Redegjørelser og refleksjoner
I: 1 kvinne, har vært usikker på sin fars identitet
Calabar estabelece uma comparação entre Mathias e Nassau. Ambos são agentes
do sistema colonial que se ressentem da opressão que esse representa, tendo que escolher entre conduzir a exploração ou lutar contra ela. Os dois passaram pelo mesmo processo de quase trair o sistema colonial, tendo optado por permanecerem leais às suas respectivas metrópoles, traindo suas convicções pessoais e, mesmo assim, enfrentando a desconfiança de seus superiores. Como Mathias, Nassau foi chamado à Europa sob suspeitas de indisciplina ou alta traição. Houve quem tenha acusado o conde de planejar a proclamação da independência do Brasil holandês para formar um principado renascentista governado por ele mesmo. Por isso, Nassau precisou defender-se perante a Companhia.
Se Mathias é destaque no primeiro ato, o conde é a personagem central do segundo. A montagem da peça em 1980 explorou ainda mais tal semelhança, contando com o
mesmo ator (no caso, Othon Bastos) para interpretar ambos. A própria divisão da peça em dois atos aponta para dois momentos da colonização do nordeste açucareiro: a colonização portuguesa, simbolizada por Mathias, e a colonização holandesa, representada por Nassau. Portanto, além do paralelo entre os dois governantes, Calabar também estabelece um confronto entre a colonização portuguesa e a colonização holandesa no Brasil.
Esse tópico esclarece a importância dada à figura de Nassau na peça, afinal poderia parecer um tanto gratuito que um texto que se propôs a questionar o mito do Calabar traidor conceda tanto espaço aos conflitos da administração nassoviana se o mestiço foi morto antes do conde vir ao Brasil. A impressão de gratuidade poderia piorar se observarmos que pouco se fala de Calabar no segundo ato e, às vezes, até parece que ele foi esquecido.
A lógica que levou os autores à, aparentemente, abandonarem Calabar e se concentrarem em Nassau pode ser encontrada no princípio do segundo ato, quando o conde declara sobre Calabar: “Tu não morreste em vão”85, apossando-se da figura do mestiço para legitimar seu próprio governo. Se, de acordo com Francisco Varnhagen, ao auxílio do mestiço “deveram os holandeses os imediatos passos que deram, com êxito decidido, no empenho de assenhorear-se do país”86, logo Calabar seria o responsável pela existência do governo nassoviano. A validade das ações do mestiço deveria ser medida pela validade da experiência nassoviana. E assim, embora declare que nunca “tenha conhecido morte que não fosse vã”, Nassau reafirma:
Não, não morreste em vão.
Ou será em vão que rasguei esses trópicos, será em vão que adivinhei a terra nova, será em vão que piso a terra nova, que beijo a terra que beijavas, e essas palavras serão vãs de um holandês sem palavra87.
O segundo ato da peça é uma tentativa de responder a essa questão: Calabar estava certo? A colonização holandesa teria sido melhor que a portuguesa? A experiência do governo de Maurício de Nassau foi válida? Buarque e Guerra não criaram tais questões, antes tomaram-nas do discurso histórico que viu na restauração um passo decisivo rumo à formação da nossa identidade sócio-cultural. Porém, se a versão histórica oficial comemorou nossa latinidade, uma corrente menor lamentou a expulsão holandesa, defendendo que o Brasil seria um país melhor se houvesse permanecido ligado à cultura da renascença flamenga. Cabral de Mello nota que após um período de glorificação da restauração pernambucana, houve um
85 Idem, p. 61.
86 Varnhagen, História das lutas com os holandeses no Brasil, p. 104. 87 Buarque e Guerra, op. cit., p. 62.
período de nostalgia do governo holandês, em que o imaginário consagrou Nassau na figura do “bom príncipe” cercado por maus conselheiros88.
