5. DISKUSJON
5.1 I NSTITUSJONELT ARBEID
5.1.3 Kulturelt arbeid
Para Carvalho (2006), é importante considerar que falar em dimensão de conhecimentos não significa nos restringirmos apenas a “produtos do conhecimento científico” e, muito menos referirmo-nos apenas ao conhecimento escolarizado. A proposta do autor é a de considerar a dimensão dos conhecimentos de forma mais ampla, e, para tal se apropria do texto de Severino (2001), no qual o autor entende conhecimento como “uma extensão do exercício da subjetividade em sua prática simbolizadora”.
No entanto, para Carvalho (2006), é muito comum que se privilegie nas práticas pedagógicas relacionadas com a temática ambiental, abordagens mais reducionistas, nas
quais a descrição de elementos, fenômenos e processos presentes no mundo da natureza e no mundo da cultura, seguidas de sua classificação são enfatizadas. Segundo esse autor,
De maneira geral, os diferentes componentes da natureza são apresentados de forma isolada, sem considerar as complexas interações entre estes e os constantes e dinâmicos processos de transformação do mundo natural. A ênfase nos processos descritivos e nos sistemas de classificação dos elementos naturais acaba por predominar, contribuindo para reforçar particularidades que, muitas vezes, prejudicam a compreensão sobre a natureza e sua dinâmica de uma forma mais integrada (no prelo).
Como uma possibilidade de contraposição a essa versão conceitual e factual, propõe-se a abordagem ecológico-evolutiva, o que abre possibilidades para uma análise espacial, na qual a interação entre elementos, fenômenos e processos é trabalhada. Além disso, a dimensão do tempo é aqui tomada como uma variável fundamental para as análises.
Além de questões relacionadas com o ambiente natural, as práticas pedagógicas relacionadas com a temática ambiental não podem deixar de considerar questões que vão além da análise da natureza. Trata-se de considerar nesses trabalhos, conforme Carvalho (2006) os aspectos relacionados com os padrões de relação sociedade – natureza. Esse autor frisa que a “perspectiva fatalista, o reducionismo biológico e a análise a-histórica” dessa questão deve ser evitada. A necessidade da busca de uma compreensão mais profunda, procurando explicitar os ideológicos que se contrapõem é uma necessidade que devemos considerar em nossas atividades educacionais.
É nesse sentido que um outro aspecto importante da dimensão dos conhecimentos não pode ser negligenciado. Trata-se da necessidade de considerarmos o próprio processo de produção do conhecimento científico como um aspecto a ser explorado em nossas atividades, procurando evidenciar a natureza humana dos conhecimentos produzidos. Nessa perspectiva, a relação Ciência, Sociedade e Tecnologia e as instigantes relações entre ciência e arte passam a ser vistas, assim, como possibilidades concretas “para evitarmos uma das críticas contundentes apresentada pelo movimento ambientalista, qual seja, a da mistificação do conhecimento científico”.
Para analisar a dimensão dos conhecimentos nos projetos das professoras, algumas questões mais específicas orientaram a análise dos dados: quais os temas apresentados nos projetos das professoras? Que procedimentos ou recursos didáticos foram utilizados pelas professoras?
As relações entre desenvolvimento tecnológico e a temática ambiental estiveram presentes nos trabalhos das professoras, considerando os planos de ensino por elas propostos e os trabalhos efetivamente realizados em sala de aula? Que abordagens em relação a essa temática são propostas e implementadas pelas professoras? Em que medida as reflexões propostas pelos ambientalistas e outros setores sociais em relação a essa temática estão presentes nos trabalhos realizados nessa disciplina?
No Plano de Trabalho Docente para as disciplinas de Tecnologia e Meio Ambiente apresentados para os cursos técnicos de Eletrotécnica e Mecânica, a Professora Marília propôs as seguintes etapas para o desenvolvimento dos trabalhos:
I - A TÉCNICA E O MEIO AMBIENTE – Fevereiro e Março/2004 1- Técnica e tecnologia no tempo.
2- Os períodos e os meios técnicos.
3- As revoluções industriais e seus meios ambientes.
II - OS PROBLEMAS AMBIENTAIS ATUAIS – Abril e Maio/2004 1- A degradação planetária: desmatamento, erosão e assoreamento. 2- A poluição do ar e o aquecimento global.
3- O escasseamento da água e a extinção da biodiversidade.
