mais significativos do guião de história clínica do IDT (Anexo XII). Estas informações foram transcritas com autorização da
supervisora da estagiária.
Dados sócio-demográficos/Assistência médica
Fonte de referência: Auto-referenciado Tratamentos anteriores: Sim (2005/2006) Data de Admissão: 10/04/2006
Terapeuta Atribuído: Psicóloga Clínica e Médica de Clínica Geral Data de Nascimento: 22/11/2006
Nacionalidade: Portuguesa Naturalidade: Covilhã Estado civil: Solteiro
Situação conjugal dos pais: Separados Escolaridade: 2º Ciclo (6º ano)
Situação laboral: Empregado
Situação de coabitação: Familiares ascendentes Situação de residência: Habitação condigna Situação Judicial: nada a registar
Dados de Consumo/Clínicos Droga Principal: LSD
Frequência de uso: Diariamente Utilização endovenosa: Desconhecido Partilha de material: Desconhecido
Outras drogas usadas correntemente/secundárias: Cocaína, Base de Coca,
Anfetaminas, MDMA, Outros estimulantes, Alucinógenos, Cannabis.
Droga inicial: Haxixe
Idade do 1º consumo de droga: 14
Idade de início de consumo (droga principal): 16
Idade de início de consumo regular (droga principal): 16
Dados familiares
Habilitações literárias do Pai:Licenciatura em Engenharia Agrónoma
Habilitações literárias da Mãe:Empregada de limpeza
Situação laboral dos pais: Ambos empregados Irmãos: 3 irmãos rapazes, com 24, 19 e 16 anos
Habilitações literárias dos irmãos: O irmão de 24 anos estuda em Coimbra Situação laboral dos irmãos: Os outros dois irmãos estão empregados
História de consumos/ restantes familiares: O pai é consumidor de álcool, cannabis,
“ácidos” assim como o irmão de 19 anos, o irmão mais novo “só consome ácidos”.
Diário clínico/terapêutica:
8/5/2006 - O Z. Dirigiu-se ao CAT para marcar consulta, acabando por ter feito
informalmente um primeiro contacto com a psicóloga.
15/5/2006 – O Z. tem Consulta Psicológica, na qual passa a maior parte do tempo
de consulta a relatar e reiterar com entusiasmo as suas experiências de consumo de várias drogas e o seu conhecimento experiencial dos vários tipos de drogas e seus efeitos.
O Z. iniciou os consumos de drogas com haxixe aos 14 anos, aos 16 experimentou LSD que manifesta ser a sua droga de eleição. O Z. afirma que consome “para achar um estado de espírito muito á frente, superior a toda a gente, cheguei a sentir-me deus”. Dentro da panóplia de drogas que conhece o Z. menciona para além do LSD como droga
de eleição, o seu consumo de Extasy, MDMA (“é tipo cocaína”) Cogumelos Mágicos, “Cocaína, faço tudo menos injectá-la”, expressando que tem mais tendência para “estimulantes e alucinógenos”. O Z. afirma que o LSD é um “tipo de droga que não se mete todos os dias”, expressando que é uma droga que lhe “faz acreditar em coisas, realça mais a personalidade e as coisas boas, aumenta as sensações, é uma droga para quando vou para a discoteca curtir”.
O utente diz que o seu pai também sempre consumiu este tipo de substâncias, “os ácidos”, sendo o seu pai apenas contra o consumo de heroína.
O Z. expressa ser muito difícil para si deixar de consumir drogas, na sua própria opinião, o pai até é a favor dos consumos pois aconselha-o a consumir determinadas drogas como os “ácidos” em certos ambientes, como por exemplo, na Serra da Estrela, a fim de atingir um bom efeito ou estado de espírito. O pai disse-lhe que se ele consumisse heroína, se ele quisesse o pai comprava-lhe “605 forte”, mas em relação ao consumo de “ácidos” não lhe diz nada “porque ele era igual...”. O Z. diz “o meu pai era como eu quando era novo” e agora “juntou-se com uma Hippie (bastante mais nova que ele), teve outro filho, embora ainda esteja casado com a minha mãe”. O Z. diz que também já esteve a viver temporariamente numa comunidade de Hippies que existe na Losã.
Refere também que dois dos seus irmãos também consomem algumas drogas, Estes dois estão empregados e o mais velho não consome “estuda e paga os seus próprios estudos” e o irmão mais novo que é uma criança pequena também não! O Z. estudou até ao 9º ano e actualmente está a trabalhar numa loja de moveis de familiares seus.
O Z. diz que no dia anterior á consulta uma rapariga ofereceu-lhe “coca e speed” (consome as duas coisas “para tudo, para andar alucinado e speedado”) e que se não se consome quando é oferecido as pessoas ficam chateadas com ele. O Z. diz que “já há um ano que não metia nada, meti ontem”, a propósito de relacionamentos o Z. diz que cortou as rastas “e agora as rastafaris nem me ligam”.
