• No results found

4. Behandlerne/personalet

4.2 Kvalitative kommentarer – behandlerne/personalet

A contemplação do mundo sub specie aeterni é a sua contemplação como um todo limitado. Místico é sentir o mundo como um todo limitado.218

Atrás, deixou-se em suspenso a ideia de que a não arbitrariedade da ética procede da sua independência em relação ao puramente factual. Começou por se dizer então que o sujeito metafísico, portador da ética, assegurava ou era sinal, em parte, de que a ética pertence ao domínio do necessário, e com isso, ao absoluto e valioso. Adiantou-se que o que mostra adicionalmente a ética enquanto sobrenatural e transcendental, terá ainda a ver com a atitude do sujeito metafísico face ao mundo, com o modo de ver do sujeito volitivo. Cabe agora retomar o jogo de distinções que tem permitido separar as águas entre facto e valor, para caracterizar esse modo de ver.

Duas formas de observação do mundo, distintas entre si, são possíveis: a primeira, relativa, habitual, é a que, quotidianamente e na ciência, se caracteriza por ver o mundo como um conjunto ordenado de factos no espaço e no tempo; a segunda distingue-se da primeira por ser capaz de superar a simples factualidade dos acontecimentos, transpondo-os para uma visão que ultrapassa a manifestação presente das coisas e as encara (como necessárias e) sob o ponto de vista da eternidade – trata-se da contemplação do mundo sub specie aeterni. Este ponto de vista sobre o mundo permite a percepção de que “nem tudo está decidido com os factos do mundo.” (Cadernos 8.7.1916.)

A visão científica do mundo deixa sem resposta a pergunta mais fundamental, que consiste no sentido da vida – do mundo. A ciência apenas trata dos factos, mas alimenta a suposição de que pode explicar tudo, fundada na ilusão de que um dia, ao ter progredido mais, chegará às tão esperadas respostas. No entanto, os problemas que aguardam solução não têm a ver com os factos, mas com o valor, daí que, ao desaguar na constatação de que nem tudo está ainda explicado, a ciência renove a pretensão de no futuro fornecer a solução aguardada. Mas o que há de problemático com a existência humana não desaparece devido a um incremento de informação sobre os acontecimentos do mundo:

218 TLP 6.45

Sentimos que mesmo quando todas as possíveis questões da ciência fossem resolvidas os problemas da vida ficariam ainda por tocar. É claro que não haveria mais questões; e esta é a resposta. (TLP 6.52)

Houve já ocasião de assinalar que, de acordo com o Tractatus, apenas se pode formular uma pergunta onde pode haver resposta, logo, apenas sobre o que é possível dizer alguma coisa com sentido – ou seja, factos do mundo. A eliminação de todas as questões da ciência mediante proposições com sentido, mostraria que o sentido do mundo (evidente e necessário e que não poderíamos imaginar não ser o caso, o que nos impede de falar disso com sentido e, simultaneamente, de encontrar explicação para a nossa admiração com a sua existência), não é sequer tocado por elas. Isto revelaria o carácter inexprimível, ou inefável, da visão do mundo como um todo. O sentimento do mundo como todo limitado é precisamente o que Wittgenstein chama o místico. O que provoca admiração é aquela visão; por outro lado, justifica a insatisfação perante a ciência: “[o] impulso para o místico provém da insatisfação dos nossos desejos mediante a ciência” (Cadernos, 25.5.1915). Por este motivo Wittgenstein considera que “nem tudo está decidido com os factos do mundo”.

Em relação aos factos do mundo, é decisivo o modo como olhamos para eles e a descoberta de que, uma vez que é impossível comandar o que acontece através da vontade (“[n]ão posso dirigir os acontecimentos do mundo segundo a minha vontade, sou totalmente impotente.” Cadernos 11.6.1916), a solução que resta e que pode dar sentido ao mundo (de fora), consiste em renunciar a qualquer influência sobre os acontecimentos, ou seja, consiste em confrontar aquela impossibilidade e adquirir independência em relação ao mundo (que é já independente da minha vontade), de modo que o meu ponto de vista sobre os acontecimentos não se deixe tomar ou transformar ao sabor daquilo que acontece e poderia não acontecer. Quer dizer, a ligação ilusória entre o desejo e a sua realização, que nunca está garantida, domina a vontade, que se encaminha assim para a tentativa de dar forma e consistência ao objecto desejado. A frustração do incumprimento do desejo ou a gratificação de o ver contemplado, são os acontecimentos do mundo dos quais depende normalmente a nossa vontade, subjugando-a. De maneira que “[p]osso apenas tornar-me independente do mundo – e assim, de certo modo, dominá-lo – ao renunciar a uma influência sobre os acontecimentos.” (Ibid.) Conquistar a vontade equivale a torná-la independente do que é o caso, e assim, possibilitar que o querer seja verdadeiramente contemporâneo do agir. Se assim for, o querer não se liga a algo externo que a acção pudesse ter como resultado, mas a acção é, como houve já ocasião de fazer notar, em si própria o querer. Esta coincidência da vontade com a acção –