Figura destacada nos textos históricos, Nassau é visto sob ângulos muito diferentes. Alguns autores (mormente estrangeiros) colocam-no como um estadista, outros lhe atribuem grandes falhas (como é o caso de Calado e dos autores didáticos Silva e Penna). A verdade é que o conde, como Calabar, suscita polêmicas e avaliações distintas.
A construção da personagem Maurício de Nassau em Calabar mescla muitas dessas visões. Ele é pintado ora como governante admirável, ora como embusteiro; ora como nobre humanista, ora como materialista interesseiro; ora como sábio diplomata, ora como cínico manipulador; oscilando “entre bêbado e sonâmbulo, / entre fidalgo e corsário, / governante e mercenário”89.
A voz sarcástica de Calado caracterizando Nassau como um rematado narcisista e administrador venal pode ser ouvida, principalmente, no início do segundo ato, onde trechos tomados de O valeroso lucideno são usados por Buarque e Guerra para refletirem sobre o presente a partir do passado, uma vez que culto de personalidade, paternalismo, construção de obras faraônicas e corrupção são marcas do populismo brasileiro que foram seguidas durante o regime militar. O episódio do boi voador é um exemplo disso.
Voltamos aqui àquela polêmica ponte, que foi um dos estopins do conflito de Nassau com a Companhia. Calado assegura que o conde mandou construir a tal ponte de pedra entre o Recife e a Cidade Maurícia para lucrar com o superfaturamento da mesma. Com desvio ou não, o fato é que a verba acabou quando a ponte ainda estava na metade. As obras foram suspensas e viraram piada: seria mais fácil ver um boi voar do que ver a ponte terminada. Nassau tomou pessoalmente o prosseguimento das obras e terminou a ponte com madeira. No dia da inauguração, ele organizou uma festa e, usando de artifícios, fez um boi empalhado “voar”. Para Calado, essa foi uma artimanha para extorquir dinheiro ao povo, pois:
Com aquela traça ajuntara ali o Conde de Nassau tanta gente para a fazer passar por a ponte, e tirar aquela tarde grande ganância, e tanta gente passou de uma para outra parte, que naquela tarde rendeu a ponte mil, e oitocentos florins, não pagando cada pessoa mais que duas placas à ida, e duas à vinda90.
Embora o episódio seja totalmente retirado de um texto histórico, ele pode ser lido como uma parábola do que estava ocorrendo nos anos 70, visto que o regime militar utilizou obras faraônicas e ocorrências extraordinárias (por exemplo, o tricampeonato mundial de futebol) como parte de sua estratégia de legitimação. Tais fenômenos não só comprovariam a
88 Cabral de Mello, Rubro veio, p. 331. 89 Buarque e Guerra, op. cit., p. 62. 90 Calado, O valeroso lucideno, p. 243.
pujança do regime, como desviavam a atenção da violência, da exploração e da corrupção que caracterizavam-no. Talvez por isso, a canção “Boi voador não pode” seja uma das referências mais claras à época da ditadura militar, ridicularizando o ímpeto censor do regime, que proibia tudo que lhe parecesse suspeito ou incompreensível.
Quem foi que foi Que falou no boi voador? Manda prender esse boi, Seja esse boi o que for. (...)
Boi realmente não pode Voar à toa.
É fora, é fora, é fora, É fora da lei, Tá fora do ar, É fora, é fora, é fora, Segura esse boi. Proibido voar91.
Na peça, todo esse episódio obedece ao propósito de superar a dicotomia colonização holandesa x colonização portuguesa, colocando ambas sob a égide do sistema colonial. As semelhanças entre fatos históricos ocorridos no século XVII e nos anos 70 não seriam mera coincidência e nem apenas uma parábola, mas “um esquema analógico aplicável a situações semelhantes”92, na definição de Augusto Boal. Em suma, um sintoma de que, séculos depois, o sistema de manipulação e exploração continuaria o mesmo.
