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INTERVJUER OG «ELDRETRÅKK»

6.1 KVALITETER VED NÆRMILJØET

A história do cinema no Brasil tem revelado que as primeiras experiências cinematográficas no país, de maneira geral, caracterizaram-se por exaltar cidades, registrar aspectos pitorescos, ou documentar autoridades. No livro Enciclopédia do Cinema Brasileiro (2000), Fernão Ramos, no verbete sobre o documentário mudo brasileiro, faz a seguinte observação:

A respeito do tema “ritual de poder”, os registros prediletos são os das visitas, viagens e chegadas de autoridades, cobrindo deslocamentos físicos e respectivas celebrações. No campo das cerimônias oficiais temos, principalmente, posses de eleitos, paradas e manobras militares, inaugurações, funerais, feiras e exposições. Os grandes eventos políticos das três primeiras décadas do século são bem retratados

15 Vladimir Carvalho é cineasta, nasceu na Paraíba, em 1935, e contribuiu no âmbito cinematográfico

nacional com diversos filmes bastante representativos no cenário brasileiro, entre eles: O País de São Saruê (1967-1971), O Homem de Areia (1981), Conterrâneos Velhos de Guerra (1990), Barra 68, sem perder a

ternura (2000). A temática dos nordestinos em situação de penúria é sempre uma tônica, presente em quase toda

por documentários, sempre a partir do ponto de vista do vencedor da revolta ou revolução refletindo o gosto da época pela representação documentária extraordinária. (RAMOS, 2000, p. 177)

A historiografia do cinema paraibano considera que a primeira realização cinematográfica no estado foi o registro da posse de Castro Pinto (1912). Contudo, de acordo com Nunes Filho (1988, p. 31), não há qualquer referência à sua ficha técnica. Considerando a afirmação acima, sobre a origem do cinema na Paraíba, Ramos (2000) acosta-se a ela, pois traz como temática a posse de um governante. Ainda de acordo com tal afirmação, na qual se evidencia os principais temas retratados nos primórdios dos filmes (documentários) no Estado, o Jornal A União, do dia 11 de maio de 1913, registra:

O cinema Pathé ofereceu ontem ao senhor presidente do Estado e várias famílias, especialmente mamanguapenses, uma sessão especial de filmes representando a chegada do Sr. Castro Pinto a Cabedelo quando veio tomar posse do governo. Outros aspectos do cortejo que acompanhou sua excelência no trajeto para esta cidade e bem assim muitas vistas da recepção do Sr. Coronel Antonio Pessoa, primeiro vice-presidente, por ocasião de sua visita à Paraíba. A segunda parte do belo e gentil espetáculo contou de fitas apanhadas na cidade de Mamanguape que é a terra natal de nosso atual presidente (apud NUNES FILHO, 1988, p. 31)

Contudo, só no final da primeira década do século XX é que Walfredo Rodrigues inicia suas atividades na área de cinema. Considerado o fundador do cinema paraibano, destaca-se neste contexto por ter sido um homem dedicado às artes paraibanas, desenvolvendo atividades como fotógrafo, cinegrafista, cineasta, além de ter mantido ligação com o teatro, sobre o qual escreveu o já citado História do teatro na Paraíba (1831-1908). As experiências de Walfredo Rodrigues também estão de acordo com a afirmação de Ramos (2000), pois retratam o “ritual de poder” no filme Reminiscências de 30 (1931) e fazem uso da imagem para enaltecer as tradições e as paisagens da região: Sob o céu nordestino (1928) e Carnaval

de 1923, no Recife. Este último foi vendido à Diretoria de Documentação e Cultura da

Prefeitura de Recife pelo próprio autor. 16

Durante os anos de 1924 a 1928, Rodrigues fez o filme Sob o céu nordestino. A idéia de filmar, de acordo com Leal (2007), partiu de insultos à sua terra natal, a Paraíba, ou, nas palavras do crítico paraibano:

16 Sobre a iniciativa de fazer filmes sob encomenda e vendê-los, muitas vezes,

para financiar outros projetos, ver ARAÚJO, Karla Holanda de. Documentário Nordestino: história, mapeamento e análise. Dissertação (Mestrado em Multimeios; Instituto de Artes), Campinas, São Paulo, Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), 2005.

