4 MED VERDEN SOM ARBEIDSPLASS – BILLEDKUNSTNERENS MULIGHETER
4.3 Kuratorrollen
Não se procura aqui esgotar as possibilidades de vínculos entre escultura, espaço e espectador, mas apresentar alternativas de leituras para o conjunto Os evangelistas. O fato de o conjunto estar exposto em área aberta exige ainda outro tipo de leitura, visto que nesse tipo de ambiente as obras ficam mais expostas e, portanto, passíveis de ações humanas e climáticas que contribuem para a deterioração.
Uma publicação do Museu Felícia Leirner, localizado em São Paulo, no primeiro trimestre de 2016, apresentou um texto versando sobre os cuidados exigidos por esculturas em bronze, algo que traz reflexão sobre as obras de Ceschiatti, já que algumas de suas obras estão em espaços abertos e têm o bronze como matéria-prima. Segue o texto:
O acúmulo de água e sujidades (poeira, resíduos, vegetais etc.) em partes específicas das obras requer a higienização constante com o propósito de minimizar os impactos na pátina, como manchas ou a sua eliminação parcial ou total. Outro aspecto de atenção que está diretamente ligado à exposição das obras em área externa é a movimentação do solo e o consequente abalo das bases das esculturas, causada por erosão ou crescimento de raízes de árvores. A presença de insetos e pequenos animais também ameaça a integridade da obra, agredindo a pátina do bronze, pois pressupõe a presença constante de resíduos, dejeções, ovos e casulos. Não se deve esquecer de que, no caso do bronze, a oxidação da estrutura também influencia nas características da obra, além de acidentes físicos e químicos que podem ocorrer a qualquer momento e que deverão ser estudados em cada uma de suas especificidades. (MUSEU FELÍCIA LEIRNER, 2016).
Levando-se em conta que o conjunto externo da Catedral está exposto a alguns fatores que podem afetar a integridade das obras as considerações acima merecem ser observadas. A incidência de fezes de pombos, que possuem poder corrosivo, é algo a ser considerado, além de que a coloração esbranquiçada tem o poder de, momentaneamente, alterar detalhes das obras. Essas aves costumam pousar sobre as cabeças das esculturas e depositar seus excrementos que até que a chuva os remova. Esses excrementos têm poder de alterar, às vezes, a aparência da escultura, uma vez que essas áreas possuem pequenas frestas no alto da cabeça e, ainda, pequenos círculos, em baixo relevo, que compõe a íris dos olhos. Há de se pontuar que as pequenas linhas que Ceschiatti usou para dar características individualizantes às esculturas funcionam como espaços de retenção desses elementos externos e podem oferecer alterações momentâneas às obras. Embora seja um detalhe, ele
tem valor, já que o pequeno espaço que compõe o centro da íris dos olhos dos evangelistas, por exemplo, pode ser preenchido pela massa fecal dos pombos, algo que altera a volumetria, além de modificar a coloração da área. Isso ocorre pelo fato de que essas esculturas estão expostas a céu aberto o que torna suscetível a presença dessas aves.
Além disso, esse conjunto de esculturas fica à margem de uma pista por onde circulam veículos de grande porte, principalmente ônibus. Portanto, somada à acidez da chuva, as obras ainda ficam expostas à poluição produzida pelos automóveis. Sobre o efeito dos materiais poluentes diz Rocio Hernández:
Pela conhecida resistência às intempéries dos materiais metálicos, frequentemente, peças do patrimônio histórico encontram-se expostas à atmosfera aberta, estando, por conseguinte, em contato direto com poluentes. A exposição a chuvas, à umidade relativa do ar e ao orvalho faz com que, em grande parte do tempo, estes materiais se encontrem em contato direto com eletrólitos condutores, permitindo a ocorrência da corrosão por mecanismo eletroquímico. Por outro lado, a grande maioria destas peças se encontra exposta em regiões metropolitanas, onde a incidência de metal particulado e de materiais poluentes é aumentada por descargas automotivas e industriais, elevando a agressividade do eletrólito e favorecendo os processos corrosivos. (HERNÁNDEZ, 2009, p. 24).
