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Nos dias de hoje o emprego da palavra projecto vulgarizou-se tanto ao nível pessoal como profissional. Nos nossos discursos quotidianos, cada vez mais, utilizamos expressões como, projecto de vida, projecto de férias, projecto de uma casa, área de projecto, projecto educativo, projecto curricular, entre outras. E, se estamos perante um conceito cuja utilização pode, em certos casos parecer “abusiva”, a verdade é que o seu uso recorrente deixa transparecer que o conceito de projecto está impregnado de uma significativa de políssemia.

Geralmente, um projecto pode congregar um conjunto de actividades ou acções, minimamente coordenadas, onde estão previstos pontos de partida e de chegada com o intuito de alcançar determinados objectivos, definidos em função de uma qualquer necessidade sentida.

O termo projecto pode assim ter várias conotações e ser utilizado com os mais variados sentidos. Normalmente associamo-lo a um plano, um propósito, um desígnio ou, até mesmo, a um esboço de uma acção futura, significado bem expresso em qualquer dicionário de uso comum. Existe, pois, uma certa pretensão de realizar uma acção futura, neste sentido, Llavador e Alonso (2000: 72) referem que “na sua acepção mais frequente, o projecto significa dar um sentido à acção transformadora do aqui e agora, mediante uma representação ou esboço antecipatório da obra a realizar.”

Por outro lado, das variadas acepções que actualmente existem em relação ao conceito de projecto,- “dos projectos individuais, aos projectos de grupo e aos projectos das organizações; dos projectos profissionais, aos projectos de formação; dos projectos de uma vida, aos projectos, mais prosaicos, para uma férias ou fim-de-semana”-, todas elas se relacionam num mesmo denominador comum - que o projecto se transforme “num ritual que acreditamos ser capaz, só por si, de dar um sentido ao nosso destino”(Barroso, 1992: 17).

No fundo, um projecto pode, também, ser encarado como “um conjunto de intenções” e que, na sua acepção comum, não deve ser compatível com a ideia de improvisação, sendo que a sua função é “servir de guia ao curso da acção” (Morgado, 2000: 82).

CAPÍTULO III – A importância da construção de projectos curriculares

54 próprio discurso social, é impossível prever todas as suas implicações e consequências, sobretudo quando estas são de carácter educativo”(Llavador e Alonso, 2000: 73). O projecto pode ser entendido como fundamento para “acções logicamente encadeadas e racionalmente orientadas para alcançar determinados fins específicos e assumidos por todos”(idem: 74-75).

Com efeito, é legitima a assunção de que o projecto pode ter um vertente antecipatória, ideia que é corroborada quer por Barbier (1993: 49), ao afirmar que “o conteúdo de um projecto não tem a ver com acontecimentos ou objectos pertencendo ao ambiente actual ou passado do actor que o elabora, mas com acontecimentos ou objectos ainda não verificados”, quer por Boutinet (1990: 99), para quem o projecto “deverá apoiar-se sobre a previsão para melhor conhecer o estado esperado do ambiente” sendo que, neste contexto, a previsão tem um dimensão prospectiva. No fundo, afirma Barbier (1993: 49), o projecto “não se debruça sobre factos, mas sobre possíveis”.

O conceito de projecto não é novo no domínio da educação, nos últimos tempos “fala-se de ‘projecto educativo de escola’, de ‘área de projecto’, de ‘projecto tecnológico’, de ‘projecto curricular de escola’, do ‘projecto’ em que estamos envolvidos, da ‘metodologia de projecto’ que nos orienta, etc.” e, embora todos esses projectos tenham significados diferentes, “todos eles têm em comum a característica de serem um ‘projecto’”(Cortesão, Leite e Pacheco, 2002: 22).

No campo educativo, o termo projecto tem uma referência fundamental na pedagogia de projecto que, para Vasconcelos (1999: 37), “reflecte uma nova visão do aluno enquanto construtor do seu próprio saber, saber-fazer e saber ser, associando-se a esta corrente pedagógica uma visão de escola autónoma, participada e pluricultural”.

Nesta perspectiva, Carvalho (1998: 144) afirma que os projectos trazem para o terreno dos fenómenos educativos, na sua globalidade, “uma coerência que assenta, sobretudo, na sua capacidade de atracção, reguladora e selectiva, dos conceitos - e das inter-relações conceptuais - que lhe são mais favoráveis”.

Assim, o termo projecto apresenta-se como designação de um conceito que procura unificar vários aspectos do processo de ensino-aprendizagem. Podendo ser definido de diversas formas, há, contudo, um conjunto de características que lhe estão geralmente associadas:

CAPÍTULO III – A importância da construção de projectos curriculares - um projecto é uma actividade intencional, pois o seu desenvolvimento pressupõe que os diferentes actores nele envolvidos formulem um objectivo que norteará as actividades e está associado a um produto final que, por sua vez, pode ter várias formas mas sempre reflexo do objectivo inicial e do trabalho realizado;

- um projecto requer a existência de uma margem considerável de iniciativa e autonomia, de todos que nele estão envolvidos, sendo também importante que exista cooperação entre os co-responsáveis pelo trabalho e escolhas levadas a cabo nas diferentes fases do seu desenvolvimento;

- um projecto deve possuir autenticidade, o que requer alguma originalidade para que este não se torne uma imitação de trabalhos já feitos por outros ou de um trabalho de natureza livresca;

- um projecto envolve complexidade e incerteza devido à natureza das tarefas que precisam ser ‘projectadas’;

- por último, um projecto deve ser prolongado e faseado, ou seja, a sua própria natureza supõe que seja desenvolvido ao longo de um período mais ou menos longo, decorrendo em fases distintas, que vão desde a formulação do objectivo central, o planeamento, a execução e a apresentação dos resultados (Ponte et al, 1998).

Nesta perspectiva, “o currículo, enquanto projecto, exprime uma arte de construir intenções, construção essa regida colegialmente, sem que, contudo seja impermeável a conflitos e tensões, uma vez que deve constituir-se num documento de confluência” (Morgado e Paraskeva, 2000: 18).

A este respeito, Zabalza (1992: 88) refere que “uma escola centrada no currículo é uma escola que consegue definir com clareza em que tipo de projecto educativo se encontra empenhada”. O projecto de escola constitui, assim, a concretização prática do currículo. Para o autor, uma escola baseada em projectos deve ser uma escola diferente das outras escolas.

Embora o projecto possa ser entendido como “uma acção, com intenções bem definidas, e que resulta de uma relação entre o que se deseja fazer e o que, de facto, se pode e vai fazer” (Cortesão, Leite e Pacheco, 2002: 37), também requer que seja

CAPÍTULO III – A importância da construção de projectos curriculares

56 deve ser flexível, aberta e capaz de abranger situações imprevistas que se demonstrem interessantes.

O surgimento da necessidade de elaborar projectos de escola leva, inevitavelmente, a “uma ruptura nas formas de gestão do currículo por parte dos professores”(Teodoro, 2006: 65), proporcionando-lhes uma maior autonomia e uma responsabilidade acrescida em relação a vários aspectos como a qualidade das aprendizagens, nomeadamente ao nível de decisão da sala de aula, onde a concepção e implementação do projecto curricular de turma assume um papel central.

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