Neste item, não se aprofunda a explicação sobre o que é a Fenomenologia, mas são dadas pistas e referências sobre o tema e evidenciado como ela esteve iluminando todo o processo, tanto nos procedimentos da pesquisa-intervenção, quanto na forma de relatá-lo e analisar seu significado.
4.2.1 Porque uma abordagem Fenomenológica na Educação
Desde a última década do século XX, vêm se desenvolvendo, no Brasil, inúmeros processos avaliativos para medir de modo rigoroso os resultados do sistema formal de ensino. Para tanto, foram elaborados testes e provas, gerais e específicos, localizados ou de âmbito nacional e internacional.
Os testes “objetivos” têm contribuído muito para evidenciar os resultados obtidos pelo sistema de ensino formal, mas estes são somente a parte mais visível, a ponta do iceberg. Não geram, por si só, pistas para a criação de propostas de como superar a situação. Para isso, seria necessário acrescentar a essas pesquisas outro tipo de investigação, que levasse a uma visão em maior profundidade – o exame dos processos de interação instaurados no sistema escolar.
Se partirmos do pressuposto de que uma educação para a autonomia e competência, no contexto atual, exigiria uma relação dialógica em todos os níveis96, vemos ser necessário chegar a mudanças nos objetivos, conteúdos e métodos nas escolas, os quais precisariam ser propostos e detalhados por processos participativos, ouvindo-se os diferentes segmentos integrantes do processo educativo – incluindo a expectativa de toda a sociedade brasileira. E identificar o que realmente importa – como se pode tornar o processo educativo uma experiência significativa para todos os envolvidos. Inúmeras vezes, em atividades junto a professores, ao provocar depoimentos sobre os momentos mais significativos de suas carreiras, ouvimos falas do tipo: “Foi no
96 Segundo vários educadores, em especial Freire, como se mostrou no item 4.1 sobre Diálogo e
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momento em que vi o brilho nos olhos daquele menino quando ele teve o insight da leitura!” Ou, “Quando aquela garota conseguiu finalmente resolver o problema e chorou de alegria!”, Ou ainda “Quando eu e toda a turma percebemos o quanto havíamos conquistado, entendido, criado com aquele trabalho, e todos ficaram tão emocionados...” 97
No entanto, se alguém propõe como indicador de sucesso escolar o brilho nos olhos da
criança, como evidência do momento em que ela de fato aprende, é ridicularizado.
“Não interessa o brilho nos olhos, interessa o desempenho escolar”, dizem.
Aqui se interpõem duas visões, dois paradigmas: o olhar voltado para aquilo que é mensurável - próprio do mundo das ciências naturais, que tenta retirar da observação, ao máximo, qualquer “subjetividade” e para o qual o método experimental foi criado e obteve o maior sucesso. E o olhar para o mundo dos fenômenos humanos, para cujo estudo a fenomenologia vem trazendo aportes preciosos. O método das ciências naturais, no qual se inspiram os testes objetivos, buscam o geral, o uniforme, a constatação do que pode ser medido por meio de estudos estatísticos, nos quais todos os casos são tratados da mesma forma, considerados em seus aspectos generalizáveis. Muito útil para estabelecer fatos básicos, quantitativos, porque mensuráveis. Mas limitado, pois constitui-se somente em ponto de partida: não traz em si as pistas de sua superação.
O bom desempenho escolar não se consegue de modo imediato por meios mecânicos, impostos a todos de modo uniforme. Consegue-se, ao contrário, na medida em que o processo educativo se torna significativo para o aluno. Alcança-se, na proporção em que o aluno é tratado em sua singularidade, ouvido e respeitado em sua forma de aprender, em sua percepção do mundo. Consegue-se, ao se mobilizar o aluno, ao lhe propor um desafio levando em conta seu potencial, ao lhe delegar uma tarefa significativa. O brilho nos olhos, então, é o princípio que leva ao fim, ao objetivo proposto. Mas isso não ocorre se o objetivo não tiver nada a ver com o aluno e seu contexto, se for simplesmente o objetivo do professor, o tema do livro didático, o
97 A esse respeito, há inúmeros depoimentos registrados em relatórios de vários projetos executados
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programa do sistema. Porque o objetivo a ser atingido e os temas abordados para se chegar a esse objetivo precisam efetivamente “atingir”, dizer algo para aquele aluno, muito especificamente, algo significativo para ele. E esse é o foco da abordagem fenomenológica.
