Analytiker om Tandberg
4.10 Kritisk gjennomgang
Este capítulo oferece o recorte teórico-metodológico sobre o qual esta pesquisa se apoia para amparar uma invesigação do discurso dos relatos de parto após cesárea.
Claramente, estudos críicos do discurso não se pretendem neutros em relação ao tema, estando in- trinsecamente ligados às convicções e interesses de pesquisa do analista. Porém, por meio do recor- te teórico-metodológico, busca-se não perder a objeividade nem o compromisso éico da pesquisa cieníica.
O recorte teórico-metodológico reúne a Análise Críica do Discurso (Fairclough, 1989, 1992; Choulia- raki & Fairclough, 1999; Fairclough, 2003); a Linguísica de Corpus (Stubbs, 1993, McEnery & Wilson, 1996, Tognini-Bonelli, 2001) e, sobretudo, a Análise Críica do Discurso baseada em corpus (Baker, Ga- brielatos, Khozravinik, Krzyzanowski, McEnery & Weodakl, 2008; Baker, 2013; Baker & McEnery, 2005; Flowerdew, 2014).
O presente capítulo está organizado da seguinte forma: em primeiro lugar, abordamos os caminhos da Análise Críica do Discurso pelos quais este estudo envereda e alguns dos conceitos (intertextualidade, ideologia, hegemonia, modernidade) que operacionalizam a Teoria Social do Discurso de Fairclough para, em seguida, abordar os princípios gerais da Linguísica de Corpus e o percurso metodológico pro- priamente dito dentro da Análise Críica do Discurso baseada em Corpus.
Ao inal do capítulo, traçamos um histórico e ressaltamos a importância dos relatos de parto, bem como apresentamos a deinição de relato de parto adotada nesta tese.
1.1. Análise Críica do Discurso
Estando inserida nas ciências críicas1, a Análise Críica do Discurso2 (ACD), possui uma essência tripar- ite. Segundo Wodak (2005), ela é denunciaiva, engajada e pedagógica. Ser denunciaiva representa ocupar-se de indivíduos, grupos, situações que não gozam de visibilidade, estão encobertos por rela- ções de dominação. Ser engajada é estar envolvida com o objeto de estudo, representa ocupar-se do mundo em que ele se insere e, consequentemente, corresponde a tratar de si e de seus problemas de forma relexiva. E ser pedagógica representa aumentar a capacidade de conscienização e relexão por
1 Os estudos críicos originaram-se a parir dos trabalhos dos intelectuais da Escola de Frankfurt (entre eles, Adorno, Marcuse, Horkheimer, Benjamim, Habermas) responsáveis pelas primeiras críicas sistemaizadas às relações entre a sociedade de consumo capitalista e a transformação do social e humano.
2 O termo Criical Discourse Analysis (CDA), Análise Críica do Discurso (ACD), foi usado pela primeira vez em 1985, por Norman Fairclough, no arigo Criical and Descripive Goals in Discourse Analysis publicado no Journal of Pragmaics. As principais obras que inauguraram essa nova forma de pensar o estudo da lin- guagem foram publicadas na mesma década: Prejudice in Discourse (Van Dijk, 1984), Language and Power (Fairclough, 1989) e Language, Power and Ideology (Wodak, 1989). A parir da década seguinte, a ACD passa a ter alcance internacional. Seus principais expoentes desde a década de 1990 são: Van Dijk, Gunther Kress, Ruth Wodak, Theo van Leeuven e Norman Fairclough.
parte dos sujeitos, para que eles tenham ferramentas para se libertar das relações de dominação e perseguir seus próprios interesses.
A mudança de paradigma dos Estudos Linguísicos representada pelo deslocamento do formalismo (linguagem como objeto autônomo da tradição saussuriana) para abordagens funcionalistas e discur- sivas (linguagem como objeto não autônomo inseparável de seu conteúdo ideológico) propiciou o sur- gimento de um linguista críico preocupado com as relações entre seu objeto de estudo tradicional (a linguagem) e a práica social3, fazendo surgir, a parir das úlimas décadas do século 20, um novo peril de cienista da linguagem conectado com o social. A parir daí, foi aberto o caminho para uma Linguís- ica que passa a aproveitar as ciências sociais para relacionar os estudos da linguagem com propostas emancipatórias. Segundo Resende e Ramalho:
Para analistas de discurso, somente o conceito funcionalista de discurso é aplicável, uma vez que o foco de interesse não é apenas a interioridade dos sistemas linguísi- cos, mas sobretudo, a invesigação de como esses sistemas funcionam na represen- tação de eventos, na construção de relações sociais, na estruturação, reairmação e contestação de hegemonias no discurso (2013, p. 13).
