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Tomo o par P-R, nesta tese, como um mecanismo articulador de tópicos em uma perspectiva gramatical-discursiva. Os critérios adotados aqui para a elaboração de uma tipologia para perguntas seguem o ciclo funcional de Givón (1979): do discurso para a

gramática. Tendo por base a ideia seminal de Martelotta (1996), aprimorada por Freitag (2010; 2012); Araujo e Freitag (2010), Santos (2011); Santos e Freitag (2012; 2013), Santos, Araujo e Freitag (2012) e Santos e Silva (2015), concebo o par P-R a partir do continuum de gramaticalização: Plena (PP) > semirretórica (PSM) > retórica (PR). Este continuum possui como ponto de partida a pergunta plena, em função de seu funcionamento prototípico: falante pergunta e ouvinte responde, ou seja, a função prototípica do ato de fala interrogativo é a busca de resposta para satisfazer uma dúvida codificada em uma pergunta pelo falante.

Diante dessas considerações, a concepção de pergunta adotada nesta tese está fundamentada nos postulados pragmático-cognitivos estabelecidos por Givón (1984, 1995, 2001, 200): inferência pragmática e conhecimento partilhado, o que significa dizer que, se o tópico apresenta propriedades essencialmente cognitivas e o par P-R é tomado como articulador de tópicos, a formulação de perguntas também é de base cognitiva. Não é de interesse, para essa pesquisa, afirmar que a função tem primazia sobre a forma, como dizem Fávero, Andrade e Aquino (2006), mencionados anteriormente, mas que as perguntas são formuladas em uma dimensão cognitiva (função) e são gramaticalizadas linguisticamente em formas que representam funções interrogativas.

As perguntas, nesse caso, apresentam as seguintes características: i) entonação ascendente (EA) como característica fulcral para identificação de perguntas. Conforme Sacks (1995), a entonação ascendente é a característica principal de uma pergunta por se tratar de uma característica de ordem gramatical. O autor cita como exemplo o fato de que uma pergunta pode ser reconhecida paralinguisticamente, ou seja, se alguém passa perto de uma conversa, ela pode não saber o conteúdo da mensagem, mas consegue identificar quando se trata de uma pergunta, devido à marca [+entonação ascendente], que é característica dessa categoria. Não sigo a distinção que Perini (2010) faz entre enunciado interrogativo e pergunta, ao postular que um enunciado interrogativo na forma pode exercer outra função que não a de pergunta. Defendo que o fato de uma pergunta poder exercer outra função discursiva não a descaracteriza como pergunta justamente pela marca de EA.

Outro fator prototípico das perguntas é o [+resposta], pois a função canônica desse ato de fala é a busca de informação faltante. Logo, o contexto prototípico de realização perguntas caracteriza-se pelos traços [+resposta] e [+entonação ascendente]. Givón (1995) afirma que estruturas prototípicas são o centro das categorias por serem

mais cristalizadas pelo uso, e são linguística e cognitivamente mais salientes; as menos prototípicas ocupam lugar à margem da categoria. No caso das perguntas, esses dois traços são os mais característicos da categoria pergunta:

(59) Ent: em relação à su- à sua visão antes de física e à visão que você tem agora... da física? o que que você acha?

Ros: é como muita gente acha né? que a Física é só baseada no Cálculo é Cálculo é Cálculo mas num é bem assim... qualquer fenômeno no nosso dia a dia tem a Física seja na sua casa... seja na na rua... seja numa oficina... seja quando você tá indo pra Aracaju andando de carro... em tudo em tudo tem o a física no seu dia a dia ... no funcionamento do corpo humano tem a física ... seja numa numa num num acidente num crime... pra desvendar aquele crime você tem... que... (hes) com várias... (hes) várias... teorias da Física você consegue desvendar... várias coisas

Ent: em relação as- você participou de algum projeto? qual foi a sua primeira participação? como foi essa experiência?

