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O papel do jornalista neste processo de construção de narrativas híbridas era vasto. Primeiro, eram eles quem decidiam o que era e o que não era notícia, fazendo todo o processo de

gatekeeping

face à imensidão de informação que lhes caía em mãos. Depois de decidirem qual seria a agenda do dia, e de distribuídos os conteúdos, havia dois processos diferentes de produção. Uns, dedicavam-se a conteúdos vindos das reuniões de planeamento – que geralmente eram os programas e, por isso, requeriam tempo e saídas para o terreno – e outros passavam o dia na redação a produzir a partir da plataforma

Wibbitz.

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Vejamos o primeiro caso: o jornalista era o responsável por quase todo o processo. O primeiro passo era contactar com a fonte de informação, para agendar a reportagem no local. Aí, por norma, era feita uma primeira abordagem ao tema. No dia da entrevista, se houvesse um pivô, havia toda uma produção. Maquilhagem, penteado, enfim, era o momento em que as colegas de trabalho se uniam em prol dos que iam em reportagem. Aí, estabeleciam-se laços e fortaleciam- se relacionamentos importantes para um saudável ambiente de trabalho. Depois, malas às costas, chave do carro na mão e colocar “os pés ao caminho” com o colega da filmagem, que era o mesmo da edição. Todo o papel à frente da câmara, a maioria das vezes baseado no improviso, era feito pelo jornalista, assim como as entrevistas às fontes de informação. Os vídeos que sustentariam as narrativas eram todos (ou quase todos) feitos pelo câmara. Chegados à redação, era hora de o jornalista escolher os momentos da entrevista que queria usar, montando ali a estrutura da reportagem que era comunicada ao editor de vídeo que compõe e completa, com os demais planos, o vídeo. As legendas eram também trabalho normalmente feito pelo jornalista. No final, o editor da redação dava a sua opinião, aprovando ou refutando o conteúdo. Este era o processo de produção jornalística do

V,

que deu origem às 81 reportagens e a uma experiência de estágio que nunca irei esquecer. Dela, trouxe na bagagem ensinamentos que já valeram uma oportunidade de trabalho pela visibilidade que acarretou e pela evolução que tive, enquanto profissional. Até porque todo este processo anteriormente descrito não foi apenas a rotina de produção dos meus colegas, mas antes a minha também, o que me ajudou, não só a recolher material para este relatório de estágio, como também de trazer na bagagem de uma estagiária a vontade ser uma profissional com a qualidade dos meus colegas, profissionalismo como a dos meus editores, e humildade como a de toda a equipa com quem, felizmente, e gratamente, tive oportunidade de estagiar.

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Conclusões

De um meio digital rico, sobressaíram experiências de estágio igualmente valiosas. É sabido que o webjornalismo tem vindo tornar-se tão mais interessante quanto mais é conhecido. Aquilo que permite fazer acontecer e até onde é capaz de fazer chegar uma informação são realidades que tem tanto de fantásticas, como de perigosas. O

V Digital

, enquanto um canal de vídeo criado como uma experiência dentro de um grupo já bem completo em termos de variedade informativa, tornou- se no local ideal para perceber o atual estado da comunicação online. Por um lado, porque investiu na inovação no que concerne à forma como fazia chegar a informação à casa dos leitores e, por outro, porque toda a rotina de produção dos jornalistas se movia em torno na tendência do online (que foi-se alterando num curto espaço de tempo).

Ora, todo este ponto de situação do meio de comunicação serve precisamente para tentarmos responder à grande pergunta de partida: em que medida é que as exigências que o ambiente online coloca aos jornalismo e aos jornalistas estão as mudar as rotinas de produção jornalística? Poucas semanas depois de entrar com o pé direito nesta redação e de contactar com o wejornalismo, percebi que havia muito sobre esta forma de comunicar que estava por descobrir. Até porque o próprio

V Digital

estava à procura de um caminho dentro da imensidão das potencialidades que o online oferece. Foi por isso que parti para uma observação, primeiro, assistemática, para perceber as rotinas de produção de uma redação num canal online. Percebi, assim, que a problemática da minha investigação estaria aí mesmo: na forma como o meio online estava a interferir com a produção jornalística e na rotina dos profissionais de comunicação. Na mudança de paradigma de comunicação no online e no problema que os meios hoje enfrentam: a sustentabilidade. Mas ao mesmo tempo, percebi que a web é multimédia, ubíqua, personalizável, interativa e instantânea, e que isso tem mudado a forma como as notícias chegam aos leitores. Também, com todas estas alterações, o cidadão passou a ser mais interativo para com o jornalista, não só na forma como consegue agora comentar e partilhar os conteúdos, como também enviar informação até aos meios de comunicação. Mas os leitores continuam a dar primazia áquilo que é publicado ao minuto, assim como ao valor-notícia “entretenimento”.