querer os movimentos possíveis do meu corpo, o pensamento e o que é o caso, de modo que a acção individual concorda com o mundo – confere sentido ao mundo, que passo a ver como meu mundo, na medida em que a minha vontade adere à vontade do mundo, quer dizer, à sua natureza, ao seu carácter ou espírito – de que se deve estar sempre consciente219. (A ideia de vontade implícita na concepção de que querer é agir, esclarece que Wittgenstein ligue a vontade à acção sem no entanto a fazer depender dos acontecimentos do mundo.) A problematicidade do mundo escoa-se – superada a maneira quotidiana de observar o mundo factual, descobre-se que o que era problemático e desajustado consistia numa atitude incapaz de ver os objectos para lá da sua configuração momentânea e na grande economia das coisas. Vê-se então como tudo pode relacionar-se e compreende-se que Deus é uma imagem para nomear a independência do mundo em relação à vontade, quando se sente que o que acontece é dependente de alguma coisa que ultrapassa a vontade individual, mas em relação à qual passou a haver adesão por parte do sujeito volitivo / metafísico:

Como tudo se relaciona é Deus. Deus é como tudo se relaciona.

Unicamente a partir da consciência da singularidade da minha vida brota a religião – a ciência – e a arte. (Cadernos 1.8.1916)

E esta consciência é a própria vida. (Cadernos 2.8.1916)

Antes de tomar estas passagens em mãos, é vantajoso fazer um caminho preparatório que auxiliará a compreensão da expressão “singularidade da minha vida”, e da sua importância para esclarecer a unidade do mundo e da vida e da ética e da estética. Trata-se de um caminho que se inicia com a consideração da descoberta de que “Deus é como tudo se relaciona”.

Uma vez que a existência do mundo – que é evidente para Wittgenstein – não é um acontecimento mas a condição de tudo o que é o caso, o mundo terá com certeza um sentido que ultrapassa o valor relativo: o seu valor deve ser de alguma forma absoluto. Por este motivo Wittgenstein acaba por fazer equivaler ‘como tudo se relaciona’ a Deus, enquanto

219 Cf. Ludwig Wittgenstein, Geheime Tagebücher 1914-1916, herausgegeben und dokumentiert von Wilhelm

Baum, Vorwort von Hans Albert, Turia & Kant, Wien, 1992 (3. Auflage), [GT], p. 50: “Que devo eu fazer, que a minha vida / não esteja perdida para mim? Eu devo estar sempre consciente dela – do espírito...”

símile220 de uma vontade sobrenatural e absoluta221. A vontade entendida de maneira metafísica diz respeito ao mundo entendido como um todo, pois, se Deus é como tudo se relaciona, a vontade não se projecta numa relação específica, cuja imagem seria um estado de coisas determinado, mas no mundo todo – e assim adere ao que necessariamente existe. A atitude do sujeito volitivo abre espaço a um sentimento que se sustenta numa visão – que é também compreensão do carácter necessário dessa existência que escapa à vontade individual – a saber, a contemplação do mundo como “um todo limitado” ou contemplação sub specie

aeterni: e o sentimento é o “sentimento místico” (cf. TLP 6.45):

Como o mundo é, é para O que está acima, completamente indiferente. Deus não se revela no mundo. (TLP 6.432)

O que é místico é que o mundo exista, não como o mundo é. (TLP 6.44)

A solução do problema da vida nota-se no esvanecimento do problema. (Não é este o motivo pelo qual aqueles, para quem após longa dúvida o sentido se torna claro, não são capazes de dizer em que é que este sentido consiste?) (TLP 6.521)

Existe no entanto o inexprimível, é o que se mostra [es zeigt sich], é o místico. (TLP 6.522. Trad. modificada.)

