4. Ungdommenes fortellinger fra det psykososiale skolemiljøet
4.3 Oppleve utfordringer og mestring i oppgaver og aktiviteter
4.3.2 Lærerens instrumentelle støtte
Como se observa, os frentenegrinos rioclarenses apelaram publicamente para que as “distinctas familias” da cidade exigissem de seus empregados e empregadas negros “atestado de bôa conducta”. Tal postura parece revelar uma Frente Negra local orientada a proteger o branco, e não o negro. Essa atuação, no entanto, pode ter sido um pronunciamento especificamente orientado para os brancos, não condizente com os objetivos internos de valorização da raça da Frente. De todo modo, a estratégia da organização parece ter sido a seguinte: do branco (maioria esmagadora em Rio Claro, tanto quantitativa quanto politicamente) ter-se-á aprovação, do negro obter-se-á filiação e, assim, o fortalecimento da organização no plano local. A opção escolhida para arregimentar os seus faz ver uma Frente autoritária para com a gente negra, de um lado, e paradoxalmente subserviente para com os brancos, de outro.
Contudo, parece coerente afirmar que o apelo dos frentenegrinos rioclarenses não era reflexo direto da postura da Frente Negra Brasileira paulistana, que
empenhava-se tenazmente em modificar o padrão de acomodação e de reação societária do “negro”. De um lado, fomentava o repúdio ostensivo e até irritado às expectativas de capitulação passiva. De outro, incentivava comportamentos conscientemente “exigentes”: ter ou obter “consideração condigna”, e fazer as coisas com o “máximo de perfeição”. Se a patroa agisse “com desconsideração”, as empregadas eram preparadas para “repelir os insultos”. Daí resultavam fricções e conflitos, que não ocorriam, pelo menos na mesma escala, anteriormente. As empregadas diziam: “Agora nois já tem quem nos defende. Nois tem a Frente Negra, quem cuide dos nosso interesse”..., etc.. O resultado é que muitas patroas passavam a evitar as “negras frentenegrinas”. Em compensação, outras lhes davam preferência, pois “sabiam que podiam confiar nelas, que eram gente direita”. Coisas análogas sucediam em outros níveis ocupacionais e em outras esferas da vida. Não se preparava o “negro” para aguardar, pacientemente, que soasse a Segunda Abolição. Porém, para realizá-la com as próprias mãos, se preciso por métodos violentos (Fernandes, 1965, p.43).
Nas palavras de Francisco Lucrécio, um dos diretores da Frente Negra Brasileira da capital paulista,
nenhuma outra entidade cuidou das reivindicações sociais e políticas e enfrentou o preconceito assim como a Frente Negra o fez (...) A consciência [negra] que existia na época eu acho que era muito mais forte que a que existe agora. Quando o negro sente uma pressão, quando qualquer agrupamento humano sente uma pressão, procura um meio de defesa. A pressão [contra negros e negras] era tão forte que muitos jornais publicavam: “Precisa-se de empregado, mas não queremos de cor”. Havia alguns movimentos também no interior, principalmente nos lugares em que os negros não passeavam nos jardins, mas na calçada. Muitas famílias não aceitavam, inclusive, empregadas domésticas negras; começaram a aceitar quando se criou a Frente Negra Brasileira. Chegou-se ao ponto de exigir que essas negras tivessem as carteirinhas da Frente (Barbosa, 1998, pp.35 e 38).
Destaque-se que nem todos os negros rioclarenses se sentiram contemplados com o apelo que a delegação frentenegrina em Rio Claro dirigiu às “distinctas familias” da cidade. Exemplo disso é o artigo reproduzido na íntegra, abaixo:
De escravo a escravo!
Ha dias o Commercio e o Diario publicaram um artigo do sr. José Ignacio do Rosario, Delegado Especial da Frente Negra Brasileira nesta cidade, no sentido de que as familias locaes não devem admittir empregados negros que não estejam munidos da caderneta de bôa conduta, da “Frente”.
Essa noticia causou uma evidente e justa revolta no seio das familias negras rioclarenses, e com muita razão, pois, ha familias que até hoje sempre tiveram a sua moral de pé, a sua conducta bôa, e hoje por não pertecerem á Frente Negra, pódem perder todo o seu prestigio? Sr. Delegado Especial, é muito cêdo para essas exigencias... Isso será para quando a “Frente” contar com quasi a totalidade dos negros brasileiros; ahi, então, poderá ser o negro um frentenegrino por lei; mas, por emquanto ainda é por voluntariedade. Eu, por exemplo, e mais 60 negros rio-clarenses estamos desligados da “Frente Negra” e nem por isso deixamos de ter a nossa bôa conducta. Ou o negro é livre ou é escravo! Se isso assim continuar, podemos dizer que hontem fomos escravos do branco e hoje somos do proprio negro! É uma Cadeia que se rompe para sermos presos na outra.
Em nome da maioria das familias negras rio-clarenses, que se sentiram offendidas no seu brio com a referida publicação, deixo aqui o meu firme protesto sobre esse ponto de vista.
E se não for preso pela patrulha da Frente Negra, voltarei á carga.
Rio Claro, 6 de abril de 1932.
Jurandyr da Silva Mourão
(Firma reconhecida pelo tabelião Cintra de Pinheiro).
