Faço o relato do caso clinico de um menino, o qual chamo de Rodrigo, que aos oito anos começou a fazer psicoterapia comigo e, atualmente, tem onze anos de idade e ainda está em atendimento.
Rodrigo vivencia uma carência afetiva em relação aos pais, pois desde que ele tinha quatro meses de idade sua mãe, Fátima, não permanece em casa, ausentando-se, intermitentemente, deixando-o sob os cuidados da avó materna, Dona Olga. O pai de Rodrigo ainda não o reconheceu como filho, viu-o uma única vez, quando ele tinha quatro anos.
Rodrigo é criado pela avó materna, Dona Helena, que possui a guarda definitiva dele e de seus dois irmãos mais novos: um menino e uma menina, que têm aproximadamente nove e sete anos; todas as crianças são fruto de diferentes relacionamentos da mãe. O juiz concedeu a guarda definitiva das crianças à avó pelo fato de a mãe não permanecer em casa e também, por suspeitar que ela se prostituía e que já foi usuária de drogas.
Além de estar exposto à carência afetiva em relação aos pais, está exposto também à carência afetiva do meio social mais amplo no qual está inserido: não tem amigos; Rodrigo contou-me que seus colegas o provocam, chamam-no de burro e dizem que ele fala errado; não é aceito nas escolas, onde os professores se queixam de sua agitação - não pára quieto, foge da sala de aula, pula o muro da escola, briga com os colegas de sala - e da sua incapacidade de aprender. Ele não é alfabetizado, não sabe ler, escrever, contar e seus desenhos são muito primitivos, não condizendo com sua idade.
A sociedade rompeu com o contrato narcisista estabelecido com o meio social ao qual pertence à família de Rodrigo, na medida em que seus familiares, desde antes dele nascer, passam por dificuldades financeiras. Sua avó e mãe pertencem a uma camada de nível sócio-econômico e cultural subalterno, o que acarreta dificuldades de inserção no meio social por encontrarem, por exemplo, dificuldades de conseguir emprego, de atendimento médico entre outros.
Por sua vez, ocupando esse lugar, o “micro-meio” familiar de Rodrigo, ou seja, sua mãe/pai aprofundam esta ruptura, tornando-a quase irreparável, posto que se estende para o “meio psíquico ambiente”, quando há uma recusa da família em respeitar os valores do grupo social - pode-se dizer que a mãe e o pai abandonam Rodrigo.
A avó buscou terapia para o neto devido a sua auto-agressividade, que se expressa através do fato dele bater a cabeça no chão, na parede e de se beliscar.
“É só dizer não que ele fica nervoso, se bate, bate na cara... eu pego o Rodrigo, levo para um canto, abraço, na verdade luto com ele porque tem que ter muita força para segurar o Rodrigo, não solto até ele se acalmar e ele fala: esse não sou eu vó, esse não sou eu”.
A partir do discurso da avó, antes de recebê-lo no consultório, imaginei que encontraria uma criança extremamente agressiva, agitada, irrequieta, sem limites, que eu não conseguiria mantê-lo dentro da sala. Mas quando conheci Rodrigo não foi esta criança do discurso da avó que me foi trazida, mas sim um menino muito doce, curioso, sorridente, carinhoso, sensível e dono de um olhar meigo.
Cerca de quase um ano e meio após o início da psicoterapia, a avó contou- me que Rodrigo melhorou quanto à auto-agressividade, ou seja, que essa não se dava mais com tanta freqüência, sendo que ele passou a dirigir a agressão às pessoas e não mais a si mesmo.
Segundo a avó, quando a mãe de Rodrigo voltava para casa, ele a agredia e na sua ausência, era a avó a agredida. Dona Helena disse ainda que ao agredir as pessoas com chutes e socos, Rodrigo dizia: “Eu não quero mais viver, eu quero morrer, eu quero me matar, dá uma faca que eu quero me matar”.
O fato das auto-agressões cessarem, deixando ele de dirigir a pulsão contra si e voltando-a para fora, para o outro, é visto por mim como uma melhora na medida em que o Eu de Rodrigo, enquanto alvo da pulsão agressiva, é abandonado e substituído pelo Eu do outro.