Além de um objetivo, um conteúdo com elementos significativos, pressupõe-se também um processo dialógico de aprender – no qual o aluno é visto como sujeito construindo seu conhecimento; aluno e educador/escola levando em consideração o contexto, a comunidade, a localidade em que ele interage com o outro e consigo mesmo, intermediados pelo mundo98. Novamente, vemos aqui, que a abordagem capaz de trazer aportes para essa questão seria a abordagem fenomenológica. Pois nela, como veremos, se destaca o que vai para além do “prévio”, do previsível e mensurável pelos métodos das ciências naturais: ela permite identificar os elementos mais próprios do humano. Segundo Husserl, ciências humanas, como a psicologia, “não necessitam dos conselhos metodológicos das ciências da natureza e devem buscar seu próprio caminho para compreender o sentido do ato humano.” 99
4.2.2 Fenomenologia enquanto uma aproximação adequada para o estudo do fenômeno humano.
A tentativa da construção de um método fenomenológico surge a partir de uma questão levantada por Husserl100, no final do século XIX, quando, numa pesquisa sobre os
98 Conceito de processo educativo, proposto por Paulo Freire (FREIRE, 1967), explicado no item
anterior.
99 RAFFAELLI. R. Husserl e a psicologia. Estudos de Psicologia, vol.9 no.2. Natal May/Aug. ISSN 1413-
294X. 2004.
100 Essa introdução foi escrita à abordagem fenomenológica com base em leituras de artigos e
discussões realizadas com colegas e, em especial com docentes da Sociedade Brasileira de Daseinsanalyse. Foram principalmente baseadas em duas obras de Husserl: Investigações Lógicas, de 1900-1901, na qual o autor faz a apresentação das primeiras idéias sobre o método que chamou de “fenomenológico”; e Meditações Cartesianas, de 1932, que consiste numa série de cinco palestras feitas a um público de filósofos franceses nas quais apresenta, como um dos elementos da metodologia fenomenológica, o processo da “suspensão”, que se aproxima da “dúvida sistemática” de Descartes.
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fundamentos da aritmética101, deparou-se com o conceito de número. Constata que, desde seu enunciado por Aristóteles, esse conceito não mudara, permanecendo na base da matemática como fundamento último. As ciências humanas, despontando em meados do século XIX e tentando se afirmar enquanto ciência, pelo uso do mesmo método que fizera florescer as ciências naturais, não têm, entretanto, uma base estável similar. Busca, então, uma referência para o aporte das questões humanas em geral – na sociologia, história, antropologia, psicologia, pedagogia etc. – por meio de um método próprio e adequado a essas ciências. Num primeiro momento, espera poder definir, para as ciências humanas, um conjunto de conceitos que pudessem servir de base ou fundamento na construção do conhecimento a respeito dos homens, das questões propriamente humanas, da mesma forma que o conceito de número havia sido a base e fundamento das ciências naturais.
Husserl aponta que, em sua busca pela objetividade, o dualismo cartesiano que separou mens e corpus implicara a naturalização do ser psíquico102.
Ao constatar que a referência, a partir da qual a Ciência Natural avança rapidamente, é o conceito de medida (aplicável a corpus mas não a mens), cujo fundamento último é a noção de número, Husserl busca, então, encontrar o correspondente de “número” também para o horizonte relativo a mens: qual seria a referência última do conhecimento, que está mais além do mensurável? O que é essa referência última, a partir da qual se poderia construir toda a compreensão do Humano?
Ao longo do século XIX, instituíram-se as Ciências Humanas com base na aplicação do método científico ao estudo dos fenômenos humanos. O chamado “método científico” era então aplicado às Ciências Naturais e a esperança era de que as Ciências Humanas pudessem avançar, com isso, tão rápida e seguramente quanto a Física, a Química, a História Natural. Mas Husserl critica justamente isso, mostrando que não se deveria aplicar, acrítica e ingenuamente, o método das Ciências Naturais às Humanas.
101 Conforme tese de livre-docência denominada Sobre o conceito de número, defendida, em 1887, na
Universidade de Halle. Essa tese só foi publicada em 1891, constituindo-se no tomo inicial da Filosofia da Aritmética.
