4.1 Resultatdiskusjon
4.1.1 Kunnskap, kompetanse og sykepleierens behov for refleksjon av sine erfaringer
“(...) é coisa para os nossos encantados resolverem os nossos encantos dizem: - [“Isso daí é coisa nossa. Nós damos corda”] e se não é, ele diz: - [“Aqui tem coisa que é minha, e aqui tem coisa que é do homem da caneta.”] E quem é o homem da caneta? É o médico, (...).” (Biriba – liderança indígena)
Conforme apresentado na introdução de nossa pesquisa, Mattos (2001) traz como primeiro sentido atribuído à noção de Integralidade uma atitude médica desejável, ou seja, como característica da boa prática médica (não nos restringimos aqui à categoria médica em si, consideramos as múltiplas categorias profissionais que atuam nas práticas de Saúde).
Este sentido representa uma atitude crítica às limitações de um sistema que privilegia as especialidades médicas e que prioriza as dimensões biológicas (de forma fragmentada) em detrimento das dimensões psicológicas, sociais e culturais nas práticas de Saúde.
A Integralidade como traço da boa medicina se configura na recusa da abordagem reducionista, em apreender as necessidades mais abrangentes dos usuários que procuram os serviços de Saúde. Remete, portanto, a aspectos ligados a uma atenção à Saúde ativamente ocupada em identificar e acolher as necessidades dos usuários, com escuta qualificada à diversidade de suas necessidades. Explorando todas as possibilidades técnicas de produzir ações de prevenção e também aquelas que consideram as questões relevantes para a qualidade de vida (AYRES, 2006).
Os traços agrupados neste sentido foram expressos em torno de temas centrais ligados a aspectos que configuram a identificação e o acolhimento das necessidades da comunidade Pankararu. Observamos quatro temas principais relacionados a atitudes relatadas: a) formação dos profissionais de saúde; b) campo do conhecimento que estabelece condutas e prescrições; c) acolhimento e escuta do usuário indígena; d) aspectos da racionalidade biomédica e do sistema de cura da etnia Pankararu.
Na direção favorável à Integralidade, verificamos relatos em que uma formação profissional especializada para o atendimento do indígena ou ainda experiência profissional com outras culturas é referida como pré-requisito não fundamental para compor a equipe da Estratégia da Saúde da Família (no que toca o atendimento ao usuário indígena). Entretanto, o respeito à cultura Pankararu é destacado como essencial na relação entre profissionais de saúde e usuários indígenas:
“(...) Ele (médico) era muito engraçado, ele ria: - [Rose, eu não tenho obrigação de acreditar, mas eu tenho a obrigação de respeitar]. É diferente”. (Retirante – profissional indígena)
O interesse em conhecer a cultura Pankararu e em que proporção, segundo entrevistados, depende da iniciativa individual de cada profissional. Trabalhar com e para o indígena pode ser um processo de aprendizagem na própria rotina do trabalho, ou seja, no dia a dia se desenvolve a percepção e o aprendizado quanto ao “melhor jeito de se efetuar o tratamento do usuário indígena”.
Neste sentido, os entrevistados indígenas enfatizaram a importância do papel das Agentes Comunitárias Indígenas no serviço de Saúde e a interação com os profissionais não indígenas da equipe. Também há destaque quanto ao reconhecimento do papel de curandeiros e benzedeiros na comunidade para o cuidado do corpo e do espírito:
Fragmento 2:
“(...) a M.L. é nossa pajé. Por que que ela é nossa pajé? Porque além dela cuidar de nosso povo na doença que quando faz é igual para todo mundo, ela cuida na reza, no nosso ritual indígena(...).” (Biriba – liderança indígena)
Verificamos posicionamento de oposição quanto ao papel da liderança indígena. Conforme verbalizado, por um lado, a presença da liderança tem um valor de intromissão enquanto para o outro é uma atitude natural tangente ao papel que cumpre na comunidade. Este embate é interessante por apresentar tensão entre dois papéis socialmente fortes. Assim, apontamos os fragmentos a seguir:
Fragmento 3:
“(...) Vem o cacique aqui, bota o dedo na minha cara para discutir conduta médica. O que eu vou discutir com ele? (...) chega uma hora que precisa de CRM, vou discutir com outros médicos. (…) o que me dá problema não é a comunidade, o que me dá problema é a liderança da comunidade.” (Cajueiro – profissional não indígena)
Fragmento 4:
“(...) Você está entrando na comunidade dele. Você tá falando que não pode na comunidade dele (...).” (Retirante – profissional indígena)
Fragmento 5:
“Então eles (índios) chegavam aqui e se impunham, eu também me impunha (...). Mas eu me impunha todas as vezes e eu sempre provava que eu estava certa.” (Cajueiro – profissional não indígena)
Na comunicação com o indígena é relatada a necessidade de se estabelecer um diálogo em que o indígena se sinta acolhido e familiarizado. O profissional deve buscar relacionar exemplos do contexto da vida na aldeia ou de costumes dos antepassados. A procura do usuário pelos serviços ofertados na Unidade Básica pode revelar uma necessidade importante e não deve ser vista com uma procura simples, sem significado relevante.