Ros: aqui na universidade? Ent: isso

Ros: bem eu... par- primeiro eu trabalhei como bolsista... bolsista trabalho aqui na universidade... foi meu primeiro emprego que eu nunca tinha trabalhado

Ent: como foi pra você conseguir?

Ros: bem pra eu conseguir eu me inscrevi... né? o pessoal da assistente social aqui eu tava um pouco nunca tinha trabalhado eu sempre dava aula de reforço né? (ENTREVISTA SOCIOLINGUÍSTICA, ITABAIANA, F, 24, 1, S).

Observamos na pergunta codificada, em (59), a presença dos dois traços prototípicos caracterizadores do ato de fala interrogativo: [+resposta] e [+entonação ascendente]. O traço EA especifica o ato de fala como interrogativo; já o traço busca de

resposta sinaliza o pedido de uma informação que falta ao falante, que é saber o modo

pelo qual este conseguiu algo.

Nas PSR, notamos que o traço [+resposta] é redirecionado, por motivações pragmáticas, para o próprio autor da pergunta, ou seja, o falante pergunta e ele mesmo responde, no entanto, o traço entonação ascendente continua presente:

(60) Mic: eu quero um emprego ((RISOS)) acho que isso é o que todo mundo... deseja nessa altura do campeonato

Ent: como assim um emprego?

Mic: mas confesso que ando meio preocupada... “o que que eu vou fazer quando eu sair da universidade?”... essa é a pergunta né? que instiga... um medo sei lá de repente... e também tem a questão da crise de identidade dentro da Biologia por exemplo você tem um leque de áreas que você pode estar atuando... então eu no meu caso... eu não tenho assim algo decidido... eu amo de paixão a Zoologia desde quando eu entrei aqui então é pra Zoologia que eu vou...

eu num tenho isso definido ainda... (hes) eu tenho muitas dúvidas com relação a isso... mas aí o que que eu vou fazendo? vou experimentando... tava na Zoologia trabalhei um pouco com (animais) invertebrados... agora com o surgimento da do PIC...

(ENTREVISTA SOCIOLINGUÍSTICA, ITABAIANA, F, 22, 1, S).

Nesse exemplo, a pergunta não foi elaborada para solicitar uma informação do ouvinte, mas teve como objetivo continuar o tópico em andamento. Em uma situação canônica de realização de pergunta, a resposta seria realizada pelo ouvinte; nesse contexto, é realizada pelo falante. É significativo notar que esse tipo de pergunta é denominado de retórica por Herring (1991), pois ela considera como critério de classificação de pergunta apenas a resposta do ouvinte, não o evento prototípico de perguntas como assentado anteriormente.

Por sua vez, as PRs caracterizam-se pela ausência de resposta, ou seja, há o apagamento, no plano linguístico, do traço [+resposta], por motivo de um fortalecimento pragmático, devido à função discursiva que a pergunta assume.

De acordo com Schiffrin (1994), as PRs nem buscam resposta verbal do ouvinte, nem esperam que o ouvinte pratique algum tipo de ação com relação a elas. Para Frank (1990), PRs são muito produtivas na construção do discurso, pois são formuladas para não serem respondidas, tendo por função persuadir o ouvinte. O autor ainda assevera que não há consenso na literatura sobre o que vem a ser, de fato, uma PR, devido às várias denominações existentes. Observe-se uma ocorrência desse tipo de pergunta:

(61) Ent: última pergunta ((RISOS)) assim... o que você pensa sobre... qual sua opinião sobre a violência? o que é que você acha? quais as medidas? o que é que você acha que tem sido feito pra amenizar pelo menos esses problemas sociais? um deles né? pelo menos... a violência... o que você acha pensa sobre isso?