Para tanto, a ACD é considerada uma abordagem linguisicamente orientada de pesquisa “sobre, para e com os sujeitos” (Alencar, 2005, p. 57), desinada a “aumentar a consciência de como a linguagem contribuiu para a dominação de algumas pessoas sobre outras, entendendo a tomada de consciência como primeiro passo para a emancipação dos indivíduos” (Fairclough, 1989, p. 1) e a ter um efeito nas práicas e nas relações sociais.
A vertente da ACD desenvolvida por Fairclough é a Teoria Social do Discurso (TSD), a qual se baseia no entendimento do papel da linguagem como elemento consituivo das práicas sociais, valorizando a importância da análise linguísica como um método para invesigar mudanças sociais. Para a TSD, transformações no uso da linguagem são um elemento importante de transformações sociais e cultu- rais mais amplas, as quais, evidentemente, não se resumem a mudanças na linguagem, mas são, até certo ponto, consituídas, operadas e consolidadas por usos linguísicos.
Determinadas transformações linguísicas podem ser niidamente traduzidas por um objeivo de con- trolar o discurso4, alterando-o como “parte de uma engenharia de transformações sociais e culturais” (Fairclough, 1992, p. 8). Dois exemplos dessa engenharia, em nível discursivo, seriam o emprego do verbo ‘optar’ na imprensa para falar de ‘opção pela cesárea’ abordado no Capítulo 3 e o surgimento da expressão ‘parto cesáreo’ que abordaremos no Capítulo 4.
3 As práicas sociais são os “modos habituais, em tempos e espaços determinados, pelos quais as pessoas aplicam recursos – materiais ou simbólicos – para agirem conjuntamente no mundo” (Chouliaraki & Fair- clough, 199, p. 21).
4 ‘Discurso’ é usado de forma geral para linguagem (bem como, por exemplo, para imagens visuais) como um elemento da vida social que está dialeicamente relacionado a outros elementos. ‘Discurso’ também é usa- do de forma mais especíica: diferentes discursos são diferentes modos de representar o mundo. (Fairclou- gh, 2003, p. 215) “Os discursos podem, eles próprios, serem considerados combinações de outros discursos ariculados de determinados modos. É assim que surgem novos discursos – pela combinação de discursos existentes de determinados modos. [...] O novo é gerado a parir de uma nova ariculação do anigo” (Fair- clough, 2003, p. 127).
Ao propor que a língua é uma forma de práica social, e não apenas uma aividade individual ou um re- lexo de variáveis situacionais, Fairclough (1992, p. 63) considera 1) que o discurso é um modo de ação. Um modo de os indivíduos atuarem no mundo e, principalmente, atuarem uns sobre os outros, bem como um modo de representação; e 2) que há uma relação dialéica entre discurso e estruturas sociais, sendo essas úlimas uma condição e um efeito do primeiro. Nesse senido, o discurso seria moldado e restringido pelas estruturas sociais.
Na ACD, o discurso possui três dimensões (Fairclough, 1992 e 2003):
1) textual – (text) a parir da qual se faz uma análise linguísica do texto5, tendo o texto as caracterísicas de representar a realidade, estabelecer relações sociais e estabele- cer idenidades.
2) práica discursiva (discursive pracice) – faz a mediação entre as demais dimensões e ocupa-se dos processos sociocogniivos de produção, distribuição e consumo do texto (interpretação), ou seja, quais os discursos6 acionados e como diversos discursos são combinados nos diversos processos sociais relacionados (econômico, políico, insitu- cional etc.).
3) práica social (social pracice) – ocupa-se de questões relacionadas à análise social, tais como as circunstâncias insitucionais e organizacionais do evento discursivo e como elas moldam a práica discursiva e os efeitos consituivos/construivos do discurso.
Dentro da primeira dimensão, a textual, haveria três ipos de senido para ins de análise do texto: de ação, de representação e de ideniicação. O primeiro estaria relacionado aos senidos do texto como parte da ação na sociedade. O senido de representação ocupa-se da representação do mundo nos textos. O senido de ideniicação, da construção das idenidades. Foi vislumbrando essa dimensão que elaboramos as perguntas de pesquisa com o objeivo de invesigar a construção textual das idenida- des dos relatos de parto e a representação da experiência do nascimento. Como parte dessa análise, poderiam ser invesigados os papeis dos atores sociais no evento discursivo em associação com as práicas sociais; a simetria ou assimetria dos diálogos entre os envolvidos; o uso dos pronomes ‘eu’ e ‘nós’ para invesigar questões relacionadas à individualidade ou coleividade etc.