Encontros assistenciais com outros profissionais de saúde (não médicos) são referidos como forma de contemplar o cuidado à saúde e diminuir a demanda de consultas médicas, contribuindo para o acesso da comunidade indígena. Também é relatado que nos casos de emergência os profissionais realizam o atendimento imediato independente de pertencerem à equipe específica para o atendimento de usuários indígenas.
Neste segundo momento, observando tendências desfavoráveis a uma boa prática em saúde, os sujeitos expressaram questões ligadas a dificuldades na interação cultural entre profissionais e usuários indígenas para a elaboração de Planos de Cuidado. Essas dificuldades chegaram a ser relatadas como conflitos na coordenação dos diferentes saberes, o que gerou desconfortos na oferta e procura de serviços de saúde.
A questão central definitiva quanto a caracterizar como desfavorável a prática de Saúde para os entrevistados indígenas se dá recorrentemente, ao profissional de saúde tomar a medicina biomédica, a ciência, como possibilidade única de atenção à saúde e não considerar relevantes elementos culturais como os ensinamentos passados pelos antepassados indígenas ou a prática de costumes e rituais realizados pela comunidade. Abaixo, destacamos dois fragmentos para elucidar esta atitude:
Fragmento 6:
“(...) Não adianta falar que é uma coisa que eles aprenderam com os antepassados deles, sendo que você não acredita, sendo que você acredita que a medicina está acima de tudo, está acima do bem e do mal (...).” (Retirante – profissional indígena)
Fragmento 7:
“(...) Você sabe por que ela fuma cachimbo? (...), ela fuma o cachimbo dela porque todo dia ela tem esse ritual. (...) ela canta nos rituais, ela mantém, ela precisa fumar o cachimbo (...).” (Retirante - profissional indígena )
Verificamos nos depoimentos do profissional de saúde um posicionamento com teor desqualificador ao tentar relativizar os rituais indígenas com rituais religiosos mais populares ao nosso convívio:
Fragmento 8:
“Eles também usam esses rituais espirituais para tratamento de doenças, que não é nada mais do que o umbandista também usa, do que faz cirurgia espiritual, do que vai numa igreja evangélica, do que o catolicismo que reza para um santo.” (Cajueiro – profissional não indígena)
Em relação às condutas e prescrições médicas, encontramos expressões de conflito na interação médico–usuário. A partir dos relatos analisados é revelado que os Pankararu também acessam cuidados à saúde no sistema tradicional de cura, não sendo sempre que procuram pelo serviço de saúde em suas demandas.
Fragmento 9:
“Nós temos dois Deus, esse que é de todo mundo, e esse que é da nossa cultura, porque quando tem um filho nosso doente, eu não levo primeiro no médico.” (Biriba – liderança indígena)
Fragmento 10:
“(...) é coisa para os nossos encantados resolverem os nossos encantos dizem: - [“Isso daí é coisa nossa. Nós damos corda”] e se não é, ele diz: - [“Aqui tem coisa que é minha, e aqui tem coisa que é do homem da caneta.”] E quem é o homem da caneta? É o médico, (...).” (Biriba - liderança indígena)
Sabemos que esses dois últimos fragmentos não representam tendências desfavoráveis à Integralidade, mas os destacamos a fim de destacar que não observamos nos relatos dos profissionais de saúde alguma consideração similar, quanto a construir o cuidado no encontro assistencial.
De acordo com os relatos, o profissional reconhece a existência de outras práticas na comunidade, mas, mesmo preocupado com a adesão dos usuários indígenas aos programas e ao seguimento clínico, não possibilita um diálogo em que esses elementos culturais se firmem de modo significativo na comunicação durante um encontro assistencial (nem mesmo integra tais elementos culturais em uma eventual possibilidade de cuidado atrelada às demais ações ofertadas pelo serviço de saúde).