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A estratégia para descobrir a categoria central foi inter-relacionar os quatro fenômenos, buscando compará-los e analisá-los para compreender como se dava a interação entre seus componentes. Esta estratégia nos permitiu identificar as categorias e subcategorias-chave que, evidenciasse o movimento da experiência interacional equipe de enfermagem-família de adultos e idosos hospitalizados.

Durante esse processo, percebeu-se que o movimento engendrado pela experiência da equipe de enfermagem no acolhimento ou não da família, ou seja, decidir qual será o seu papel (de visitante ou de acompanhante) durante a hospitalização de adultos e idosos, decorre de um mecanismo de enfrentamento da sobrecarga imposta pelo trabalho. Fruto da precarização das condições de trabalho, evidenciadas pelo déficit de recursos humanos na área de enfermagem, associado aos desafios estruturais e organizacionais, relativos ao controle, acolhimento e supervisão de visitantes e acompanhantes, acometendo o andamento da assistência de enfermagem, bem como a ausência de um serviço de apoio psicológico para a auxiliar a equipe no enfrentamento do sofrimento psíquico inerente ao processo de trabalho.

Em face do déficit de recursos humanos, a enfermagem é levada a se organizar, por meio de divisão de tarefas entre seus membros e cada um é responsabilizado quanto a sua seqüência e execução em menor tempo. É por essa razão que a experiência revela a enfermagem, dando prioridade ao preparo e administração de medicamentos, de todos os pacientes da unidade, deixando para um segundo momento o atendimento das necessidades de segurança, conforto e atenção ao paciente.

Por outro lado, a família, não aceitando o processo de trabalho da enfermagem (modalidade de assistência funcional), somado ao desconhecimento de sinais, sintomas, procedimentos, ou seja, tudo que envolve o cenário e as cenas no hospital, passa a requisitar mais atenção da enfermagem que, por sua vez, sente-se pressionada em oferecer um modelo de assistência individualizado à pessoa. Esse processo, na maioria das vezes, acaba gerando tensões, conflitos e desgastes no relacionamento, porque além de desordenar a dinâmica de trabalho, a enfermagem se sente impotente em

Capítulo 3 – A Experiência Interacional Equipe de Enfermagem Família de Adultos e Idosos Hospitalizados

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atender a demanda de necessidades da família que, ainda sofre com sua adaptação a um espaço físico e mobiliário inóspito.

É nesse momento que os desentendimentos começam a deflagrar e, comumente, vê-se a equipe de enfermagem envolvendo-se em conflitos com familiares, mediante o descompasso de prioridades e inobservância às orientações, rotinas e normas.

As divergências comprometem o vínculo equipe de enfermagem- família-paciente, bem como contribuem com a perda da confiança da família na enfermagem, porque esta percebe que o seu ente pode estar correndo risco, durante a hospitalização. Este fato é evidenciado mediante a vivência da equipe de enfermagem sentindo-se incomodada ao se perceber vigiada pela família, bem como, familiares interferindo nas condutas estabelecidas pela equipe, principalmente, pela perda da confiança na enfermagem.

Essa é uma das razões que movimenta os familiares visitantes, quando não preenchem os critérios a se tornarem acompanhantes, tentando romper as rotinas e normas institucionais, para permanecer por mais tempo com a pessoa hospitalizada, como por exemplo: familiares desrespeitando o número permitido de visitas por paciente e prolongando os horários de visitas.

Em resposta, a equipe de enfermagem vai impondo medidas restritivas à famílias cada vez mais rígidas para os visitantes, bem como manifestando-se hostil às famílias que desejam se tornar acompanhantes ou que não conseguem auxiliá-la nos cuidados da pessoa hospitalizada.

A equipe adota, também, um mecanismo de controle de acesso de acompanhantes ao cenário hospitalar, cabendo ao enfermeiro a indicação do familiar ao papel de acompanhante ou de visitante, e aos técnicos e auxiliares de enfermagem a observarem no dia-a-dia se o enfermeiro não rompeu com os critérios pactuados entre a equipe, quanto ao acompanhante de adultos e idosos, sendo esses: considerando a faixa etária determinada legalmente (idoso, criança, pessoas com dependência física ou mental); considerando o grau de dependência de cuidados de enfermagem (componente determinante para aceitação da família); pessoas que oferecem riscos à responsabilidade institucional e pacientes com determinadas patologias que, podem exigir uma maior atenção da enfermagem (pacientes da pneumologia e da hematologia).

Durante o processo de hospitalização os critérios para o paciente permanecer com acompanhante continua sendo avaliado e tão logo este deixe de preencher, como por exemplo, torne-se autônomo, o acompanhante passa a ser incentivado a tornar-se um familiar visitante.

