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Kultur og medier

In document Norsk i hundre! (sider 84-107)

OS IMAGINÁRIOS EUROPEUS SOBRE O BRASIL

Nesse capítulo convido a refletir acerca das lentes européias que mediaram os olhares dos navegadores, viajantes, aventureiros, exploradores, religiosos, artistas, cientistas, poetas, cronistas, colonizadores... Enfim, dos europeus que vieram do Velho Mundo e se aventuraram a desvendar os mistérios idealizados, sonhados e imaginados das terras e gentes transatlânticas até então desconhecidas. Conhecer, dominar, explorar, enriquecer, evangelizar, registrar, interferir, civilizar...

É interessante quando nos referimos ao mundo como o “Velho” e o “Novo” mundos. Nesses momentos nossa visão eurocêntrica tende a situar o Velho Mundo como o existente, previamente existente em oposição ao Novo Mundo, ao desconhecido. Contudo, se os antigos povos americanos tivessem escrito a história, como ela seria narrada? Como ela seria/tem sido contada de boca em boca ao longo dos últimos cinco séculos? Poderíamos, ainda, inverter a narrativa e imaginar uma situação na qual os indígenas se referissem aos invasores como as pessoas de um “novo mundo”?

O olhar europeu sobre o Brasil tem sido, historicamente, um olhar carregado de preconceitos. E para melhor compreender parte de sua gênese é importante conhecer as antigas construções imaginárias do medievo em relação ao outro não europeu e ao “Novo Mundo” que se descortinava com as chamadas Grandes Navegações.

O livro A Conquista da América, de Tzvetan Todorov (2003) aborda como as grandes navegações do século XV e XVI proporcionaram ao homem europeu medieval expandir seus horizontes rumo ao novo. Eles já conheciam parte da Ásia e da África. E assim, fecharam um ciclo e puderam ao longo da história, configurar o completo mapeamento do globo terrestre. Descobriram um novo continente que já era tão antigo quanto misterioso. Era tudo tão belo, tão diferente, tão pitoresco, tão natural... Teriam descoberto o Paraíso?

Uma nova Odisséia era protagonizada por homens de renome tais como Colombo, Américo Vespúcio, Pedro Álvares Cabral e seus tripulantes, a maioria deles anônimos, mas que apimentaram o rumo da história.

Por outro lado, as antigas civilizações americanas também se indagavam a respeito dos recém chegados. Seriam de paz? De onde vieram? Eram os deuses navegadores? Por que vieram?

lares para contar as histórias que viveram, aumentar uns pontos. Outros jamais retornaram, ficaram nas Américas para aprender a língua, a cultura, descobrir as riquezas. Desses, muitos foram mortos, devorados pelos canibais, aniquilados.

Nessa época, as cortes européias e as aristocracias revisavam seus próprios costumes e buscavam distanciar-se do atraso. Era preciso ser diferente, moderno, civilizado. Mas também era preciso civilizar. A Europa sistematizava seu processo civilizador por meio de novos comportamentos que levariam séculos para se popularizar. No entanto, de modo geral todos tinham a certeza de sua superioridade em relação aos outros não europeus.

Ser ou não Ser Civilizado?

Para Norbert Elias no livro O Processo Civilizador (1994), o conceito de civilização está relacionado à vários fatores que vão desde o nível tecnológico até às maneiras de se comportar, ao desenvolvimento dos conhecimentos científicos, às concepções religiosas, aos costumes, aos tipos de habitações, aos modos de viver de homens e mulheres, às formas de sistemas judiciários e até mesmo, aos modos de preparo dos alimentos. O autor pondera que não há nada que “não possa ser feito de maneira „civilizada‟ou „incivilizada‟”. Ao dizer isso, Elias ressalta a importância da cultura. Segundo ele, embora seja difícil resumir tudo o que possa ser descrito como civilização, é possível, se analisarmos as qualidades comuns que fazem com que determinadas atitudes e atividades humanas sejam reconhecidas como civilizadas, chegarmos a seguinte conclusão:

este conceito expressa a consciência que o Ocidente tem de si mesmo. Poderíamos até dizer: a consciência nacional. Ele resume tudo em que a sociedade ocidental dos últimos dois ou três séculos se julga superior a sociedades mais antigas ou a sociedades contemporâneas „mais primitivas‟. Com essa palavra, a sociedade ocidental procura descrever o que lhe constitui o caráter especial e aquilo de que se orgulha: o nível de sua tecnologia, a natureza de suas maneiras, o desenvolvimento de sua cultura científica ou visão de mundo, e muito mais. (ELIAS, 1994, p. 23).

