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Os modos de produção de sentido propostos por Eisenstein possibilitaram à linguagem cinematográfica um campo ainda mais propício ao diálogo entre poesia e cinema. O construtivismo de seus sistemas sígnicos encara o texto como um processo de engenharia em que a consciência racional da manipulação dos meios é a base fundamental da criação. Cinema crítico-reflexivo. Segundo Arlindo Machado (1982), Eisenstein, em A Greve, seu primeiro filme longo, apresenta, de modo geral, uma predominância de ações geradoras de impacto, ou seja, predominância de relações sígnicas entre tensões de sentido à medida que o leitor realiza suas leituras em torno dessas “atrações”, termo colocado pelo próprio cineasta. A questão da atração sígnica problematizada por Eisenstein é própria da poesia, cuja essência é de natureza intersemiótica, na qual signos autorreferenciais atraem-se numa reverberação semiótica características dos objetos estéticos.

Em EUSENCONTROƧEUSENCONTROS, a sucessão das imagens em torno de uma personagem captada em cenas cotidianas, com passagens sugestivas, entre outras coisas, do decorrer do tempo, constitui-se como uma linguagem cinematográfica em diálogo com a poesia e a fotografia através dos signos tecnológicos. Tal elaboração formal pode sugerir um possível enredo a ser conhecido e interpretado pelo leitor, que vai assimilando cada nova “cena” diante das situações apresentadas.

O “conflito” no enredo estaria na própria contradição entre uma personagem que vive momentos de solidão e que também parece embebida de coletividade, o que pode ser sugerido pelos desdobramentos paralelos de muitas imagens. Caberá ao leitor avaliar cada nova imagem/cena em seu poder de “atração” em relação à estrutura verbal, centrada abaixo das imagens que aparecem sucessivamente. A dialética encontro/desencontro perpassa, neste sentido, por essa ideia de estar sozinho e não; de

individualidade e grupo; de um e vários; enfim, do completo mas também fragmentário do ser humano.

A ideia de cinema conceitual, ou seja, a composição cinematográfica como montagem de “atrações” pela confrontação de estímulos diversos, colocada pelo construtivismo de Eisenstein, pode ser destacada na obra de Célia Mello quando se observa o uso criativo do suporte computacional para fazer dialogar uma estrutura semântica com outra estrutura em movimento e devidamente organizada, icônica, que sugere claramente a ideia de um filme a passar numa tela.

No entanto, mais do que apenas uma sugestão fílmica, a obra faz dialogar a poesia com o cinema de forma aberta e crítica, sem demarcações precisas de fronteiras que possam amenizar o caráter sistêmico intersemiótico e híbrido da obra. As articulações de sentido elaboradas pela autora dão exemplo de como a técnica de “manipulação” e “dirigismo” da consciência propostos por Eisenstein estão presentes nas semioses de EUSENCONTROƧEUSENCONTROS. Parece fundamental a ideia de montagem eisensteiniana para esta análise devido à importância que ela dá ao espectador, que, tanto na leitura dos filmes de Eisenstein quanto na leitura de poesias digitais, não pode comportar-se como um sujeito vazio de ideologias (pois assim não entenderá nada). Pelo contrário, deve ser ativo e intelectualmente livre para rejeitar ou atuar (MACHADO, 1982).

O traço cinematográfico com o qual a poesia dialoga na obra de Célia Mello está também na sequência das imagens em consonância com outras características já apontadas. Fiquemos na questão da sequência como analogia ao ritmo de um poema. As imagens sucedem-se harmonicamente, num mesmo tempo, imagem a imagem, sempre em diálogos com o aparato semântico da poética de espelhamento símbolo/ícone. Pode- se ver nisso uma estratégia racional sobre a disposição das imagens, ora explorando efeitos mais cinematográficos, ora mais pictóricos, sempre numa ideia de transbordamento sígnico. Repetição, saturação e múltiplos efeitos de linguagem fazem os signos desdobram-se neles mesmo. As ideias, assim como seus signos equivalentes, são multipartidas, fragmentárias e multifacetadas.

A dialética no cinema de Eisenstein demonstra as possibilidades criativas das articulações dos planos e possíveis combinações, o que pode ser observado em EUSENCONTROƧEUSENCONTROS. A sucessão de imagens apresenta um princípio

rítmico e organizador em que valores plásticos opostos se desencadeiam em diversos conflitos. Cinema dramático com poesia truncada: estética do multidirecionamento sígnico; espelhamento, diálogo e tradução intersemiótica de formas; pluridimensão poética.

O cinema intelectual de Eisenstein, como se sabe, buscou na escrita pictórica das línguas orientais seus princípios norteadores. No artigo “O Princípio Cinematográfico e o Ideograma”, ele relaciona a língua e a cultura japonesas com o cinema, buscando assim uma forma de pensamento mais icônico em torno das metáforas e das metonímias nas combinações de sinais pictográficos através dos quais se estabelecem relações em busca das associações de caracteres. A concepção de arte como uma “tensão” constante entre seus signos busca na sensorialidade, na não-lógica das coisas, um campo indiferenciador e difuso. Esta sensorialidade seria uma forma de pensamento “pré- lógico”. Diz Arlindo Machado que:

O pensamento “pré-lógico” – também chamado por Eisenstein de

pensamento “sensorial”, porque representava a convergência da

inteligência do espírito com os ritmos e pulsações do corpo – difere do pensamento lógico por juntar, misturar, dissolver tudo aquilo que este último distingue, separa, classifica. No pensamento “pré-lógico” o todo e a parte constituem uma só e mesma realidade; o subjetivo e o objetivo não são separados; as cores têm musicalidade e os sons se manifestam sob forma visual; a palavra se confunde com aquilo que ela designa. (MACHADO, 1982, p. 76)

O traço sinestésico, apontado acima, como elemento de “tensão” nas combinações sígnicas, ao ponto, por exemplo, da palavra ser confundida com a própria coisa que ela referencia (o símbolo iconizado), é próprio do que pode ser visto na obra EUSENCONTROƧEUSENCONTROS, na qual a relação intersígnica de espelhamento entre dois sistemas diferentes traduzem-se intersemioticamente em torno de um todo estético amalgamado. Segundo o autor, essa indiferenciação característica do pensamento sensorial busca uma forma de sincronizar variados estímulos na totalidade de todos os sentidos a um só tempo:

Fazendo o espectador “ver” sons, “ouvir” cores (fenômeno conhecido como sinestesia), como em certas lições lisérgicas. Algo aparentemente muito semelhante à “sinfonia dos cinco sentidos” de que fala Lévi-Strauss em seu livro O cru e o cozido, a propósito da arte dos índios bororos do Brasil. (MACHADO, 1982, p. 87)

Relacionar a poética de EUSENCONTROƧEUSENCONTROS com a noção de montagem eisensteiniana, com as devidas proporções, diz respeito à importância do processo de “montagem” proposto pelo cineasta russo, já que muito se assemelha ao processo da poesia idealizada por Célia Mello. Pensar os mecanismos realizadores e ativadores dos conflitos na leitura, mostrando uma visão multifacetada do fenômeno, é justamente pensar essa montagem na elaboração do conflito de direções das imagens, tonalidades e cores, intercalando planos uns contra outros, tempo das passagens, iluminações, velocidades e volumes. Isso tudo apresenta uma dimensão de captação aberta e criativa da composição através dos múltiplos roteiros de leitura advindos do comportamento de cada expectador/leitor da obra.