Essa degradação do bronze acontece mesmo que a peça seja patinada. A pátina é uma camada protetora do bronze e, no caso de esculturas, geralmente é criada artificialmente, com fins, também, de evidenciar partes da obra, uma vez que cria uma variação cromática deixando umas partes mais escuras do que outras. Entretanto, a exposição às adversidades climáticas e àquelas provocadas pelo homem fazem com que a obra tenha a sua superfície corrompida criando lesões a ponto de promover furos que exigirão uma intervenção restauradora.
Há a influência de pequenos desníveis da base de algumas das esculturas em relação ao solo que podem prejudicar a integridade das esculturas. Conjectura-se que essas ocorreram em virtude da trepidação de automóveis de pequeno e grande porte que passam pelo eixo monumental. Leva-se em conta, também, que as esculturas estão integradas àquele espaço antes mesmo da inauguração da Catedral de Brasília. Portanto, há de se considerar que já se passaram mais de 50 anos e que o conjunto de esculturas, cumulativamente, sofre pequenos abalos em consequência do fluxo de carros que trafegam pela via a poucos metros dele.
As obras, embora possuam uma base de concreto, contam também com uma base inteiriça sem emendas e, na altura dessa base, na parte virada para a pista, a escultura de São
bases, os desníveis podem ser potencializados por outros danos, posto que que uma pequena variação no ângulo, associada ao fato da exposição em espaço urbano, em períodos de chuva, pode gerar acúmulo de água em algumas das pequenas áreas. As esculturas de São Marcos e de São João, em período de chuva, apresentam quantidades de água retida próximo à base. Vale lembrar de que a ação das águas da chuva é corrosiva e continuada.
Figura 41 Detalhe do evangelista São Mateus Fonte: acervo pessoal
Figura 42 - Detalhe do evangelista São Marcos Fonte: acervo pessoal
O drapeado que Ceschiatti concebeu para esse conjunto merece atenção quanto ao poder de corrosão da água de chuva. O drapeado não é só um artifício para enaltecer o movimento ou a estaticidade das esculturas. Quando uma obra é integrada a áreas sem cobertura para proteção da água da chuva, a constituição do drapeado deve ser pensada no sentido de não permitir acúmulo de água parada. Embora existam partes em alguns dos
evangelistas que permitem a retenção da água da chuva, como os drapeados de São Lucas e
o espaço formado pela dobra do braço de São Mateus, a verticalidade e o formato de monobloco sem muitas curvas não permitem que a água fique retida. Dessa maneira, embora isso não as protejam da poluição despejada pelos automóveis pelas vias aéreas, os drapeados oblíquos permitem o fluxo da água. Aqueles com pouca profundidade, ou com profundidade, mas com inclinação voltada para baixo, são os ideais para obras expostas em áreas externas, já que assim os drapeados não consubstanciam espaços para a retenção de água.
Quanto aos drapeados de algumas obras de Ceschiatti em espaços internos, percebem-se formas que contemplam espaços horizontais em obras verticalizadas. Este é o
caso de Leda e o Cisne que está na varanda do palácio do Jaburu55; do anjo de porte médio do interior da Catedral de Brasília ou, ainda, do Fragmento de anjo que está no Salão Verde no interior da Câmara dos Deputados. Essas obras por possuírem drapeados mais horizontalizados facilmente acumulariam resíduos de água da chuva caso estivessem expostas em áreas externas – ou, ainda, poderiam servir como morada de insetos.
Não há aqui um juízo de valor entre a concepção de drapeados horizontalizados ou verticalizados e nem se há predileção por aqueles que sejam rasos ou profundos, o que há é a intenção de se jogar luz na importância de como o drapeado é constituído, pois a escolha da sua forma, dentre tantas outras contribuições, pode promover a integridade da obra e privá-la de danos causados por ações da natureza que, mesmo que a longo prazo, podem danificá-la.