De acordo com Elias, o conceito de “Civilização” tem diferentes significados para as diferentes nações ocidentais, sobretudo no emprego da palavra. Para os franceses e os ingleses, tal conceito, segundo Elias, expressa o orgulho que sentem pela importância de suas nações para o progresso da humanidade. Já para os alemães, o conceito “Zivilization”, expressa um valor de “segunda classe”, algo externo que expressa a superfície dos seres

humanos. E, portanto, é por meio da palavra “Kultur” que os alemães se interpretam e expressam o seu orgulho pelas suas próprias realizações e por si próprios.

Norbert Elias realça que o conceito francês e inglês de civilização é mais amplo e pode se referir tanto a fatos políticos ou econômicos, religiosos ou técnicos, morais ou sociais, quanto a realizações, atitudes ou “comportamento” das pessoas, independente se elas realizaram ou não alguma coisa. Contrastando então com a amplidão fornecida pelas posições francesas e inglesas, o conceito alemão de Kultur é bem mais delimitado e se refere basicamente a fatos intelectuais, artísticos e religiosos e tende a estabelecer uma nítida fronteira separando esses fatos de demais fatores tais como os políticos, econômicos e sociais. Com relação as diferenças básicas inerentes a tais conceitos, Elias vai além e observa que, para o conceito de Kultur, o “comportamento” assume uma posição secundária, ou seja, “o valor que a pessoa tem em virtude de sua mera existência e conduta, sem absolutamente qualquer realização”.

Diante dessa constatação sobre o conceito de Kultur, Norbert Elias apresenta os termos kulturell e kultiviert (cultivado). De acordo com ele, enquanto o adjetivo kulturell abrange “o valor de determinados produtos humanos, e não o valor intrínseco da pessoa”, a palavra que mais se aproxima do conceito ocidental de civilização é kultiviert que, de certo modo, representa “a forma mais alta de ser civilizado”. O autor prossegue afirmando que

Tal como a palavra „civilizado‟, kultiviert refere-se primariamente à forma da conduta ou comportamento da pessoa. Descreve a qualidade social das pessoas, suas habitações, suas maneiras, sua fala, suas roupas, ao contrário de kulturell, que não alude diretamente às próprias pessoas, mas exclusivamente a realizações humanas peculiares. (ELIAS, 1994, p. 24).

Outra diferença básica abordada por Elias está relacionada ao movimento de ambos os conceitos, no qual o conceito de civilização é percebido como um processo em constante movimento, e que expressa o caráter continuamente expansionista dos grupos colonizadores.

„Civilização‟ descreve um processo ou, pelo menos, seu resultado. Diz respeito a algo que está em movimento constante, movendo-se incessantemente „para frente‟. O conceito alemão de kultur, no emprego corrente, implica uma relação diferente com movimento. Reporta-se a produtos humanos que são semelhantes a „flores do campo‟, a obras de arte, livros, sistemas religiosos ou filosóficos, nos quais se expressa a individualidade de um povo. O conceito de Kultur delimita. Até certo ponto, o conceito de civilização minimiza as diferenças nacionais entre os povos: enfatiza o que é comum a todos os seres humanos ou _ na opinião dos que o possuem _ deveria sê-lo. Manifesta a autoconfiança de povos cujas fronteiras nacionais e identidade nacional foram tão plenamente estabelecidos, desde séculos, que deixaram de ser tema de qualquer discussão, povos que há muito se expandiram fora de suas fronteiras e colonizaram terras muito além

delas. (ELIAS, 1994, p. 24-25).

O autor destaca ainda que, embora tais conceitos e suas respectivas auto-imagens sejam diferentes, tanto os fanceses e ingleses, que pensam a sua “civilização” com orgulho, quanto os alemães que falam de sua Kultur também com orgulho, consideram incontestável que “a sua é a maneira como o mundo dos homens, como um todo, quer ser visto e julgado” (ELIAS, 1994, p. 25). Ou seja, para ambos, o mundo deve ser pensado a partir deles e de seus próprios referenciais.

Elias reconhece que tais conceitos foram construídos a partir de situações históricas e que, para além de suas esferas racionais, eles também estão permeados por uma atmosfera emocional e tradicional. São, portanto, portadores de significados que expressam as experiências comuns partilhadas por esses povos. Daí a dificuldade em definir tais palavras/conceitos para o outro, ou seja, aqueles que não compartilham das mesmas experiências, tradições e situações históricas.