Em termos da segunda dimensão, a da práica discursiva dos relatos de parto normal após cesárea, sa- lientamos que seu processo de produção é, em geral, individual e decorre de uma experiência anterior que compele a produtora do texto a comparilhar sua experiência de parto, pois, na dinâmica de pro- dução/distribuição/consumo dos relatos, os sujeitos podem se engajar em um ou mais desses proces- sos em tempos diferentes. Apesar de a produção ser individual, a autora de um relato de parto já foi/ coninua sendo/pode voltar a ser desinatária de outros relatos de parto. A distribuição dos relatos é reduzida se comparada à das noícias sobre o nascimento dos ilhos de pessoas famosas, por exemplo.
5 “‘Texto’ entendido como uma das dimensões do discurso, isto é, o produto escrito ou falado do processo de produção textual” (Fairclough, 1992, p. 3).
6 “‘Discursos’, no plural, corresponde a determinada classe de ipos ou convenções de um discurso” (e.g. discurso da medicina, discurso aivista).
Relatos de parto são distribuídos oralmente, em encontros de gestantes e grupos de apoios e, na forma escrita, por meio de blogs ou sites relacionados ao movimento pelo parto humanizado.
Na dimensão da práica social, poderíamos analisar os relatos de parto (texto) dentro do seio do movi- mento aivista pelo parto humanizado (práica social/discurso), que molda uma práica discursiva que é marcada por diversos recursos ípicos para sua construção (e.g. escolhas lexicais, discurso baseado em evidências) e por diversos textos (e.g. depoimento, entrevista, reportagem, relato de parto). As possibilidades e/ou efeitos do texto (i.e. evento discursivo), segundo a TSD, dependem dos elementos da práica social.
Ao produzir e fazer a sua práica, as pessoas, em regra, não têm consciência das estruturas sociais, re- lações de poder, e da natureza da práica social na qual estão engajadas e cujos interesses extrapolam o de produzir signiicados (Fairclough, 1992, p. 69). Fairclough vai além ao airmar que os processos usados pelos membros da comunidade discursiva são heterogêneos e contraditórios, e contestados em lutas que possuem uma natureza, em parte, discursiva (1992, p. 73). Realizar a ACD nos termos de Fairclough (2003) signiica promover um diálogo constante entre a invesigação dos traços linguísicos e a relexão sobre a práica social em que esses traços são concreizados. Trata-se, portanto, de uma abordagem social linguisicamente orientada.
As três dimensões do discurso destacadas acima faz da ACD um método para análise mulidimensional do discurso em suas três faces: como texto (evento discursivo), como práica discursiva (enfoque na intertextualidade) e como práica social (enfoque em ideologia e hegemonia). As categorias de análise que atendem o modelo mulidimensional de Fairclough (1992) são: a análise textual, análise da práica discursiva e análise da práica social.
A análise textual pode ser organizada sob quatro ítulos: vocabulário, com enfoque nas palavras; gra- máica, com enfoque nas combinações de palavras em orações ou períodos; coesão que aborda como orações ou períodos estão ligados entre si e se relacionam, o uso de vocabulário de um mesmo campo semânico, a repeição lexical, o uso de sinônimos, omissões, conjunções etc.; e estrutura textual, com enfoque nas propriedades organizacionais dos textos. Na análise textual, o pesquisador está sempre abordando questões de forma e de senido, isto é, a análise é de ‘signos’. Ao contrário de Saussure que considerava que a relação entre signiicante e signiicado era arbitrária, Fairclough a considera socialmente moivada ou seja “há razões sociais para se combinar determinados signiicantes com determinados signiicados”(1992, p. 75). Além disso, a ACD considerada que a ideologia está também localizada nos “signos criados no processo de interação social” (Resende & Ramalho, 2013, p.16). Na análise da práica discursiva, os ítulos seriam: produção, distribuição, consumo, contexto situacio- nal, força dos enunciados (e.g. ameaças, promessas, pedidos), coerência dos textos e intertextualidade dos textos.
Na análise da dimensão da práica social, os ítulos dados por Fairclough (1989 e 1992) seriam: a ideologia, que poderia ser abordada do ponto de vista dos senidos, pressuposições e metáforas; e a hegemonia, que envolveria a análise sob orientações econômicas, políicas, culturais, ideológicas etc. Por exemplo, ao optar por parir da análise do ‘vocabulário’, dentre alguns focos de análise (Fairclough, 1992) estariam:
1) reformulação lexical (alternaive wording) – certos domínios são reformulados lexical- mente como resultado de lutas políicas e sociais (e.g. favela v. comunidade).
