No domínio da sexualidade, Weeks (1985, 2006 [1986]; 2007), argumenta que fatores como a crescente comercialização e comodização do sexo; a mudança nas relações de género e nas relações familiares; a emergência de novos, ou a reordenação de velhos, antagonismos sociais e o surgimento de novos movimentos políticos; a secularização da sexualidade, ou seja o desligar progressivo dos valores sexuais dos valores religiosos no sentido em que as demarcações do que é correto ou não são cada vez mais elaboradas por peritos fora do âmbito religioso, como a sexologia, a psicologia ou as políticas sociais; e a liberalização das atitudes, acompanhada pelo aumento da tolerância da diferença individual e pela maior aceitação da diversidade sexual, especialmente pelos mais jovens, tiveram impacto na transformação das possibilidades de viver a diversidade sexual e de criar as vidas íntimas. De forma semelhante, Bozon (2005 [2002]) considera que a abertura contemporânea das
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possibilidades em matéria de sexualidade está relacionada com a diversificação e a individualização de trajetórias conjugais e afetivas, e com o declínio da regulação da sexualidade por princípios absolutas. Therborn (2004) chama também a atenção para a importância da secularização da sexualidade e das inovações tecnológicas (como a pílula), que permitem separar sexualidade e procriação, para a “revolução da sexual” do último terço do século XX, nas sociedades ocidentais.
Ora, entre as várias transformações que se deram no domínio da sexualidade encontram-se: a maior aceitação do controlo dos nascimentos, do aborto, do divórcio, de uma sexualidade não inscrita na conjugalidade, da coabitação e da homossexualidade, e um maior reconhecimento da sexualidade feminina (Bozon e Kontula, 1997; Bozon, 1998; Bozon, 2005 [2002]; Plummer, 2003; Therborn, 2004; Weeks, 2006 [1986], 2007). Atualmente, a grande maioria de homens e de mulheres tem relações sexuais dissociadas de uma possível entrada em conjugalidade; os/as jovens iniciam-se sexualmente cada vez mais cedo; os/as parceiros/as sexuais tendem a valorizar simultaneamente a reciprocidade e a satisfação individual, sendo que a reciprocidade entre parceiros/as adquire valor como princípio da sexualidade conjugal; as mulheres passam a ter uma atitude mais ativa nas relações amorosas e menos dependente da vontade masculina; e as trajetórias e atitudes sexuais de homens e mulheres aproximam-se, na maior parte dos países ocidentais contemporâneos (Bozon e Kontula, 1997; Bozon, 1998, 2005 [2002]; Ferreira, 2008, 2010d; Giddens, 1996; Pais, 1998; Therborn, 2004; Weeks, 2003 [1986]; Weeks, 2007). Atualmente, as mulheres vivem a sua sexualidade de forma mais liberta e aberta a novas possibilidades29 (Giddens, 1996). A duração do período em que os indivíduos são sexualmente activos alonga-se, e a suas biografias conjugais e afetivas diversificam-se e fragmentam-se, sendo que a diversificação das experiências, a sucessão de períodos conjugais com períodos sem parceiros estáveis, assim como as experiências conhecidas na juventude, antes de uma primeira entrada em conjugalidade, permitem aos indivíduos conhecer cenários de relações sexuais mais variados, do que se estes se mantivessem numa relação conjugal, com um único parceiro durante toda a sua vida (Bozon, 2004; 2005 [2002], 2008b; Camoletto, 2010; Toulemon, 2008).
De acordo com Weeks (2008), estas transformações, deram origem a discursos de liberdade individual, direitos e justiça sexual que levaram a novos padrões para julgar o que é pensado como errado ao nível sexual e que dá poder a novas formas de agência (Weeks, 2007). A sexualidade deixa de ser um assunto periférico no discurso global, tornando-se central em diversos aspetos, como o fundamentalismo, o impacto da Sida, as relações entre homens e mulheres, ou as atitudes em relação à diversidade sexual, especialmente à homossexualidade. Hoje em dia vive-se num mundo plural, de diversidade e de múltiplas fontes de autoridade. Neste contexto, a sexualidade, na medida em que é moldada por e através da história, como uma matriz única do privado e do público, do pessoal e do social, do natural e do humano, tornou-se num lugar privilegiado para o trabalho de forças
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As transformações de comportamentos e mentalidades levaram, segundo Giddens (1996), à emergência da sexualidade plástica; isto é, a uma sexualidade liberta das necessidades da reprodução, passível de ser moldada como uma característica da personalidade e que não está sujeita ao domínio sexual masculino.