O sentido do mundo não está no mundo, não tem a ver com o wie mas sobrevém da própria existência do mundo – que (was) o mundo é, é o que é verdadeiramente digno de admiração. Wittgenstein descreve-o como miraculoso na LoE:

E eu irei agora descrever a experiência de admirar a existência do mundo ao dizer: é a experiência de ver o mundo como um milagre. Agora estou tentado a dizer que a expressão certa na linguagem para o milagre da existência do mundo, embora não seja nenhuma proposição na linguagem, é a existência da própria linguagem. Mas o que significa então estar consciente deste milagre às vezes e outras vezes não? Pois tudo o que disse ao mudar a expressão do miraculoso, de uma expressão por meio da linguagem para a

220 Por agora deixamos a expressão por tocar, mas, mais à frente, irá ver-se se de facto se pode dizer que Deus é

um símile ou analogia.

221 Cf. Cadernos 11.6.1916: “Ao sentido da vida, isto é, ao sentido do mundo, podemos chamar Deus. E o símile

expressão da existência da linguagem, tudo o que disse é novamente que não podemos expressar o que queremos expressar e tudo o que queremos dizer sobre o absolutamente milagroso continua nonsense. (LoE p. 44)

Quer dizer, o sentido absoluto e o valor, têm tanto a ver com um facto determinado como é impossível na linguagem, em proposições, dizer algo acerca do que é mais elevado. A impossibilidade de dizer alguma coisa sobre a experiência do mundo como um milagre, é semelhante à experiência de querer dizer alguma coisa com sentido sobre a existência da linguagem – que o Tractatus ajuda a descobrir como inefável, ou seja, ajuda a descobrir que a linguagem cessa de fazer sentido assim que queremos dizer o que é. Ajuda igualmente, ou simultaneamente, a descobrir a linguagem como admirável222. No caso da ética, Wittgenstein considera que nada do que pudesse descrever para mostrar o que é o valor absoluto, seria uma imagem capaz de captar o verdadeiro significado do que tenta dizer. Quando pesa a possibilidade de um argumento contra isto, fundado na esperança de que não compreendemos

222

Por este motivo, poderíamos dizer que o Tractatus contém já a semente da compreensão da linguagem que será mais tarde a de Wittgenstein, e que estas linhas da LoE, de alguma forma, inauguram – motivo pelo qual não podem ser postas, sem mais, lado a lado com as frases do TLP ou dos Cadernos, como temos feito com outras partes da LoE nas quais o ressoar da primeira filosofia não coloca esta questão. É que, apesar de não contrariarem o TLP, vão mais longe e afirmam já o admirável que é a linguagem, que a linguagem exista. Se no TLP a linguagem é o que espelha o mundo, quando é capaz de chegar até ele mediante proposições com sentido, aqui, nestas linhas da Conferência Sobre Ética, a existência da linguagem é posta ao lado do mundo como merecedora de ser encarada como milagrosa. Em certo sentido, é esta descoberta, da linguagem como digna de admiração, que é posta a render na filosofia pós-TLP, que procura mostrar a sua riqueza mediante descrições infindáveis dos múltiplos usos das palavras. Sobre este aspecto importantíssimo, relativo à descontinuidade – e ao que transita – entre o TLP e a filosofia posterior de Wittgenstein veja-se, Maria Filomena Molder, As Nuvens

e o Vaso Sagrado. (Kant e Goethe. Leituras), pp. 146-147: “Na Conferência Sobre Ética Wittgenstein, por um