102 HUSSERL, E. (1976). La crise des sciences européennes et la phénoménologie transcendentale.
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Propõe-se a encontrar, para tanto, um método tão adequado para o estudo do fenômeno humano, quanto o método científico se provara profícuo para o dos naturais. Abordagem naturalista e abordagem fenomenológica do ser humano
É fato que as leis da Física, da Química e da Biologia se aplicam aos homens. Por exemplo, se você jogar, do alto de uma torre, um saco de batatas de 60 kg ou um homem de 60 kg, o que acontece com eles? Podemos dizer que ambos irão cair de forma semelhante, acelerando em direção ao chão, pois ambos serão atraídos para o centro da Terra, pela força da gravidade, com a mesma força.
Essa descrição do que acontece, porém, se pode ser considerada suficiente com relação ao saco de batatas, certamente não será a parte mais interessante da descrição do que acontece com o homem ao cair (de forma absolutamente semelhante ao modo do saco de batatas), pois, enquanto cai, muitas coisas podem ocorrer com ele, próprias do ser humano: vai pensar, falar, sentir, manifestar muita coisa, e essas coisas é que interessam descrever, quando se fala do mundo entendido como manifestação/percepção/existência do humano, não a simples descrição da queda. Quando se quer estudar o fenômeno humano usando o método das Ciências Naturais, termina-se por focar, no ser humano, tudo o que é anterior ao humano propriamente dito, o que pode ser pouco ou nada relevante para o entendimento desejado.
Um fato marcante em minha memória, a respeito disso, foi a aula inicial de um minicurso dado pelo Professor Nelio Parra, durante um congresso da Associação Brasileira de Tecnologia da Educação (ABTE), no final da década de 70. O curso deveria versar sobre algo relacionado a pesquisa científica em Educação.
Nessa aula, ele chocou muitos inscritos ao dizer que andava pensando em propor, para a Educação, um princípio inspirado no princípio da incerteza, pelo qual há pares de fatores observáveis que, na medida em que um deles se torna cada vez mais bem observado/medido, o outro vai se tornando cada vez menos observável/mensurável. Pois ele constatara, nas pesquisas em Educação, que haveria dois fatores – a relevância e a medida quantitativa – que formam um desses pares: quanto melhor se pode observar um elemento da realidade pedagógica, medindo-o de forma exata e com ótimas condições de aplicação de estatísticas, tanto menos relevante esse elemento seria; e quanto mais
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relevante o fator a ser estudado, menor a possibilidade dele poder ser observado e medido de forma exata, com boa aplicação de análises estatísticas.
Assim, ele pediu desculpas, mas não poderia dar o curso anunciado, pois não acreditava mais nisso. Trataria de outros temas, e quem quisesse desistir do curso, poderia fazê-lo sem problemas.
É, nesse ponto, que nasce a Fenomenologia. Não se contesta a validade dos estudos quantitativos. Mas constata-se que esses estudos somente alcançam o que é prévio à questão relevante para o propriamente humano, o particularmente humano. Prévio,é o que já estádisponível antes que o humano comece. Quando se joga o Homem da torre, ele começa a cair com aceleração crescente, em direção ao chão. Essa informação é absolutamente fundamental: se a gravidade não se aplicasse aos seres humanos, tudo seria diferente. Mas é uma informação prévia, no sentido de que o Humano começa a partir daí. Isso não expressa o propriamente humano, mas expressa as condições a partir das quais o humano começa a se constituir.
Podemos citar um outro caso, para ficar ainda mais claro: suponha que uma pessoa vá ao médico, devido a uma infecção, e o médico solicite um antibiograma. Faz-se então um cultivo com o material colhido da pessoa: ele é distribuído em várias placas de Petri, na quais as bactérias crescem imersas num caldo de cultura. Se houver bactérias, elas se multiplicam e, em cada placa, os pesquisadores aplicam um tipo de antibiótico. Concluem, desta forma, qual o antibiótico é mais eficaz contra aquela bactéria. Enviam o resultado ao médico, que receita ao paciente o antibiótico mais adequado. Nesse procedimento, para todos os efeitos de caráter prático e epistemológico, não existe nenhuma diferença significativa entre o paciente e uma placa de Petri. O paciente é um caldo de cultura. Nem ao menos um organismo vivo, somente um caldo de cultura. Mas isso funciona, o melhor antibiótico será aquele identificado na pesquisa. Ou seja, o prévio do humano é perfeitamente acessado nesse tipo de medicina pelo método das ciências naturais, pois o Homem é um ente natural. Mas isso não basta para explicar o Homem.