Dan: em termo de violência a gente tem muitos âmbitos a falar (est) porque tem violência escolar... tem violência familiar... tem a violência urbana...[...] no Brasil a gente tem mais mortos do que numa guerra dita... numa guerra no Iraque matam menos do que lá nas favelas do Rio de Janeiro e de São Paulo

então a medida a ser tomada pelo governo... a educação muitos falam que a educação resolve o problema da violência a gente já tem também violência dentro da escola... e aí... como fica? (ENTREVISTA SOCIOLINGUÍSTICA, ITABAIANA, M, 22,1 S)

A pergunta elaborada, em (61), como fica? foi formulada com a intenção de não ser respondida, e isso é provado pelo fato de que os interlocutores seguem o dialogo sem responder a pergunta. A motivação que levou o falante a elaborar essa pergunta tem a ver com a função que esta desempenha no nível do discurso. Nesse contexto, não se aplica a característica de realização de pergunta como par de adjacências formulado por Levinson (1983).

CLASSIFICAÇÃO DE PERGUNTAS MAIS ENTONAÇÃO ASCENDENTE CRITÉRIO: PRESENÇA DE RESPOSTA PLENA CRITÉRIO: ESTRUTURA DA PERGUNTA INTERROGATIVA

FOCADA PERGUNTA POLAR

SEMIRRETÓRICA PERGUNTA RETÓRICA PERGUNTA RETÓRICA CLÁSSICA PERGUNTA RETÓRICA COM ESTATUTO DE MD

Feitas essas considerações, considero dois tipos de pergunta retórica: a clássica (PRC), que funciona como estratégia de progressão textual por meio de articulação tópica, e a pergunta retórica com estatuto de marcador de discursivo (PRMD), que tem por objetivo testar o canal comunicativo ou pedir aquiescência do ouvinte para o que está sendo dito (SANTOS; SILVA, 2015).

Há uma divergência aqui entre o que Martelotta (1996) trata como pergunta retórica e a distinção que estabeleço. Martelotta (1996) trata os itens ne?, entendeu?,

sabe?, certo? como MDs pelo fato destes itens terem perdido a característica de

pergunta, passando a atuar no discurso. O autor cita, como exemplo, o percurso de mudança do item né?: né? como pergunta não retórica >né? pergunta secundariamente orientada para a resposta do ouvinte >né? como marcador discursivo >né? como preenchedor de pausa. Mesmo admitindo o caráter não-discreto desta mudança, esse item perde, de modo progressivo, as características de pergunta, passando a atuar como preenchedor de pausa.

Nesta pesquisa, trato esse item como PRMD (pergunta retórica com estatuto de marcador discursivo), em razão das duas principais características prototípicas das perguntas: [+entonação ascendente] e [+resposta], sendo o primeiro traço mais prototípico que o segundo. Nesse sentido, mesmo que um enunciado interrogativo passe a assumir, no discurso, outra função, ele não perde o traço de EA, ou seja, o item assume outra função, mas continua sendo uma pergunta.

Na continuidade, exemplifico um esquema de como as perguntas são tomadas, nesta pesquisa, o qual formulei a partir dos estudos de Sacks (1995), Martelotta (1996), Givón (2001; 2002), Araújo e Freitag (2010), Santos (2011), Santos e Silva (2015):

Figura 3 - Proposta de classificação de perguntas adotada nesta tese.

A proposta de classificação em questão toma como ponto de partida o ato de fala interrogativo prototípico, que é caracterizado pelos traços [+ entonação ascendente] e [+resposta]. Como o primeiro traço é o mais prototípico da categoria pergunta, aparece em primeiro lugar na figura, sinalizando ser é um critério subjacente a todas as classificações de perguntas. O segundo critério está relacionando à presença de resposta nas perguntas. Por esse critério, as perguntas são entendidas a partir do contínuum: plena > semirretórica > retórica. As perguntas plenas são classificadas de acordo com sua estruturação: a interrogativa focada, quando o escopo da dúvida recai sobre um termo; e interrogativa total, quando a codificação da dúvida recai sobre toda a proposição. A pergunta retórica é classificada em: pergunta retórica clássica e pergunta retórica com estatuto de marcador discursivo.

Discuto, na próxima seção, sobre os processos objetivos e subjetivos codificados nos enunciados interrogativos.