Poucos são os estudos sobre os Clubes de Mães no Brasil, diante de seu vasto universo. Espaços de socialização das mulheres, os clubes carregam marcas regionais e históricas atravessados pelas múltiplas realidades sociais, econômicas e culturais do país. Só em Caxias do Sul são mais de oitenta grupos existentes e pertencentes à Associação de Clubes de Mães de Caxias do Sul (ACMCS), cada qual com características peculiares nos mais diversos bairros.
Maria da Conceição Silva Rodrigues (2011), ao investigar a história dos Clubes de Mães no Brasil, evidencia que não há uma gênese comum e exata de data ou lugar quanto ao surgimento dos Clubes de Mães. No entanto, discorre que os Clubes surgiram a partir de núcleos de mães organizados pela Legião Brasileira de Assistência (LBA), desde sua criação em 1942: “A LBA estava, por sua vez, vinculada com uma série de outras organizações, departamentos do governo, bem como, indissociável da Igreja Católica, todas juntas no exercício da promoção humana.” (RODRIGUES, 2011, p. 45). Em documentos da época, enfatiza-se a missão de cuidado e responsabilidades das mulheres enquanto esposas e mães.
Nos anos setenta e oitenta, diversos estudos citados por Rodrigues, ligam os Clubes de Mães, especialmente de periferias, aos movimentos populares e às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). As integrantes organizadas envolviam-se em mobilizações para a conquista de escolas, creches e redução nos preços dos alimentos. Reivindicações surgidas a partir das suas realidades de miséria e fome.
Há de se considerar, dada a influência católica nos grupos citados, a reforma da Igreja através do Concilio Vaticano II (1962-1965), da Conferência de Medellín
(1968) e de Puebla (1979). Resgatava-se a missão do/a leigo/a como protagonista, denunciava-se as mazelas sociais e convocava-se a comunidade religiosa a assumir o compromisso da justiça com os/as pobres. No decurso, surgiu, na América Latina, palco então das ditaduras militares que alargavam ainda mais as injustiças socioeconômicas, a Teologia da Libertação. Conforme o teólogo Leonardo Boff (2011), essa Teologia passou a enxergar o/a pobre concreto na sociedade, sua realidade de sofrimentos e injustiças. O/a pobre é herdeiro/a de um oprimido, pregado na Cruz, Jesus de Nazaré. Onde há opressão, há clamor por libertação. E, por isso, o cristianismo deve optar pelos pobres, contra pobreza em que vivem, a favor das suas vidas e liberdade.
A presença católica nos bairros populares transformou-se, e juntamente com os leigos e as leigas, padres passaram a incentivar a organização comunitária em prol da mudança da realidade social e econômica. Os Clubes de Mães que já existiam ou surgiram nas periferias, acabaram apoiando-se na perspectiva que emergia. Gabriele dos Anjos (2008), ao aprofundar a discussão sobre as mobilizações coletivas das mulheres de classes populares pela Igreja Católica, cita os Clubes como um engajamento do final da década de setenta que corresponde “a um momento de mobilização dos leigos por agentes religiosos para causas definidas como populares” (ANJOS, 2008, p. 514).
A repressão militar no Brasil, no entanto, não atingiu os grupos de mães, segundo Rodrigues (2011, p. 48): “Uma pauta sempre voltada às questões e necessidades básicas do espaço doméstico e um movimento organizado por donas de casa das periferias não permitia a repressão enquadrá-las na esfera dos subversivos”.
Não há registros, no entanto, de que a maioria dos Clubes fundados no país tenha surgido com trajetória semelhante. Considera-se que “eles tinham início com o propósito de reunir mulheres em torno da leitura do evangelho, de trabalhos artesanais para geração de renda e assistência às famílias locais” (Rodrigues, 2011, p. 49). Além disso, grande parte seguiu a lógica assistencialista. Inclusive, grupos, envoltos na perspectiva das causas populares, como citados anteriormente, não queriam identificação com os Clubes de Mães que tinham relação com a LBA e denominavam-se grupos de mulheres ou mães. Suas visões divergiam com o assistencialismo, que segundo o pesquisador e cientista social Norberto Alayón, citado pela autora Rodrigues (2011),
é uma das atividades sociais que historicamente as classes dominantes implementaram para reduzir minimamente a miséria que geram e para perpetuar o sistema de exploração. (...) A sua essência foi sempre a mesma (à margem da vontade dos agentes intervenientes): oferecer algum alívio para relativizar e travar o conflito, para garantir a preservação de privilégios em mãos de uns poucos. (ALAYÓN apud Rodrigues, 2011, 89).
