Eu gosto de passar e ver meus nomes nas alturas. É rochedo81. (Prata EM82)
Na Imagem 24 e nas palavras do pixador Prata EM existe um olhar que se desloca sempre para o alto, o céu é a paisagem de fundo preferida para expor sua marca. O que Prata vê também o olha e simboliza nele o desejo de ser tão sublime quanto à paisagem celeste. O céu é essa presença emudecida e simbolicamente forte que representa a morada do divino, é universalmente o símbolo dos poderes superiores.
80 Segundo o autor citado a dialética do visível promove uma erupção do tempo presente, pois o ato de ver
estaria fundamentalmente relacionado à elucidação de nossa memória, que por fim é parte constituinte das imagens que vemos. A fenomenologia da percepção trata dessa ideia de tempo como algo em contínuo desdobrar, advindo dessa relação perceptiva do corpo em relação aos objetos e o mundo.
81 “De rocha” ou “rochedo” é uma expressão oral e gráfica (CHAGAS, 2012, p.58) utilizada por vários jovens em Fortaleza, não necessariamente pixadores. É uma expressão de exaltação como algo muito bom ou “massa”.
82 Entrevista realizada presencialmente na 4ª Mega Reunião de Pixadores na pracinha da Cidade dos
Imagem 24 – S/ título
Fonte: Postagem na comunidade Xarpi Virtual do Facebook (nov. 2013).
As representações construídas na pixação são metáforas do olhar que ao ver desafiadoras alturas desejam estar lá para que simbolicamente adquiram a representação do topo, do lugar mais alto e acima de todos.
Os pixadores são representados por suas marcas, aos olhos da metrópole eles são corpos invisíveis, mas o ato de pixar promove uma visibilidade a partir da tinta e do imaginário simbólico do pixo construído entre eles. Esse corpo emerge e desaparece por meio do disfarce, a lata de tinta em punho dá acesso a sua principal identidade: seu xarpi. Quando não estão em saídas para riscar são imperceptíveis aos olhares, tornando-se parte da imensa
juventude periférica de Fortaleza. A vestimenta83 é comum: bermuda, camisa, chinela, boné
ou não; nenhum item tão chamativo ou específico, no entanto, é através dos sentidos que deixam deflagrar suas paixões. Seus olhares fitam a todo instante a arquitetura da cidade, lendo visualmente estruturas de muros e riscos de spray. Reconhecem companheiros a todo
83
Essa descrição privilegiou o âmbito masculino, mas as mulheres estão presentes nas narrativas de pixação além de namoradas, como pixadoras também, algumas da década de 90 foram Zana RM, Déia RPM e Ratinha FG. Na geração de 2010 existem galeras somente de mulheres pixadoras como a GG “Garotas Grafiteiras” e a TDA “Terrorista de Atitude”.
instante e percorrem o trajeto do ônibus84 a comentar sobre os pixos, atualizando os muros com suas novas marcas.
Enquanto a visualidade urbana é regida por um sistema de entendimento comum, de símbolos e placas para uma ordenação comunicativa, esses jovens estão construindo outra lógica paisagística que congrega a todos eles por intermédio da cidade. A cidade é uma extensa tela (CAMPOS, 2011, p.26) tão exposta e por isso tão propícia a deixar assinaturas. Para o sujeito comum isso não faz sentido, para este o sentido principal da cidade é do fluxo cotidiano entre casa-trabalho/escola-casa. O trânsito é parte da lógica da cidade onde os muros compõem a ordenação do ir ou do não ir, as paredes que separam também protegem e demarcam os espaços privados e públicos.
Os pixadores reconhecem essa arbitrária racionalização da vida urbana e recusam essa forma de integração social e maneira de viver na cidade, porque pixar acaba sendo um exercício de libertação. Para além da dualidade do público e privado a quebra de fronteiras pelo pixador com sua marcação parece fazer parte de uma lógica de pensar a rua e sua estrutura física como sendo de todos, na idéia de um bando que maximiza a liberdade dentro da cidade, criando um novo e independente cotidiano.
A marca é registro de uma presença que permite no tempo uma constante comunicação na cidade. Bombardear a urbe é o modo de alcançar a visibilidade numa cidade polifônica (CANEVACCI, 1997). A pixação reutiliza as estratégias da publicidade para se tornar massiva, a finalidade é estar em maior número pela cidade como os cartazes, letreiros, outdoor, placas e as outras ferramentas de comunicação visual impregnadas na paisagem urbana.