2) signiicado das palavras (word meaning) – como acepções de palavras entram em cho- que no contexto de lutas sociais (e.g. parto v. cirurgia)
3) metáforas – conlito entre metáforas consagradas (e.g. tudo que é diícil e demorado é um parto) e novas metáforas (e.g. parto como conquista) em batalhas discursivas. A parir dos exemplos acima, observa-se como a análise das palavras do texto, não está desvinculada da análise da práica discursiva ou da práica social, demonstrando como a divisão dimensional é me- ramente teórica, pois cada dimensão está conida e/ou é parte integrante da outra.
Para concluir a apresentação da ACD como um dos pilares do recorte teórico-metodológico desta pes- quisa, a seguir tocaremos alguns conceitos de fundamental importância para TSD, pois sendo uma abordagem social, a ACD operacionaliza e transforma, de maneira transdisciplinar, diversas teorias e conceitos. Neste item, destacamos alguns conceitos que Fairclough (1992) chama para sua análise sociodiscursiva e que desempenham um importante papel neste estudo: intertextualidade e interdis- cursividade, ideologia, hegemonia e modernidade.
Intertextualidade
A noção de intertextualidade desenvolvida por Bakhin é considerada um dos ítulos da análise da prá- ica discursiva e permeia a TSD de Fairclough. A intertextualidade é “basicamente a propriedade de os textos serem repletos de parículas de outros textos, as quais podem estar explicitadas ou fusionadas com ele, e as quais o texto pode assimilar, contradizer, ecoar ironicamente, etc” (Fairclough, 1992, p. 84). A intertextualidade pressupõe uma cadeia dialógica de textos que consituem o texto sendo produzido/distribuído/interpretado.
Do ponto de vista da ‘produção’, a intertextualidade pode ser analisada com o intuito de abordar os textos trazidos àquele texto pelo autor ou recuperados por ele. Do ponto da ‘distribuição’, uma pers- peciva intertextual poderia contribuir para explorar as transformações pelas quais um texto passa. Por exemplo, a passagem de relatos de parto orais para relatos escritos e divulgados na internet. Já do ponto de vista do ‘consumo’ do texto, uma análise sob a perspeciva da intertextualidade implica consi- derar que para a interpretação de um texto, cada leitor traz consigo diferentes outros textos e também deixa de reconhecer tantos outros textos reconhecidos e traduzidos por outros leitores. Portanto, até textos que não aparentam ser dialógicos estariam inseridos em uma cadeia dialógica:
Não é apenas ‘o texto’, não apenas os textos que consituem o texto intertextualmen- te que moldam a interpretação, mas também todos os demais textos que cada leitor traz consigo para o processo de interpretação. (Fairclough, 1992, p. 85).
Fairclough (1992, pp. 85, 104) adota o termo ‘intertextualidade manifesta’ quando outros textos são abertamente recuperados em outro texto, ou seja, o texto faz referência explícita a outros textos, seja de forma marcada ou por meio de indicações (cues) na superície do texto. Já a ‘intertextualidade cons-
ituiva’ ou ‘interdiscursividade’ amplia a intertextualidade na direção das ordens de discurso7. Trata-se da coniguração de convenções do discurso que fazem parte do texto.
No que tange a intertextualidade manifesta, Fairclough (1992, pp. 118 e ss) destaca 5 de seus aspectos e os seguintes objeivos:
1) Representação do discurso (discourse representaion) – pode ocorrer no modo de discurso direto e indireto. Ao representar um discurso, o representante elege o modo. Representar um sujeito em discurso direto pode corresponder a procurar reproduzir ‘exatamente’ o que aquele sujeito disse. O que é representado não é apenas a fala e/ou escrita, mas também uma organização discursiva e diversos outros aspectos do evento discursivo, tais como suas circunstâncias, tom etc.
2) Presunções (pressuposiions) – são presunções consideradas estabelecidas ou ‘dadas’ pelo produtor do texto. Estabelecidas ou dadas não com base, necessariamente, em um texto determinado, mas com base na opinião geral (ou ‘senso comum’). Nos rela- tos de parto normal após cesárea, por exemplo, na maioria dos casos, a ‘opinião geral’ das narradoras brasileiras e americanas é a de que a cesárea anterior foi desnecessá- ria. O termo ‘unnecesarean’ traz consigo essa presunção.