Em Caxias do Sul, segundo fontes fornecidas pela Associação de Clubes de Mães de Caxias do Sul (ACMCS), o primeiro grupo foi fundado em 1964 no Colégio Madre Imilda. Era o Clube de Mães Santa Terezinha que teve como fundadora Paulina Moretto, mãe do atual bispo católico emérito da cidade, Dom Paulo Moretto. Depois desse surgiram muitos outros. Inicialmente, os primeiros clubes da cidade filiaram-se ao Conselho Geral de Clubes de Mães (CGM), entidade que até hoje congrega os coletivos de mães do Rio Grande do Sul. Posteriormente, por conta das dificuldades em atender as solicitações do CGM, foi fundada a ACMCS com onze grupos no dia 8 de maio de 1975. A ACMCS se apresenta como:
uma entidade assistencial, sem renda fixa e sem fins lucrativos. Congrega, apoia e incentiva Clubes de Mães em torno de objetivos e atividades comuns, visando a valorização e o aperfeiçoamento pessoal, familiar e comunitário da mulher, capacitando-a a exercer suas funções de esposa, mãe, dona de casa e cidadã por meio de programas de formação, promovendo a convivência e a sociabilidade, despertando a consciência da responsabilidade social, a cooperação com o poder público e demais entidades comunitárias. Não tem vínculo político, religioso ou sectário. Com esse objetivo são realizadas inúmeras atividades cívicas, recreativas, culturais, sociais e assistenciais como: campanhas, cursos, palestras, convênios, seminários, encontros, passeios, festas, etc. A ACMCS também participa de promoções organizadas por outras entidades ou órgãos públicos. 7
Por esta entidade, já passaram cerca de duzentos Clubes de Mães, muitos ainda atuantes, outros já dissolvidos. A trajetória dos nomes dos grupos é em si instrutiva: das muitas referências de santos e santas da Igreja Católica (Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora de Guadalupe, Santa Mãe Aparecida, Nossa Senhora das Graças, São José, Santo Antônio etc.), passando pelos nomes de localidades (Bairro Cruzeiro, Vila Seca, São Marcos da Linha Feijó, Vila Oliva, Galópolis etc.) a palavras e sentimentos que carregam marcas historicamente concedidas às mulheres ou da vida em grupo (Recanto da Amizade, Esperança do Amanhã, Sementeiras do Amor, Mães em Ação, União da Maternidade, Com amor
7 PANAZZOLO, Capra Marlene. Pequeno histórico da ACMCS. [mensagem pessoal]. Mensagem
se vence, Amigas para Sempre etc.). Infelizmente, não foram encontrados estudos sobre os Clubes de Mães de Caxias, comprovando como inicialmente afirmado, as poucas pesquisas realizadas no campo.
Quanto ao Clube de Mães Santa Rita de Cássia, consta nos documentos sua filiação na associação nos primeiros anos da década de 80. Durante a observação dos encontros, era comum escutar, especialmente da coordenadora, conversas sobre as reuniões ou tarefas encaminhadas pela ACMCS.
A partir da investigação histórica, inclusive dos grupos da cidade, constata-se que, embora sejam distintos os percursos dos Clubes de Mães, a grande maioria desenvolve ações sociais e comunitárias. As práticas, ainda que heterogêneas na sua dinamicidade, revelam que tais espaços diretamente ou indiretamente engendram processos de formação política e cidadã para as mulheres envolvidas, mesmo que muitas vezes, envoltos numa perspectiva assistencialista.
4 NARRATIVAS DAS MULHERES DO CLUBE DE MÃES SANTA RITA DE