Um ano se passou após a minha saída e conclusão – feliz – deste estágio. E muito mudou. Já não há programas como o “Quebra-Mitos” ou o “Suplemento de Alma”, nem os demais conteúdos morosos e alvo de rigor de informação que explicavam o que acontecia na sociedade. Os jornalistas, esses, a maioria viu os seus contratos não serem renovados. A sensação de tristeza

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ao ver desmoronar o projeto inicialmente projetado foi comum a todos. O

V Digital,

pelo menos como foi relatado neste relatório, deixou de existir. Agora, se fizermos o exercício de navegar pelo site, que continua ativo, percebemos que é uma espécie de “montra” para os conteúdos dos outros canais de informação do

GMG

. A maioria da informação chega-nos através de texto e imagem.

Antes, os conteúdos morosos e rigorosos (os programas) eram um em cerca de 13 conteúdos publicados por dia. Eram eles que mantinham a essência do

V Digital,

mas, como eram dispendiosos em termos de recursos financeiros e humanos, eram menos frequentes do que os produzidos através das agências. Havia, por isso, uma forte dependência de agências de notícias, como o

Wibbitz

, que era também utilizado como plataforma para produzir vídeos, além de fonte de informação. Outras, como a

Lusa,

eram também recorrentes. O material pré-fabricado que chegava à redação ajudava a produzir com maior rapidez. Mas verificou-se também que, na maioria dos casos, os jornalistas só consultavam uma a duas fontes para construírem os seus conteúdos. Ora, toda esta conjuntura dava conta da pouca verificação da informação e a crescente dependência de fontes oficiosas. Agora, os conteúdos

Wibbitz

já não são produzidos, até porque quase já não há jornalistas para os fazer. Quem produz os vídeos continua a ser a Global Media Play, e não

V Digital

, que é, precisamente, a equipa de vídeo que suportava os jornalistas outrora nos conteúdos que serviram de exemplo neste artigo. Essa equipa parte para reportagens sobre empresas, para, por exemplo, serem publicadas no

Dinheiro Vivo

.

Mas nem por isso, neste órgão de informação, os jornalistas deixavam que o cidadão interagisse com o conteúdo, pelo menos de forma direta, devido à falta de tempo que tinham. Podiam comentar ou partilhar, mas poucas vezes optavam por utilizar factos publicados em redes sociais por cidadãos nas suas produções noticiosas.

Recorde-se, já no seu lançamento, todo o projeto do

V Digital

foi uma tentativa de inovação no online. Essa inovação tentou ser feita de várias formas. Por um lado, pelo cumprimento de diversas características que o meio exige (como a multimedialidade, ubiquidade, personalização) mas também romper com outras, como com a colocação do hipertexto. Mas o canal foi mais longe. Deixou de lado práticas, como a de fazer planos para televisão, porque se queria afastar deste meio, e colocava os entrevistados centrados no plano. Inovou-se também, comparativamente ao trabalho desenvolvido no grupo, no que concerne à hibridez das linguagens. Apresentavam os conteúdos de forma diferente, com o som, imagem e texto encadeados, de modo a poderem ser

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vistos quando e onde o leitor quisesse, de modo a serem personalizados. Tudo isto foi uma consequência, por um lado, dos vastos meios de comunicação que a

GMG

já detinha e, por outro, das exigências do online.

A maioria dos conteúdos que o

V

teve, aquando do seu lançamento, prendiam-se com valores- notícia como a novidade, inesperado e proeminência. Já a atualidade integrava a rotina de produção dos jornalistas mas numa tentativa de explicar os fenómenos e não noticiar os factos de minuto a minuto, como se vê em muitos dos média online. Verificou-se que a valorização destes critérios de noticiabilidade deveu-se, em parte, ao consumo dos leitores, que recaia, na maioria das vezes, por conteúdos produzidos através de agências como o

Wibbitz,

em detrimento dos programas morosos. Há, assim, uma preferência do espectador em assistir a notícias ligadas ao entretenimento e, a nova direção do

V Digital

quis mudar a sua grelha nesse sentido para tentar arrecadar mais lucros para empresa. Os baixos números de audiências, mesmo com a partilha em rede, persistiam. Sabe-se que o dinheiro oriundo da publicidade é cada vez menor e, sem notoriedade da marca, tendem a ser piores. Também os leitores ainda não pagam pelas notícias. A administração decidiu assim que tinha de mudar a grelha de programação do

V Digital

, mais uma vez, pois não estava a ser rentável

Mas se o webjornalismo vive, cada vez mais, de notícias atualizadas de minuto a minuto, ou seja, da atualidade, é precisamente aqui que está o centro da questão. Vejamos que o

V Digital

apresentou-se a toda a comunidade como o meio que vinha explicar os fenómenos, mais do que noticiá-los. Até porque, isso, já faziam outros meios de comunicação do grupo, como o

JN.

