Segundo a EPA (1983, apud Mostaghimi, 1997), nos grandes corpos d’água norte america- nos, os principais poluentes advindos de fontes difusas são o nitrogênio o fósforo e os se- dimentos. Os fertilizantes e os resíduos animais e de cultivos são as maiores fontes de po- luição não pontual.
Oliveira-Filho e Lima (2002) consideram, como principais fontes de contaminação de re- cursos hídricos do cerrado relacionados à atividade agrícola, a erosão e o uso de corretivos agrícolas e agrotóxicos. A mobilidade desses elementos, além de fatores intrínsecos aos próprios elementos, depende principalmente da precipitação, topografia e textura e teor de matéria orgânica do solo.
Randtke e Noyelles (1985, apud Mankin et al., 2003) compreendem que, para o bom ma- nejo de um corpo hídrico, quanto ao aporte de nutrientes, é necessário um profundo conhe- cimento da complexidade das interações entre o meio terrestre e o aquático.
et al. (2003) salientam, o homem transformou um ambiente lótico em lêntico, tornando o ecossistema aquático muito instável.
Muitos estudos foram desenvolvidos visando a conhecer o comportamento dos poluentes agrícolas e indicar as melhores práticas de manejo, para a redução da poluição difusa cau- sada pela agricultura.
Wit e Behrendt (1999, apud Avila, 2005), analisando numerosas bacias dos rios Reno e Elba, concluíram que existe uma relação direta entre as emissões de nitrogênio nas águas superficiais e o excesso de nitrogênio presente no solo. Essa relação não era observada quando se considerava o fósforo. Para os autores, devido à forte absorção por parte do solo das partículas desse elemento, as emissões de fósforo dependem mais das condições que afetam a erosão do que das práticas de adubação.
Vangstad et al. (2000, apud Avila, 2005) encontraram, nos valores de emissão desses nu- trientes, grandes variações, de 80% a 129% para o nitrogênio total e de 13% a 83% para o fósforo total. De um lado, esses resultados demonstram que o processo de perda de nutrien- tes é ocasional. De outro, foi possível mostrar uma dependência acentuada entre as perdas de nitrogênio e fósforo com relação ao uso do solo e às práticas de manejo.
A adubação fosfatada de origem química ou o uso de adubo de origem animal é a principal fonte de fósforo. O fósforo pode ser carreado pelo escoamento superficial e pela erosão. O fósforo transportado por escoamento superficial presente até em áreas naturais é definido como “carga base” (Sharpley e Halvorson, 1994, apud Avila, 2005).
Souza (1990), estudando a bacia do rio Corumbá, destaca que o perigo de eutrofização dos lagos é o principal fator limitante do desenvolvimento regional, uma vez que a eutrofização é provocada por atividades agropecuárias, principal fator de crescimento econômico da re- gião.
Avila (2005) conduziu um extenso estudo na bacia Capão Comprido, sub-bacia do rio Des- coberto, visando relacionar a contribuição de nitrogênio, fósforo e sedimentos a corpos hí- dricos com o manejo da área. Os dados revelaram uma grande variabilidade dos valores das
concentrações de todos os parâmetros (nitritos, nitratos, nitrogênio amoniacal, ortofosfato, fósforo total, sólidos suspensos, sólidos totais e dissolvidos). Ávila (2005) concluiu que a perda de nutrientes é muito influenciada pelas características do evento, entretanto, conse- guiu determinar a concentração média das águas de escoamento por algumas classes de uso do solo, assim como seus coeficientes de defluxo. A Tabela 4.1 resume os dados obtidos.
Tabela 4.1 - Concentração de P, N e SS nas águas de escoamento da bacia Capão Comprido (Avila, 2005).