Desse ponto de vista, Nassau seria um antepassado dos nossos políticos populistas e sua administração não se mostraria tão diferente de tudo que o Brasil viu em matéria de manobras políticas no decorrer de sua história. Sebastião do Souto expressa esta opinião ao justificar sua luta de guerrilha contra os holandeses:
Eu me lembro de quando ele [Calabar] entrava nesse sertão, o sertão virava de cabeça pra baixo. Os padres trancavam as igrejas, as donzelas cobriam o rosto e os usineiros portugueses gritavam “ai, Jesus”. Afinal, era Calabar o demônio em pessoa, o demônio sarará. Um brasileiro, porra, um nativo! Um brasileiro guiando o exército da Holanda que era um país muito distante, habitado só por pecadores, e onde – diziam – vigorava a justiça do homem. Segundo essa justiça – diziam – o homem valia pelo seu trabalho e não por capricho dos deuses, do rei, do Papa. Pois bem, Calabar morreu e o holandês se instalou aqui. Mas essa tal justiça, o holandês esqueceu numa prateleira lá em cima do Equador. Trouxeram um príncipe que, infelizmente, com esse sol de Pernambuco na tampa da cabeça, variou de vez. E agora, adivinha quem está lá no banquete do príncipe? O padre, a donzela e o usineiro português93.
Porém, a peça não se limita a fazer de Nassau um governante corrupto e demagogo. A faceta do “príncipe humanista” também surge em cena, dificultando a elaboração de um parecer definitivo sobre o período nassoviano. Netscher, Wätjen, Boxer,
91 Buarque e Guerra, op. cit., p. 91.
92 Boal, Teatro do oprimido e outras poéticas políticas, pp. 222-3. 93 Idem, p. 78.
Gonsalves de Mello podem ser ouvidos aqui, mas é a versão de Honório Rodrigues e Joaquim Ribeiro que predomina no final da peça. Esses dois autores brasileiros conceberam Nassau como um indivíduo colocado no centro das contradições do liberalismo econômico holandês. O conde representaria os ideais renascentistas, enquanto a Companhia representaria a corrupção desses ideais em nome do lucro. No fechamento do segundo ato, Buarque e Guerra exprimem, através da voz de Nassau, a visão de Rodrigues e Ribeiro, numa crítica ao colonialismo:
Trouxe a esta terra o ferro de uma civilização que não buscava nada mais além de riquezas. E, nesta cruza maldita, não fui o único. Os meus adversários traziam a mesma ganância, traduzia em outros idiomas, escondida em outras liturgias, disfarçada em outras promessas. Português, espanhol, flamengo, logo mais o inglês, que importa o resultado? Nos seus sorrisos, a mesma goela escancarada sobre o mesmo estômago sem fundo94.
De modo que Calabar não opta pela colonização portuguesa nem pela holandesa, antes condena o sistema colonial em si, bem como as diversas formas de exploração econômica que o liberalismo tem formulado ao longo da história.
Quanto à questão primordial do segundo ato – se a morte de Calabar e a experiência nassoviana foram válidas ou não – as diferentes vozes da peça esboçam diferentes respostas. Souto considerou que o governo holandês traiu o sonho de Calabar, Bárbara e Anna não opinam, a Companhia (representada na voz do Consultor) julga a administração do conde um fracasso e Nassau se auto-avalia: “Sei que falhei. Sei também que fui bem-sucedido”95. Ao leitor/espectador cabe a tarefa de encontrar sua resposta.
Se Calabar dá algum mérito à experiência nassoviana, seria o fato de que tal experiência permitiu o desnudamento das contradições inerentes ao liberalismo (outra vez, o parecer de Rodrigues e Ribeiro se faz ouvir). No contexto da peça, o sucesso de Calabar e de Nassau reside menos nas respostas que eles obtiveram e mais nas perguntas que eles nos levam a formular sobre nossa história, nossa identidade e nossa organização social.