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A cidade de Florianópolis, cercada por suas belezas naturais, possui o desafio de crescer economicamente sem afetar suas riquezas ambientais. A indústria do conhecimento, nesse sentido, surge como uma alternativa para a região e transforma o perfil econômico do município de uma cidade turística para uma cidade da inovação.

Na sequência, será feito um breve relato da história da cidade no contexto da inovação, desde a criação das primeiras bases para o desenvolvimento do setor tecnológico até os dias de hoje, com base em Xavier (2010). Contexto da inovação em Florianópolis Laboratórios de pesquisa Empresas de Nano Empresas clientes Figura 10 - Dimensões analisadas no Capítulo 3

Figura 11 - Principais acontecimentos no contexto da inovação na cidade de Florianópolis

Fonte: produção da própria autora, adaptado Xavier (2010).

Na década de 60, foram criadas importantes universidades que servem até hoje como fonte de recursos humanos qualificados para a região. A Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC – foi criada em 1960, pela Lei 3.849, e é hoje considerada uma das melhores universidades do país. A UFSC possui cursos de destaque em âmbito internacional, especialmente na área das engenharias, contribuindo diretamente para o desenvolvimento econômico do estado e para a intensificação da inovação.

Em 1965 foi criada a Universidade do Estado de Santa Catarina, que formou importantes empresários e continua até hoje a incentivar o espírito empreendedor na região, com cursos de destaque em diversas áreas, dentre os quais a Administração de Empresas e Administração Pública.

A década de 80, por sua vez, foi de extrema importância para o futuro perfil inovador da região. Em 1984 foi criada a Fundação CERTI (Centros de Referências em Tecnologias Inovadoras), a partir do Laboratório de Metrologia da Engenharia Mecânica da UFSC, dirigido pelo Professor Dr. Carlos Alberto Schneider, que atua desde então como superintendente geral da fundação.

A Fundação CERTI é uma organização privada e sem fins lucrativos e nasceu direcionada para a pesquisa tecnológica aplicada. A

Criação UFSC e Udesc Déc. 60 Déc. 80 Criação da CERTI e Acate ParqTec Alfa e Incubadora CELTA Déc. 90 Déc. 2000 Sapiens Parque Criação da SMCTDES 2009

missão da CERTI, de acordo com seu superintendente, é “ajudar as empresas a desenvolver novos produtos, sistemas e processos, inserindo tecnologias avançadas.” (XAVIER, 2010, p. 80). A fundação tem como competência-chave a habilidade de trabalhar em projetos multidisciplinares, que integram conhecimentos e tecnologias para produzir soluções inovadoras para o mercado e a sociedade. (CERTI, 2013).

A Fundação CERTI esteve envolvida na criação de uma das primeiras incubadoras de empresas tecnológicas do país em 1986, que veio a se tornar em 1995 na incubadora Celta. Na década de 80, a iniciativa contou com o apoio do prefeito e do governador, que incentivaram a criação do Polo Tecnológico e viabilizaram a instalação da incubadora no bairro Trindade no Condomínio Industrial de Informática. A gestão da incubadora era realizada pela CERTI, enquanto o condomínio era administrado pela ACATE – Associação Catarinense de Empresas de Tecnologia – criada em 1986.

A CERTI é vista como grande articuladora de negócios na região e tem apresentado um alto envolvimento para a consolidação de um cluster de nanotecnologia na região, com a realização de estudos e eventos sobre o tema para a articulação dos atores envolvidos. Segundo o diretor do Centro de Empreendedorismo Inovador (CEI) da Fundação CERTI, Leandro Carioni, a Fundação CERTI entende que a inovação é resultado do trabalho cooperado entre diversos agentes e por já trabalhar em projetos nesse estilo pode contribuir para implantar uma cultura e ambiente propício para o desenvolvimento de clusters de inovação.

O diretor do CEI concorda, portanto, com o potencial da cidade para a criação de clusters de inovação. Ele argumenta que a cidade possui acesso a conhecimentos e recursos, existe uma pré-disposição dos agentes para a cooperação e há algum conhecimento em gestão de parcerias em decorrência de outros projetos. Na opinião do diretor, o que falta é a articulação e união desses atores envolta de uma estratégia única. Além disso, Leandro aponta como desafios a falta de continuidade em projetos, típico da cultura brasileira, e a necessidade de se tornar a gestão de clusters algo simples e não complexo.

A década de 90, por sua vez, foi marcada pela criação do Parque Tecnológico Alfa – ParqTec Alfa – e da incubadora de empresas CELTA. O ParqTec Alfa foi inaugurado em 20 de maio de 1993, em um terreno de 100 mil metros quadrados, localizado no bairro João Paulo. O parque abriga hoje mais de 70 empresas de tecnologia, bem como a incubadora de empresas CELTA.

