3.4 Anvendte metoder
3.4.2 Kvalitativ studie
inferiores aos afro-brasileiros, que ainda viviam em uma sociedade escravista e monárquica? Tal indignação é expressa nas linhas finais do artigo, quando o autor chega a especular que os EUA poderiam ser o último país a abolir a escravidão. Sabemos que seria reservada ao Brasil esta posição, já que nos Estados Unidos a abolição seria decretada em 186361, enquanto no Brasil isto só aconteceria em 1888.
Não parece impossível que o jovem Império do Brasil possa liderar nossa vangloriada nação anglo-saxã nos trabalhos pela emancipação e que a terra de Washington, de Adams e de Jefferson possa cair na distinção singular de ocupar o último lugar entre as nações civilizadas que aboliram a instituição da escravidão.62
2.2 O BRASIL E O DEBATE SOBRE A DEPORTAÇÃO DOS AFRO- AMERICANOS
O exemplo da sociedade brasileira foi utilizado, novamente, pela propaganda abolicionista, em maio de 1858, na fala do abolicionista Frederick Douglass durante um
60
The Frederick Douglass Paper, 19 fev. 1852.
61
Como estratégia de enfraquecimento dos sulistas durante a Guerra Civil, o presidente Abraham Lincoln aboliu a escravidão nos Estados Confederados no ano de 1863. Como os sulistas não obedeciam às leis impostas pelo governo federal, esta só passou a valer, efetivamente, no ano de 1865, quando a guerra terminou e os Estados Confederados foram derrotados.
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discurso intitulado “Cidadania e o espírito de casta”, uma resposta à proibição de a população negra de Nova Iorque utilizar o transporte público ou fazê-lo sob a condição de não o dividir com pessoas brancas. Esta era uma das várias leis segregacionistas empregadas na região e que, como vimos anteriormente, marcava a experiência dos libertos com episódios de racismo e violência. Além disto, à medida que os libertos abolicionistas exigiam mais direitos e cidadania, mais estes conflitos se acirravam. O discurso foi ouvido pela comunidade negra seguidora da Shiloh Presbyterian Church e, mais tarde, publicado em outros jornais, como o próprio The Frederick Douglass Paper. Enfatizando o absurdo da necessidade de cidadãos livres revindicarem os mais simples direitos, como o de utilizar o transporte público, Douglass afirmou que isto era resultado do espírito de casta gerado, excepcionalmente, pela escravidão norte-americana. Revoltado com os argumentos de segregação racial baseados na inferioridade da raça negra, o abolicionista questionou:
Por que os homens de cor no norte progridem tão pouco? Por que eles não são mais ricos, melhores e mais sábios? Os homens que fazem estas perguntas respondem a elas do seu próprio jeito. Eles nos dizem que o homem negro é inferior em dotes naturais em relação aos homens da raça branca. Também dizem que o homem de cor não tem o vigor natural que é vital ao progresso que os distingue da raça branca. Eu trato com desprezo e indignação esta perspectiva sobre a minha raça.63
Douglass continuou seu discurso atribuindo o atraso da população negra que vivia no Norte dos Estados Unidos às imposições legais e ao desrespeito à sua liberdade e cidadania, o que aproximava as políticas vigentes nesta parte do país àquelas empregadas no Sul escravista. Assim, através deste discurso, ele combatia dois argumentos frequentemente utilizados por grupos antiabolicionistas: a inferioridade da raça negra e o atraso natural desta “espécie”. Mais uma vez, no mesmo discurso, o abolicionista cita o Brasil como exemplo de nação mais democrática do que os EUA, a despeito das premissas frequentes de que era um país mais atrasado por ser miscigenado, latino-americano, tropical e católico:
Eu duvido que já tenha existido um povo mais subjugado, mais desavergonhadamente massacrado e maliciosamente usado do que as pessoas livres de cor dos Estados Unidos. Mesmo em um país católico como o Brasil − um país que nós, com nosso orgulho, estigmatizamos como semi- bárbaro − não trata as pessoas de cor, sejam livres ou escravos, da forma injusta, bárbara e escandalosa como tratamos. As consequências dessa diferença são melhor vistas na condição do homem livre de cor lá, que vive
63
BLASSINGAME, John W. (Ed.) The Frederick Douglass Papers. Series one: speeches, debates and interviews. v. 3: 1855-63. New Haven and London: Yale University Press, 1985, p. 208-212.