O lema comercial “quem não é visto não é lembrado” é ressignificado pelos pixadores direcionando suas práticas. Assim, pelo artifício da repetição os pixos impregnam a cidade legitimando seus sujeitos ao jogo da pixação.
O jogo é uma categoria construída por Bourdieu (1996a) na tentativa de capturar a lógica do mundo social. Segundo o autor os agentes estão distribuídos dentro de espaços sociais a partir de dois princípios de diferenciação: o capital econômico e o capital simbólico. Essa distribuição, por sua vez, os reúne em um sistema de preferências (gostos), o que
84 Parte de uma observação participante onde me encontrei com pixadores no terminal do Antônio Bezerra e
também explicaria as razões de suas práticas. Quanto mais próximos estiverem nas dimensões do capital econômico e simbólico tanto mais têm em comum. (1996a, p.19) Desta forma, o jogo se caracteriza na lógica de cada posição social, nas razões das práticas de saber agir e pensar dentro das vivências que envolvem um campo. Lembrando que apenas têm o sentido do jogo os agentes que participam do mesmo campo social, cada um destes compartilha de um habitus. O habitus são características intrínsecas e relacionais de um espaço social que agrupam seus agentes em uma unidade.
Desta forma, os pixadores participam de um mesmo campo e compartilham intrínsecas lógicas de percepção, assim como linguagem. Faz parte do seu jogo a produção de marcas em maior número, pois desta forma, estarão mais próximos de ter o reconhecimento, fama e ibope de seus semelhantes. Assim, como “marketeiros urbanos” os pixadores desafiam as estruturas escalando placas, marquises, outdoors, monumentos, prédios e etc. na intenção de dar destaque às suas assinaturas.
Fotografia 25 – Saimo VDM
O êxito do ibope marca uma passagem simbólica do “eu-ninguém” para um “eu- considerado85” nas galeras de pixação. O território marcado é uma representação simbólica de si, sendo o xarpi uma marca construída, vivida e levantada como meta. A potência do desejo de ser um pixador considerado é deflagrada na paisagem urbana com seus inúmeros riscos representando o hall da fama dos pixadores.
Ainda segundo Bourdieu (1996a) dentro de cada espaço social existe a construção de bens simbólicos os quais aqueles agentes pertencentes ao campo, concorrem ou disputam para a obtenção desse bem, adquirindo assim o poder. O capital simbólico age como uma verdadeira força mágica, uma propriedade que por responder a uma expectativa coletiva, socialmente construída, exerce uma espécie de ação à distância, sem contato físico.
A exibição dos xarpis, atualmente, também se manifesta nas redes sociais da internet. Os pixadores participam de comunidades no Facebook onde postam imagens de suas marcas, tecem comentários, notícias e divulgam as reuniões. Mas a ambiência da internet também provoca tensões. Segundo alguns existem pixadores que querem construir um ibope através de uma divulgação repetitiva na internet, estes trocam o bombardeio dos xarpis nas ruas pelos bombardeios virtuais. Suas divulgações nas comunidades são motivo de chacota e
“para tirar mais onda” um pixador anônimo criou o personagem Pixoswaldo86 para
representar esses “pixadores de internet”, como vemos nas Imagens 26, 27 e 28 abaixo:
85 Considerado é um termo nativo freqüentemente utilizado significa ser reconhecido como importante na
cultura da pixação ou por antiguidade na prática ou pelo seu desempenho de possuir um grande número de xarpis pela cidade. Também simboliza um pixador ou grafiteiro respeitado.
86 Existe uma página de Pixoswaldo no Facebook, disponível em: < https://www.facebook.com/pages/Este- %C3%A9-Pixoswaldo/546578152102733>. Acesso em: 01 fev. 2015.
Imagem 26 – Pixoswaldo
Fonte: Comunidade Xarpi Virtual do Facebook (nov. 2013).
Imagem 27 – Pixoswaldo
Imagem 28 – Pixoswaldo
Fonte: Comunidade Xarpi Virtual do Facebook (nov. 2013).
Pixoswaldo não possui o sentido do jogo da pixação, quer se figurar entre os notórios por meio da sua própria divulgação na internet, mas os membros reconhecem a artificialidade de sua prática.
Para os praticantes dessa cultura pixador de verdade87é o sujeito que está nas ruas
se expondo e se arriscando com ousadia na tentativa de conquistar um status. Ser pixador significa investimento de capital, de tempo e de vida. A pixação e suas características de ousadia, adrenalina e vício traduzem uma prática arriscada para obter um reconhecimento perante seus pares.
