Kapittel 3. Teoretisk forankring: Lederskap i rigide hierarkier
3.4 Kultur
[...] grosseiros, bebedores e não se importando com o futuro [...]. (ENGELS, 1975, p. 130)
O sangue é universalmente considerado o veículo da vida. Sangue é vida, se diz biblicamente. Às vezes, é até visto como o princípio da geração. Segundo uma tradição caldeia, é o sangue divino que, misturado à terra, deu a vida aos seres.
(CHEVALIER, 2009, p. 800).
Tal como conhecemos hoje, o vampiro obteve uma representação imagética a partir de elementos e características sociais relativas ao século XIX.
Como padrão, os vampiros são seres magros, quase cadavéricos, sedutores, com vestes burguesas e/ou aristocráticas, melancólicos, sombrios. São mortos-
vivos, pálidos e sem brilho no olhar. Não possuem pulsação e têm uma temperatura
corpórea baixa.
Por volta de 1800, através do poeta Lord Byron e em seu romance The
Fragment of a Novel, surgiu um sedutor vampiro, ainda predador, só que muito mais
humanizado que seus antecessores. Conservava aspectos atávicos por trás de uma identidade felina, cheio de requinte, romantismo, inteligência, poética e elegância, como forma de promover sua sedução, uma arma fatal para a manutenção de sua “vida”, ou seja, por sua sedução atraia vítimas e assim poderia sorver seu sangue. Cabe um adendo que foi a estereotipação desse vampiro dentro dos moldes como o próprio Lord Byron era conhecido em vida; dessa maneira, esse vampiro romantizado foi escrito pelo escritor a sua semelhança física e psicológica.
Nos conceitos byronianos, os vampiros seriam sedutores, masculinos e viris, com um conceito mundano. Nobres e errantes, vagando pelo continente europeu. Possuíam caraterísticas repulsivas: pele gelada, palidez cadavérica, voz e jeito sedutores, lábios enfadados e extremo carisma sexual.
O conto inacabado de Lord Byron foi concluído pelo escritor John Polidore, com o novo título The Vampyre. Nesse conto finalizado, os arquétipos
contemporâneos são encontrados, uma mistura do que Byron fez com elementos de mais requinte, menos bestializados e, de certa maneira, misturados na sociedade.
Com o tempo, o vampiro passou a ser o senhor da noite, ter vida eterna – sendo apenas morto por: luz do sol, estaca no coração, cabeça cortada – mantendo sua aparência de quando foi transformado, erotizando as mulheres. Esse vampiro será uma figura atrativa, de acordo com cada produção cultural de cada época e local, entretanto, no Romantismo, um modelo católico será adotado a fim de tecer críticas ao contexto social e aos tabus sexuais.
Imagem 23: Quadro O Vampiro – 1893-94. Autor: Edvard Munch.
Sedução, beleza, poder, riqueza, libido e vida eterna foram investidos no inconsciente e deixados na sombra da consciência humana durante milênios, para que, através das permanências românticas, pudessem estar lado a lado com os humanos. A figura 23 representa bem a relação humano-vampiro. Ainda que esteja sendo mordida, a relação entre a mulher vampira e o homem é afetuosa, com sedução, quase uma relação normal entre um homem e uma mulher.
Além desses fatores, o vampiro comportava algo doentio que, por razões sociais, tinha um aspecto de positivo e sublime: a tuberculose.73
Os românticos, aliados às condições precárias de higiene, acreditavam sentir a dor do mundo em seu peito, o sofrimento necessário, no entanto, sofriam mesmo de tuberculose.
O vampirismo pôde ser associado e esse mal, muito comum no século XIX, devido à falta de imunização. A tuberculose era muita devastadora e de difícil combate, em razão do modo como as pessoas viviam em relação ao trabalho, à vida e à convivência com outro , uma vez que é transmitida por uma bactéria.
A relação com o vampiro dava-se pela associação do doente à palidez, aversão ao sol, tosse com sangue e olhos avermelhados, características comuns ao mito. Como forma de controle dos vampiros, comumente explicado pelas mitologias, utilizavam estacas para prender o morto ao caixão, evitando que ele se levantasse de sua morte. Assim, muitos mortos pela tuberculose eram estacados junto ao caixão, pois, mesmo mortos, as unhas e cabelos continuavam a crescer, e nas fases mais agudas da doença, havia muita perda de sangue.
Essa enfermidade possuía traços físicos como palidez alva e rubor vermelho, alguma hiperatividade noturna e languidez diurna. Ao portador restava ver sua vida ser exaurida; entretanto, procurava viver plenamente, vendo cores e contrastes com maior vividez, enquanto esperava a morte lhe tirar anos de seu destino. Ainda assim a morte sempre foi vista de maneira terrível.
Era belo, elegante e sublime sofrer de tuberculose e, como uma doença dos pulmões, era, metaforicamente, uma doença da alma. Era a doença das paixões, aquelas que calam fundo a alma. A febre não era apenas um sintoma, era um sinal de “chama interior” – o corpo era consumido por essa chama. A tuberculose, e sua “romantização”, foi o primeiro grande exemplo de larga difusão do ser moderno: promover o eu como imagem.
(RODRIGUES, 2012, p. 36)
As características físicas da doença foram o legado visual do estereótipo vampírico, aquele com a tez pálida e aspecto doentio. Sofre silenciosamente por alguém, possui fome de sangue e atração por jovialidade, beleza e saúde de suas presas. Agilidade e passividade são traços para a caça de suas presas e, após elas verterem seu sangue, um rubro intenso é visível na pele pálida do vampiro.