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contraditórias e para pensar os significados da diversidade; sendo um lugar onde diversos significados são construídos e contestados. Weeks (2007) acrescenta ainda que cada indivíduo tem, atualmente, um estilo de vida sexual. As pessoas necessitam de pensar em termos de sexualidades e não numa sexualidade única. A separação do sexo da reprodução e do casamento torna irrelevante a ênfase cultural e social da reprodução heterossexual, no julgar das relações, colocando, antes, a ênfase nas práticas e na identidade sexuais. A partir do momento em que a reprodução deixa de ser o único argumento válido para o sexo, este pode ser mais variado e diverso sem julgamentos morais. A sexualidade pode, assim, significar várias coisas e tornar-se o foco de diferentes escolhas e estilos de vida. Neste sentido, e à medida que os valores tradicionais vão perdendo a sua força, mais o global tem impacto no local e mais os indivíduos são forçados a negociar os seus estilos de vida. Deste modo, as escolhas de estilos de vida tornam-se cada vez mais centrais para a constituição da identidade pessoal e da atividade diária. É cada vez mais possível escolher estilos de vida organizados à volta das preferências sexuais e falar de identidades plurais escolhidas, múltiplas identidades, identidades híbridas ou mesmo tentativas de rejeitar identidades sexuais. No entanto, Weeks (2007) chama ainda a atenção para a importância de lembrar que as identidades são também sedimentadas, enraizadas e difíceis de escapar, mesmo quando mudam.
No mesmo sentido, Giddens (1996) defende que, no contexto das sociedades contemporâneas, a sexualidade é descoberta, exposta e tornada acessível ao desenvolvimento de diferentes estilos de vida; passando a ser algo que cada pessoa tem ou cultiva, e não uma condição sexual adquirida. A sexualidade passa, então, a funcionar como um elemento maleável do self, que liga corpo, identidade pessoal e normas sociais; sendo, simultaneamente, um elemento estruturador da atividade sexual e algo de rotinizado, isto é, tornado parte dos padrões de ação adotados pelos indivíduos e grupos. À medida que o tempo de vida do indivíduo se torna referencial e que a auto-identidade é compreendida como um esforço reflexivamente organizado, a sexualidade torna-se propriedade do indivíduo. Esta passa a constituir um meio para forjar conexões com outrem, tendo por base a intimidade. Segundo Giddens (1996: 125): “a sexualidade tornou-se assim uma questão de primeira importância para ambos os sexos, embora de formas diferentes”.
No entanto, para o Bozon (2004, 2005 [2002]), as transformações das relações sociais que dizem respeito à sexualidade são menos radicais do que geralmente se acredita, constituindo mais uma ideia que foi interiorizada do que um abrandamento dos controlos sociais. No seguimento do trabalho de Elias (2004 [1987]) sobre a individualização da sociedade, Bozon (2004, 2005 [2002] argumenta que se passou de uma sexualidade construída por controlos e disciplinas externas aos indivíduos a uma sexualidade organizada por disciplinas internas. Assim, mais do que uma emancipação, libertação ou apagamento das normas sociais existe, antes, a sua individualização e interiorização, o que implica um deslocamento e um aprofundamento das exigências e dos controlos sociais. Apesar da manutenção das desigualdades de género e de classe, da proliferação das normas relativas à sexualidade e de uma flutuação de referências pertinentes, passa a caber ao indivíduo a necessidade de estabelecer uma
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coerência nas suas experiências íntimas. Os indivíduos continuam a ser submetidos a julgamentos sociais estritos, diferentes segundo a sua posição social. Assim, embora, atualmente, as interações sociais sejam cada vez menos codificadas à priori, não são, no entanto, livres, na medida em que o quadro, o reportório e os significados da interação sexual estão inscritos nas formas instituídas das relações entre os indivíduos. As perceções do possível, do adequado e da transgressão em matéria de sexualidade são ainda estruturados pelas relações de género, pelas relações entre gerações, pelas relações entre classes sociais e/ou pelas relações entre os grupos étnicos ou culturais (Bozon, 2004, 2005 [2002]).