Porque tem muito pixador que infelizmente pixa dois, três muros e posta cinqüenta fotos no Face [Facebook] ai diz que é um fera de Fortaleza, ta entendendo. Eu sou um cara que não liga pra Face, eu não mexo, eu sou novo [na cultura da pixação], mas eu não ligo pra Face, porque o Face não vai me dar nome, o Face não vai me dar status, eu vou fazer o quê com o Face? Eu to pouco me lixando pro Face, ta entendendo, porque pra mim o pixador não mostra a atitude dele na internet, mostra nos muros, mostra nas avenidas, mostra nas altura, isso sim é o pixador de verdade, não o pixador do Face, que é igual muitos hoje são pixador no Face, quando ta na rua você não vê a atitude do cara, ta entendendo? (Roco SF)
O pixador que não é de corpo e alma é o pixador falso que entra pra avacalhar. […] O pixador de corpo e alma é o que sai pra pixar qualquer horário, madrugada, mas não o que sai pra disputar com outra galera ou então pra ta robando ou pra ta se drogando no meio da rua, isso ai não é pixador. (Surf SF)
87 Essa diferenciação nativa é marcada para enfatizar que “pixador de verdade” não pixa por moda e que não se
Nas palavras de Roco reconhecemos uma divisão entre os “reais pixadores” e os “pixadores de internet”. A pixação como um campo simbólico de disputas possui agentes de reconhecimento que tem o poder de nomear quem é ou não de fato pixador. Esses representantes são reconhecidos pelos demais pelo fato de terem acumulado capital
simbólico88 dentro da cultura do xarpi. Deste modo, o poder lhes caracterizam como líderes
de suas respectivas galeras.
Segundo Bourdieu em “A economia das trocas lingüísticas” (1996b), a palavra é um exercício de poder, pois a linguagem é uma forma de construir os sentidos da realidade. O autor irá discutir a eficácia do discurso, o discurso como agência de poder constrói representações públicas. No entanto, a eficácia do discurso depende da posição social do locutor, ou seja, depende da autoridade de quem o faz e da autorização para que este seja porta-voz de um grupo. Portanto, para que a fala atinja sua eficácia é necessário que além de inteligível ela seja reconhecida como legítima. No exemplo dos pixadores do tipo Pixoswaldo os discursos e ações destes proferidos nas redes sociais não possuem poder de ação, pois perante o grupo estes não são reconhecidos como “reais pixadores”, suas ações assim são repudiadas e tornam-se chacotas. “A eficácia simbólica das palavras se exerce apenas na medida em que a pessoa-alvo reconhece quem a exerce como podendo exercê-la de direito.” (Ibid., p.95)
Apesar da pixação não possuir ritos de instituição que exerçam uma distinção legítima da diferença, dentro do xarpi há o reconhecimento da investidura que cada pixador produz, o que segundo Bourdieu “consiste em sancionar e em santificar uma diferença (preexistente ou não), fazendo-a conhecer e reconhecer, fazendo-a existir enquanto diferença social, conhecida e reconhecida pelo agente investido e pelos demais”. (1996b, p.99)
Os atos de nomeação estabelecem fronteiras mágicas de uma di-visão que consiste em impedir que os indivíduos que se encontram dentro de um grupo, “do lado bom da linha”, de saírem dela e se desclassificarem (BOURDIEU, 1996b, p.102), assim como estabelece, também, uma diferença aos que estão “fora da linha” de di-visão, como não pertencentes ao grupo.
88 A acumulação de capital simbólico, tomando a categoria de Bourdieu (1996a), dentro da pixação se dá pelos
mesmos moldes de se tornar um pixador considerado. É preciso ter anos de experiências dentro dessa cultura ou ter fundado uma galera que já se tornou reconhecida ou ter conquistado um grande número de territórios na cidade com seus xarpis.
O impostor não é bem quisto dentro do grupo, ele não é o que se pensa que ele é, ele usurpa o nome, o título, o direito ou as honras de um outro, ele deslegitima a illusio do grupo, por isso, comumente ele é visto como uma fraude e sofre represálias por isso. (BOURDIEU, 1996b, grifo nosso)
Utilizando a analogia de di-visão, de Bourdieu (1996b), na pixação verificamos que esse campo também se constrói pelas tensões que envolvem suas práticas. O sentido do jogo da pixação (suas regras e nomenclaturas) está fundado nas crenças imaginárias e coletivas dos seus praticantes. Mas quando a coesão do grupo é posta em xeque por pixadores do tipo Pixoswaldo, existem agentes empoderados que podem perante o grupo diferenciar os “reais pixadores” dos “pixadores de fachada”, ou impostores.