lado, mantém-se inteiramente sob a influência do Tractatus, precisando aspectos que não tinham sido suficientemente focados, e, por outro, abre um caminho que não se conseguiria vislumbrar no Tractatus, e é justamente no conceito de limite que confluem esta continuidade e esta ruptura. Os limites do mundo (e não o mundo como todo limitado) continuam a coincidir com os limites da linguagem, mas a visão da linguagem conhece uma metamorfose de monta. Ultrapassando o limite, saltamos para fora do mundo, diz Wittgenstein, limite, a parede contra a qual corremos, contra a qual batemos com a nossa cabeça. Correr, ir contra os limites, é um movimento completamente desesperado, significa ir para lá do mundo (como conjunto inteiro de todos os factos); no entanto, sentir essa resistência e correr contra ela documenta uma tendência do espírito que não se pode tornar de maneira nenhuma matéria de riso. E, aqui, estamos no coração da metamorfose referida, da qual o próprio filósofo tinha uma consciência aguda e que se mostra no deslizar de uma visão da linguagem para outra – passando do conceito representativo da linguagem para o sentido da linguagem como fonte de admiração – do qual se fala nas últimas linhas da Conferência. (...) Sendo assim, o verdadeiro milagre é a existência da linguagem tal como ela é, incluindo a sua tendência para as expressões absurdas, que são as que mais nos importam. Nos anos que se seguem, Wittgenstein vai deixar cair qualquer imagem que restrinja de perto ou de longe o limite a uma prisão e abandona também qualquer desconfiança em relação às imperfeições da linguagem humana. Melhor, até isso é suspenso: a linguagem de todos os dias não carece de aprovação nem precisa de ser rectificada. O conceito de “forma de vida” será a última versão do conceito de limite (veja-se, em particular, as

Investigações Filosóficas). Nesta transformação do limite em forma (forma de vida) inscreve-se o entendimento

da linguagem como jogo dramático. O ponto de vista supremo em filosofia é qualificado como ‘etnológico’ [VB, Ms 162b-67r: 2.7.1940, p. 45] e os limites da linguagem humana são reconhecidos como outros tantos aspectos da riqueza da vida humana e, por isso, celebrados [VB, Ms 137-67a: 4.7.1948, pp. 83-84].”

ainda o que queremos dizer com essas descrições porque ainda não foi descoberta a análise lógica correcta de tais expressões, Wittgenstein diz o seguinte:

Agora, quando isso é incitado contra mim eu vejo claramente e num instante, como se fosse num clarão de luz, não só que qualquer descrição de que eu me pudesse lembrar não descreveria o que eu quero dizer com valor absoluto, mas também que eu rejeitaria qualquer descrição significativa que alguém pudesse sugerir, ab initio, com base na sua importância. Quer dizer: eu vejo agora que estas expressões nonsense não são nonsense por causa de eu não ter ainda encontrado as expressões correctas, mas que a sua falta de sentido [nonsensicality] era a sua própria essência. Pois tudo o que eu queria fazer com elas era ir para lá do mundo e isso quer dizer para lá da linguagem com sentido [significant language]. Toda a minha tendência e creio que toda a tendência de todos os que já tentaram escrever ou falar sobre ética ou religião, era correr contra as fronteiras da linguagem. (Ibid.)

Esta tendência para captar na linguagem o que é mais elevado é, no entanto, um testemunho da nossa tentativa de descobrir o sentido da vida, o valor do que nos rodeia, e de expressar e comunicar esse valor a outro – é uma tendência humana que Wittgenstein respeita profundamente, mas que admite não nos conduzir a lado nenhum: “correr contra as paredes da nossa jaula é perfeitamente, absolutamente sem esperança” (ibid.).

Como Wittgenstein havia já constatado no TLP, aqueles que após muita inquietação e preocupação descobrem o sentido da vida, descobrem com isso a impossibilidade de o transmitir a outro. Isto tem a ver com vários aspectos, nomeadamente com o facto de que o sentido do mundo, a solução do problema ou do carácter problemático da vida, diz respeito à maneira como cada um vê o mundo do seu ponto de vista determinado, e diz respeito ainda ao facto de que essa visão não pode descrever-se com sentido porque, em bom rigor, equivale à maneira como vivemos a nossa vida. Essa maneira de viver a vida, em harmonia com o mundo, na qual a minha vontade e a vontade do mundo se encontram e fazem contacto, desemboca num entendimento da ética enquanto actividade, e, com isso, na impraticabilidade de a constituir como teoria que prescreve como se deve agir. Não quer isto dizer no entanto que a ética assim entendida, por não prescrever o que deve ser feito, nos coloque numa relação com as coisas que as concebe como completamente neutras quanto ao valor. De maneira a esclarecer melhor um exemplo citado anteriormente e simultaneamente aquilo que está agora em jogo, retome-se o caso do assassínio e a impossibilidade de o classificar quanto