Conforme o pesquisador, embora os conceitos de civilização e Kultur possam ter sido formados a partir de material lingüístico preexistente em seu próprio grupo ou mesmo pela atribuição de um novo significado, eles “lançaram raízes” e se estabeleceram. Foram apropriados, experimentados, desenvolvidos e burilados na fala e na escrita repetidas vezes até se fazerem instrumentos eficazes para comunicar, para expressar e para transmitir as experiências partilhadas por gerações. Norbert Elias destaca que, nem sempre as gerações são conscientes desse processo como um todo, mas se tais conceitos sobrevivem é porque fazem sentido, são dotados de significados e de um valor existencial para a própria sociedade. Assim, a partir da cristalização e transmissão das experiências e situações pasadas eles se tornaram

palavras da moda, conceitos de emprego comum no linguajar diário de uma dada sociedade. Este fato demonstra que não representam apenas necessidades individuais, mas coletivas, de expressão. A história coletiva neles se cristalizou e ressoa. O indivíduo encontra essa cristalização já em suas possibilidades de uso. Não sabe bem por que este significado e esta delimitação estão implicadas nas palavras, por que, exatamente, esta nuance e aquela possibilidade delas podem ser derivadas. Usa-as porque lhe parece uma coisa natural, porque desde a infância aprende a ver o mundo através da lente desses conceitos. O processo social de sua gênese talvez tenha sido esquecido há muito… Os termos morrem aos poucos, quando as funções e experiências na vida concreta da sociedade deixam de se vincular a eles. Em outras ocasiões eles apenas adormecem… São relembrados então porque alguma coisa no estado presente da sociedade encontra expressão na cristalização do passado corporificada nas palavras. (ELIAS, 1994, p. 26).

Nesse sentido, Elias alude à história das palavras e observa que o conceito de civilization, deriva de seu antecessor civilité51 (segundo quartel do século XVI). Conforme o autor, o surgimento relativamente repentino de palavras em línguas, tende a indicar a ocorrência de mudanças na vida do próprio povo, especialmente se os novos conceitos estão destinados a tornarem-se alicerces e de longa duração.

O conceito de civilité adquiriu um significado específico para a sociedade em virtude do tratado De civilitate morum puerilium (Da civilidade em crianças), de autoria do humanista52 holandês Erasmo de Rotterdam (1467 – 1536) (ELIAS, 1994, p. 172).

Elias (1994) chama a atenção para repercussão alcançada pelo tratado de Erasmo, pois o livro publicado em 1530 teve mais de 30 reedições, formando um conjunto de mais de 130 edições, sendo que 13 delas foram publicadas já no século XVIII. A obra foi traduzida para o alemão, o tcheco, o francês e outras línguas e influenciou vários autores que publicaram livros sob o título Civilité ou Civilité puerile. Outro aspecto curioso acerca da força desse livro na sociedade da época e consequentemente, na transição do conceito de civilité para civilisation foi a reconfiguração da antiga e comum palavra civilitas. Entretanto, o conceito de civilitas ter gerado palavras correspondentes em várias línguas tais como: civilité (francês), civility (inglês), civilità (italiano), Zivilität (alemão – notadamente de menor extensão em relação a palavras similares às das outras grandes culturas).

Portanto, o estudo de Elias (1994) compreende a civilização como um processo histórico e social de longa duração e de transformação do comportamento humano. Ao analisar as mudanças nos padrões comportamentais do mundo Ocidental, o pesquisador busca dialogar com os trabalhos sobre maneiras, bons costumes (civilidade) elaborados pelos humanistas, especialmente o tratado de Erasmo de Rotterdam.

O livro de Erasmo trata do comportamento das pessoas em sociedade e também do decoro corporal externo – postura, vestimentas, expressões faciais. É escrito para a educação de crianças e dedicado a um menino nobre, filho de príncipe, mas alcança tamanha repercussão que é apropriado pela aristocracia. A narrativa de Erasmo é simples, direta e

51

Conforme Elias, civilité era um tipo particular de família de caracteres tipográficos francês, retirado da obra do francês Mathurin Cordier que combinava doutrinas dos humanistas Erasmo de Rotterdam e Johannes Sulpicius.