Walfredo Rodrigues não tirava da cabeça a idéia de realizar um filme de longa- metragem, retratando seu Estado. A obra obteve apoio material do governador João Suassuna, em cuja fazenda de Taperoá, algumas cenas foram rodadas. O filme foi feito em quatro anos: de 24 a 28, sendo que foram rodados 2080 metros de película. Ele pretendia com o filme, [...] mostrar ao sul que o nordeste não era só miséria. Queria rebater as críticas dos seus amigos da “Federal Filme”, do Rio, de que na Paraíba não existia nada civilizado, de que por aqui nem se comia direito, que os índios atacavam as pessoas nas cidades. A idéia inicial de WR era de filmar todo o Nordeste: o filme resultou, porém, numa captação só na Paraíba, em quase todas as suas áreas. Praticamente realizada com recursos de Walfredo, daí a demora de sua efetivação. Os informes geográficos, históricos, biológicos, geológicos, dos seus letreiros, atestam o cuidado de ser fiel não só à realidade física como também aos seus fundamentos culturais. (LEAL, 2007, p.15)

Dali em diante, paulatinamente, ele foi produzindo o filme, o qual, à época do lançamento, foi recebido com assombro, haja vista as condições precárias da Paraíba tanto do ponto de vista técnico-financeiro como no aspecto cultural, visto, àquela altura, o Estado ser tido por muitos como um reduto de atraso na seara cultural.

A película feita por Walfredo Rodrigues desapareceu quando foi levada à França para ser sonorizada. Entretanto, houve um caso fortuito, que resultou na morte da pessoa que levou o filme à Europa. Sobre este episódio, Marinho informa:

a informação que Walfredo dá de que Barradas levou seu filme, e não indicara onde, é complementada por Wills Leal que afirma ter sido o filme levado pelo cinegrafista carioca para a França; Barradas morreu de repente, e nunca mais se teve notícias do paradeiro do filme.”( MARINHO, 1998, p. 37).

O filme, segundo Leal (2007), era composto de oito partes:

As oito partes que compõem o filme (sete de caráter documentário e um prólogo – ficção) representam todo um conjunto de imagens da terra e da gente paraibanas, colhidas dentro do melhor espírito otimista, por vezes com elevada grandeza social e psicológica. (LEAL, 2007, p. 17)

Todavia, a existência da obra só veio ao conhecimento do público menos versado em cinema, durante os anos de 1960, por ocasião do lançamento de Aruanda (1960), dirigido por Linduarte Noronha. Acerca disso, Waldemar Duarte, em um artigo de 1962, para o jornal A

União, descreve:

O cinema paraibano já existe, de nosso conhecimento, há mais ou menos 30 anos. Até o aparecimento de Aruanda, de Linduarte Noronha, não se sabia da existência do documentário cinematográfico sobre a Paraíba. Virginius da Gama e Melo, em oportuna reportagem, revelou a existência de Sob o céu nordestino, de Walfredo Rodrigues. Depois conseguimos apurar a existência de outra reportagem cinematográfica de Walfredo Rodrigues. “Reminiscências de 30”. Os incrédulos e os derrotistas glossaram nossa revelação verbalmente, é claro, não tiveram a

hombridade de contestar por escrito, face à documentação existente a respeito. Agora fomos surpreendidos com novas notícias sobre cinema paraibano. Walfredo Rodrigues produziu também documentário sobre o carnaval de 1923, no Recife e “Chegada, ao Rio de Janeiro do rei da Bélgica” (DUARTE, apud MARINHO, 1998, p. 40).

O filme Reminiscências de 30 (1931) documentou momentos efervescentes da Revolução de 30, tema, ainda hoje, muito caro a uma parcela da elite paraibana. Trechos deste filme foram utilizados por Vladimir Carvalho no seu O homem de Areia (1982), para representar a discussão em torno da participação política de José Américo de Almeida nos eventos de 1930. É assim que os pesquisadores do cinema paraibano concordam que Walfredo Rodrigues é o primeiro na produção cinematográfica da Paraíba, sendo, basicamente, seus filmes do gênero documentário. É notório também que esse primeiro momento do fazer cinematográfico, isto é, dos primeiros filmes de fato produzidos no Estado, e que compõem a obra de Walfredo Rodrigues, foi um período de produções assistemáticas, durante o qual, contudo, a Paraíba esteve entre os Estados pioneiros na produção de documentários no Brasil.17 Vale ressaltar que Rodrigues enfrentou sérias dificuldades financeiras para realizar seus filmes, problema que persiste até hoje no Brasil e, ainda mais, na Paraíba.

O período de ebulição dos cineclubes contribuiu imensamente para a tentativa de produção de filmes. Como resultado deste momento, filma-se Ouro Branco, filme que merece ser destacado, haja vista ter sido a primeira experiência, porém, não concluída, de se fazer cinema posterior à década de 1920. Este filme data de 1955, tendo na direção Linduarte Noronha e como seus assistentes, Wills Leal e João Ramiro.