Saliento que, em virtude da agressão ao outro, Rodrigo foi encaminhado ao CRIA (Centro de Referência da Infância e Adolescência) pertencente à UNIFESP, onde foi avaliado e passou a ser medicado por um psiquiatra que considera ter sido
ele afetado pelas drogas que a mãe usou durante a gestação, desenvolvendo a Síndrome Alcoólica Fetal (SAF).
A Síndrome Alcoólica Fetal acomete a criança durante a gestação e está relacionada à ingestão de droga pela mãe durante a gravidez, sendo que o consumo de droga afeta o desenvolvimento fetal. Essa síndrome caracteriza-se pelo retardo mental, dificuldade de concentração da atenção, diminuição da captação de informações, irritabilidade e hiperatividade, instabilidade emocional, alteração na coordenação (disfunção motora fina) e déficit de linguagem/problemas de fala.
A partir dessa avaliação psiquiátrica suponho, então, que a impulsividade difícil de ser controlada, apresentada por Rodrigo, pode ser um problema orgânico - o que não descarta o fato de ser também psíquico. Em virtude de minha formação acadêmica como psicóloga, procuro compreender o que acontece psiquicamente com Rodrigo, embora eu não desconsidere que sua problemática envolva questões de ordem orgânica.
De modo prevalente, a inconstância do investimento libidinal materno que se relaciona ao fato da mãe abandoná-lo, intermitentemente, desde os quatro meses e, além disso, proferir injunções absurdas a Rodrigo nas poucas vezes em que volta para casa, dizendo que não gosta dele, que ele não é seu filho, que é muito arteiro e por isso não o leva com seus irmãos para passear. A isso se acresce o não investimento libidinal do pai. Estes dados da realidade histórica de Rodrigo levaram- me a supor que ele não pôde se auto-investir por ter seu narcisismo desqualificado primordialmente pelos pais no momento do advento do Eu. De acordo com a hipótese de Violante a desqualificação narcísica favorece o surgimento da potencialidade melancólica.
Abro um parêntese para falar brevemente sobre desqualificação narcísica e narcisismo. Com o termo desqualificação narcísica, Violante pretende “[...] designar a presença da rejeição, da indiferença e, mesmo, da ausência da mãe e seus efeitos no narcisismo infantil [...]”.154 Quanto ao narcisismo, segundo Freud, esta é a primeira forma pela qual o ego se constitui como um ego ideal, que se torna alvo do investimento do próprio sujeito. Para Freud, o bebê torna-se o depositário de toda perfeição que, um dia, os pais desejaram ter, ou seja, ele é alçado à posição de
“Sua Majestade o Bebê”. No entanto, se ao bebê não for possível ocupar essa posição de “Majestade”, o que ocorre é uma desqualificação narcísica.
No caso de Rodrigo, penso que a desqualificação narcísica vivida por ele não foi total porque, apesar de ele ter sido investido libidinalmente de forma inconstante pela mãe e de não ter sido investido libidinalmente pelo pai, foi amparado pela avó que o investiu. Isto, embora não seja possível saber, ao certo, qual a qualidade desse investimento já que com freqüência ela o submete a injunções absurdas.
Quando falo de tais injunções faço referência às atitudes absurdas que Dona Helena endereça a Rodrigo, como, por exemplo, chamou-o de louco e bichinho. Diz a avó: “Para mim, ele tem alguma coisa mais, ele não é só hiperativo, ele parece autista, fica batendo a cabeça na parede [...] o Rodrigo é um verdadeiro louco”, “Você já viu ele comer? Parece um bichinho”. Ainda, a avó levou-o para buscar a mãe numa casa de prostituição acompanhada de policiais armados quando ele tinha apenas cinco anos. Também o lavou com sabão em pó na frente das pessoas da escola - pois ele tinha feito cocô na calça - fazendo-o ir nu para casa.
Um traço característico do sujeito portador de potencialidade melancólica presente em Rodrigo é a idealização da mãe, apesar dessa ser o objeto frustrador; o pólo do ódio é negado e o amor é enfatizado. Ele, constantemente, nega ter sentimentos hostis em relação a sua mãe, dizendo amá-la e não ter raiva dela. Quase sempre, quando lhe pergunto o que sente pelo fato de a mãe ir embora de casa, ele fala que não fica bravo e que a ama: “Não fico bravo. Ela é doente. Eu amo a minha mamãe”.