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melhor do que os daqui. A prática do país é que, quando um escravo é emancipado ele é de uma só vez investido de todos os direitos de um homem − feito igual em todos os outros aspectos do Império. Ele é um homem livre. Sua cor e suas características deixam de importar frente à chama da sua liberdade.64
Para fortalecer o argumento de que os Estados Unidos eram a única ou a nação mais racista do mundo atlântico, Douglass elevou o Brasil à categoria de país onde a liberdade de pessoas libertas era plenamente reconhecida e respeitada. Com isto, ele fazia o contraponto com a denúncia de sua fala anterior, sobre a restrição do acesso ao transporte público imposta à população negra de Nova Iorque. Questionamos, novamente, qual seria a fonte de informação do abolicionista afro-americano. O historiador John Blassingame traz um importante indício ao afirmar que Douglass podia ter tido acesso à obra Brazil and the Brazilians, dos viajantes Kidder e Fletcher, além de Life in Brazil, de Thomas Ewbank. Na primeira obra, principalmente, as relações raciais no Brasil são descritas como igualitárias. Difundir tal imagem sobre o Brasil fortalecia a denúncia da discriminação racial arraigada nas relações raciais do vizinho norte-americano.65
Douglass também citou o exemplo dos mulatos brasileiros e como suas habilidades e intelectualidade afloravam quando encontravam um ambiente de incentivo e estímulo, o que só era possível quando não encontravam restrições à sua cidadania. Ele citou o exemplo do proprietário de uma importante tipografia no Rio de Janeiro que, segundo ele, era um homem de cor. Certamente ele estava se referindo a Paula Brito, também citado em outros jornais abolicionistas que utilizaram a mesma fonte produzida por Kidder e Fletcher.66 Por fim, Douglass conclui seu protesto afirmando o seguinte:
Se o homem de cor pôde se elevar da degradação à respeitabilidade no Brasil, com o mesmo tratamento nós também podemos nos elevar aqui. Se ele pode ser estimado como um homem pelo português, ele também pode ser tão estimado pelos anglo-saxões e celtas. Se ele pode obter justiça das mãos dos católicos, por que não também das mãos dos protestantes?67
64
BLASSINGAME, The Frederick Douglass Papers. Series one: speeches…, cit., p. 211-212.
65
KIDDER, D. P.; FLETCHER, J. C. Brazil and the Brazilians, portrayed in historical and
descriptive sketches. Philadelphia: Childs and Peterson, 1857; EWBANK, Thomas. Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm. New York: Harper and Brothers,
1856.
66
Ao que tudo indica, este uso da obra Brazil and the Brazilians, foi muito comum na imprensa abolicionista. O mesmo trecho em que Paula Brito é mencionado também é encontrado no jornal
The National Era, de 6 de agosto de 1857. Sobre o papel e atuação de Paula Brito como defensor
dos direitos dos libertos ver: AZEVEDO, Maçonaria, anti-racismo e cidadania..., cit., p. 162-191.
67
Discurso de Frederick Douglass citado em: BLASSINGAME, The Frederick Douglass Papers.
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Com estas comparações e a menção às potencialidades intelectuais dos mulatos brasileiros assim como à suposta ausência de leis segregacionistas que limitassem a cidadania da população liberta brasileira, Douglass questionava as teorias científicas que afirmavam a existência de limitações intelectuais e de caráter dos negros e mulatos norte-americanos. Além disto, mais uma vez, a experiência de outros povos negros da diáspora, como os afro- brasileiros, era aproximada da experiência dos afro-americanos e reforçava a ideia de que os povos negros de ambos os países compunham um só povo.68 Afinal de contas, as afirmações sobre a diferença e a desigualdade entre as raças, quando interessava aos seus formuladores, também eram aplicadas às populações negras que viviam no continente americano e africano. Isso foi feito por cientistas que utilizaram o exemplo do Brasil para provar exatamente o contrário do que os abolicionistas queriam dizer.
