A estação de trem é uma metáfora significativa para se pensar que é um lugar de encontros e despedidas, como nos fala Milton Nascimento em sua música “Encontros e despedidas”; na estação, o lugar de encontros é o mesmo que o das despedidas, há pessoas que vem para ficar e há pessoas que vem para nunca mais voltar, há aqueles que riem e os que choram.
É pela viagem de trem, cruzando a fronteira Bolívia-Brasil via Corumbá no Mato Grosso que os bolivianos realizam a passagem, o deslocamento para um lugar no qual esperam encontrar algo diferente, onde possam tornar a vida diferente, vislumbrando a possibilidade de construir no novo país um lugar de inserção cultural para si.
É nessa viagem, nessa passagem para o território estrangeiro, que cada imigrante terá como vivência afetiva o que lhe há de mais estranho e de mais familiar. Em sua bagagem a sedução do sonho de trabalhar em cidades praianas, com casa, comida e moradia. Há na tentativa de uma vida nova, algo que se repete, e é na estação mesmo que a vida se repete como nos fala o cantor e compositor.
Entre outros, na estação está a boliviana com seu filho, que já a mobilizara a buscar uma escola de melhor qualidade para ele na Argentina, o que adiara seu grande sonho de vir para o Brasil. Mas finalmente irá passar por muitas dificuldades no Brasil, sem lar por diversas vezes, mas com o filho que sabia falar o português muito melhor que ela que a ajudou a se comunicar em lugares públicos a conseguir emprego. Encontrará muitos patrões que a enganarão até que um dia alguém se proporá a bancar sua volta para a Bolívia. Na última hora apeará do ônibus, decidida que o Brasil
é onde deseja ficar. Enquanto sujeito, tomará como escolha o ficar no Brasil apesar das dificuldades; quererá seu lugar aqui, no estrangeiro.
O antropólogo Sidney Silva trabalha brilhantemente aspectos do percurso no trem de Corumbá no livro “Costurando sonhos”, em que narra sua viagem a fim de observar o contexto sociocultural de onde saem os imigrantes bolivianos. Os pontos da extremidade dessa viagem são Corumbá, no Brasil, e Porto Quijaro, na Bolívia. Silva (1997) traz muitos elementos dessa viagem, mas é relevante aqui que nessa transposição da fronteira dos territórios aparece também a fronteira da diferença étnica entre os bolivianos.
Nesse trem viajam principalmente crianças e mulheres, sendo que as últimas aproveitam as vinte horas de viagem para vender alguma coisa típica de sua região para os brasileiros e até mesmo para outros bolivianos. É significativo o que Silva observa sobre as diferenças na forma de se relacionar dos cidadãos oriundos da região de Santa Cruz e os que vêm da região dos vales e dos altiplanos, os collas, de origem indígena, mais reservados e de poucas palavras.
Esta pesquisa também observa essa marcante diferença entre os bolivianos, que se acentua ao chegarem ao Brasil. Antes de emigrarem, os bolivianos da região dos vales e dos altiplanos já haviam se deslocado para Santa Cruz e Cochabamba, tendo vivido um bom tempo como estrangeiros na própria terra. A questão que aparece nessa transposição de fronteiras é que muitos bolivianos escondem sua procedência dizendo que são naturais de alguma cidade grande, pois ao identificarem-se com os metropolitanos escondem sua identidade indígena, a qual é fortemente carregada de preconceitos, tanto na Bolívia quanto no Brasil.
Deixam a Bolívia para realizar um projeto individual ou familiar. Alguns vêm apenas para sair de um lugar cristalizado, outros para constituir a própria família. Estabelecidos, chamarão as mães, principalmente para ajudarem no lugar em que trabalham ou cuidar dos netos, quando não enviam auxílios mensais aos familiares. Muitos homens se colocarão no lugar de heróis, bem-sucedidos e para sempre capazes de agora dar aos seus familiares, o que não tiveram.
O diferencial da renda não é a única razão da emigração. Há, sim, uma busca mítica por um lugar possível que não foi possível encontrar no país dos antecessores. No estrangeiro encontram-se novas referências simbólicas as quais podem ou não fazer parte da inscrição que cada sujeito faz de si do mundo.
Mulheres e suas famílias passam por mudanças importantes na vinda para cá. No entanto, Silva (1997) aponta que as relações de compadrio tendem a ser conservadas, e não sem as tensões e transformações que tais relações possam sofrer. Na grande metrópole, São Paulo, essas imigrantes contam com algumas instituições de apoio jurídico e de assistência social que as auxiliam no processo de inserção na nova cultura.
Ademais, contam com as instituições religiosas, que cumprem a função de acolher imigrantes e oferecer-lhes um espaço de confiança, onde possam formar uma comunidade e estabelecer laços sociais, retirando-os do desamparo. A igreja é um lugar onde se relacionam com seus compatriotas e também com outros imigrantes que enfrentam dificuldades similares entre si, “rezam a Deus” e compartilham o sofrimento gerado pelas perdas tidas no processo de imigração, conversam sobre os impasses vividos na condição de estrangeiro e se apoiam na tentativa de encontrar soluções para tais impasses.
Ao longo dessa pesquisa, propus-me a trabalhar no Centro de Apoio ao Migrante, onde pude escutar essas pessoas e dialogar com elas. Os próximos capítulos trazem fragmentos dessa escuta para pensar as questões propostas neste estudo.
Deixo aqui uma questão sobre que passagem ocorre na subjetividade do imigrante ao se deslocar para um país estrangeiro. Pensemos como essas questões se fazem presentes no caso das mulheres bolivianas e suas famílias que imigram para o Brasil.