52 “Os humanistas eram representantes de um movimento que buscava libertar a língua latina de seu

confinamento à esfera e tradição eclesiásticas e torná-la a língua da sociedade secular, pelo menos da classe alta secular... Os humanistas são as molas propulsoras dessa mudança, agentes dessa necessidade da classe alta secular. Em suas obras, a palavra escrita, mais uma vez, aproxima-se da vida social mundana. Experiências dessa vida encontram acesso direto à literatura erudita. Esta também. É uma ds vertentes do grande movimento de „civilização‟. E é aqui que tem que ser procurada uma das explicações da „revivescência‟ da antiguidade”. (ELIAS, 1994, p.172).

objetiva e, transita da seriedade à ironia por meio de uma linguagem polida, pontual e instrutiva.

De acordo com Elias, o cuidado e a naturalidade com a qual Erasmo fala do comportamento das pessoas em sociedade, podem chocar os homens “civilizados” de um estágio posterior, pois os menores gestos do cotidiano são postos sem cerimônia alguma. Fontes como a obra de Erasmo de Roterdan são concebida por Elias como uma ponte entre a Idade Média e os tempos modernos. Para esse pensador, por meio desse corpus documental, interessa saber como e por que a sociedade ocidental foi “civilizada”, movendo-se de um padrão comportamental para outro.

O estudo de Elias (1994) ajuda-nos a perceber como o nosso comportamento foi se transformando historicamente, até o ponto de hoje, considerarmos algum tipo de atitude como “incivil”, completamente descabida, ou impensada. “Na verdade, nossos termos „civilizado‟ e „incivil‟ não constituem uma antítese do tipo existente entre o „bem‟ e o „mal‟, mas representam, sim, fases em um desenvolvimento que além do mais, ainda continua.” (p. 73). Ou seja, devemos entender que protagonizamos uma das fases de um processo cultural no qual o nosso comportamento “civilizado” (aparentemente tão óbvio e natural para nós), ainda está em contínuo movimento e transformação.

Da Mesa à Cama: Comportamentos Civilizados

A pesquisa de Elias traz a riqueza de proporcionar ao leitor uma dimensão muito próxima dos hábitos da sociedade européia medieval ao longo de seu processo civilizacional. Selecionei aqui alguns fragmentos dos exemplos compilados de vários manuais de bons comportamentos pesquisados por Elias e apresentados em seu livro para demonstrar e ajudar a compreender o movimento das mudanças de comportamentos que também contribuiram na formação do nosso ritual diário:

Do comportamento à mesa – comer com as mãos era um hábito da sociedade feudal e cortês

(mesmo entre reis e rainhas) e que ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII, passa por uma fase de mudanças relativamente rápidas, impulsionando o desenvolvimento de um novo padrão de condutas refinadas à mesa. A partir dessa fase com o padrão já atingido, o movimento parece tornar-se mais lento, porém de grande importância como instrumento de diferenciação social e de moldagem comportamental. “Mais do que antes, o dinheiro torna-se

a base das disparidades sociais. E o que as pessoas concretamente realizam e produzem torna- se mais importante que suas maneiras” (ELIAS, 1994, p. 115).

a) Exemplos que representam o comportamento da classe alta em forma razoavelmente pura.

Século XIII

Vejamos o poema de Tannhäuser sobre as maneiras corteses:

1. Considero bem educado aquele que sempre pratica boas maneiras e nunca se mostra grosseiro…

37. Não é polido beber no prato, embora alguns que aprovam esse grosseiro hábito insolenemente levantem o prato e o sorvam como se fossem loucos. 41. Os que caem sobre os pratos como suínos quando comem, bufando repugnantemente e estalando os lábios… (In, ELIAS, 1994, p. 95-96).

… No verso 117. Cf. Stans puer in mensam: 30 . Mensa cultello, dentes mundare caveto.

Evita à mesa limpar os dentes com a faca.

141. Ouvi dizer que alguns comem sem lavar as mãos (se isto é verdade, é um mal sinal). Que seus dedos fiquem paralíticos!

157. Não é educado enfiar os dedos nas orelhas ou nos olhos, como fazem algumas pessoas, ou introduzi-los no nariz, quando estiveres comendo. Esses três hábitos são feios. (In, ELIAS, 1994, p. 98-99).

1530

De De civilitate morum puerilium (Da civilidade em meninos), de Erasmo de Rotterdam, Cap. 4:

Se um guardanapo é fornecido, ponha-o sobre o ombro esquerdo ou no braço.

Se está sentado com pessoas de categoria, tire o chapéu e cuide para que o cabelo esteja bem penteado.

