Como analisado no capítulo 2, o ambiente de convergência acaba por influenciar nos processos de formação dos receptores de conteúdos. Esses passam de um estado passivo para um de plena participação em todas as fases de produção dos bens simbólicos midiáticos, além de também se destacar como um produtor de conteúdo. Já para Domingo et al. (2007), a dimensão da audiência ativa em Jornalismo está diretamente vinculada à redefinição das relações dos jornalistas com o público por meio do próprio conteúdo gerado por ele e a partir de recursos e estratégias de participação, como fóruns, chats, comentários após notícias e posts. Os conteúdos destinados a nichos específicos do público, em alta no estado de convergência como já adiantado em capítulo passado, também constituem a dimensão da audiência ativa.
Os meios tradicionais de comunicação estão perdendo sua condição de fontes exclusivas de seleção, captação, edição e divulgação de informações, como consequência da multiplicação de comunidades virtuais e de espaços multilaterais de comunicação na internet. Assim, se multiplicam o ativismo individual e o coletivo que estimulam a convivência social binária e o autodidatismo comunicativo e interpretativo de todos os tipos de informação. Os incontáveis ambientes virtuais, nas redes sociais e aplicativos da internet têm permitido isso. Enquanto muitos avanços ocorrem ininterruptamente no jornalismo em rede e na comunicação, a mídia tradicional segue presa aos moldes impostos pelos seus modelos de negócios, pelos vínculos seculares mantidos em nome da conservação dos interesses econômicos, políticos e ideológicos do liberalismo, tanto nacionais e internacionais. É óbvio que os filtros de origem comprometem significativamente o conteúdo que é divulgado nesses meios. (MAGNONI, 2013, p.12)
Deuze (2008a, 2008b), assim como postula Jenkins (2009), aponta que existem duas tendências distintas e independentes na convergência, que são a da indústria de mídia e a da produção e do consumo de mídia. Para o autor (2008a), o modo de fazer jornalismo e a identidade profissional dos jornalistas estão mudando em função das práticas de jornalismo cidadão e do valor dado ao conteúdo gerado pelo usuário. O autor enfatiza que se exige do profissional maior senso de negociação com o público, bem como maior flexibilidade para decidir o que é notícia.
Crescem significativamente, no momento atual, os espaços informativos não comerciais na internet brasileira, espaços esses produzidos para se contrapor à abordagem editorial dos grandes veículos regionais e nacionais. Entre a profusão dos ambientes informativos e opinativos, predominam os produzidos por jornalistas de renome, embora existam muitos sites e blogs de sindicatos e organizações sociais que são produzidos periodicamente, de modo profissional, especializado e dirigidos a segmentos de público específicos, com finalidades semelhantes à antiga imprensa comunitária ou sindical. O que diferencia a nova geração de meios ―alternativos‖, ―populares‖, ―comunitários‖ e ―partidários‖, é que eles circulam em uma plataforma com difusão multilateral de informações, que favorece a produção colaborativa de conteúdos, que permite as contraposições às práticas mercadológicas e hegemônicas do jornalismo tradicional. (MAGNONI, 2013, p.11)
Aderson, Bell e Shirky (2012) ainda acreditam que será preciso que as instituições modifiquem a estrutura organizacional de forma radical como modo de acompanhar o dinamismo da audiência mediante o cenário convergente:
a adaptação a um mundo no qual o povo até então chamado de ―audiência‖ já não é mero leitor e telespectador, mas sim usuário e editor, vai exigir não só em táticas, mas também na concepção que o jornalismo tem de si. Incorporar um punhado de técnicas novas não será o suficiente para a adaptação ao novo ecossistema; para tirar proveito de acesso dos indivíduos, multidões e máquinas, também será preciso mudar radicalmente a estrutura organizacional de veículos de comunicação (ANDERSON, BELL e SHIRKY, 2012, p.02)
Saad (2008) também percebe que a relação com a audiência modifica o jornalismo praticado nas redes digitais, dividindo dois momentos no posicionamento das empresas: Cenário de Presença Digital 1.0 e Cenário de Presença Digital 2.0. No Cenário 1.0, a interação com o internauta e a personalização dos conteúdos são restritas. Segundo a autora, ―o controle do conteúdo e das relações permanece nas mãos do emissor, a maioria de suas propostas de interatividade e diálogos não passa de ações que simulam a participação‖ (SAAD, 2008, p. 155).
O novo cenário digital exige posicionamento condizente com
―a relação direta com os públicos, com a proximidade destes com as ferramentas da rede, com as formas narrativas que a empresa se utiliza para se comunicar e transmitir suas mensagens para esses públicos e com as formas interativas de se relacionar com eles‖ (SAAD, 2008, p.154).
O Cenário 2.0 descrito por Saad (2008) está relacionado com a apropriação, por parte das empresas jornalísticas, das ferramentas da computação social e, em consequência, das
funções pós-massivas (LEMOS; LÉVY, 2010). As funções pós-massivas são definidoras do estágio atual da convergência das mídias, por agregar os consumidores ao lado dos produtores – ou convergências alternativa e corporativa. É devido às funções pós-massivas que a cultura participativa ganha abrangência e que a inteligência coletiva pode efetivamente ser reunida e valorizada. Nesse sentido, as funções pós-massivas são fundamentais para que a Cultura da Convergência seja entendida, bem como a mudança de estudo da convergência jornalística e de suas possibilidades de construções de narrativas.
Diante desse cenário de apropriação das mídias sociais pelas empresas midiáticas,
a fisionomia dos meios está mudando. O meios off line, advertidos do ingresso em massa dos nativos digitais ao mundo do consumo midiático, buscam os canais de comunicação que os permitem atraí-los, fidelizar suas audiências e otimizar seu negócio. As versões digitais estão demonstrando que podem desenvolver melhor esta capacidade que as versões offline, mediante o aprofundamento de estratégias participativas que só tem factibilidade no mundo digital (IGARZA, 2008, p. 206)
A dimensão da audiência ativa da convergência jornalística faz com que surjam narrativas distintas, que podem combinar, em sua apresentação, um amplo leque de elementos.