Classe de uso Coef. Defluxo (Adim.) N total (mgL-1) P total (mgL-1) SS (mgL-1) Cultivos 0,30 4,12 2,12 859 Natural 0,08 2,10 0,85 364
Floresta 0,1 0,70 0,01 Sem dados
Solo exposto 0,45 4,40 1,30 Sem dados
Urbanizado 0,90 1,82 0,57 Sem dados
Ainda, Ávila (2005) constatou-se que o escoamento superficial representa apenas 10% do deflúvio total e responde por 48% da carga anual de contaminantes, enquanto que o deflú- vio gerado pelo escoamento de base corresponde a 90% do deflúvio total e é responsável por 52% da carga anual. Esses dados demonstram de um lado a importância do escoamen- to de base e de outro, a capacidade do solo de agir como filtro.
Mostaghimi (1997) lista algumas práticas (BMP) que podem amenizar os efeitos da agri- cultura na qualidade da água de drenagem em pequenas bacias rurais, são elas: manutenção do estado natural em áreas críticas, cultivo direto, cultivo em curva de nível, valetas e fos- sos gramados, faixas de vegetação de proteção, gestão da aplicação de fertilizantes.
Quanto aos sólidos suspensos, Avila (2005), no seu já citado estudo, pôde confirmar que o comprimento da rampa gera maior concentração de sólidos suspensos. Forte influência da cobertura vegetal foi também encontrada na avaliação desse parâmetro: quando o cultivo proporciona cobertura total do solo, a concentração de sólidos suspensos diminuiu nota- velmente, mesmo naquelas parcelas onde a declividade for elevada. Nas parcelas onde era praticada agricultura, ficou evidente que a concentração de sólidos tendia a aumentar com o
aumento da intensidade de precipitação da chuva. Essa tendência não foi encontrada nas parcelas com cobertura natural.
Avila (2005) não estudou a quantidade de solo carreada nas áreas classificadas como solo exposto e optou por adotar o valor de 113 t.ha-1.ano-1 obtida na literatura.
Souza (1990) destaca que, na bacia do rio Corumbá, mais do que 85% dos sólidos transpor- tados provêm de atividade agrícola.
Bonnet et al. (2007) propuseram relacionar o uso do solo e a qualidade da água mediante um índice normalizado de vegetação remanescente (NRVI):
Equação (4.1)
Os resultados preliminares sugerem certa dependência entre o NRVI e a qualidade da água, apesar de necessitar de investigações mais profundas.
Problema à parte é a avaliação dos impactos causados pela abertura de estradas vicinais devido ao desencadeamento de processos erosivos que provocam e por serem responsáveis, funcionando como canais que transportam águas e sedimentos, pelo assoreamento e con- taminação de mananciais (Camargo Corrêa, 2005)
De fato, Meirelles et al. (2005) inseriram a densidade da rede viária como um dos princi- pais critérios para avaliar o impacto antrópico numa bacia e Avila (2005) recomendou que futuros estudos sobre a contribuição de sedimentos da bacia ao lago Descoberto levem em consideração as estradas vicinais.
Camargo Correa (2005), estudando a influência das estradas florestais em áreas de reflores- tamento do planalto catarinense, observou que elas provocam perdas de solo. No entanto, não constatou que esse processo altere a qualidade da água dos mananciais. Nesse trabalho, ponderou-se que dos sedimentos em suspensão, parte fique retida no micro-relevo e parte decante no fundo dos córregos.
uso te remanescen uso te remanescen área área área área NRVI + − =
A quantidade de sedimentos presente nas águas de drenagem de estradas florestais depen- de, segundo Camargo Corrêa (2005), do relevo, tipo de solo, densidade da rede viária, per- fil e da adoção de medidas de conservação (BMP). Entre as medidas a serem adotadas, des- tacam-se barreiras de contenção, caixas de retenção e revestimentos primários. Essas práti- cas permitem uma redução de sedimentos entre 22 e 40% aproximadamente.
Anderson e MacDonald (1998) constataram que, em áreas preservadas, as estradas vicinais são as maiores responsáveis pela turbidez das águas. Estudaram o problema em St John, (Virgin Islands, EUA) e desenvolveram uma equação empírica para estimar o transporte anual de sedimentos:
Equação (4.2) Onde:
Er = erosão estimada em m3.m de estrada ao ano;
A= área da Estrada de contribuição (m2);
S= declividade da Estrada (m/m).