III - OS MEIOS DE CONTROLE E DE GESTÃO AMBIENTAL – Junho e Julho/2004 1- Movimento ecológico e gestão ambiental.
2- A legislação ambiental: o EIA-RIMA e a ISO14000. 3- A agricultura ecológica e as tecnologias limpas.
Cabe esclarecer que a referida proposta é uma transcrição do sumário do livro
constatar que, embora a Professora Marília tenha comentado alguns desses tópicos, estes foram comentários isolados, sem acompanhar o cronograma elaborado para as referidas disciplinas. É importante mencionar, no entanto, que, com a ocorrência da greve no CEETEPS, durante o período de fevereiro a maio de 2004, a proposta para a disciplina deveria ter sido readequada, pois, mesmo com a alteração do calendário escolar, as aulas terminaram na primeira semana de julho como previa a proposta inicial.
Para a Professora Marília existem três razões, expressas no seu plano de ensino, que justificam a proposta da disciplina, a saber:
• Propiciar uma discussão acerca do desenvolvimento técnico- científico da civilização ocidental e suas aplicações de ordem social, ambiental, espacial e organizacional nas sociedades modernas;
• Construir um raciocínio crítico sobre a constituição da sociedade global, o papel do desenvolvimento tecnológico neste contexto e a conseqüente crise ambiental em escala planetária;
• Identificar e avaliar as ações dos homens em sociedade e suas conseqüências em diferentes espaços e tempo de modo a construir referências que possibilitem uma participação propositiva e reativa nas questões socioambientais locais (Plano de Trabalho Docente – Eletrotécnica, p. 1, Mecânica, p. 1).
Como pode ser observado na Tabela 1, apresentada na íntegra no Capítulo 2 (p. 68), a Professora Marília apresenta, no item “competências”, propostas de trabalho que parecem prescindir do trabalho com a dimensão de conhecimento, tanto no que diz respeito ao produto da ciência como no que diz respeito a processos de investigação.
A Professora Ana, em seu Plano de Trabalho Docente, apresentou os seguintes conteúdos para trabalhar com os alunos dos seis cursos técnicos sob a sua responsabilidade, no 1º e 2º semestres (Enfermagem, Informática e Laboratório de Prótese Dentária): a - Problemas ambientais de origem antrópica; b - Estudos de Impacto Ambiental (EIA) e c - Relatório de Impacto Ambiental (RIMA), propondo que eles, com o trabalho desenvolvido fossem capazes de:
[...] compreender as relações homem/ambiente/tecnologia/sociedade e comprometer-se com a preservação da biodiversidade no ambiente natural e construído, com sustentabilidade e melhoria da qualidade de vida. (Plano de Curso de Laboratório de Prótese Dentária, p. 13)
A Professora Ana concentrou suas atividades em textos que discorriam sobre “Bioma”, “Clima do Brasil”, “Vegetação Terrestre”, “Bacias Hidrográficas do Brasil”,
“Inovações Tecnológicas”, “Coleta Seletiva e Reciclagem”, “Educação Ambiental e Cidadania”, “Gestão e Manejo de Bacias Hidrográficas”. Apresentou em algumas aulas, não de todos os cursos, elementos sobre o EIA - RIMA, mas de modo superficial. Quanto ao item “problemas ambientais de origem antrópica”, não fez menção em nenhum momento. Pode-se perceber, em uma análise dos trabalhos dessa professora, a sua tendência descritiva e classificatória de elementos, fenômenos e processos, naturais e antrópicos que, de acordo com Carvalho (2005, p. 91), é uma forte tendência já identificada no ensino das ciências naturais.
O fato de a disciplina Tecnologia e Meio Ambiente ser ministrada em cursos técnicos que direta ou indiretamente estariam promovendo a produção de bens de consumo, poderia induzir ou sugerir que as professoras trabalhassem com os impactos ambientais mais freqüentes, provocados por atividades relacionadas com o exercício profissional dos diferentes cursos técnicos, quais sejam: poluição, consumo de energia e água e de matérias-primas. Como as duas professoras comentaram que não conheciam em detalhes o desempenho dos profissionais das referidas habilidades, pode-se questionar se teriam condições de abordar esse tema em sala de aula.
