Oscar Pereira da Silva nasceu na cidade fluminense de São Fidélis em 29 de agosto de 1867. Em 1882, ingressou na carreira artística ao tornar-se aluno da Academia Imperial de Belas Artes, onde teve como professores Zeferino da Costa, Victor Meirelles, Chaves Pinheiro e José Maria de Medeiros.265 Porém, Pedro Américo e Henrique Bernardelli foram os que mais influenciaram na sua formação artística, mas se comparadas as obras dos mestres com a do aluno, veremos que deles realmente conservou no desenho a correção, mas quanto ao tratamento, às cores e pinceladas lembra mais H. Bernardelli.266
Sua filha Helena conta que em casa havia somente uma coleção de cinco livros de arte, com reproduções em cores de quadros de artistas de renome. Quando o pai tinha encomendas de quadros históricos, trazia documentos do Instituto Histórico e
264BREFE, Ana Claudia Fonseca. “Montando o cenário”. In: O Museu Paulista: Affonso de Taunay e a
memória nacional, 1917-1945. São Paulo: Editora UNESP: Museu Paulista, 2005, p.125.
265 MONTEIRO, Michelli Cristine Scapol. Fundação de São Paulo, de Oscar Pereira da Silva:
trajetórias de uma imagem urbana. Dissertação de Mestrado. FAU-USP. São Paulo, 2012, p.19.
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Geográfico para estudar (grifo meu).267 Nas exposições de Oscar, sempre chamavam a atenção os quadros históricos, as cópias e os quadros de gênero.268
O reconhecimento do seu talento e competência pode ser constatado pelo fato de ter sido ele o requisitado, em 1906, a realizar obras de conservação na famosa tela “Independência ou Morte”, de Pedro Américo.
A fim de estreitar os laços com o Museu Paulista, logo após a finalização do trabalho de conservação, o artista doou uma tela (grifo meu), no mesmo ano de 1906, que ficou conhecida com o nome de Guerreiro Carajá269
. Segundo as palavras do diretor interino, Rodolpho Ihering, o quadro era belo e perfeito, e constituía uma inestimável dádiva, que seria utilizada para ornamentar a sala etnográfica. Importante notar que essa doação ocorreu apenas dois meses antes do artista ser referido, pelo Correio Paulistano, como se dedicando à elaboração de um quadro histórico inspirado no passado paulista. Útil para provar seu talento artístico e ainda para que fosse sempre lembrado e visto no grande museu de história do estado, a tela Guerreiro Carajá pode ser entendida como uma maneira de “preparar o terreno” para a grande obra que Oscar Pereira da Silva, certamente, já planejava para os acervos estaduais.270 O Museu Paulista possui várias obras do artista: A descoberta do Brasil, Fundação da cidade de São Paulo, O desembarque de Cabral, O príncipe regente D. Pedro, Jorge Avilez ao lado da fragata União, Recepção dos índios a bordo da nau capitânea de Cabral, Seção das cortes de Lisboa em maio de 1822 e alguns medalhões.271
Ser consagrado como pintor de história era condição certamente almejada por Oscar Pereira da Silva. O domínio da história tinha, entretanto, outra instituição balizadora. Embora fosse privada, desempenharia claramente um papel de caráter público, gozando de grande prestígio durante a Primeira República e inserindo-se na órbita do poder político dominante do Estado. Trata-se do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP), criado em novembro de 1894. O objetivo dessa instituição era construir um passado unitário para um país de dimensões continentais e segmentado em regiões de povoamento e cultura muito distintos, além de composto por
267 Idem, ibidem.
268 TARASANTCHI, Ruth Sprung.Pintores Paisagistas: São Paulo 1890 a 1920. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Imprensa Oficial do Estado, 2002, p.117.
269 O paradeiro desta obra é desconhecido.
270 MONTEIRO, Michelli Cristine Scapol. Fundação de São Paulo, de Oscar Pereira da Silva:
trajetórias de uma imagem urbana. Dissertação de Mestrado. FAU-USP. São Paulo, 2012, p.28.
271 TARASANTCHI, Ruth Sprung.
Pintores Paisagistas: São Paulo 1890 a 1920. São Paulo: Editora da
raças muito diversas – problemática que o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro já havia enfrentado anos antes. Em um novo contexto, coube aos fundadores do IHGSP revisitar os marcos da nacionalidade, reescrever a história nacional, recriar um passado, fundamentar mitos, ordenar fatos e singularizar personagens, a partir de um novo protagonista: o povo paulista. A mais célebre passagem da Apresentação do primeiro número da revista do IHGSP é dessa ambição documento inescapável: “A história de São Paulo é a história do Brasil”.272
E, se coube aos historiadores do IHGSP reescrever a história do país a partir do protagonismo paulista – liderado, sobretudo pelos ancestrais dos líderes políticos republicanos do estado cafeicultor -, aos artistas coube a tarefa de criar imagens condizentes com esse discurso.
Na década de 1930 era ainda considerado o melhor desenhista que São Paulo possuía, com qualidades técnicas sólidas, apesar de alguns reclamarem da falta de adequação ao tempo em que vivia. Pereira da Silva foi um dos últimos pintores que se dedicaram à pintura histórica. Alguns quadros históricos, como os que estão no Museu Paulista, têm paisagens que ajudam a completar o ambiente. Como muitos foram feitos a partir de desenhos de outros pintores ou tiveram de ser fiéis ao local onde se deu ao fato, sente-se neles uma certa dureza por causa do excesso de acabamento, o mesmo se dando em quadros que terminou no ateliê.273 Pereira da Silva faleceu em São Paulo, no dia 17 de janeiro de 1939.