Seu cálice e faca, devidamente limpos, devem ficar à direita, o pão à esquerda.

Algumas pessoas levam as mãos ao prato de servir logo que se sentam. Lobos fazem isso…

Não seja o primeiro a tocar o prato que foi trazido, não só porque isto demonstra gula, mas também porque é perigoso. Isto porque alguém que põe sem saber, alguma coisa quente na boca tem ou de cuspi-la ou, se a engolir, vai queimar a garganta. Em ambos os casos, ele se torna tão ridículo como digno de pena. (In, ELIAS, 1994, p. 100).

Entre 1640 e 1680

De uma canção de autoria do marquês de Coulanges:

No passado, as pessoas comiam em um prato comum e enfiavam o pão e os dedos no molho.

Hoje todos comem com colher e garfo em seu próprio prato e um criado lava de vez em quando os talheres no buffet. (In. ELIAS, 1994, p. 102).

1714

De uma anônima Civilité française (Liège, 1714?), p. 48:

Não é… educado beber a sopa do prato, a menos que você esteja no seio de sua própria família e apenas, nesta ocasião, se tomou maior parte com a colher.

… Não jogue no chão ossos, cascas de ovos ou casca de qualquer fruta. O mesmo se aplica a caroços de frutas. É mais educado tirá-los da boca com dois dedos do que cuspi-los na mão. (In. ELIAS, 1994, p. 104).

1859

De The Habits of Good Society (Londres, 1859, 2ª ed., verbatim, 1889), p. 257: Os garfos foram indubitavelmente uma invenção posterior aos dedos, mas uma vez que não somos canibais, sinto-me inclinado a pensar que os garfos foram uma boa invenção. (In. ELIAS, 1994, p. 108).

Figura 8. O jantar no Brasil. Jean Baptiste Debret, 1827. Prancha 07 da Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, v. 2. A aquarela sobre papel “Um jantar brasileiro”, encontra-se nos Museus Castro Maya, Rio de Janeiro, Brasil.

Entre a diversidade de aspectos do cotidiano representados por Debret, a imagem “O Jantar no Brasil”, figura 8, parece realçar algo para além da segregação social e a disparidade entre senhores e escravizados. É possível observar nessa cena a distinção entre os modos de ser ou não civilizado. As representações da civilização se expressam no jantar à mesa, com o

uso de prato, garfo e faca, entre outros utensílios próprios para servir as refeições, a disposição do casal cuidadosamente posicionados, o jeito como estão vestidos, a suntuosidade da mulher,… Mas também há algo de “não civilizado” representado nessa imagem – a escravidão e os escravizados. Uma das possíveis interpretações pode ser pensada a partir do modo “incivilizado” como as crianças negras e nuas são alimentadas pela senhora branca. A mulher espeta no garfo restos de sua alimentação (?) e entrega aos bebês, sua propriedade, que se refastelam com a comida – “bichinhos de estimação” (?).

Do hábito de assoar-se: Assoar o nariz com as mãos era outro hábito comum na sociedade

medieval e como as pessoas também comiam com as mãos tornou-se necessária a criação de regras e instrumentos que possibilitassem a polidez social. O uso do lenço, bem como do garfo surge primeiramente na Itália, no século XVI e sua difusão, especialmente entre os jovens da Renascença, se dá pelo alto valor de prestígio que adquirem. Tornaram-se de início importantes instrumentos de diferenciação social, pois eram tão caros quanto raros, mesmo para a alta classe. Sabe-se que Henrique IV, possuía apenas cinco ao final do século XVI e foi Luís XIV o primeiro a adquirir um grande suprimento de lenços difundindo o seu uso nos círculos da corte. Nesse período os senhores passam a exigir um maior controle e restrição das funções corporais de seus servidores (mas não as impõem a si mesmos) com o objetivo de tornar o ambiente mais agradável aos olhos.

Século XIII

De De la zinquanta cortesie da tavola (Cinquenta cortesias à mesa), de Bonvesin de la Riva (Bonvicino da Riva).

a) Regras para cavalheiros:

Quando assoar o nariz ou tossir, vire-se de modo que nada caia em cima da mesa… (In. ELIAS, 1994, p.147).

Século XV

De S’ensuient les contenances de la table:

Não assoe o nariz com a mesma mão que usa para segurar a carne.53 (In. ELIAS, 1994, p. 148).

Século XVI

De De civilitate morum puerilium (Da civilidade em meninos), de Erasmo, Cap.

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