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Como, então, desenvolver o conhecimento do Homem, do Humano? Jorge Larrosa Bondía, doutor em pedagogia pela Universidade de Barcelona, lembra que “Aristóteles,
definiu o homem como zôon lógon échon. A tradução desta expressão, porém, é muito mais „vivente dotado de palavra‟ do que „animal dotado de razão‟ ou „animal racional‟.”103 Traduzir logos, a palavra por ratio, em latim, e zôon, o vivente, por animal, é uma tradução que realmente configura uma traição, confirmando o ditado italiano “tradutore, traditore”. “O homem, continua Bondía, é um vivente com palavra.” Não
possui a palavra como ferramenta, mas é palavra, é enquanto palavra, é tecido de
palavras: “o modo de viver próprio desse vivente, que é o homem, se dá na palavra e
como palavra.”104 Portanto, o método para se aprofundar o conhecimento do fenômeno humano, é aquele que previlegía a palavra, única, específica. Sob esse aspecto, também, a fenomenologia nos pareceu a abordagem mais adequada.
A fala, o silêncio e a narrativa
Para a Fenomenologia, o foco não é o mundo que existe, como nas Ciências Naturais, mas sim o modo como o conhecimento do mundo se dá, como ele se realiza para cada pessoa. Por esse método, propõe que o observador proceda à suspensão das suas próprias atitudes, crenças e teorias, colocando em suspenso o seu conhecimento prévio a respeito do fenômeno observado e do contexto em que ele se desenvolve, a fim de concentrar-se exclusivamente na experiência vivida, na percepção da pessoa que a vive. Em seguida, procede à análise para encontrar seu verdadeiro significado. Parte-se da aceitação do fato de que ninguém pode deixar de ver as coisas dentro de sua própria perspectiva, sua própria subjetividade, pois toda tomada de consciência a respeito do mundo é, necessariamente, informada pelos sentidos e pelo modo como a mente a situa em relação aos conceitos, às experiências pregressas. A possibilidade de o sujeito expressar a sua percepção para outros depende, porém, de haver intersecção entre a sua experiência e a dos outros.
103 BONDÍA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber da experiência. Revista Brasileira de
Educação. Jan/Fev/Mar/Abr 2002. No. 19. p21. Conferência proferida no I Seminário Internacional de Educação de Campinas, UNICAMP, Departamento de Linguística.
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A Fenomenologia, como método, se propõe, num primeiro momento, a tarefa de fazer uma descrição minuciosa de como se compreende aquilo que se apresenta. Porque sempre há um observador – onde existe o conhecimento, existe sempre um observador que conhece. O conhecimento não é uma entidade empírica, existente por si mesmo, mas é sempre o resultado de uma relação entre o observador e o observado, perpassada pela linguagem.
Então, se queremos estudar uma experiência à luz de uma abordagem fenomenológica, devemos chegar a uma descrição o mais perfeita, o mais explicita possível, daquilo que se apresenta ao observador, tal como ele se apresenta. Uma descrição compreensiva. A palavra “compreensão” abarca, aqui, o entender, mas também o conter, abarcar, acolher, envolver. Para isso, o observador busca se colocar, o máximo possível, numa posição receptiva.