Tendo em vista que os cursos técnicos de Enfermagem, Informática e Laboratório de Prótese Dentária, em especial, produzem alguns componentes tóxicos, tais como resíduos hospitalares, equipamentos de informática desatualizados e resíduos da produção de próteses dentárias, um assunto que não teve destaque no trabalho desenvolvido pelas professoras foi a produção e o descarte correto desses componentes. A Professora Ana em algumas ocasiões mencionou a situação do descarte de certos resíduos sem aprofundar, no entanto, questões como as relacionadas com o impacto ambiental provocado por esse procedimento:
No Japão, como a tecnologia avança demais, numa terra muito adiantada, elas trocam de computadores com mais facilidade, mas elas vendem os antigos. Quando não compensa mais arrumar, porque as peças ficam muito cara, separam as partes, plásticos, vidros, etc. No Japão, não é bem assim que encontram coisas na rua. (Curso de Enfermagem)
Se pode mesmo reutilizar, porque usar novo chegará uma hora que não terá lugar para deixar o material não utilizado. Os caminhões
terceirizados cobram por peso (tonelada), com essa estória de reciclagem além das pessoas ganharem, a Prefeitura deixa de gastar. Volta em forma de adubo e deixa de poluir.
Pode-se perceber que o destaque da professora não foi para o problema da produção de resíduos tóxicos e sim o excesso de descarte que ocorre em países industrializados, onde a troca de computadores por modelos mais novos está provocando um problema de falta de local para disponibilizar esse excedente de produtos. A ênfase que a professora apresentou é sobre esse aspecto, da ausência de espaço para disponibilizar os produtos descartáveis e não a falta de matéria-prima para a fabricação de outros produtos:
A Professora Ana solicitou um trabalho aos alunos do curso técnico de Informática que abordasse “o reaproveitamento e reciclagem de material de informática, desde o equipamento, papel e tinta”. No dia marcado, a professora recebeu os trabalhos e pediu aos alunos que comentassem algo que os interessou. As respostas foram curtas e em geral repetidas. Várias questões poderiam ter sido apresentadas aos alunos, tais como: Quais componentes dos computadores são tóxicos? Qual o tipo de contaminação provocada por esses equipamentos e seus acessórios? Qual o modo correto de realizar o descarte? Essas peças podem ser reaproveitadas ou recicladas?
Também para o curso técnico de Informática, ao apresentar o filme “A Riqueza do
Lixo” que tratava exclusivamente da reciclagem, a Professora Ana inicia seu esclarecimento sobre o tema com “a reciclagem é a solução de todos os problemas, mas temos que lembrar da regra dos 3Rs”. Concordamos que a professora apresentou a regra dos 3Rs, porém a ênfase maior, a solução dos problemas ambientais recaiu sobre a reciclagem. Quando conclui esse mesmo parágrafo, a professora argumenta que “reciclar é o último, não pode pensar direto na reciclagem, este é o último nível”. Qual a mensagem que deve ter ficado para os alunos, já que ninguém questionou a professora sobre o fato de que a reciclagem é ou não a salvação de todos os problemas?
A Professora Ana, no curso técnico de Enfermagem, apresentou um texto sobre
“Coleta Seletiva e Reciclagem”, porém tratava da reciclagem de modo global, sendo que em alguns trechos foram abordadas situações de descarte de produtos hospitalares.
Com relação a esse tipo de resíduo, a menção da Professora Ana consistiu basicamente no seguinte trecho:
Os hospitais têm embalagem de papelão para material cortante, perfurante e outras coisas, antes de ser descartado, passa por um
processo de esterilização a vapor e alta temperatura. Não existe mais contato com o lixo.
Tanto no 1º semestre, no curso de Laboratório de Prótese Dentária, como no 2º semestre, no início do curso de Informática, a Professora Ana solicitou aos alunos que trabalhassem na formação de uma horta no jardim da escola. A proposta não teve sucesso em nenhuma das duas turmas, provocando muitas reclamações por parte dos alunos, consideramos ter sido este um dos motivos para a desistência dos alunos do curso de Informática. A atividade, da forma como proposta, não estabeleceu qualquer relação possível entre esse tema e os cursos técnicos para os quais foram propostos.