Queriam, assim, fazer valer um site com conteúdos afastados da atualidade, ditos de “

Slow News

”. Mas se, no princípio, isto aconteceu, no final, o resultado foi o inverso. Estas produções jornalísticas eram morosas, requeriam recursos humanos e tecnológicos grandes. Por vezes, uma reportagem demorava mais de dois dias a ser produzida. Uma produção por dia destes conteúdos explicativos e longínquos da atualidade foi conseguido, todo o resto não. Conceito este que não era o idealizado por David Pontes, primeiro diretor, e demais direção. Mas eram também estas produções menos demoradas e que requeriam menos investimento dos jornalistas que estavam as maiores audiências, e isso estava diretamente relacionado, por um lado, com os hábitos de leitura da população portuguesa, que continua a dar primazia à atualidade e ao entretenimento e também ao próprio investimento publicitário da administração que, segundo o apurado junto da gestora de redes, pouco recaia sobre as produções mais morosas e defensoras do conceito do

V

Digital.

Talvez por isso, toda a grelha de programas se foi alterando, ao ponto de não precisarem

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quase dos jornalistas, mas antes de bons videógrafos e de captar a atenção, através deles, de bons investidores, para que o canal deixasse de ser uma fonte de informação e passasse a ser uma fonte de rendimento para o grupo, tendo em conta que o investimento na publicidade é menor. Todo o demais site é hoje diferente, sem hibridez das linguagens, sem conteúdos próprios do

V

, sem os seus programas.

Depois de todas as mudanças, no seu emagrecimento progressivo da redação, ficaram os produtores de vídeo, que continuam a ser encarados como uma mais-valia para captar lucro para organização, tendo em conta os trabalhos de qualidade visual que produzem. A rotina de muitos dos que foram jornalistas na redação do

V Digital

mudou entretanto: uns, estão no fundo de desemprego, outros, em novos locais de trabalho.

Ou seja, o online está a mudar as rotinas tradicionais do jornalismo. Se até há pouco tempo se apontava a atualidade como o caminho a seguir para o sucesso neste meio, denota-se com este estudo a necessidade dos grupos de média em explorarem as “

slow news

”. No entanto, os constrangimentos que o online traz economicamente para as organizações tem levado, cada vez mais, à diminuição do número de jornalistas nas redações o que não permite implementar as notícias rigorosas, morosas, e que reúnam em si todas as potencialidades do meio.

Com este estudo percebeu-se, assim, que o jornalismo está em constante mudança e que, a provoca-la, está o online. Esta é a resposta concreta à pergunta de partida. Penso que com este estudo de caso se alerta para alguns problemas atuais, como os despedimentos coletivos fruto da falta de rentabilidade online e da rápida desistência de conteúdos ricos no que concerne às suas características por não serem geradores de audiências. Verifica-se que ainda há um longo caminho a fazer até que as “

slow news

” ganhem espaço na esfera online.

Mas, considero que generalizar tal facto a partir deste estudo de caso se torna insuficiente. Essa é, por um lado, uma limitação deste trabalho mas, por outro, faz sugerir caminhos investigativos futuros, como o da sua confrontação com outro meio de comunicação nacional ou internacional, que tenha sido criado somente online, com o objetivo de explicar os fenómenos. Com isso, poderá chegar-se a conclusões mais sustentadas. Seria também pertinente debruçar um estudo mais aprofundado sobre o modelo de negócio dos média digitais pois, atendendo aos despedimentos e à atual grelha de programa deste estudo em específico, parece que o digital está a ser mais rentável e utilizado para a divulgação de publicidade do que de informação jornalística, por parte dos média.

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Considero que a grande limitação deste estudo centrou-se no acumular de duas funções: por um lado, a de estagiária que estava sempre a produzir para o

V Digital

e, por outro, a de observadora participante. Isto porque poderiam ter sido recolhidos dados quantitativos referentes ao trabalho dos meus colegas e não foi possível concretizar esta minha pretensão. Fazer esse levantamento de dados no futuro poderá ser um caminho a seguir posteriormente, cruzando, até, com o estado atual do V Digital, que continua a existir, depois de uma grande reformulação.

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