(SECÇÃO LIVRE)
(Diário do Rio Claro, de 07/04/1932).
A réplica da Frente não tardou. No dia seguinte à publicação de Jurandyr Mourão, o delegado da Frente Negra em Rio Claro publicou o artigo que segue, também reproduzido na íntegra:
Da Frente Negra Brasileira de Rio Claro Ao Povo
Em secção livre desta folha, eu o Delegado Especial da Frente Negra Brasileira em Rio Claro apresento o menospreso intenso que o artigo apresentado a 7 em as columnas do “Diario do Rio Claro”, pelo sr. Jurandyr Silva Mourão merece.
Ainda que bem mediocre o entendimento individual, não é licito dar credito ao protesto que o sr. Jurandyr S. Mourão apresenta. É necessario que vejamos por linhas rectas o que é direito e faz-se mister que o negro aqui em Rio Claro deixe de procurar dificultar o andamento da grande obra que a Frente Negra Brasileira pretende concretisar, deixando de confundir as idéas, tornando assim moroso o trabalho de arregimentação da Raça. Quem deu ao sr. Jurandyr Mourão a idéa de apresentar tal artigo não sabe, ou não quer interpretar com dignidade os fins a que me referi.
Distintas familias Rio Clarenses!
A Frente Negra Brasileira pretende o que vós já tendes conhecimento. É a união Política social da Raça; instruir moral e intellectual o negro brasileiro, fasendo com que futuramente, mas quanto antes possivel, ele, o negro, tenha um espirito elevado e propenda para o que é culto e nobre; abandonar completamente estas baiucas anti-higyenicas onde impera o vicio, a pinga e a immoralidade, fasendo-o compreender que preciso é ser util ao Brasil e reunirem-se todos para a defesa dos seus Direitos Istoricos, urge sem demora. Assim poderão os nossos bons filhos da Terra de Santa Cruz contar com o negro para lutar pela sua grandiosidade economica e em todos os pontos de vista. E essa obra, distintas familias, tem obtido de vossas dignas mercês os mais elevados aplausos. Eu, como Delegado Especial não pretendo adiantar-me naquilo que é de
minha responsabilidade, porquanto pretendo agir de accordo com meus irmãos frentenegrinos. Porem, jamais pretendi metter-me naquilo que não me é de alçada, sem que seja chamado ou sem que me informe minuciosamente dos seus fins visados. Não posso crêr em tal protesto, que se ha, germinou, estou certo, de cerebros doentios e apaixonados. Quem incentivou ou orientou o sr. Jurandyr Mourão Silva para apresentar a idéa, já o disse, esqueceu-se de verificar no diccionario o que se comprehende por appello. Portanto aconselho-o a procurar em o Diccionario Pequeno da Lingua Portugueza, de Candido de Figueiredo, pag. 116, ou em outro que achar melhor. Isso porque a mim parece que nenhuma obrigatoriedade ha de as familias exigirem as cadernetas de bôa conduta, não se vê a causa e razão de querer desprestigiar as senhoras e senhoritas de côr pelo facto de fazer com que obtenham uma prova de seu brio, carater e modo recto pelo qual se têm conduzido na sociedade. Nesse caso toda a caderneta de referencia e bôa conduta é um desprestigio atirado em face do seu portador.
Não pode ter sido isso. Não creio no protesto do sr. Mourão. E como eu, todo o senso elevado não o crê. As dignas familias de côr de Rio Claro, mesmo as que não se alistaram ainda na Frente não ter-se-iam offendido por serem aconselhadas a terem uma prova, tantas e tantas vezes de necessidade extrema em um momento qualquer de sua conduta sã e impeccavel.
Não é querer escravisar o negro, mesmo porque ele ainda não é liberto. Houve apenas uma das liberdades. Mas ele, em grande parte, senão em maioria é escravo da ignorancia de raciocinio e da pobreza de espirito. É de se lamentar.
Por ventura é necessario que haja lei de obrigatoriedade, instituida no paiz para o negro buscar a sua liberdade social ?!?! Na Frente Negra não existe patrulha, porém existirão Cabos Distritaes que em honrosa missão procurarão afastar nossos irmãos victimados da perdição e vicios dos antros depravados e detestaveis. E aqui com meus companheiros e os milhões de frentenegrinos que vierem do Brasil todo afluindo para o ponto central que é São Paulo, como vêm vindo, estaremos em nossos póstos, firmes na vigilança tartufos muito embora a tocaia nos espreite. É assim que se serve a raça.
Que Deus nos proteja do excesso de intelligencia dos patricios que no campo dessa lucta, dessa brasilidade medieval aspiram dar os golpes de Cains Ladrem, procurando dispensar e destruir a obra, podendo obter com os Judas seus lugares de destaque. Por oje, o que declaro em publico é só, responsabilisando-me pelo conteudo do escripto.
O Delegado da Frente Negra Brasileira em Rio Claro, 7 de abril de 1932.
José Ignacio do Rosario.
(Diário do Rio Claro, de 08/04/1932).
Importa registrar que, literalmente colado ao artigo que José Ignacio do Rosario escreveu, dando mostras de como “se serve a raça”, encontrava-se um anúncio em busca de trabalhadora branca. Não encontramos, todavia, nenhuma manifestação de Rosario contra a publicação (note fragmento do texto de Rosario imediatamente abaixo ao anúncio):