Apesar da equipe de enfermagem reconhecer os benefícios sobre a pessoa hospitalizada, ao contar com o apoio do acompanhante e visitante, a experiência sinaliza um grupo não favorável dominante ao ingresso de visitantes e acompanhantes.

Apesar do papel do acompanhante não estar definido formalmente na instituição e isso ser um dos problemas que contribuem com tensões e aumento dos conflitos, não só com famílias, mas também, na própria equipe. Não é consensual para a equipe que se atribua os cuidados simples (alimentação, hidratação, colocação de comadres, troca de roupas de cama, ou seja, de cuidados que a enfermagem venha avaliá-los como possíveis da família auxiliar a equipe de enfermagem nos cuidados), para a família. Entretanto, parece um grupo bastante reduzido.

A família no cenário hospitalar vem dividindo os cuidados com a enfermagem, ela é só dispensada quando o paciente recupera a sua autonomia física e mental, bem como não coloque em risco a responsabilidade legal da instituição.

Vale ressaltar que a presença da família, em face da precarização do trabalho na área de enfermagem, está associada a sobrecarga de trabalho, na dimensão física e psíquica, principalmente quando, comporta-se de maneira não colaborativa. Nesse sentido é melhor não tê-la para se preservar.

Desta maneira propomos como categoria central e modelo teórico, representada no Diagrama 17 e intitulada: DO ACOLHIMENTO A DESCONSIDERAÇÃO DA FAMÍLIA NO CENÁRIO HOSPITALAR: A DIVERGÊNCIA DE MODELOS ASSISTENCIAIS E O SOFRIMENTO NO TRABALHO, COMO COMPONENTES INTERVENIENTES.

Capítu

lo

3

– A Experiência Interacional Equipe de Enfermagem Família

de Adultos e Idosos Hospitalizados 83

INCOMPATIBILIDADE ENTRE O MODELO DE ASSISTÊNCIA OFERECIDO PELA ENFERMAGEM E O

ESPERADO PELA FAMÍLIA

x Aumentando a rigidez de normas e rotinas restritivas e coercitivas à família x Aumentando as barreiras físicas de controle de circulação no interior do

hospital

x Assumindo o papel do sistema regulatório de acesso de familiares ao papel de acompanhantes

x Tratando a família com hostilidade

Diagrama 17. Categoria central. Do acolhimento a desconsideração da família no cenário hospitalar pela enfermagem: a divergência de modelos assistenciais e o sofrimento no trabalho, como componentes intervenientes.

+

TENSÃO PROCESSO DE DISTANCIAMENTO ENFERMAGEM-OBJETO DE CUIDADO EQUIPE DE ENFERMAGEM DÉFICIT DE RECURSOS HUMANOS SOBRECARGA DE TRABALHO SOFRIMENTO PSÍQUICO INDEFINIÇÃO FORMAL DO PAPEL DE ACOMPANHANTE DEIXANDO AS NECESSIDADES DE SEGURANÇA, CONFORTO E ATENÇÃO AO PACIENTE PARA UM SEGUNDO PLANO, PARA PRIORIZAR O PREPARO E A

ADMINISTRAÇÃO DE MEDICAÇÕES

Independente

(riscos e demanda de cuidados)

Dependente

(riscos e demanda de cuidados)

FAMILIAR VISITANTE ENFERMAGEM SENTINDO-SE INCOMODADA FAMÍLIA PASSANDO A VIGIAR A ASSISTÊNCIA OFERECIDA PELA ENFERMAGEM

Família querendo manter-se próxima ao paciente x Familiares interferindo nas condutas estabelecidas pela

equipe

x Familiares desrespeitando o número permitido de visitas por paciente

x Prolongando os horários de visitas

FAMÍLIA FICANDO INSEGURA COM O MODELO DE ASSISTÊNCIA OFERECIDO PELA ENFERMAGEM

ENFERMAGEM AFASTANDO-SE DA FAMÍLIA PARA SE PRESERVAR DA SOBRECARGA

Assumindo os cuidados “simples” de enfermagem (alimentação, hidratação, eliminações, ...) PROBLEMAS PESSOAIS Estrutura física hospitalar inóspita ao acompanhante FAMILIAR ACOMPANHAN- TE ENFERMAGEM OFE RECENDO UM MODELO DE ASSISTÊNCIA FUNCI ONAL AO P ACIE NTE FAMÍLIA EXIGINDO DA ENFERMAGEM UM MODELO DE ASSI STÊNCI A I N DIVI DUALIZADO AO PACIENTE TENSÃO CONFLITO QUEBRA DE VÍNCULO PACIENTE

CAPÍTULO 4

DISCUTINDO A EXPERIÊNCIA E O MODELO