Os racialistas também afirmavam que nem educação nem outros investimentos tirariam os afro-americanos do seu lugar natural de degradação. Desde o início do século XIX, estes projetos de expatriação dos libertos se formularam com a fundação da Sociedade Americana para a Colonização, em 1816. Seus fundadores, nortistas brancos, alegavam a impossibilidade de convívio entre negros e brancos nos Estados Unidos, fosse por razões de segurança fosse para evitar a amalgamação. O objetivo principal da Organização era promover a deportação da população afro-americana para uma colônia fundada na Libéria. Além daquela colônia africana, outros lugares na América Central e na América Latina foram cogitados como destino para a população negra dos Estados Unidos. Desta forma, o governo norte-americano acreditava que resolveria o problema da suposta falta de mão de obra em outros países onde o convívio entre negros e brancos era aceito na prática social. Ao mesmo tempo, a expatriação solucionaria um “problema” interno representado pela presença da população negra liberta após a abolição, já que, como vimos, pensar a sociedade norte- americana como multirracial era algo inconcebível pelas elites nacionais.69
68
Sobre como a experiência do cativeiro, tráfico e ancestralidade africanos reforçou um sentimento de identidade entre as comunidades negras atlânticas ver: HOLT, Thomas. Slavery and freedom in the Atlantic World: reflections on the diasporan framework. In: HINE, Darlene Clark; MCLEAOD, Jacqueline (Ed.). Crossing boundaries: comparative history of Black people in diaspora. Bloomington & Indianapolis: Indiana University Press, 2000.
69
O debate sobre as motivações e discussões em torno do projeto de deportação da população afro- americana bem como de que maneira esta questão estava atrelada às expectativas norte-americanas de exercer poder e influência sobre a América Central e Latina através do pretexto de manter o uso e controle sobre a população liberta, ver de: SAMPAIO, Maria Clara. Negros sonhos: os projetos de colonização de afro-americanos no Brasil e na América Central durante a Guerra de Secessão. In: MACHADO, Maria Helena P. T.; CASTILHO, Celso. Tornando-se livre: agentes históricos e lutas sociais no processo de abolição. São Paulo, EDUSP [no prelo]; e Não diga que não somos
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A partir dos anos 1840, o Brasil passou a ser considerado como possível destino para os afro-americanos a serem deportados. A ideia seria enviá-los para a Amazônia, com o objetivo de expandir a área de influência escravista na América Latina e contrabalançar a quantidade de pessoas negras no sul dos Estados Unidos, tida como ameaçadora à supremacia branca da região. Na década de 1860, o projeto de expatriação dos afro-americanos ressurgiu reformulado no contexto da Guerra Civil e dos debates em torno do pós-abolição. Com a vitória do presidente Lincoln, a abolição da escravidão se tornava cada vez mais real dada às suas posições consideradas moderadas por seus opositores. O Presidente, ao mesmo tempo em que defendia suas intenções de pôr fim ao cativeiro no Sul do país, não desejava ser vinculado ao movimento abolicionista, embora sua imagem ainda assim tenha sido apropriada pelos militantes como um emancipador. Ele também deixava claro que a emancipação se daria concomitantemente à deportação da população liberta. Segundo ele, a expatriação da população negra evitaria as consequências negativas da emancipação dos escravos: a amalgamação racial, a africanização da América e o negrismo livre.70
Foi então que James Watson Webb, ministro norte-americano no Brasil durante os anos da Guerra Civil, reformulou, no ano de 1862, a ideia já existente nos anos 1840, e a reapresentou ao presidente Lincoln como solução para o problema causado com o fim da escravidão: o transtorno causado pela população negra pós-abolição nos Estados Unidos seria resolvido pela expatriação destes libertos para a Amazônia brasileira, região de antigo interesse do governo norte-americano.71 Além disto, lançando mão de argumentos científicos que associavam o clima tropical ao ambiente natural dos africanos e seus descendentes, o Brasil apresentava características ideais para tal empreitada. Outro fator que fortalecia os argumentos de Webb era a suposta ausência de preconceito racial na sociedade brasileira, onde os afro-americanos encontrariam um ambiente em que, diferente dos Estados Unidos,
e Brasil. Tese (Doutorado em História Social) − Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014. Ver, também: BURIN, Eric. Slavery and
the peculiar solution: a history of the American colonization society. Gainesville, Florida:
University Press of Florida, 2005.