ao valor (no sentido relativo) como bom ou mau, correcto ou incorrecto (ou imoral). Esta impossibilidade não implica por sua vez que o assassínio seja indiferente no sentido ético, do seguinte modo. O assassínio é por excelência, como de resto também o suicídio223, no âmbito do Tractatus, o acto que não adere, respeita, aceita a existência224 – é o acto não pacífico para com a existência, que não lhe confere valor, e, ademais, subtrai-lhe valor (e agora vai-se dizer isto, lamentavelmente, de uma maneira redutora), ao suprimir um ser humano, um ponto de vista, uma maneira de ver o mundo única. Assim, pode ser o exemplo que serve para mostrar o que é uma vida ou uma maneira de viver a vida que não é harmoniosa, que não está em consonância com o espírito – uma vida inconsciente e de má vontade, ou que vê o mundo com maus olhos e age em conformidade. Pelo contrário, aqueles que descobriram o sentido da vida, manifestam isso mesmo na sua própria vida, que aceita a existência do mundo, tendo-se tornado independentes do que acontece e poderia acontecer de outra forma (mantendo-se tudo o resto na mesma). Essa descoberta é aquela que diz “O mundo e a vida são um”225 – e “Ética e Estética são uma”226. É ainda o que possibilita ver o mundo com um olhar feliz:

O mundo do homem feliz é diferente do mundo do homem infeliz. (TLP 6.43)

O mundo torna-se de todo outro se for visto com bons olhos; o mundo deve enquanto todo “crescer ou decrescer” (Sie muß sozusagen als Ganzes abnehmen oder zunehmen. TLP 6.43). “Estou seguro, nada pode ferir-me aconteça o que acontecer” (LoE, p. 41) – é a descrição de uma experiência par excellence, a experiência de se sentir absolutamente seguro, citada por Wittgenstein na Conferência Sobre Ética ao tentar circunscrever o que quer dizer com valor absoluto ou ético, como exemplo do sentimento de harmonia com o mundo, seja qual for o caso. O mundo que se expande, no qual todas as possibilidades ganham visibilidade

223 “Se algo não é permitido, então o suicídio não é permitido.” Cadernos 10.1.1917.

224 É certo que não são equivalentes, mas, se tivéssemos que dizer o que os torna de algum modo afins (se

imaginássemos uma corda estendida entre um e outro, a fibra que percorreria toda a corda, talvez fosse), diríamos, o facto de que ambos não aceitam (um)a existência. No caso do suicídio essa não aceitação toma a forma de atentar contra si (Hand an sich legen) – expressão alemã que serve de título ao livro que Jean Améry escreve sobre o tema e no qual nos dá a ver muitos aspectos acerca da morte voluntária (cf. Jean Améry, Atentar

Contra Si: Discurso Sobre a Morte Voluntária, Pedro Parrana, trad., posfácio e notas, Assírio e Alvim, Lisboa,

2009) – sendo este aspecto o que mais afasta os dois casos.

(Jean Améry fala de Wittgenstein no seu livro [cf. e.g., p. 155], a quem, aliás, toma de empréstimo a proposição 6.43 do TLP para epígrafe do livro.)

225

Die Welt und das Lebens sind Eins. TLP 5.621

e o espírito está seguro e confia que assim permanecerá, inabalável pelas circunstâncias contingentes, é o mundo do homem feliz. Os problemas da vida não são experienciados com tristeza – quer dizer, o sentimento de harmonia com o mundo não é fruto de uma vida inconsciente que apenas é feliz porque não vê e não experiencia qualquer problema. É uma vida harmoniosa ou de adesão ao mundo apesar do seu carácter problemático, pois, ao compreender que o mundo é independente da vontade e ao aceitar o mundo como ele é, não se está com isso a lançar um véu sobre as coisas, mas a aceitá-las como elas são, como diz Iris Murdoch, graças a uma “forma de compreensão estóica silenciosa”.227 Quando o mundo parece decrescer, isso é sinal de um desacordo entre a vontade e o mundo: a realidade coordenada com o sujeito encolhe – o que é o caso preocupa-o – e fica a vontade do sujeito como que aumentada graças ao desacerto com os factos, o que provoca infelicidade e torna problemático ver o mundo como o meu mundo.

Já se notou que a ciência é incapaz de aquietar essa problematicidade e que a