Bozon (2004, 2005 [2002]) não está só na sua tentativa de mostrar que as transformações relacionadas com a sexualidade não são tão “revolucionárias” como referido frequentemente. Assim, criticando a existência de uma nova norma de igualitarismo erótico30, Hekma (2008) argumenta que esta nova perspetiva é limitadora e normalizadora, em parte, porque exclui os interesses sexuais, que se baseiam em diferenças de poder. Outros/as autores/as chamam a atenção para o facto de que vivência da sexualidade não é, hoje em dia, simplesmente liberta. Para Ross e Rapp (1997) o estado organiza agora muitas das relações de reprodução que estavam inseridas em contextos mais pequenos. Neste quadro, a ideologia da liberdade sexual e do direito à expressão individual tem entrado em crescente conflito com a hegemonia estatal e com o poder ainda restante nos contextos mais tradicionais, como a família e o controlo da comunidade, em questões como o aborto ou a educação sexual (Ross e Rapp, 1997).
Acresce ainda que as transformações de que se tem vindo a falar não foram uniformes, sentidas de forma semelhante (Weeks, 1985)31, ou universais (Therborn, 2004). Embora, estas transformações tenham ocorrido, na maior parte dos países ocidentais, e noutras partes do mundo, houve diferenças no modo como este processo de desenvolveu (Giddens, 1996). Deste modo, em sociedades com valores sexuais mais constrangedores, os indivíduos, especialmente as mulheres, podem sentir as transformações em curso como dramáticas e perturbadoras (Giddens). Para além de que, as desigualdades socioeconómicas e as diferenças de classe moldam inevitavelmente as opções de estilos de vida (Weeks, 2006 [1986]; 2007). Assim, e apesar de, em relação à sexualidade e à vida familiar as divisões de classe tenham vindo a diminuir, algumas destas diferenças persistem (Weeks 2007). De forma semelhante, Plummer (2003) chama atenção para o facto de as pessoas, por todo mundo, continuarem a ser confrontadas por desigualdades que moldam as suas vidas íntimas: desigualdades económicas, desequilíbrio nas relações de género, marginalização baseada na etnicidade/raça, estratificação de idade, e/ou exclusão de pessoas com deficiências ou percebidas como diferentes;
30 Para Hekma (2008) a norma de desigualdade, do passado recente, foi substituída por uma nova norma de igualitarismo erótico, resultante de uma forte impulso para a igualdade nas relações sexuais, criado, em conjunto, desde a década de 60, do século XX, por forças da democratização e do feminismo.
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acrescentando ainda que um grande número de pessoas vivem, simultaneamente, em mundos tradicionais, modernos e pós-modernos32.
Beck e Beck-Gernesheim (2001) argumentam ainda que, apesar do momento de maior permissividade em relação às normas sexuais, existe uma situação, especialmente para as mulheres, em que as velhas regras já não são tomadas como garantidas, mas em que os novos valores são ainda incertos e pouco claros, criando, por vezes, situações contraditórias e/ou difíceis de gerir. Assim, a uma maior liberdade para viver e pensar a sexualidade, Beck e Beck-Gernesheim (2001: 69) contrapõem a existência de zonas cinzentas, instruções contraditórias e riscos, que requerem uma “responsabilidade individual” e que obriga os indivíduos a fazer escolhas. Isto significa, para as jovens mulheres, a necessidade de criar as suas próprias regras e comportamentos (Beck e Beck- Gernesheim, 2001).
Mas par destes processos de mudança na família, no género e na sexualidade, e em estrita articulação com estes, estão as transformações existentes no domínio dos sentimentos, nomeadamente do sentimento amoroso. É para aí que se vai olhar de seguida.