70
HORNE, Gerald. O Sul mais distante: os Estados Unidos, o Brasil e o tráfico de escravos africanos. São Paulo: Cia. das Letras, 2010. p. 155-183; 251. Ainda sobre as posições conservadoras e moderadas de Lincoln sobre abolição, escravidão e população negra nos Estados Unidos ver: FONER, Eric. The fiery trial: Abraham Lincoln and American slavery. New York: W.W. Norton & Company, 2010.
71
LUZ, Nícia Vilela. A Amazônia para os negros americanos: origens de uma controvérsia internacional. Rio de Janeiro: Saga, 1968. Ver, também: MACHADO, Brazil through the eyes of
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poderiam usufruir de igualdade sociopolítica e teriam oportunidades de ascender socialmente.72
A ideia da expatriação dividiu a comunidade afro-americana. Alguns setores, cansados das barreiras impostas pelo racismo nos Estados Unidos, decidiram deixar o país, na década de 1850, na esperança de reconstruírem suas vidas em um lugar onde tivessem maiores oportunidades. O abolicionista afro-americano Martin Delany, neto de africanos, um homem nascido livre no estado escravista da Virgínia, era conhecido como líder deste movimento imigratório. Delany acreditava que, mesmo depois de decretada a abolição, os brancos do seu país jamais permitiriam que a população liberta fosse beneficiada pelos direitos à cidadania e ao voto. Segundo ele, os Estados Unidos eram um país onde a cor branca era uma marca de distinção e superioridade e os negros nunca deixariam de ser um símbolo de degradação. O próprio Delany havia vivido a experiência de estar entre os três primeiros homens negros a serem admitidos na escola de medicina de Harvard e encontrar grande resistência de seus colegas, que não aceitavam que ele compartilhasse a sala de aula com estudantes brancos.
Assim, descrente das possibilidades de inserção social dos negros na sociedade norte-americana, este abolicionista defendia que os afro-americanos imigrassem para lugares onde a população negra fosse maioria e que, portanto, constituíssem o elemento dominante do corpo político. Como opções, Delany apresentava Cuba, Porto Rico e Brasil. Este último país era visto com mais entusiasmo como alternativa de imigração dos afro-americanos, pois mesmo que ainda fosse escravista, como todos os outros, segundo ele, ali o cativeiro era mais brando, “quase uma benção”, se comparado à escravidão norte-americana. A condição dos libertos também era bastante favorável, uma vez que era sabido que, no império brasileiro, a cor da pele não era uma barreira social que impedisse a sua ascensão e os negros eram política e socialmente iguais aos brancos. Em suma, no Brasil, os libertos tinham direitos garantidos pela constituição e eram cidadãos.73
72
Além de HORNE, O Sul mais distante..., cit., capítulo 9, ver, também: SAMPAIO, Maria Clara S. Carneiro. Fronteiras negras ao Sul: a proposta dos Estados Unidos de colonizar a Amazônia brasileira com afro-descendentes norte-americanos na década de 1860. Dissertação (Mestrado em História Social) − Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008, p. 9-34.
73
LEVINE, Robert (Ed.). Martin Delany: a documentary reader. North Carolina: The University of North Carolina Press, 2003, p. 245-279. Estes trechos fazem parte de um discurso de Martin Delany proferido durante a Convenção Nacional de Imigração das Pessoas de Cor na cidade de Cleveland-Ohio, em agosto de 1854.