Visto como belo e sublime, surge e perdura um aspecto marcante, que nunca havia sido apresentado: a sensualidade.
O vampiro, assim como o tuberculoso, despertava um desejo de salvação dos pecados, e a dor que perpassava o corpo e a alma, e que refletia em seus olhos, tornando-o desejável. Era mais que um compromisso sexual: era um desejo de tornar-se um herói para o outro, entregar-se àquela condição também, compartilhar como moribundo suas agonias – o desejo pelo doente implicava a vontade de também estar doente. O desejo pelo vampiro estava em compartilhar com ele sua imortalidade, confrontá-lo em sua solidão e dividir suas dores.
(RODRIGUES, 2012, p. 37).
Na ficção moderna existem produções culturais que se utilizam do mito clássico do vampiro, essas ficções mesclam características do vampiro romântico com a modernização social.
Séries de cinema: Twilight, ou Crepúsculo (baseada na série literária de Stephenie Meyer); a série de televisão da HBO, True Blood (baseada na série literária de Charlaine Harris); a série de cinema Anjos da Noite, dirigida por Len
Wiseman; Além dos tradicionais, Entrevista com o Vampiro de Anne Rice, Drácula, de Bram Stoker, também adaptados ao cinema.
Séries literárias vampirescas como Irmandade da Adaga Negra (de J.R.Ward) e Os Sete, Sétimo, O Turno da Noite I, II e III (de André Vianco); a série Alma e Sangue, de Nazarethe Fonseca.
Essas são algumas produções que fizeram com que o mito pudesse ser confundido com o inconsciente psicológico, modulando suas forças na consciência humana, atrelando realidade e ilusão, ou somatizando-se a um lado mais sombrio do ser humano. O vampiro tornou-se, por vezes, um espelho de uma realidade.
Com exceção de romances, filmes e literatura, muita produção acadêmica já fora escrita com a intenção de caracterizar o mito do vampiro, podendo ser citados: Freud, Carl Gustav Jung, Mircea Eliade, Carlo Ginzburg e Lord A., sendo que esse último vivencia uma experiência diária com o mito do vampiro, reunindo um farto material de grande produção cultural a respeito do termo “vampiro” que vale a pena ser considerado.
Schiller definiu muito bem esta “disposição natural” ao horrendo e não podemos esquecer que em todas as épocas o povo acorreu cheio de excitação para assistir às execuções capitais. Se hoje temos a impressão de sermos “civilizados”, talvez seja apenas porque o cinema coloca à nossa disposição inúmeras cenas splatter, que não perturbam a consciência do espectador, pois lhe são apresentadas como fictícias.
[...]
O vampiro gera angústia não tanto quanto se manifesta como ser-morcego de caninos injetados de sangue, pois em tal caso desencadeia tão-somente medo, mas quando há dúvidas acerca do vampirismo de alguém.
(ECO, 2007,pp. 220 – 322)
Assim como a aparência física romântica do vampiro, uma característica que perdura até hoje, e que tem um valor simbólico muito forte é o sangue.
O sangue por muito tempo foi considerado o líquido da vida, aquele que alimenta o corpo ou sua debilidade. Podia ser visto como símbolo de poder, de realeza e valores.
O sangue, durante muito tempo, constituiu um elemento importante nas manifestações dos mecanismos de poder. Em sociedades nas quais predominavam os sistemas de alianças, a política determinada pela existência do soberano, o valor das linhagens e o valor da hereditariedade – sociedade beligerante em que a morte era iminente, seja pela violência ou pelas epidemias – o sangue, sem dúvida, constitui um dos recursos essenciais, por seu papel instrumental (poder de derramar o sangue); seu papel nos signos (proveniência do sangue, ser do mesmo sangue); arriscar seu próprio sangue (sua precariedade; sujeito à extinção, pronto a se misturar, corruptível).
(RODRIGUES, 2012, p. 63).
Desde sempre, para o morto-vivo ou o próprio vampiro, o sangue representa o ícone de sua vida, a continuidade do que seria o viver. Sem o mesmo, o vampiro não morre, mas tem perda de consciência, respiração e movimentos, ficando letárgico e vulnerável.
Como significado relacionado ao mito e à sociedade, circunda na esfera religiosa, estando relacionado a sacrifícios, como os pagãos que derramavam sangue para divindades, até o mito católico contemporâneo, no qual, em qualquer igreja, na eucaristia, observamos a representação do corpo e do sangue de cristo.
Ao avanço social e à disponibilidade tecnológica e médica, os vampiros se valeram de tal fator. Em alguns contos literários, observamos a relação com quadros de anemias, hipovolemia e outras doenças. Em textos como o Drácula, de Bram Stoker, pode-se observar uma transfusão de sangue feita na personagem Lucy, também vampira, com a intenção de purificação do sangue. Mais contemporaneamente, nos livros e série de TV, True Blood, o sangue é sintetizado a fim de ser o substituto natural da vida do vampiro.
Sendo assim, em sua forma natural, ou sintetizada, esse símbolo perene nos vampiros mostra-se associado aos conceitos estéticos românticos e, mais uma vez, presente em sua mitologia, que o acompanha, independente de sua relação com o momento social em que está inseria.