3) Negaiva (negaion) – os períodos negaivos são frequentemente usados com objei- vos polêmicos, carregam presunções especíicas que incorporam outros textos para rejeitá-los e contestá-los.
4) Metadiscurso (metadiscourse) – ocorre quando o produtor do texto faz uma disin- ção de níveis dentro de seu próprio texto com o intuito de se distanciar, como se não fosse o autor, mas terceiro alheio. O metadiscurso pode ser aingido pelo emprego de expressões como: sort of, as x might have put it, in scieniic terms, metaphorically speaking, in negaive terms. Por meio do metadiscurso o produtor se distancia do dis- curso e, com isso, assume uma posição de poder para controlá-lo ou manipulá-lo. 5) Ironia (irony) – A ironia serve para ecoar a fala de outrem. Na intertextualidade, a
ironia exige que o intérprete/leitor seja capaz de reconhecer que se trata do senido ecoado a parir de outro texto e não se trata da voz do produtor do texto.
Por im, a intertextualidade traz à tona as lutas ideológicas, as lutas pela hegemonia que têm lugar em um determinado discurso, pois é por meio dela que são incorporadas relações complexas como as con- venções (de gênero, discurso, esilo, aividade etc), que são estruturadas para formar uma ordem de discurso. Fairclough (1992, p. 103) destaca a relação entre intertextualidade e ideologias/hegemonia já que textos são mecanismos de conirmação ou transformação social e, portanto, de relações de poder. Nos próximos itens, examinaremos as noções de hegemonia e ideologia dentro da ACD.
7 Uma ‘ordem do discurso’ é resultado das combinações entre esilo, gênero e discurso, ou seja, das diferen- tes maneiras de se construir o senido. Uma ordem do discurso é hegemônica quando sustenta relações de dominação. Porém, como hegemonias nunca são absolutas e sempre são contestadas, em maior ou menor grau, as ordens de discurso são sistemas abertos constantemente colocados à prova (e.g. ordem do discur- so médico-intervencionista V. ordem do discurso da atenção humanizada).
Ideologia
O terceiro elemento da abordagem tridimensional de Fairclough, discurso como práica social, relacio- na o discurso a ideologia e poder sendo, as ideologias as:
representações de aspetos do mundo que contribuem para estabelecer e manter re- lações de poder, dominação e exploração. [As ideologias] podem ser realizadas nas formas de interação (nos gêneros) e inculcadas em modos de ser ou idenidades (nos esilos)8 (2003, p. 218)
Ariculando o pensamento foucauliano, Fairclough (1992, p. 87) enfaiza que a ideologia existe em todas as insituições, consequentemente é possível invesigar práicas discursivas como formas de ideologia. Ao longo da vida social, as ideologias interpelam sujeitos e, portanto, os consituem, sendo os mecanismos ideológicos (e.g. discurso, educação, mídia), palco e objeto de interesses na luta pelo poder e, consequentemente, na luta no e pelo discurso. É nesse senido que a ACD é considerada uma análise do discurso orientada ideologicamente9.
As ideologias incorporadas/sedimentadas (embedded) nas práicas discursivas são mais eicazes para o poder hegemônico quando se tornam ‘naturalizadas’ e alcançam o status de ‘senso comum’ (e.g. Parto normal, pra mim, é cesárea.). A ‘naturalização’ de ideologias não é um fenômeno tão óbvio e:
Não se deve presumir que as pessoas tenham consciência das dimensões ideológicas de sua própria práica. Ideologias incorporadas a convenções podem estar mais ou menos naturalizadas e automaizadas, [fazendo com que] as pessoas tenham diicul- dade em compreender que suas práicas habituais estariam invesidas de elementos ideológicos10. (Fairclough, 1992: 91)
Segundo o pensamento gramsciano operacionalizado pela ACD, as insituições usam estratégias dis- cursivas para alcançar um suposto ‘consenso’ e construir o poder, não a parir da força, mas a parir do ‘adestramento’ dos indivíduos, pois quanto menos visível, mas eicaz a ação ideológica. Na luta pela hegemonia, a ideologia é orientada para a naturalização (hegemonia) ou desnaturalização (contrahe- gemonia). A desnaturalização relete o fato de estarem as ideologias sempre sujeitas a transformação por mais estabelecidas que estejam, já a naturalização é promovida pelo consenso e a invisibilidade, que nos conduzem ao tópico seguinte: a hegemonia.
8 Ideologies are representaions of aspects of the world which contribute to establishing and maintaining
relaions of power, dominaion and exploitaion. They may be enacted in ways of interacing (and therefore