Vivemos hoje sob a égide da sociedade da imagem, cuja
visibilidade sobrepujou os demais aspectos da existência, impulsionada
pela evolução tecnológica e pela transmutação das relações sociais.
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Assim como a ficção, a marca se torna uma ilusão, ou construção imaginativa, aproveitando a volatilidade dos aspectos da realidade social contemporânea.
Imagem, forma de certo modo desconcertante, por situar-se a meio caminho entre o concreto e o abstrato, é um princípio gerador de real – mas o real do “quase”: quase-presença, quase-mundo, quase-verdade. Investida dos poderes de ubiqüidade correspondente ao efeito tecnológico de simultaneidade, instantaneidade e globalidade, ela se torna homóloga ao ethos mítico-religioso e permite a interiorização psicológica de todo um mundo com valores prontos e estabelecidos. No caso da imagem midiática da contemporaneidade, trata-se do “mundo” do capital, um regime de poder orientado pela busca da riqueza em geral, expresso por dinheiro e valor de troca (Sodré, 2002: 71).
Como toda inovação, a tecnologia surgiu respaldada por discursos
científicos eufóricos e revestidos de pretensas racionalidade e
inevitabilidade106. Entretanto, sua aceitação incondicional causou um distanciamento crítico de suas funções reais, transformando a tecnologia
em objeto de idolatria e culto.
Os elementos tecnológicos seduziram os usuários e os agentes do
mercado, e seu uso assumiu proporções de uma verdadeira obsessão.
Seu maior impacto foi a aceleração do tempo e das sincronizações
sociais.
Para muitos, o maior malefício causado à cultura pelos meios de
comunicação de massa tem sido a banalização cultural e a redução da
realidade à mera condição do espetáculo107.
No mercado financeiro, a espetacularização se dá na construção
de um ambiente propício ao jogo de imagens pelos agentes e pelas
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A exemplo da idéia de inevitabilidade do mercado trabalhada por Frank (2004), a noção de tecnologia é imbuída da mesma pretensão, como assinala Trivinho (2007).
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A realidade se tornou espetaculosa, e a exploração dos extremos sociais em shows e pirotecnias ganhou dimensão mercadológica e seduziu as massas.
corporações. A aura de um ambiente restrito e complexo concorre para a
mitificação do mercado, posto como um espectro muito distante do
cidadão comum:
[...] o efeito de mercado contamina os mais distintos campos de produção cultural, incluindo as ciências humanas e a filosofia, já que, para adquirirem visibilidade na mídia, devem se provar sedutores e vendáveis como produtos. Intelectuais, analistas, artistas, economistas e especialistas dos mais diversos campos do conhecimento não raro optam por restringir a autonomia e soberania de sua própria produção, em nome de serem aceitos pela mídia, que deles espera o discurso mais adequado às expectativas do mercado (Arbex Jr., 2001: 92).
Espetáculo e especulação têm as mesmas características de
encenação e representação e se ligam à idéia do conhecimento como
operação do olhar e da linguagem. O mercado financeiro está impregnado
de seu próprio espetáculo, do fazer ver e do deixar-se ver. Marilena Chauí
é decisiva nessa avaliação, defendendo que “a questão não se coloca
diretamente sobre os espetáculos, mas sobre o que sucede ao espetáculo
quando capturado, produzido e enviado pelos meios de comunicação de
massa” (Chauí, 2006: 14).
“O espetáculo não se refere ao acontecimento, e sim a sua
encenação, a seu simulacro”108 (Baudrillard, 1991: 151). Transformado em simulacro, o que é o espetáculo? Guy Debord o elucida, em seu A
sociedade do espetáculo:
O espetáculo apresenta-se ao mesmo tempo como a própria sociedade, como uma parte da sociedade e como instrumento de unificação. Como parte da sociedade, ele é expressamente o
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Entende-se por “simulacro” uma encenação não fiel à realidade, com o intuito de disfarçar, de criar uma suposição.
setor que concentra todo olhar e toda consciência. Pelo fato de esse setor estar separado, ele é o lugar do olhar iludido e da falsa consciência; a unificação que realiza é tão-somente a linguagem oficial da separação generalizada (Debord, 1997: 14).
Assim, o espetáculo se torna simulacro, e o simulacro se põe
como entretenimento, seduzindo e construindo um ambiente festivo,
segundo a lógica do consumo e da banalização. O fascínio hipnótico109 exercido pelos meios de comunicação de massa só pode ser
adequadamente compreendido como um componente central do próprio
desenvolvimento da modernidade. É um mundo em que o simulacro (a
construção artificial e controlada de uma ordem que é a sua realidade) se
opõe ao mundo da ilusão. O simulacro é o esgotamento, a exaustão do
mundo vivido, seu aprisionamento no mundo-clichê.
“Dissimular é fingir não ter o que se tem. Simular é fingir ter o que
não se tem. O primeiro refere-se a uma presença, o segundo, a uma
ausência” (Baudrillard, 1981: 11). E o mercado financeiro se vale dos dois
procedimentos para persuadir e conduzir o comportamento dos agentes.
A questão terá sempre sido condicionada pelo poder das imagens,
poder assassino do real, que se contrapõe ao das representações como
poder dialético, mediação visível e inteligível do real.
A simulação parte do princípio de equivalência, parte da negação radical do signo como valor, parte do signo como reversão e aniquilamento de toda a referência. Enquanto a
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O fascínio hipnótico dos meio de comunicação e dos produtos tecnológicos é semelhante ao fascínio provocado pelos objetos que os portugueses ofereciam aos índios brasileiros no período do descobrimento − espelhos e gadgets que, embora não tivessem qualquer valor especial e como lhes fossem estranhos, foram revestidos de uma certa aura de especialidade, em função da forma − “espetacular” − de sua apresentação. Mais que nunca, o que se vê é a atuação do fetiche da mercadoria descrito por Marx (1983).
representação tenta absorver a simulação interpretando-a como falsa representação, a simulação envolve todo o próprio edifício da representação como simulacro (Baudrillard, 1981: 13).
Para Debord (1997: 25), “o espetáculo consiste na multiplicação de
ícones e imagens”, principalmente através dos meios de comunicação de
massa, mas também dos rituais políticos e religiosos e dos hábitos de consumo − enfim, de tudo aquilo que falta à vida real do homem comum.
O espetáculo “é a aparência que confere integridade e sentido a
uma sociedade esfacelada e dividida. É a forma mais elaborada de uma
sociedade que desenvolveu ao extremo o ‘fetichismo da mercadoria’”