Como já observado, na análise das práticas pedagógicas utilizadas pelas professoras, conforme relatado no Capítulo 3 (p. 73 a 116), verificamos que ambas utilizam-se de concepções verticalizadas de tratamento de temática ambiental, contrariando as propostas apresentadas pela literatura que destaca a utilização de questionamentos e discussões. De acordo com Neira (2005), são vários os fatores que permitem o aprendizado, principalmente as atividades entre os alunos, entre as quais destaca a “investigação crítica, análise, interpretação e reorganização do conhecimento e do processo reflexivo que o acompanha, tudo isso relacionado com áreas que tenham sentido na vida dos alunos” (p. 57). Ao mesmo tempo, esse mesmo autor pondera as dificuldades que se apresentam em trabalhos que buscam essa perspectiva:
Entretanto, essa não é uma tarefa simples. Favorecer a aprendizagem com base no diálogo é algo que não ocorre de maneira espontânea, pois requer uma trajetória. Implica, por exemplo, por parte do professor, ter uma escuta atenta sobre o processo do grupo que serve de apoio a uma situação de aprendizagem. Supõe, além disso, a habilidade de comunicar e interpretar as relações do grupo e, na medida em que essa concepção sobre a aprendizagem requer o diálogo entre iguais (e com outros), proporciona aos alunos a oportunidade de exercer maior controle e responsabilidade sobre sua aprendizagem, em vez de atribuí-la, como era habitual, ao professor (p. 57).
É interessante observar, a partir dos dados coletados, que, pelo menos em um episódio de ensino um dos alunos (José Luis) de um dos cursos técnicos (Eletrônica) propõe a Professora Marília a discussão de temas que estivessem mais relacionados com o futuro desempenho de suas atividades profissionais. No entanto, a sugestão não foi considerada pela professora.
Merece também destaque a dificuldade das professoras em solucionar, responder ou discutir os questionamentos dos alunos, relacionados com temas que envolviam a temática ambiental. Em um dos episódios de ensino que acompanhamos em sala de aula e já registrados, a Professora Marília, quando requisitada por um aluno do curso técnico de Eletrotécnica para discutir sobre a ISO 9.000, respondeu que não poderia abordar esse assunto, pois não possuía conhecimentos suficientes para tal. Porém ao analisarmos o plano da disciplina Tecnologia e Meio Ambiente proposto por essa professora, verificamos que, no último tópico, é proposto o trabalho a ser desenvolvido sobre a legislação ambiental, incluindo o EIA-RIMA e a ISO 14.000. Portanto de alguma maneira, mesmo se na ocasião a professora não tivesse subsídios para apresentar o tópico solicitado pelo aluno, poderia ter tido o cuidado de retomar o assunto em outra aula. Em uma outra discussão a Professora Marília não foi capaz de trabalhar adequadamente questões relativas à contaminação do lençol freático em regiões de cemitérios, proposta por um aluno.
O trabalho realizado por Maia e Oliveira (2003, p. 12), em duas escolas de Ensino Médio, também constatou que “nem sempre o que foi planejado é efetivamente cumprido”. Todavia alertam as autoras, “a incongruência poderia ser benéfica, se ocorresse uma inovação metodológica que pudesse enriquecer a prática pedagógica”. Podemos ressaltar que, no caso da Professora Marília, ocorreu o inverso, a proposta apresentada se fosse cumprida, de maneira adequada, poderia produzir alguns questionamentos e debates com os alunos. Portanto nesse caso específico, teria sido melhor o cumprimento do plano de atividades proposto.
Já de acordo com Jacobi (1998, p. 11), a população mais carente sofre mais as conseqüências dos problemas ambientais provocados pela urbanização predatória, portanto, para o autor, “a possibilidade de maior acesso à informação potencializa mudanças comportamentais necessárias para um agir mais orientado na direção da defesa do interesse geral”.
Com relação ao acesso ao conhecimento, Jacobi (op. cit., p. 12) salienta que a “contraposição do significado dos problemas ambientais urbanos e das práticas de resistência dos que “têm” e dos que “não têm”, interferem significativamente na qualidade de vida da cidade como um todo”.