De modo ambivalente, numa determinada sessão, ele verbaliza sentir “ódio” e “nojo” da mãe, dizendo: “Estou com ódio, nojo dela. Agora é tarde, não adianta mais, não quero mais saber dela”; mas logo volta a negar os sentimentos hostis em relação à mãe. Isso se dá uma vez, mas atribuo significativa importância por parecer que, nesse momento, ele pôde expressar que a ausência da mãe lhe desperta sentimentos hostis, o que é negado pelo sujeito portador de potencialidade melancólica. Nesses momentos, penso também que Rodrigo refere-se edipicamente à mãe ao dirigir-lhe sentimentos amorosos e hostis.
A esse respeito, soube pela avó, que ele foi dar um beijo em sua mãe e enfiou a língua na boca dela. Fátima ficou brava com ele, dizendo que entre eles o beijo só podia ser “selinho”. Eu mesma presenciei, nas poucas vezes em que ela o levou à terapia, que ele se despedia dela com um “selinho” antes de subir para a sala.
Num desenho que fez da mãe, à página seguinte, pediu-me para que eu escrevesse “Procurada”, dizendo que ia colocar nos postes. Eu lhe disse que é um jeito de achar sua mãe, trazê-la para casa...E ele respondeu: “As pessoas vão ver a foto dela e aí eu posso abraçar, beijar ela, amo a minha mamãe”. Dessa forma, Rodrigo deseja tornar pública a imagem de sua mãe que desapareceu da vida dele, colocando seu retrato nos postes da rua, com a esperança de que ela seja encontrada, reconhecida e devolvida a ele.
Assim, Rodrigo parece falar de uma mãe que ele gostaria de ter, mas não tem, ou seja, de uma mãe que estaria sempre presente em sua vida. Talvez essa seja a forma que encontra de dizer que sente falta dela, manifestando a demanda de ser investido libidinalmente por ela como um sujeito singular, autônomo e dotado de atributos desejáveis.
Suponho que Fátima o pré-enunciou e o pré-investiu, pois parece ter havido, na psique materna, a presença de um corpo imaginado, de um desejo. Mas quando Rodrigo nasceu, seu corpo real, provavelmente, assustou a mãe, que passou a mostrar uma significativa inconstância de investimento libidinal no vínculo com o filho.
Essa reflexão me ocorreu a partir do próprio discurso de Fátima155, quando disse que sua gestação foi maravilhosa, que desejava um menino, que passava a mão na barriga e conversava com ele. Mas, após o nascimento do bebê, passado um mês, Fátima pareceu estranhá-lo, ao me dizer:
“Quando o Rodrigo nasceu foi maravilhoso, isso foi até o final do primeiro mês quando passei a achar que ele não era meu filho. Eu não aceitava ser mãe, não sabia ser mãe, só tinha dezesseis anos, não achava que o Rodrigo era meu filho, achava que ele era meu irmão”.
Apesar de eu não possuir muitos dados, a partir do que Fátima disse de Rodrigo - que o considera seu irmão e não seu filho - suponho que ela o pré- enunciou e o pré-investiu como uma criança que desejou dar a sua própria mãe e não como um sujeito autônomo, singular, diferente dela. A partir deste momento, Fátima talvez tenha buscado concretizar sua fantasia edípica com a mãe - então,
155 Durante o processo terapêutico de Rodrigo tive a oportunidade de conversar com a sua mãe apenas duas vezes.
numa posição invertida: quando criança, quis receber um bebê da sua mãe; e agora, dá-lhe um bebê.
Dessa forma, refletindo sobre as considerações teóricas de Aulagnier, penso que a sombra-falada talvez não tenha cumprido a sua função de impedir o retorno do recalcado em Fátima. Apesar da realidade mostrar-lhe que ela é mãe da criança, ela negava essa parcela da realidade e mostrava seu desejo de que esse filho fosse aquele que, um dia, ela desejou ter com a própria mãe. Assim, parece existir, suponho, na relação entre Rodrigo, sua mãe e sua avó uma relação incestuosa que parece ser interditada por Fátima, ao se ausentar intermitentemente.