O primeiro movimento da Fenomenologia, para Heidegger105, consiste em silenciar. Para que, no silêncio, as coisas possam falar o que têm a dizer. E as “coisas” aqui, são tanto os objetos quanto os acontecimentos – por isso, trabalhar com a narrativa, para a Fenomenologia, é esse movimento de acolher, no silêncio do observador, a manifestação dos acontecimentos, tal como foram compreendidos por aquele que os narra. Não é uma proposta de isenção, no sentido de se retirar do fenômeno, como nas ciências naturais, mas é uma proposta de silêncio. No método das ciências naturais, a mensuração é uma forma de retirar o sujeito de cena, para deixar apenas uma referência, essencialmente numérica, e que, por isso, permite excluir tudo o que tem a ver com a parte sensorial e interpretativa – a descrição deve ser impessoal, uniforme,
105 Em Ser e Tempo, Heidegger fala de um silêncio que se constitui num especial estado de atenção.
Menciona, como fenômeno decisivo na compreensão da essência da linguagem, o silenciar (Schweigen) em contraposição ao palavreado. Ambos, segundo Heidegger, testemunham que somos um diálogo. O “palavreado”, caracterizado como falatório, seria uma forma não-essencial da linguagem; ao passo que o “silêncio”, não: é caracterizado como o silenciar para ouvir, acolher. Heidegger afirma que para silenciar é preciso que se “tenha algo a dizer, quer dizer, que se disponha de um estar aberto de si mesmo, propício e rico. Então, ser silencioso [Verschwiegenheit] derruba o “falatório”. HEIDEGER, Martin, Sein
und Zeit, GA 2,Vittorio Klostermann, Frankfurt amMain, p 219. In VILLENAVE, A. R . Lenguaje, pensar y arte (poesía) en el pensar del ereignis de Heidegger. Dikaiosyne No. 20, Ano 11. Revista semestral de filosofía práctica da Universidad de Los Andes. Enero - junio de 2008.
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verificável por qualquer pessoa, em qualquer tempo e lugar. Na Fenomenologia, não é essa a questão, pois se trata justamente de incluir o sujeito, de se colocar na perspectiva do que é compreendido por ele.
O significado pode ser descrito como o modo como se apresenta aquilo que é, aquilo que existe. O significado se mostra pela expressão do que foi significativo, e isso tem a ver com relevância, com o destacado, com o que emerge. O que fica, daquilo que se manifestou numa experiência – o significado dela para a pessoa que a viveu – é o que a marcou/afetou, em pelo menos três instâncias: na do afeto, na da razão e na da presença. Presença, porque o acontecido se apresentou à pessoa, e ela fala “isso aconteceu, de verdade, não é invenção, não é uma interpretação, é um fato”. Imediatamente depois, vem o modo como a razão o interpreta quanto à manifestação do fato. É a “tomada de consciência”, quando a pessoa nomeia o que se apresentou - dá uma palavra, uma forma para aquilo. A pessoa junta os sinais, os fatos, com outros elementos de seu conhecimento prévio e aquilo ganha um significado, a ser incorporado como um novo conhecimento.
Ao lembrar-se de uma experiência, ao narrá-la, a pessoa traz à tona o que foi significativo para ela nessa experiência, que se mostra como uma marca, uma emoção, mas nunca é só emoção - junto vem o entendimento. Dessa forma, optou-se por um método baseado na narrativa dos sujeitos que participaram e ajudaram a construir o Projeto. Seguindo-se a análise dessas narrativas, como forma de obter uma descrição minuciosa, capaz de desvelar os significados dessa experiência, para eles.
Como pesquisadora, situo-me em dois níveis: enquanto co-participante da experiência, desenvolvo minha narrativa como parte da descrição do fenômeno106, na forma em que ele aparece sob meu ângulo de visão; por outro lado, enquanto corresponsável pela pesquisa, devo considerar as três narrativas como uma única descrição do fenômeno e, enquanto tal, transcendê-lo, por meio da interpretação hermenêutica da linguagem
106 Assumo, aqui, o sentido de descrição tratado na obra de Maria Aparecida Viggiani Bicudo (BICUDO,
2000) em “FENOMENOLOGIA: confrontos e avanços”, no segundo capítulo, A Pesquisa Qualitativa Fenomenológica à Procura de Procedimentos Rigorosos, em especial às páginas 75 a 78.
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utilizada na descrição/narrativas, buscando uma “síntese unificadora, embora
provisória, da coisa percebida/percepção/explicitação do percebido, trazendo, em si, o mistério e a complexidade da relação signo/significados/significante/contexto cultural.” (Bicudo, 2000.)
Cada narrativa deve, então, ser considerada em seu universo vocabular, e esse é um desafio interessante. Efetivamente, as narrativas foram elaboradas por pessoas que provêm das instituições envolvidas no Projeto Diálogo e Participação, pertencentes a