De modo geral, a Professora Marília tentava continuamente mostrar aos seus alunos, que, com o seu conhecimento e com o seu desempenho profissional, eles teriam maiores condições de questionar e compreender as causas, conseqüências e alternativas
para os problemas ambientais. A Professora Marília deixava claro que não estava totalmente sob a responsabilidade da escola, principalmente a pública, sem infra-estrutura ou recursos para acompanhar o desenvolvimento tecnológico, garantir o processo de formação do aluno. Em várias oportunidades a professora insistia com os alunos que essa formação só poderia ser garantida com o interesse do aluno em se aprimorar. Essa professora sempre comentava que os alunos de escolas públicas “devem correr atrás” do conhecimento, pois com a infra-estrutura que lhes é oferecida não terão muitas chances de sucesso profissional, como pode se constatar pelos seguintes diálogos com os alunos:
O professor lança uma semente e o aluno tem que procurar outros lugares para aprender. O aluno não aprenderá tudo que precisa e necessita na escola.
Cada aluno deve buscar seu sucesso. Deve visitar fábricas, [...]. A população pobre tem que buscar seu conhecimento que a escola não oferece.
Sempre há alguma coisa a mais para descobrir ou entender. A escola, principalmente a pública, não acompanha a tecnologia, [...]
A Professora Marília também comentou que a disciplina TMA é uma semente dos cursos técnicos para a Educação Ambiental, para os alunos trabalharem com seus filhos, sua família, no seu trabalho.
A Professora Ana apresentou para o curso técnico de Laboratório de Prótese Dentária o poema “Rosa de Hiroshima”, solicitando aos alunos que o interpretassem para a aula seguinte, comentando que esse material seria utilizado, quando fossem discutir a “radioatividade”. Os argumentos de Santos (2005) oferecem uma idéia da diversidade de questões que uma discussão como essa poderia levantar,
A industrialização da ciência manifestou-se tanto ao nível das aplicações da ciência como ao nível da organização da investigação científica. Quanto às aplicações, as bombas de Hiroshima e Nagasaki foram um sinal trágico, a princípio visto como acidental e fortuito, mas hoje, perante a catástrofe ecológica e o perigo do holocausto nuclear, cada vez mais visto como manifestação de um modo de produção da ciência inclinado a transformar acidentes em ocorrências sistemáticas. (p. 57) (grifo nosso)
Embora a idéia pudesse gerar discussões interessantes entre os alunos, a professora não retomou o assunto, nem solicitou a entrega dos trabalhos. A apresentação desse poema foi jogada no “vazio”, pois como a faixa etária dessa sala é muito baixa, uns dois ou três alunos questionaram sobre o que tratava esse poema, pois não sabiam o que significava Hiroshima. Como a resposta de outros mais velhos foi em tom de deboche, a professora não se preocupou em esclarecer o tema do poema, dizendo que iriam discutir sobre o assunto, quando entregassem o trabalho. Como nos apresenta Santos, no fragmento citado acima, a professora poderia ter discutido a influência da ciência na industrialização e as conseqüências da tecnologia, quando utilizadas de forma equivocada.
A Professora Marília solicitou um trabalho de final de disciplina no qual os alunos deveriam apresentar pelo menos 25 textos que abordassem a temática ambiental. Para esclarecer quais os temas que deveriam ser abordados no trabalho, explicou que os assuntos poderiam ser local, regional ou mundial, apresentando os seguintes exemplos:
No nível local, em Rio Preto, temos a Usina Guarani que está comprando todas as fazendas entre Guapiaçú e Rio Preto. Como conseqüências temos o excesso de plantações de canaviais, muitas queimadas que aumentam a temperatura na região. A matança de urubus em uma cidade da região por um cidadão foi denunciada e ele está preso até setembro de 2004. O motivo da matança, 14 urubus no total, foi a concentração dos animais na área do curtume de sua propriedade. As propagandas nas esquinas, vocês peguem as propagandas, guardem em sacos plásticos dentro do carro e no fim de semana joguem no lixo. Na região há alteração da qualidade e da temperatura do ar em decorrência dos canaviais. No Estado, no país e planeta as guerras e testes nucleares que prejudicam o meio ambiente.
Apesar da solicitação do trabalho ser coerente com a temática ambiental, os alunos mostraram-se pouco entusiasmados com o desenvolvimento da atividade. Talvez, a falta de discussão dos artigos que estavam sendo selecionados por alguns deles tenha desestimulado a continuidade e o envolvimento com os trabalhos.
Considero que dois aspectos dificultaram de forma definitiva o trabalho dessas professoras com a temática ambiental. O primeiro é o fato de essa escola atender diversos bairros da cidade e inclusive diferentes cidades da região, não havendo uma ligação afetiva com a própria escola. Outro aspecto importante é o fato de as professoras não terem