Parece-me que Rodrigo vive essa relação incestuosa com a mãe e a avó, assim como as injunções às quais está submetido, como algo muito violento, como atitudes que não respeitam sua singularidade e autonomia. Resta-lhe responder a elas da forma que lhe é possível, ou seja, se auto-agredindo e agredindo os outros - principalmente, a avó e a mãe.
Considero que talvez, por meio das brincadeiras de morte onde Rodrigo, geralmente, sofria acidentes de carro ou era vítima de algum bandido que o assassinava, ele estava tentando simbolizar um processo inconsciente de extermínio ao se sentir submetido à onipotência do desejo do outro de lhe recusar prazer. Em alguns momentos, ele fingiu se matar pedindo para que eu chorasse a sua morte e o enterrasse, o que interpreto como demanda de saber que lugar ocupava no meu desejo. No meu entender, o fato de Rodrigo ser sempre vítima de algum acidente ou assassinato, parece que também é uma forma de encenar a fantasia que tem a respeito de seu próprio nascimento.
Certa vez, enquanto pintávamos, ele perguntou sobre a minha história, ou seja, perguntou se eu tinha pai, mãe, onde nasci. A partir disso, pensei: o que será que ele sabe de sua própria história? Então, perguntei-lhe: “E você, o que me conta do seu pai, da sua mãe, de onde você nasceu?”. E ele respondeu: “Um assassinato. Eu fiquei muitas horas na barriga da minha mãe. Não era o médico, era o assistente que atendeu. O médico demorou para chegar, é um assassino”.
Dessa forma, ele precisa ter a certeza de que essa falha médica não se consumou, ou seja, ele precisa se certificar de que está vivo. Além disso, penso também em uma outra morte: a psíquica. Talvez, Rodrigo precise se certificar que, apesar da “invasão” psíquica da avó e da mãe seu Eu ainda subsiste.
Num desenho, que mostro a seguir, ele conta que estava feliz porque tinha ido viajar para a lua. Suponho que o que Rodrigo disse significa que só pode ser desejante, deixando de estar submisso ao desejo do outro - da avó e da mãe que dizem que ele é arteiro, bichinho, louco, autista, hiperativo - quando está longe delas.
Embora pareça buscar não se submeter ao desejo do outro - estar longe da mãe e da avó, perto da Lua - quando se distancia do discurso delas teme morrer, pois ao se distanciar daquilo que a mãe e a avó dizem dele, não tem, ainda, outras referências identificatórias, por meio das quais poderia dizer para si mesmo quem ele é.
Assim, suponho que ao mesmo tempo em que ele tenta se distanciar dos enunciados maternos, permanece ligado a eles.
Considero também que Rodrigo depende da avó e da mãe, principalmente da avó, para preservar sua vida física e psíquica e por isso não consegue se separar delas. Assim, para preservar sua vida ele é obrigado a investir no outro. Segundo Aulagnier, tem-se aí uma “relação persecutória” na qual a presença do outro é necessária para que o Eu se preserve vivo.
Dois desenhos feitos por ele, mostrados a seguir, um da avó que é feita bem grande, ocupando toda a folha e um da mãe, sendo que antes de desenhá-la disse: “Preciso tomar fôlego”, levam-me a supor que graficamente ele expressa o quanto ele necessita das figuras maternas para sobreviver, principalmente da avó que é quem lhe despende cuidados, mas essa “relação persecutória” o angustia na medida em que ele “Precisa tomar fôlego” para estar nela. Como se separar da avó que ele demonstra amar muito e que é, penso eu, indispensável para sua sobrevivência já que é a única pessoa que lhe despende cuidados? Como se separar da mãe que tanto quer que o invista libidinalmente?
Na relação transferencial, por muito tempo, Rodrigo refere-se a si mesmo como um “menino ruim”, interpreto esta autodepreciação como manifestação da baixa auto-estima que é um dos traços marcantes do sujeito portador de potencialidade melancólica. Além disso, referir-se a si mesmo como um “menino ruim” pode ter outra interpretação: ser uma criança que não tem qualidades, atributos desejáveis a serem investidos.