O Z. conta que há cerca de um ano atrás esteve na Holanda a trabalhar na “apanha de pimenta” e também para conhecer o país e divertir-se, na Holanda só fumavam “erva” dizendo o Z. que tem um efeito igual aos “ácidos”. O Z. diz “tive Psicose” quando estava na Holanda (há cerca de 7 meses), relata que ficou tão debilitado que o irmão teve que lhe dar banho e comida á boca, por isso veio para Portugal e esteve internado no Centro de Saúde mental da Covilhã, tendo sido acompanhado por um médico psiquiatra que lhe prescreveu injecções de Haldo!
De facto, durante a consulta o Z. apresenta um discurso um pouco lentificado á medida que fala, todavia, colabora e vai respondendo a algumas questões que lhe são colocadas pela psicóloga. De notar, que em determinados momentos, a sua expressão facial apresenta-se ligeiramente triste.
Segundo relata o Z. o surto psicótico que sofreu parece ter sido despoletado, quando estava na Holanda e tomou uma quantidade excessiva de LSD de uma só vez, “meti meio frasco de LSD, cerca de 45 gotas” (o Z. tem conhecimento que quem consome este tipo de droga é costume fazê-lo numa quantidade muito mais reduzida). O Z. diz que este comportamento esteve associado ao facto de ter ouvido dizer “que um escritor famoso escrevia sobre o efeito de LSD” e neste sentido, o Z. procurou nesse consumo como que uma inspiração para escrever também.
No dizer de Angel, Richard & Valleur (2002) sobre a problemática identitária do toxicómano, “o empenho numa ‘carreira’ desviante coaduna-se com pessoas em busca de identidade, pesquisando outras modalidades de inscrição social, nomeadamente no seio de grupos e consumidores de drogas. Para estes pseudomarginais, vai existir, nesse contexto, um modo regular de ser desviante, em função de regras sociais que lhes vão prescrever as modalidades pelas quais deve ser pautada a sua transgressão. A reivindicação da marginalidade mantém-se constante nos toxicómanos, embora se observe que eles, paradoxalmente, aspiram á normalidade. Entre o desvio da norma e o conformismo, eles parecem se sobretudo caracterizados pelas dificuldades que têm em situar-se na sua relação com o mundo, mantendo uma consciência aguda dessas dificuldades”
Ao falar sobre o surto psicótico que então emergiu o Z. conta “cheguei a um ponto que nem o meu nome sabia”. Posto isto, quando indagado sobre como se sentiu o Z. responde “sinto-me mal, sinto-me um falhado”, “mudei muito desde que tive esta doença, deixei de ser a mesma pessoa”.
O DSM-IV indica dentro das vária perturbações induzidas pelo abuso de
substâncias - Perturbação Psicótica Induzida por Substâncias (p.338).
O Z. diz que conhece muita gente das festas de Transe e expressa que gostava de viver em simultâneo “com o LSD e o mundo em paz, mas ás vezes não é possível as duas coisas”. Manifesta também, “agora quero ir á Índia, aprender meditação, curandeirismo, fumar uma cachimbada da paz com eles”.
No final da consulta a estagiária e a sua Supervisora trocaram ideias e partilharam a opinião de que no caso das Z. as expectativas em relação ao tratamento não parecem poder
ser muito elevadas. O caso do Z. suscitou a associação á estagiária com as abordagens de
Redução de Danos.
Neste contexto, a estagiária manifestou vontade de realizar uma consulta ou Intervenção Psicológica/Psicoterapêutica focalizada para a Psicoeducação sobre as doenças psicóticas, e como tal, também no sentido da Redução de Danos. A supervisora, deu o seu consentimento para concretizar esta intervenção numa consulta seguinte.
Nesta data o Z. teve também consulta com a médica de clínica geral, manifestando igualmente nesta consulta que “não imagina a sua vida sem consumir drogas!”.
Posto isto, não pretende aderir a nenhum tratamento farmacológico específico a fim de fazer qualquer espécie de desabituação física. A médica registou no processo clínico que o Z. não tem parceiro sexual fixo e não faz sexo seguro.
27/6/2006 - Estava prevista uma consulta da supervisora para este dia, que teria de
ser adiada, as funcionárias administrativas esqueceram-se de avisar que a consulta teria de ser alterada. Assim, o Z. foi ao CAT, contudo não houve consulta.
Entretanto a remarcação de consultas via telefone, foi uma pequena tarefa de que a estagiária ficou incumbida, que remarcou as consultas da sua supervisora para as datas que lhe foram indicadas.