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Kunnskap blant brukerne av rapporteringssystemet

5.4 Menneskelige faktorer

5.4.2 Kunnskap blant brukerne av rapporteringssystemet

Todos os professores entrevistados demonstraram maior envolvimento com autores do cânone brasileiro/universal, principalmente nas matérias obrigatórias. Na Faculdade de Letras da UFMG, uma das professoras entrevistadas disse-me que está acontecendo, na referida Faculdade, um retorno ao cânone, pois, por influências teóricas diversas, os alunos estavam, por exemplo, saindo do Curso sem ter lido sequer um poema de Camões. Vejamos a fala da docente:

[...] olha, a Coordenadora do Colegiado de Curso deve ter te falado que, com as novas mudanças do currículo, houve certo retorno ao cânone. Uma necessidade de termos disciplinas introdutórias em que, minimamente, o sujeito saia do curso alinhavando autor com tempo. Eu acho que isso ajuda o aluno. Havia professores aqui que trabalhavam com apenas um autor ligado à pesquisa deles. Por que essa necessidade de uma espécie de retorno ao cânone? Porque se descobriu, através de provão e dessas medidas extra-institucionais, que os nossos alunos estavam saindo do Curso sem saber sequer um verso de Camões, por exemplo. Faziam o Curso de Letras anos e anos e, por influências teóricas diversas, não estavam lendo o cânone. Parecia retrógrado o professor que dava o cânone. Isso não foi meu caso. Em Literatura Portuguesa eu sempre dei Camões e Fernando Pessoa, mas havia colegas no departamento com essa visão. Isso também não quer dizer

que eu acredite no cânone como uma lista perene, isso não. Espero que você tenha compreendido o meu ponto de vista. (Ana Cristina).

Os professores de todas as instituições pesquisadas foram unânimes no reconhecimento do cânone como algo de fundamental importância na formação do aluno de Letras, porém demonstraram abertura para uma mescla de autores, ainda que palavras como “autores menores” e outros termos pejorativos, como “a famigerada vanguarda” tenham surgido em seus discursos:

Sempre trabalho com o cânone sem descuidar de, quando possível, pelo menos, dar uma notícia sobre a famigerada “vanguarda”. Não entendo o ensino de literatura sem o aporte do cânone. Pode parecer uma ideia ultrapassada ou perdida no tempo, no entanto entendo que o cânone é uma formação contextualizada, para não dizer subjetividade. É este espírito de flexibilidade que procuro incutir e incentivar no raciocínio adjacente aos estudos literários, inclusive, na sala de aula. (Mário)

Então, por exemplo, em relação ao Romantismo, que eu estou lecionando agora, trabalho com Gonçalves de Magalhães, Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, todos os poetas canônicos, Castro Alves, José de Alencar, Macedo [Joaquim Manuel de Macedo]. Eu acho que o cânone é importante para a formação do aluno. Acho que a gente poderia complementar os estudos com outros autores chamados menores, desde que o aluno já chegasse aqui com certa bagagem de leitura. Eu, às vezes, observo, como agora no Romantismo, que existem alunos que não leram o Alencar, ouviram falar dele, leram passagens de sua obra, mas não leram nenhuma obra completa; assim, um romance por inteiro, isso não. (Hilda)

Quanto aos autores contemporâneos, os docentes afirmaram que os contemplam mais em disciplinas eletivas e que as disciplinas obrigatórias os impedem de dar um leque muito grande de autores. Essa queixa da falta de flexibilidade do currículo aparece na fala de Mário, dentre outros professores que se referiram ao currículo como uma espécie de engessamento da matéria:

Entrevistadora: Você trabalha com autores contemporâneos? Quais?

Em termos, esta pergunta tem sua resposta na questão anterior. Quanto à escolha, depende muito da disciplina. Procuro sempre o que fica entre o século XX e a atualidade. O problema do acesso a uma bibliografia “de última fornada” é quase incontornável. Procuro então, quando cabe, selecionar autores que tenham um acesso mais facilitado e/ou possível. No entanto, no caso particular do curso de Letras da UFOP, os programas ainda muito amarrados aos seus autores praticamente são um impedimento para escolhas mais pontuais. Como trabalho mais com disciplinas obrigatórias, fico muito preso a certos protocolos. Quando ofereço alguma disciplina eletiva, então, essa escolha pelo contemporâneo encontra mais espaço, mais opção. (Mário)

Quando os professores trabalham com Teoria da Literatura ou com matérias mais ligadas às suas pesquisas, ou em poesia, eles se sentem mais livres para intercalarem autores mais canônicos com outros menos conhecidos. É o que explica o professor Vicente. Entretanto, esse tipo de resposta aparece em quase todas as respostas dos docentes, como se pôde observar na fala de Ana Cristina, anteriormente, e também na de Manoel, a seguir.