Nas poucas vezes em que Fátima o levou à terapia, Rodrigo fez desenhos ou colagens, e sempre queria mostrá-los à mãe, após o término da sessão, na sala de espera, enfatizando: “Eu fiz sozinho, mãe”.
Rodrigo talvez quisesse mostrar a sua mãe que ele não é um ”menino ruim”, que não faz apenas coisas erradas (nas poucas vezes que ela o levou à terapia queixou-se, na sala de espera, na presença de Rodrigo, de algo em relação a ele), mas que ele pode fazer coisas bonitas e ser, por fim, investido libidinalmente por ela como um sujeito que possui atributos desejáveis, ser investido libidinalmente como o “bebê boliviano”.
O “bebê boliviano” foi uma criança de cerca de três meses que Fátima pegou para cuidar - cuidava dele durante o dia e o devolvia à noite para os pais. Ele morreu afogado com leite, segundo Dona Helena: “Ele morreu na minha mão, eu nunca mais vou esquecer isso, eu que cuidei dos três filhos da Fátima e nada aconteceu, o boliviano era como um filho para mim”. Logo em seguida, Fátima disse: “não sei o que vou fazer, perdi metade de mim”, e Dona Helena complementa: “ele era como um filho para Fátima, ela cuidou dele como não cuidou dos filhos, ela amava ele”.
A partir dessa história penso que talvez Rodrigo tenha desejado ser este bebê, que aos olhos das suas figuras maternas parece ter sido investido libidinalmente como uma criança dotada de atributos desejáveis - elas referiam-se a ele como uma criança boazinha, esperta, inteligente.
Por meio das brincadeiras de Rodrigo no decorrer das sessões, suponho a existência de um prazer mínimo - prazer necessário que é condição de vida para que o Eu invista no funcionamento da psique e do corpo. Essa minha hipótese pode ser sustentada pelo fato de que já observei Rodrigo chupar o dedo e, quando pintei o seu rosto com guaxe, isso pareceu ser muito prazeroso, pois ele praticamente fechou os olhos e não queria que eu parasse; há também o fato de ele esfregar um paninho no rosto para dormir. Suponho que estas manifestações auto-eróticas revelam que ele procura reencontrar o prazer mínimo vivido nos primórdios da sua vida.
Mas, indago-me quanto à qualidade desse investimento a partir das injunções que a avó e a mãe lhe dirigem, da suposta relação incestuosa - como dito anteriormente, Rodrigo parece não ter sido investido como um ser autônomo e singular, parece que a sombra-falada não cumpriu sua função de impedir o retorno do recalcado em Fátima - e também do que Fátima e Dona Helena contaram-me em
relação à amamentação de Rodrigo. Segundo Fátima, ela o amamentou apenas até os quatro meses de idade - momento em que ela sai de casa - pois, quando Rodrigo contava com essa idade, seu leite secou, devido a uma notícia que recebeu: ”quando eu estava amamentando, recebi a notícia de que um amigo muito querido tinha morrido, eu fiquei muito triste, acho que foi aí que meu leite secou”. Mas Dona Helena relatou algo que me deixou intrigada, disse que a filha falava enquanto amamentava: “Por que você não morre?”.
A partir daí, penso: como se deu a constituição do Eu Ideal de Rodrigo? Qual será a qualidade do desejo e do sentimento de Fátima em relação a ele? Talvez, Rodrigo tenha vivido e registrado o encontro boca-seio de forma desprazerosa, o que pode ter sido proveniente do modo como a mãe cuidou dele, ou seja, como o amamentou, como o carregou e o acariciou.
Desta forma, pensando no modo de funcionamento psíquico originário, o encontro boca-seio pode ter sido metabolizado sob a insígnia de um desprazer, inscrevendo-se na psique por meio de um pictograma de rejeição, revelando uma problemática muito primitiva na sua constituição psíquica.
Em relação ao pai, pude perceber também que Rodrigo sente que não possui atributos desejáveis a serem investidos.
Peço-lhe: “E o seu pai, conta um pouco dele para mim”. Rodrigo responde: “Ele trabalha com computador”. Pergunto-lhe: “E o que mais você tem para contar dele?”