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Já outros grupos compostos por abolicionistas radicais rejeitaram incisivamente a ideia de deportação e insistiram na luta por cidadania no país que conheciam como terra natal.74 Ao tomar notícia dos planos do governo norte-americano de enviar a população negra para a América Latina, os abolicionistas negros contrários ao projeto reagiram imediatamente, defendendo seu direito à cidadania e de permanência nos Estados Unidos. Algumas evidências podem nos revelar que, mesmo apontando o Brasil como país onde as relações raciais eram mais favoráveis, os militantes negros norte-americanos não desejavam ir para o país latino americano depois da abolição. Anos mais tarde, em 1878, em um artigo chamado “Ready for Brazil” (“Prontos para o Brasil”), o autor falava da dificuldade de se recrutar trabalhadores negros na capital, Washington, que estivessem dispostos a ir para o Brasil, isto porque “líderes comunistas” estavam convencendo os trabalhadores de que “o governo dos Estados Unidos nos deve meios de viver... e nos deve isso aqui mesmo, na capital”. O tal líder, provavelmente um abolicionista, lembrava aos trabalhadores que o Brasil ainda era um país escravista: “Isso não é nada mais do que um esquema para jogar vocês todos para a escravidão novamente depois que vocês chegarem no Brasil”.75
Porém, nos anos que antecederam a Guerra Civil, o Brasil era importante no discurso abolicionista. Em outubro de 1862, o país foi citado, desta vez no contexto dos debates sobre a expatriação. Frederick Douglass, novamente, através do jornal abolicionista Douglass Monthly do qual era editor, escrevia para responder às afirmações do general Montgomery Blair, aliado do presidente Lincoln. Blair, embora sulista, era abolicionista, democrata que depois de tornou republicano e defendia que os negros emancipados após a Guerra Civil deveriam ser expatriados para a América Central, revelando aquilo que já era discutido nos bastidores por Lincoln, Webb e outros defensores da expatriação.76
Frederick Douglass, de forma muito diplomática, respondeu ao general prezando as afirmativas positivas do mesmo, uma vez que Blair dizia que apoiava a deportação dos afro-americanos, mas não porque acreditava na inferioridade destes em relação aos brancos. Depois de saudar o general por ele crer na igualdade entre as raças, Douglass reafirmou sua defesa do direito da população negra de permanecer nos Estados Unidos, a despeito das ideias de expatriação. Para tanto, o abolicionista lançou mão de uma já conhecida estratégia que era insistir na existência de um nacionalismo negro sustentado por uma identidade afro-americana construída de forma vinculada à sociedade norte-americana:
74
BURIN, Slavery and the peculiar solution…, cit., p. 6-36.
75
The Washington Post, 30 maio 1877.
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Eu não vejo nada na natureza que confirme a diferença entre as duas raças que impeça a convivência pacífica e feliz [de brancos e negros] no mesmo país, sob o mesmo governo. Nós somos americanos de nascimento e formação e temos preferência por instituições americanas àquelas de qualquer outro país. O fato de desejarmos permanecer aqui é natural para nós e eu repito, eu não vejo necessidade para a separação.77
Além de questionar as ideologias racialistas que estavam por trás do projeto de deportação e reafirmar o direito de permanecer nos Estados Unidos usando um discurso, de certa forma, nacionalista, Douglass insistiu na afirmação do direito de autogoverno como algo inerente à liberdade. Uma vez libertos, os afro-americanos decidiriam onde construiriam sua vida em liberdade ou se ficariam no país e lutariam por ela. Como parte da estratégia argumentativa de Douglass, o Brasil é citado mais uma vez como país onde, mesmo ainda havendo escravidão, não existia um projeto de expatriação da população liberta. O fato de que os libertos no Brasil tinham o “direito” de permanecer no país em que nasceram interessava bastante ao debate político travado pelo abolicionista, que desejava mostrar, novamente, a intensidade e rigidez das regras de segregação racial no seu próprio país. Assim, fazendo uma comparação direta das sociedades brasileira e norte-americana e das relações raciais que operavam em ambas, ele escreveu:
Por que os americanos devem ser menos tolerantes em relação às diferenças nacionais de formas, características e cor da pele do que outras nações de raça branca, que em muitos outros aspectos são muito menos iluminados do que nós? Por que é que nós não ouvimos falar em projetos para se livrar de as pessoas de cor livres em Cuba ou no Brasil? Neste último país, onde há mais de quatro milhões de escravos negros, o homem livre de cor não é sujeito à expatriação. No momento em que as correntes são tiradas do seu corpo, ele está em plena liberdade para ocupar qualquer cargo desde que seus talentos e conhecimentos lhes caibam. Por que não deve existir a