Em determinados momentos, como em Teoria da Literatura I, é possível uma recorrência maior a esses autores. Assim, comparecem poemas de Paulo Leminsky, de Mário Quintana, ou seja, faço uma especulação de autores mais próximos da realidade dos alunos. Os poemas são, nesse caso, sempre um ponto de partida para as teorizações. Faço um elenco de textos em que cabe desde um sermão de Padre Antônio Vieira até um poema de Chacal. Na disciplina Teoria da Literatura, trabalho com um discurso mais próximo dos alunos, para mostrar que a literatura tem a ver com a vida, com a realidade e com as operações mais contemporâneas. Eu trabalho com autores mais contemporâneos, sem me esquecer de produções mais distantes no tempo. Eu brinco com os alunos dizendo: “se o atual papa Bento XVI produzisse um sermão e [o] publicasse, provavelmente eles não leriam isso como literatura. No entanto, sermões foram literatura durante séculos e hoje a gente já não considera mais tais textos como literatura”. Em Teoria da Literatura eu mostro como a palavra “literatura” é ampla, ela não pode nunca ser considerada uma palavra restritiva. (Vicente)

Eu trabalho com muitos autores contemporâneos. Nesse curso (Poesia Pós- Pessoa, que é uma disciplina optativa) só trabalho com autores contemporâneos. Eu trabalho mais com Herberto Hélder. É um dos que eu mais trabalho. Mas trabalho também com Vergílio António Ferreira, com uma poeta chamada Silvina Ocampo... Eu faço trilhagens. (Ana Cristina)

Na poesia sim, trabalho com autores mais contemporâneos. Eu trabalho com livros completos ou com parte destes livros. Na questão da poesia, trabalho com Fabrício Carpi Nejar, que é um poeta do Sul; o Manoel de Barros, que já é um pouco mais tradicional, mas que ainda está vivo; a Hilda Hilst; a Martha Medeiros, que eu gosto bastante. Então, trabalho com esses contemporâneos. Um autor de contos que eu gosto muito é o Victor Giudice. Dele, eu trabalho com O

Arquivo. Ainda em se tratando de contos, eu peço aos alunos para lerem Antônio

Callado, que tem um texto interessantíssimo que fala sobre lembranças de dona Inácia, a sogra do conto A missa do galo. É uma conversa que ele faz com o Machado. Trabalho também com Ignácio de Loyola Brandão, Marina Colassanti [...]. (Manoel)

Com relação à pergunta “Você trabalha com autores locais? Quais?” percebi que, em cidades com forte tradição cultural, como Juiz de Fora e São João Del Rei, há uma abertura maior para a inserção de autores locais nos programas de ensino. Entretanto, cabe comentar que vários desses autores locais já adquiriram ares regionais e até universais pelo reconhecimento junto ao público. Na UFMG, uma professora se mostrou aberta à utilização de autores locais, apesar do fato de as disciplinas obrigatórias não

permitirem ao professor escolhas muito pontuais em relação à seleção de autores. O outro professor, também da FALE/UFMG, já se mostra avesso à leitura de autores locais, muito em função de motivos pessoais, conforme veremos a seguir:

Entrevistadora: “Você trabalha com autores locais?”

Necessariamente não. Acabo trabalhando com alguns autores que viveram aqui ou nasceram aqui, mas não por causa disso. Eu acho que por esse motivo – por ter contato com professores poetas – eu não incluiria. Por ser um poeta recente, por ser conhecido meu, por ser colega da faculdade, eu não incluiria não. Como eu disse, eu sou muito mais ligado ao cânone. (Augusto)

No caso não tem jeito, porque eu trabalho com Literatura Portuguesa. Mas quando estou dando outras disciplinas, trabalho, sim, com autores de Belo Horizonte. Maria Esther Maciel, Sebastião Nunes, com sua Antologia Mamaluca, eu adoro o Tião Nunes, entre outros autores daqui. (Ana Cristina)

Na UFTM, de Uberaba, assim se pronunciou o professor Manoel acerca do assunto “autores locais”:

Não trabalho, apesar do meu mestrado ser justamente com autores locais (risos). Eu ouvi falar de um escritor daqui, de Uberaba, premiadíssimo. Trata-se de um médico. Não me lembro o nome dele agora. Eu não conheço ainda a literatura uberabense. (Manoel)

