A rede mundial de computadores oferece um número absurdamente grande de videoaulas e vídeos que podem ser utilizados com finalidade pedagógica. Contraditoriamente, um material tão vasto acaba por dificultar a busca, uma vez que os critérios de seleção deverão ser muito bem apurados. Apenas o Youtube, atualmente a principal plataforma de compartilhamento de vídeos, possui mais de 1 bilhão de usuários (1/3 de todos os usuários da internet) e, a cada hora, as pessoas assistem a milhões de horas de vídeos. Estatísticas como o número de vídeos armazenados são inviáveis, uma vez que a plataforma é alimentada continuamente, 24 horas por dia, em todo o planeta. 19
Frente a essa vastidão, a escolha de uma dentre tantas opções torna-se tarefa bastante trabalhosa. Para tanto, alguns critérios foram observados por nós quando da seleção de material para compor nossas sequências de ensino. Um deles foi esclarecer quais os resultados buscaríamos obter a partir da apresentação do vídeo ou videoaula. Para isso, nos baseamos nos 20 resultados potenciais elencados pro Berk (2009) que poderiam ser obtidos a partir da apresentação dessas mídias em sala de aula. São eles:
1. Prender a atenção dos estudantes; 2. Focar a concentração dos estudantes; 3. Gerar interesse na aula;
4. Criar uma sensação de antecipação;
5. Energizar ou relaxar os estudantes para exercícios de aprendizagem;
6. Atrair a imaginação dos estudantes;
19 Dados retirados do site <https://www.youtube.com/yt/press/pt-BR/statistics.html>. Acessado em 01 de fevereiro de 2017.
Sequência
Mídia 1ª Sequência 2ª Sequência 3ª Sequência 4ª Sequência 5ª Sequência
Vídeo Videoaula
7. Melhorar as atitudes em relação ao conteúdo e à aprendizagem; 8. Construir uma conexão com outros estudantes e o professor; 9. Aumentar a memória do conteúdo;
10. Aumentar a compreensão; 11. Fomentar a criatividade; 12. Estimular o fluxo de ideias;
13. Fomentar uma aprendizagem mais profunda;
14. Proporcionar uma oportunidade para a liberdade de expressão; 15. Servir de veículo de colaboração;
16. Inspirar e motivar os estudantes; 17. Fazer o aprendizado divertido; 18. Definir humor ou tom apropriado;
19. Diminuir a ansiedade e a tensão em tópicos mais difíceis;
20. Criar imagens visuais memoráveis. (BERK, 2009, p. 2, tradução nossa)
Para cada vídeo ou videoaula selecionada, buscamos sinalizar qual teria sido nossa intenção e qual o resultado almejado a partir daquela escolha.
Elegemos, como costumeiramente é feito nas escolas, a visão científica para embasar nossa escolha. Logo, um critério primordial, que talvez sequer devesse ser elencado como tal, mas como condição eliminatória, é a veracidade (mediante os conceitos da ciência) das informações contidas nos vídeos e videoaulas. Como a internet não dispõe de um filtro que selecione adequadamente o seu conteúdo, muita informação permeada de equívocos (ou mesmo erros grosseiros) pode ser facilmente encontrada numa rápida zapeada pela rede. Além dos outros fatores já explicitados sobre a importância de os professores introduzirem mídias em seus planejamentos (como dialogar com uma ferramenta de uso corriqueiro do estudante e inserir a escola no mundo virtual do qual o jovem é nativo digital), acrescente-se a necessidade de ajudar o estudante a filtrar a informação adquirida. A educação para a lida com informações virtuais acabou se tornando mais uma das atribuições da escola, na nossa percepção.
Por que temos separado vídeo e videoaula como entidades diferentes? Na nossa classificação, vídeos podem ser tomados como qualquer sequência animada de imagens. Para videoaulas, adotamos critérios mais específicos. A partir do que entendemos como o gênero aula partimos, então, para a definição de videoaula. Para tanto, nos baseamos na definição de gêneros discursivos de Bakhtin (2003). De acordo com o autor, os gêneros discursivos definem-se por aspectos próprios, como: conteúdo temático (assunto), plano composicional (estrutura formal) e estilo (leva em conta a forma individual de escrever, vocabulário, composição frasal e
gramatical). Assim, chamaremos de aula à atividade pedagógica que apresenta/discute um tema e acontece numa sala de aula, estruturada como aquela sinalizada pelo fotógrafo Germain (2005): presença de um quadro para registros e onde se vê um grupo de estudantes distribuídos em carteiras em frente ou em torno desse quadro. Além disso, a comunicação é feita de maneira levemente formal e os discursos apresentam forma e conteúdo retratando, predominantemente, a visão da ciência sobre os fenômenos. Diferentes salas de aula, contudo, apresentam especificidades, pois podem representar diferentes esferas de comunicação e, portanto, variar sua composição. Entretanto, um padrão pode ser percebido, tornando viável a caracterização do gênero aula.
A partir de tal definição para esse gênero, emerge o gênero videoaula, que guarda características semelhantes às das aulas. Assim, tomamos como videoaulas aquelas em que a presença física do professor aparece na gravação (e não apenas sua voz, como em diversos (bons) canais disponíveis). O professor também faz uso de quadros em suas explicações, sejam eles tradicionais ou mais modernos, como a escrita refletida a partir de uma mesa de digitalização. Um diferencial aqui é que agora, os estudantes distribuídos em torno do quadro podem estar separados por milhares de quilômetros de distância.
Como sinalizado por Capecchi (2013), as relações pedagógicas inevitavelmente perpassam pela dimensão afetiva. Sendo assim, para nós, foi desejável que o professor, além de domínio do conteúdo e destreza vocabular, tivesse empatia com seus espectadores. As videoaulas em que o professor apresentava postura arrogante e/ou irônica em níveis de constrangimento pessoal foram desconsideradas, uma vez que defendemos o fazer educação embasado em conhecimento permeado por afetividade e respeito.
Outro fator utilizado na seleção dos vídeos e das videoaulas foi o tempo de duração. O relatório do Ministério da Educação e da Unesco - Juventudes: outros olhares sobre a diversidade (2004) sinaliza a rapidez nas mudanças cotidianas como exigência de um tempo também diferente dos jovens para acompanhar os diversos e novos saberes construídos. O excesso de estímulos a que o estudante é submetido (e foi submetido durante toda sua vida) nesse mundo tecnológico em que nasceu imerso, relativizou sua noção de tempo, como já foi discutido acerca do perfil do
estudante deste trabalho. Existe uma demanda de que as atividades a que se dedicam sejam ágeis e rápidas como são os processos que vivencia, refletindo seu cotidiano. Com isso, limitamos as videoaulas desse estudo a um tempo máximo de 15 minutos. É certo que diversos conteúdos da Física não se esgotam num tempo tão curto de aulas. Tampouco esse era um de nossos objetivos. E, também por isso, os grandes temas de estudo foram recortados em unidades menores, compondo as sequências de ensino.