A incubadora CELTA foi criada para dar suporte à criação, ao desenvolvimento e à consolidação de empresas nascentes, de forma a torná-las competitivas no mercado através da inovação. (CERTI, 2013). A incubadora já ganhou diversos prêmios e serve hoje de modelo para incubadoras de todo o Brasil e de outros países. A incubadora já graduou cerca de 70 empresas e incuba ainda hoje outras 35, com uma taxa de sobrevivência de 93%, segundo dados divulgados pela CERTI.

Além disso, as empresas incubadas já geraram cerca de 250 registros de propriedade intelectual e 570 novos produtos no mercado. A incubadora CELTA configura-se, nesse sentido, como um importante ator para o fomento do empreendedorismo e da inovação na região. (CERTI, 2013).

Outro importante empreendimento, inaugurado em 2002 é o parque de inovação Sapiens Parque. O parque é um local concebido para implantar negócios inovadores ligados aos principais setores de Florianópolis – turismo, tecnologia, meio ambiente e serviços especializados, com respeito aos princípios de desenvolvimento sustentável. De uma área total de mais de 4,3 milhões de metros quadrados, 56% consiste em área verde, destinada a educação ambiental ou áreas de preservação. (SAPIENS PARQUE, 2013).

O projeto, que tem um prazo de implantação de cerca de 20 anos, prevê centros empresariais e sedes de empresas de tecnologia; centros de P&D e institutos de tecnologia; centros de congressos e convenções; complexo comercial e de serviços; hotéis e flats; clínicas especializadas e unidades de educação. Muitos desses empreendimentos já se encontram em atividade no Sapiens Parque. (SAPIENS PARQUE, 2013).

É possível perceber que o ambiente foi desenvolvido para abrigar investimentos inovadores e permitir a interação entre academia, empresas, governo e sociedade, o que coloca o Sapiens Parque como outro importante espaço para a promoção da inovação e do desenvolvimento da região.

Por fim, cabe destacar que a prefeitura da cidade de Florianópolis também vem mostrando envolvimento há muitos anos para a consolidação da cidade como a Capital da Inovação. Em 1988, foi aprovada a lei de incentivo ao Polo Tecnológico de Florianópolis (nº 2994/88) que concedia isenção do ISS – Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza – e do IPTU – Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana – às empresas de bens e serviços na área de eletrônica, micro-mecânica e informática. Já em 2009, a prefeitura

passou por uma reforma administrativa e criou a SMCTDES – Secretaria Municipal de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico Sustentável, com o objetivo de “promover a inovação e a cidadania para o desenvolvimento econômico sustentável do município” (PMF, 2012), com esforços em vista a tornar Florianópolis internacionalmente reconhecida como “Capital da Inovação”.

O Professor Carlos Roberto De Rolt, ex-secretário da SMCTDES, conta em entrevista que se observou, na época, a falta de um papel específico dos municípios no sistema nacional de tecnologia e inovação. Os empresários acreditavam também ser importante o incentivo do município nesses aspectos. Diante desse contexto, foi feito um planejamento estratégico e surgiu a proposta de legitimar em uma lei a participação do município nesse processo, fomentando empresas e agentes que procurassem desenvolver produtos ou processos que pudessem solucionar problemas da cidade.

O projeto de lei, de acordo com o ex-secretário, foi produzido de forma conjunta, com a participação de professores, empresários, representantes de associações, entre outros agentes. Em seguida, foi realizada uma consulta pública na web, onde a comunidade pode apresentar sugestões e participar. Com a consolidação das sugestões, o projeto de lei foi encaminhado para a câmara de vereadores, que também forneceu contribuições.

A lei procurou criar diversos mecanismos, dentre os quais o incentivo da criação de APIs. Esse dispositivo, conforme explicado na introdução, faz com que os atores de inovação da cidade precisem se organizar em parcerias para poder obter incentivos financeiros do município, estimulando o trabalho cooperado para o alcance da inovação.

Na visão do ex-secretário, a cidade tem potencial para o desenvolvimento de clusters de inovação. Já existem, inclusive, alguns exemplos de iniciativas que mostram ser possível a organização dos atores em redes, como é o caso das verticais da ACATE. Ele conta que um primeiro patamar já foi ultrapassado, o da necessidade de infraestrutura básica. Hoje, em sua opinião, o maior desafio está na criação e implantação de um modelo de gestão para promover a cooperação entre os atores. Nesse aspecto, o ex-secretário e também professor afirma que a Udesc, por meio da ESAG – Escola Superior de Administração e Gerência, pode contribuir com ferramentas adequadas para a redução de barreiras de gestão dos APIs, por meio de estudos,

novas linhas de pesquisa, trabalhos de mestrado e os conhecimentos gerados na instituição.

É relevante destacar que todos os agentes citados nesse apanhado histórico podem ter grande influência na dinâmica de um cluster. Esse breve relato histórico não abrange, todavia, todas as inúmeras iniciativas que contribuíram e continuam a contribuir para a inovação e o desenvolvimento da região de Florianópolis. O mapa a seguir mostra a localização dos principais atores que formam a “Rota da Inovação” da cidade de Florianópolis.

Figura 12 - Mapa da Inovação

Fonte: Projeto Rota da Inovação (2013).

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