Em Juiz de Fora e São João Del Rei, houve depoimentos mais favoráveis à leitura de autores locais, conforme se depreende abaixo:

Juiz de Fora é uma cidade que tem uma história literária muito rica. Vou te citar alguns nomes importantes da literatura brasileira que são daqui, para você sentir isso. São daqui: o Murilo Mendes, o Pedro Nava, a Rachel Jardim, que hoje é uma autora bastante consagrada. E há fortes autores realmente mais reconhecidos, você tem duas ou três Academias Literárias que têm aquela produção realmente mais canônica, mais conservadora, se é assim que se pode dizer. E, ao mesmo tempo, tivemos, aqui, uma série de movimentos literários na década de oitenta que são originados daquela linha chamada poesia marginal. Há um grupo bastante destacado, como Luiz Ruffato, Fernando Fiorese, Nelson Freitas. Quando eu trabalho com os alunos de Literatura Portuguesa I, no finalzinho do curso, a gente trabalha a chamada fase de Camões na medida nova. Nesse momento, eu vou trabalhar não só com autores como Manuel Bandeira - que apreciava sonetos - como Vinícius de Moraes, e ainda sobra espaço para puxar autores como Nelson Freitas. Então, você tem que fazer essas pontes, esses

links entre uma tradição e o desdobramento dessa tradição rumo ao novo, não só

da literatura portuguesa, mas também das outras literaturas. Você consegue, de certa maneira, criar nos alunos a perspectiva de que o interesse pela literatura tem que ser ao mesmo tempo pontual e abrangente. (Pedro Mendes)

São João Del Rei tem uma tradição. É uma cidade de trezentos anos. Na minha pesquisa de doutorado eu trabalhei com um jornal daqui com vocação republicana. Eu fiz uma imersão na memória, na literatura, na história e na área

cultural da região. Eu discuti a presença da literatura nesse jornal. Então, eu tive que buscar os autores que apareciam no jornal. Alguns já foram citados até por Antonio Candido, mas nunca ninguém ouviu falar deles. E têm aparecido alunos querendo trabalhar também nesse viés. Eles vão à biblioteca para fazer leitura de micro-filmes e depois tiram uma cópia do material. Tudo com acompanhamento de um professor e com autorização. Isso é legal porque estamos criando instrumentais interessantes para novos pesquisadores. (Rosa)

Ainda tratando da categoria “relação professores/autores”, diante da diversidade de autores citados, tornou-se difícil uma contagem precisa. No entanto, posso afirmar que apareceram em um número maior de depoimentos os seguintes escritores: Machado de Assis, Guimarães Rosa, Cruz e Sousa, Álvares de Azevedo, Camões e Fernando Pessoa. Dentre os autores contemporâneos, foram citados, de uma forma mais recorrente, Paulo Leminsky, Manoel de Barros e Mario Quintana. Ressalto que foram citados muitos outros autores que não menciono aqui, pelos limites da pesquisa qualitativa e pelo ecletismo que emergiu em relação ao assunto “autores”. Mesmo diante da riqueza de autores listados nas entrevistas, não apareceu, em nenhum depoimento, a citação de escritores ligados ao universo infanto-juvenil, apesar dos docentes trabalharem em cursos de licenciatura, que instruirá professores para atuarem na Educação Básica com leitores em formação. Principalmente alunos de 11 a 14 anos (Ensino fundamental), com os quais os alunos dos cursos de Letras trabalharão, teriam que ler obras adequadas ao seu universo, para, paulatinamente, lerem textos mais complexos, com experiências estéticas que os levassem ao estranhamento, rompendo com o conhecido. Muitos graduandos, entretanto, saem do curso de Letras sem conhecerem ou estudarem autores que escrevem para o leitor jovem (Faria, 2008).

Em linhas gerais, é possível afirmar que os professores são mais afeitos ao cânone. Analisando dados de pesquisas anteriores, citadas na revisão literária desta tese, e a desenvolvida aqui, é possível afirmar que, contemporaneamente, há uma abertura para a convivência de autores pertencentes ao cânone e outros menos conhecidos e/ou listados pelos compêndios de história literária. A relação universidade/autores locais ainda é fechada, entretanto há uma tendência para a abertura, dependendo dos interesses de pesquisa dos professores, bem como da realidade/tradição cultural da cidade. Concluí, finalmente, que quase não há espaço para o estudo da literatura infantil/juvenil em cursos de Letras, corroborando as pesquisas já citadas neste trabalho.